Mostrar mensagens com a etiqueta Guy Debord. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guy Debord. Mostrar todas as mensagens

domingo, novembro 16, 2025

«In girum imus nocte et consumimur igni», Guy Debord

 

Antígona, 2022. Tradução de Júlio Henriques

Edição sobre o filme homónimo de Guy Debord, é composta por uma introdução de Alice Becker-Ho, que aqui assina como Alice Debord, e seguida de uma nota crítica do autor, em Dezembro de 1977, que se debruça sobre as condições da sua época que despreza absolutamente. Para além da ficha técnica do filme de 1978, «in girum imus nocte et consumimur igni» (1) conta, igualmente, com instruções para a sonoplastia e montagem, assim como «Notas sobre a utilização dos filmes roubados» e uma «Lista das citações ou dos desvios no texto do filme ''in girum...''». Finaliza com um provocador e belíssimo texto de Debord e Gil Wolman «Modo de usar o desvio» publicado em  «Les Lèvres nues», nº8, escrito em Maio de 1956.

Avesso a toda a interpretação do seu pensamento teórico, Guy Debord não deixou de exprimir a sua revolta pelo sistema capitalista e da burocracia estalinista. Para ele, é suficientemente claro o que deixou escrito, plasmado na circunstância do tempo vivido por uma população alienada num espectáculo em que a produção e consumo infinitas de mercadorias é parte integrante dessa mesma alienação. O início do filme é disso um exemplo.

Este livro, traduzido, com rigor, por Júlio Henriques, não é só um guião do filme com o mesmo nome que pode ser acompanhado gratuitamente no YouTube (In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni (1978)) e sem qualquer anunciante a atrapalhar o seu visionamento, o que não deixa de ser irónico. É mais que um guião: são considerações importantes sobre o estado das coisas nos finais dos anos 70, já com a Internacional Situacionista, que ele fundou em 1956, dissolvida em 72. Aí, Guy Debord afirma:

«Mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo, e ter-me-ia irritado possuir outros méritos aos olhos de uma tal sociedade. Mas, segundo observei, foi ainda no cinema que provoquei a mais perfeita e a mais unânime indignação. Essa aversão foi mesmo levada ao ponto de me pilharem no cinema com muito menos frequência do que no resto, pelo menos até agora. A minha própria existência no cinema continua a ser uma hipótese que em geral é refutada. Vejo-me, pois, colocado acima de todas as leis do género. Por isso, como dizia Swift, ''não é para mim parco contento apresentar uma obra em tudo superior a qualquer crítica''.» Eis uma boa razão para não perder o filme ou os outros que estão à nossa disposição, embora vistos numa sala escurecida seja bem diferente que a luz difusa das casas. 

Não imagino um Debord nostálgico, muito longe disso, mas não deixa de ser motivo de atenção as observações que faz a uma Paris que foi destruída pelo urbanismo contemporâneo (palavra esta que chama todos os insultos a Debord) ou de uma Florença que ele amou, mas que o impediram de viver por supostas ligações às BV italianas, o que é, de todo, impossível no autor. Bastava para isso ler, mesmo em diagonal como é apanágio dos procuradores, as suas teses. Uma metáfora certeira para as cidades hoje destruídas pelo urbanismo oficial e pela gentrificação. Existe igualmente inscrita nesta obra a publicação referida atrás, de 1956, que vale a pena ler e que versa sobre um tema particularmente interessante nos situacionistas: a noção de «desvio», em francês «dètournement», em todos os campos da actividade humana e, principalmente, no que se chama de «cultura». Trata-se, simplificando, do que se pode chamar de «colagens» de obras ou frases que descontextualizando-as, serão utilizadas em novos contextos criados por quem faz, propositadamente, esse desvio. Para isso, já em 1956, Debord e Wolman, criam uma classificação e um «modo de usar o desvio» precocemente utilizado por Lautrèamont em «Cantos de Maldoror»: 

«(...) Tudo pode servir. É óbvio que podemos não só corrigir uma obra ou integrar diversos fragmentos de obras caducas numa obra nova, mas também mudar o sentido destes fragmentos e alterar, de todas as formas que se julguem adequadas, aquilo que os imbecis se obstinam a chamar citações.» (pág.73)

