segunda-feira, novembro 24, 2025
"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi
quinta-feira, maio 08, 2025
«Kairos», Jenny Erpenbeck
quinta-feira, março 13, 2025
«O Futuro é o Mal», Heiner Müller
quarta-feira, agosto 28, 2024
«O Passo da Floresta», de Ernst Jünger
segunda-feira, setembro 11, 2023
«Auto-de-Fé», Elias Canetti
domingo, julho 16, 2023
«Berlim Alexander-Platz», Alfred Döblin
António Luís Catarino
terça-feira, junho 27, 2023
«Alemanha Ensanguentada», Aquilino Ribeiro
sábado, novembro 05, 2022
«Arte em Fluxo», de Boris Groys
quarta-feira, abril 27, 2022
A Honra Perdida de Katharina Blum - Heinrich Boll
terça-feira, dezembro 22, 2020
«A Ladra da Fruta», de Peter Handke
Já me tem acontecido na leitura de um livro, mas as primeiras palavras desta ficha de leitura vão, directas, para o trabalho de Helena Topa nesta tradução de «A Ladra da Fruta», de Peter Handke. É um trabalho excepcional e não queria (nem poderia) estar na sua pele a traduzir do alemão palavras, expressões, referências literárias inesperadas mas ganhando todo o sentido ao serem explicadas no final do livro por Helena Topa. Palavras e frases que o próprio Handke afirma, no decorrer da história, serem intraduzíveis alternando com expressões em alemão (a certa altura até faz um elogio à sua língua que, cá por mim, até corroboraria se não fossem as palavras de 23 letras!), francês e espanhol. Nada que não se esperasse de um livro da Relógio d'Água, mas este trabalho de tradução é mesmo de registar.
Quanto ao livro em si, lê-se de um fôlego. Não tendo capítulos ou espaços em branco para respirarmos, a cadência que nos transmite faz a leitura discorrer sem grandes problemas de fadiga. O facto estará, creio, no acompanhamento que queremos fazer com Alexia, mais tarde também com Valter, cuja viagem em espiral dura três dias. O motivo aparente, se é que é necessário um motivo, é uma caminhada pelas estradas, bosques, rios, na Picardia francesa em busca da mãe e de um irmão que não vê há muito. Alexia é siberiana e viaja em diversas situações quase surrealistas se não tivéssemos a certeza que a realidade ultrapassa em muito a ficção, tornando a deriva de Alexia verosímil.
Utilizei o termo «deriva» porque é mesmo o que acontece nesta viagem. Se isto não é uma deriva, então o que é a busca de Alexia? Se atentarmos em Thomas de Quincey que afirmava em «Confissões de um Opiómano inglês» que Londres era uma cidade onde existiam quadrículas desconhecidas ou mapas não registados oficialmente pela polícia, onde se errava em liberdade e perigosamente, então temos uma Alexia em deriva constante. Se quisermos até chamar a psicogeografia, teremos igualmente uma Alexia em busca permanente de uma identidade e de um lugar onde se identifique com ela própria. Por isso move-se em espiral, como nos informa Handke. Porque se encontra com lugares, pessoas e animais que lhe dizem quem é, mas que ela abandona de seguida - em espiral, para nunca se repetir o encontro, tal como a História, em Mircea Eliade. Esta nunca se repete se bem que os lugares-comuns, muitos deles assinalados pelo autor na obra, o repitam até ao enjoo. Não, a História não se repete. Toca-se em espiral, num movimento helicoidal, como as molas dos nossos automóveis.
E, se para esta obra excepcional, fosse necessário mostrar um epílogo, de tantos que tem, visto que a deriva de Alexia, tal como qualquer deriva, não tem fim, eu escolheria este discurso do pai:« «Nós, os que não temos Estado, aqui e hoje livres do Estado, inatingíveis pelo Estado. Tudo se converteu em seitas, Estados e Igrejas e...e...E nós? Fugitivos do tempo, heróis da fuga. Nós, que não temos um papel, enquanto os homens do Estado continuam, imperturbáveis, nos seus papéis. Nós, os eternos destemidos cheios de temor. Os eternos hesitantes e procrastinadores. Os que escolhemos os desvios. Os que andamos em círculos e espirais. Os-que-olhamos-por-cima-do-ombro para o vazio. Os herdeiros da culpa. Os amantes do amargo. Nós, os prestáveis, dinastia de serviçais, nobreza hereditária de obsequiosos. Nós, os rotos, marquesas e condes hereditários ''von Roto''. Nós, as figuras marginais! (Exclamação: «Viva o roto! Vivam as figuras marginais!») «Nós, os ilegais e os desesperados. Que temos, contudo, uma lei. Nós, os lutadores de causas perdidas.» (Exclamação: «Vida longa aos que lutam por causas perdidas!»).»»
Sois dados a serem prestáveis, pertencerem a uma dinastia de serviçais ou, ainda, eternos obsequiosos? Então não leiam este livro. Mas sereis agradavelmente surpreendidos se forem permanentes lutadores de causas perdidas.
António Luís Catarino.
22 de Dezembro de 2020
quinta-feira, agosto 27, 2020
«O Ouriço e a Raposa», de Isaiah Berlin

Era uma vez um ouriço e uma raposa... este ensaio de Isaiah
Berlin poderia iniciar-se assim mesmo, que não levaríamos a mal. Poderia tomar
a forma de uma fábula, mas não é disso que se trata. É uma adaptação de versos
de Arquíloco quando este afirma «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe
uma coisa muito importante.» Quereis ser raposa ou ouriço? Aqueles que veem o
mundo através de um princípio organizador único serão um ouriço. Raposas serão
os que interpretam o mundo através de várias pontas e vários prismas. I.B. dá
então um exemplo: como raposas estão inseridos Dante, Heródoto, Aristóteles,
Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce; ouriços, embora em
graus diferentes, são Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche,
Ibsen e Proust.