«Uma palavra de ordem como ''o plágio é necessário, o progresso implica-o'' é ainda tão mal compreendida, e pelas mesmas razões, como a frase famosa sobre a poesia que ''deve ser feita por todos''.» (pág.74)

«A barateza [do desvio] dos seus produtos é a artilharia pesada com a qual se abatem todas as muralhas da China da inteligência. Estamos perante um meio efectivo de ensino artístico proletário, o primeiro esboço de um comunismo literário.» (pág.77)
__
(1). Se repararem trata-se de um palíndromo, ou seja, pode ler-se da normalmente da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda. Traduz-se por «Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo».

alc

terça-feira, junho 24, 2025

«Panegírico», Guy Debord

 

Antígona, 1993. Tradução de Júlio Henriques
Um ano após esta edição da Antígona, Guy Debord suicida-se numa casa de campo de Auvergne já afastada da «sua» Paris, segundo ele, e creio que por todos nós, em ruínas amontoadas pelo lucro, pela urbanização precursora de uma alienação sem limites, pela gentrificação contemporânea que ele não veio a conhecer nesta dimensão tão brutal como ela é hoje e que é observada por todas as cidades europeias. 
De qualquer modo, Guy Debord continua irrecuperável pelos media. Este «Panegírico» é de consultar de tempos a tempos, para entender de como é feita essa impossibilidade, baseada no desprezo profundo por uma sociedade que o não soube ser, recusando a felicidade e a deriva da liberdade total. Neste momento, em que as soluções fascistas repugnantes andam de braço dado com a especulação do lucro sobre os nossos corpos, promovida pelos estados e tornando-nos mercadorias para venda e troca, ainda há quem abrace, com denodo incontido, o estado a que se chegou. Um panegírico é livre de toda a crítica ou censura como nos lembra Debord. É ele mesmo, sem quaisquer laivos de interpretação.

«Aqueles que a respeito de nada querem escrever depressa o que ninguém lerá uma só vez até ao fim, nos jornais ou nos livros, gabam com grande convicção o estilo da linguagem falada, por o acharem muito mais moderno, directo, fácil. Mas eles próprios não sabem falar. Os seus leitores tão-pouco, visto a linguagem efectivamente falada nas modernas condições de vida ter socialmente chegado a um resumo da sua representação, eleita em segundo grau pelo sufrágio mediático; somada, dará umas seis ou oito maneiras de falar, incessantemente repetidas, e menos de duas centenas de vocábulos, nestes incluindo uma maioria de neologismos; vendo-se a terça parte deste conjunto sujeita a renovação de seis em seis meses. Tudo isso favorece um certo rápido liame. Por meu lado, e pelo contrário, vou escrever sem afectação e sem canseira, como a coisa mais natural e mais fácil do mundo, a língua que aprendi e na maioria das circunstâncias sempre falei. Não sou eu que tenho de a modificar. Os Ciganos consideram com razão que só podemos dizer a verdade na nossa própria língua; na do inimigo deverá reinar sempre a mentira. Outra vantagem: tendo como referência o vasto corpus dos textos clássicos publicados em francês ao longo dos cinco séculos anteriores ao meu nascimento, mas sobretudo nos dois últimos, será sempre fácil traduzirem-me convenientemente em qualquer idioma do futuro, mesmo quando o francês já for língua morta.» (pág.17/18)

«(...) Todas as revoluções penetram na história, e nem por isso a história está pejada delas; os rios das revoluções voltam aonde começaram, para de novo fluírem.» (pág.32)

«(...) Quando ''ser absolutamente moderno'' se tornou uma lei especial proclamada pelo tirano, aquilo que o honesto escravo acima de tudo receia é que o possam suspeitar de passadista.» (pág.75)

Infelizmente, o aumento de escravos honestos nas sociedades modernas é directamente proporcional ao número das tiranias que surgem por todo o mundo. Sobre a escravidão moderna citarei Agamben que sobre Debord afirmou: «Os livros de Debord constituem a análise mais lúcida e severa das misérias e escravidões de uma sociedade - a do espectáculo, em que vivemos - que nos nossos dias estendeu o seu domínio a todo o planeta. Como tais, os seus livros não precisam de ser esclarecidos nem elogiados, e ainda menos necessitam de um prefácio.» (Da badana do livro).

alc

quarta-feira, maio 28, 2025

«Esta Má Fama...», Guy Debord

 

Letra Livre, 2014. Tradução e notas de Júlio Henriques
Talvez um dos mais atacados e vilipendiados membros da Internacional Situacionista, de certeza aquele que mais sofreu na pele as invenções e maquinações que o poder de Estado francês (e não só) exerceu sobre uma pessoa. Guy Debord esteve a pontos de ser detido por assassínio do seu editor Gèrard Lebovici - uma outra história que um dia valerá a pena contar aqui - e isto tudo com a complacência, se não mesmo cumplicidade do poder mediático, da direita, obviamente, e de uma certa esquerda estatista que perdeu totalmente a vergonha perante a ignomínia do que disseram sobre ele: ''agente secreto ao serviço de interesses inconfessáveis, talvez americano ou talvez «soviético», avençado por um cunhado antiquário de Hong Kong, excepcionalmente rico que induziu estrategicamente o poder político a reforçar o seu poder, um homem que organizou as maiores violências do Maio de 68 incluindo as pichagens mais criativas (talvez haja alguma verdade, mas seria muito para um homem só), estalinista, nazi, um profeta ferido na sua deriva utópica, um tipo de gostos requintados comparando-o ao Cardeal de Retz de quem imitava a escrita''. 

Acredito que é necessária muita imaginação para o insulto e a ofensa e para inventar factos totalmente falsos como este pequeno livro demonstra em defesa do próprio. E assim numas meras 96 páginas ficamos cientes do papel vergonhoso a que se prestaram aqueles que, não lendo, como é fácil de observar, «A Sociedade do Espectáculo» ou, mais tarde, os seus «Comentários...» atacaram o homem, não sem saírem completamente ridicularizados na desmontagem dessa tentativa por Guy Debord. Estão lá todos os nomes. 

«(...) Nunca detestei os ricos pelo simples motivo de o poderem ser. Bastava-lhes saberem-se comportar com tacto suficiente; e com bastante estilo. Não teria eu sido muito mais censurável se a riqueza deste ou daquele indivíduo tivesse parecido impressionar-me? se lhe tivesse dado a pensar que podia influenciar-me por causa desse único detalhe? Ou que podia simplesmente falar comigo num tom mais alto? Creio que eles viram que não. Seja como for, nunca pensei de outra maneira, e agi em consequência como devia. Nunca fui rico; e também nunca tive de reconhecer-me como alguém necessariamente pobre. Nunca nada estava garantido. ''O tempo dos gonzos'', para o dizer em termos shakespearianos, e desta vez era verdadeiramente por toda a parte: na sociedade, na arte, na economia, na própria maneira de pensar e de sentir a vida. Já nada tinha medida. Acima de tudo, fui alguém desses tempos, mas sem partilhar as suas ilusões. Gabo-me de ter sobretudo raciocinado segundo o princípio que diz: ''A cavalo dado, não se olha o dente.'' Pratiquei o potlach com grandeza bastante para me não inquietarem algumas delicadezas excessivas.» (pág.58)

Sendo mais avisado ler os livros teóricos de Debord sobre a sua análise do mundo que há-de vir, deixo-vos este pequeno extracto extremamente visionário, escrito em 1993:

««(...) Por todo o lado, a especulação, para concluir, tornou-se a parte soberana de toda a propriedade. Autogoverna-se mais ou menos, segundo as preponderâncias locais, à volta das bolsas, dos estados ou das máfias, federando-se todos numa espécie de democracia das elites da especulação. O resto é miséria. Por toda a parte o excesso de simulacro explodiu como Chernobil, e por toda a parte a morte se espalhou tão depressa e tão maciçamente como a desordem. Já nada funciona, e já não se acredita em nada.» (pág.80)

Debord, doente, suicida-se um ano depois destas palavras premonitórias ainda os Calígulas e os Neros contemporâneos não tinham chegado ao poder e a mentira instalar-se em «toda a parte».


alc

domingo, agosto 27, 2023

Guy Debord. BD de Jochen Gerner


No número 458 de "Le Un Hebdo", de Agosto de 2023, encontramos uma BD de Jochen Gerner sobre a vida de Guy Debord num número a todo ele dedicado.