Para um liberal como Isaiah Berlin esta preocupação de
catalogar personalidades tão ricas, de ambos os lados, não deixa de nos espantar
e mesmo preocupar, pensando nós que esta necessidade de compartimentação
intelectual, não se sabe bem porquê, pertenceria eventualmente à esquerda,
traduzida do «gauche» francês por
canhestro, desajeitado, do italiano «sinistra», belíssimo termo que nos
transporta a uma entidade suspeita de muitos males e a portuguesa «esquerda»,
esquerda que, até meados do século XX, ainda era conotada com o diabo, razão
pela qual os canhotos eram obrigados na escola a corrigirem, por vezes à pancada,
a mania estúpida de escrever sem ser com a mão direita! E, já agora, Lenine para quem o
esquerdismo era uma doença infantil do comunismo, tipo sarampo ou escarlatina.
Mais nos admiramos com a prelecção de Berlin, considerada
pelo The Guardian como o 28º melhor ensaio de todos os tempos (nada meigos!),
quando este se debruça sobre o «Guerra e Paz» de Tolstói e sobre o autor,
ele-mesmo. Tolstói não figura, se repararem naqueles rótulos, como raposa ou
ouriço. Isaiah Berlin coloca-o num limbo afirmando que Tolstói era um ouriço
que queria ser raposa, devido à sua visão unitária do mundo, mas com dúvidas
imensas que o levavam a analisar tudo sob várias perspectivas. Até se
compreende mas, ao afirmar que Stendhal era a «dívida» de toda a obra de
Tolstói o que ele teria corroborado numa entrevista, porque não o colocou
aquele como raposa? Mas a surpresa maior é que esta alocução, que teve vários
títulos diferentes, críticas a rodos e contrariedades várias, e que nos
apercebemos nesta edição, tem o sub-título de «Ensaio sobre a visão da História
de Tolstói» e aqui, com a devida proporção, surgem tantas dúvidas quantas as
que teve Tolstói durante toda a sua vida! Como se pode afirmar o positivismo de
Tolstói no epílogo de «Guerra e Paz» que, como nos lembramos, é dedicada às
questões históricas? Ora, como sabemos, o positivismo trouxe consigo algumas
correcções necessárias às Ciências Humanas, mas limitou-se, em História, a uma
descrição interminável de factos e acontecimentos datados, que teriam como
protagonistas actores de vulto fossem eles somente reis, presidentes, ministros
ou cabos de guerra. Quando lemos o epílogo da obra de Tolstói reparamos que
nada disto é seguido optando este por descrever a História como uma sucessão de
factos em que os agentes políticos ou militares nada mudam, nunca transformam
nada de facto, julgando-se, ao mesmo tempo, donos do devir do mundo. Tolstói
apresenta-nos a sucessão de acontecimentos históricos como sendo originados por
forças ocultas, telúricas, criadas por uma mole imensa de vontades estranhas e
que se conjugam aqui e ali numa forte torrente. Chega a desdenhar os grandes
vultos do seu tempo, como Kotuzov, Napoleão, Alexandre, Catarina ou os
Habsburgos que julgam poder mudar alguma coisa. Portanto, Tolstói positivista?
Há, contudo, outras afirmações que não são menos polémicas
por parte de Isaiah Berlin. Já sabemos que ele era um liberal adverso de todos
os totalitarismos. Se pensarmos que este ensaio foi escrito em 1953, oito anos
após o derrube do nazi-fascismo em que os sentimentos antifascistas estavam
muito vivos (mais do que hoje, diga-se), compreende-se que se possam ver
teorias fascistas de um modo exacerbado, mas Tolstói precursor do fascismo indo
buscar a Proudhon e a De Maistre as suas ideias não será um pouco demasiado?
Mesmo que no fim de um capítulo do ensaio I.B. seja mais suave. Vejamos o que diz Berlin: «A analogia [com De
Maistre] não pode, ainda assim, ser excessivamente vincada: é verdade que tanto
Maistre e Tolstói atribuem a maior importância possível à guerra e ao conflito,
mas Maistre, como Proudhon depois dele, exalta a guerra e declara-a misteriosa
e divina, enquanto Tolstói a detesta e a considera, em princípio, explicável,
desde que saibamos o suficiente acerca das muitas pequenas causas – o famoso
«diferencial» da história. (...) A visão de Maistre é a de um mundo de
criaturas selvagens que se atiram umas às outras sem dó nem piedade, matam por
matar, coisa que vê como a condição normal de toda a vida animada. Tolstói está
longe de tal terror, crime e sadismo, e não é, com a devida licença de Albert
Sorel e Vogüé [estes verdadeiros arautos do fascismo moderno], em sentido
nenhum, um místico: não receia questionar nada e acredita na existência de uma
qualquer resposta simples – basta que não insistamos em torturar-nos a
procurá-la em lugares estranhos e remotos quando ela está sempre à nossa frente.»
E as diferenças continuam por mais páginas a seguir a esta.
Pergunta-se agora: de que vale levantar uma questão através de uma afirmação
polémica, como exemplo «...seria Tolstói um seguidor de De Maistre [ou já agora
de Bossuet] paladinos do absolutismo e seguidos por fascistas?», para depois
passar o resto do ensaio (o 28º oitavo melhor de todos os tempos, repita-se!) a dizer o
contrário e a sublinhar as diferenças? Será esta a verdadeira metodologia para
um êxito ensaístico?
António Luís Catarino
Coimbra, 27 de Agosto de 2020



