Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 24, 2025

"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi

 

VS. Editor. 2022. Tradução de João Coles

Furio Jesi faleceu em 1980, precocemente aos 39 anos deixando-nos, contudo, uma obra ensaística significativa principalmente na questão do conceito de mito. «Spartakus, Simbologia da Revolta» debruça-se sobre os mitos da esquerda, os que sempre acompanharam a construção utópica de sociedades livres em que a esquerda se viu envolvida, mesmo com erros inerentes à aplicação prática numa dada realidade social em ebulição. Furio Jesi parte da revolução espartaquista, entre Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919, para notar que o mito já existe no próprio nome da Liga Espartaquista que vai ser o gérmen do KPD e que lembra a revolta dos escravos liderada por Espártaco contra o Império Romano. Reside aqui o mito que guiou Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt a participar numa revolta que, paradoxalmente, não acreditavam poder ganhar mas que serviu de estímulo para a construção de uma sociedade livre. Para além do sacrifício, talvez desnecessário (por uma análise incorrecta da correlação de forças em campo)  dos revoltosos alemães, perpetrado pela social-democracia de Ebert, Furio Jesi expande as suas considerações sobre o que distingue uma revolta de uma revolução. Enquanto que, na primeira, existe uma suspensão do tempo histórico, na revolução há uma apropriação desse mesmo tempo. Uma destrói, a outra constrói e é nessa destruição que existe a suspensão, pela violência e pela identificação próxima com o  outro, de uma realidade que se quer outra. A revolução retoma o tempo normal, sob outras formas, é certo, mas a construção de um tempo é um dos objectivos não escondidos de qualquer revolução. Assim foi em 1789 e em 1917. 

A esquerda actual vive igualmente de mitos. O mito da comuna de 1871, dos conselhos de 1918/19, da Guerra Civil de Espanha de 36/39, do Maio de 68, da guerrilha de Che, mas não deixa de ser sintomático que essa identificação do mito persista nos derrotados e não nas revoluções vitoriosas, como a de 1917. Compreende-se que o sangue derramado dos heróis, construa uma identificação psicológica forte quando a derrota foi o culminar das suas utopias. 

A esquerda, não por acaso, deixou de ser subversiva, dispensando a propaganda como coisa de nazis e fascistas, não compreendendo que ela foi uma das razões que uniu (e ganhou) camadas de gerações revolucionárias em torno de uma ideia comum. Hoje acantonou-se no parlamentarismo deixando para outros a construção de uma sociedade mais livre. A subversão deixou de fazer sentido para largos estratos da esquerda, receosa de perder votos afirmando-se como uma espécie de corpo bem-comportado em debates que julga fracturantes, mas que não são mais do que o caminho óbvio da evolução das liberdades. O tempo aqui não será suspenso, porque não há revolta que lhe valha com estes pressupostos. 

De Furio Jesi:
«Podemos amar uma cidade, podemos reconhecer as suas casas e ruas nas nossas mais remotas ou mais caras memórias, mas só na hora da revolta sentimos verdadeiramente a cidade como nossa: nossa, por ser do eu e aos mesmo tempo dos ''outros''; nossa, por ser campo de uma batalha que se escolheu e que a colectividade escolheu; nossa, por ser espaço circunscrito no qual o tempo histórico está suspenso e no qual cada acto vale por si só, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando na alternância das investidas, muito mais do que brincando, quando crianças, nas suas ruas, ou passeando por elas mais tarde com uma rapariga. Na hora da revolta já não estamos sozinhos na cidade.» (pág.77)

alc

quinta-feira, maio 08, 2025

«Kairos», Jenny Erpenbeck

 

Relógio D'Água, Dezembro de 2024. Tradução de António Sousa Ribeiro
Ainda não entendi a razão pela qual uma boa escritora terá de ser «uma aposta segura para um futuro Prémio Nobel», isto segundo o respeitável «The Guardian» seguido da não menos respeitável editora que o cita na contracapa. É que existem exemplos tramados de nobelizáveis, digamos assim.

Jenny Erpenbeck é, sem dúvida, uma escritora singular, que nos remete para vivências que têm em comum com uma plêiade de obras que vieram do antigo leste europeu, neste caso da ex-RDA, onde viveu a sua juventude até à queda do Muro. Não sendo uma Herta Müller, é muito consistente e não cai em lugares-comuns que nós, nas chamadas democracias ocidentais, estaremos à espera. As descrições, por vezes longas e pormenorizadas, da sua vida que partilha com um apparatchick da cultura (não sem que tenha passado uns meses na Juventude Hitleriana, durante o final da guerra), trinta e quatro anos mais velho que ela, e, por ele, conhece as obras de Brecht, de Heiner Müller ou Berghaus. A personagem Katharina estuda cenografia e projecta palcos para ópera, para o teatro e para concertos musicais, nomeadamente no Conservatório de Eisler. É interessante relacionar a sua actividade profissional com a construção e manutenção do regime alemão do leste, onde é descrita a encenação total de uma sociedade que se encontrava exausta. Katharina distancia-se dessa política, não lhe interessa sequer analisá-la, mas não é uma sonâmbula. Está viva, claudica várias vezes na sua relação, traia-a, mas está sob a sua completa alçada. Não consegue sair dela e é essa tensão que atravessa todo o «Kairos» que, como sabemos, é definido como o tempo oportuno, bem diferente do cronológico. Por fim afasta-se.

Metáfora interessante é a vida de Hans, de quem Katharina depende em todos os planos da vida. Ela tem 20 e repete incessantemente que o ama. No entanto, esse amor é tão obsessivo quanto é exigido pelo Estado: toda a sociedade, as instituições, os empregos, a cultura, o dinheiro, os apartamentos, dão o que lhes é dado em obediência. É nesse sentido que há uma relação sado-masoquista entre Hans e Katharina. «O exame exaustivo das ruínas» é o que faz esta personagem nas suas viagens quer, inclusive, ao ocidente, quer à Alemanha Federal, a Colónia, quer à parte ocidental de Berlim ou aos países Bálticos. A comparação é inevitável com a RFA, principalmente após a queda do Muro, mas não do modo que esperaríamos. Descreve-nos, antes, os comunicados da oposição a Honnecker, que pretendiam aprofundar o socialismo e negava o capitalismo, enquanto a Stasi proibia os termos «glasnost» ou «perestroika». Depois de se sentir atónita pelos cidadãos da RDA não terem direito a manifestar-se sobre a Constituição federal que lhes foi imposta, após as ondas de desemprego, da destruição de um estado que lhes vendia o pão a 7 pfeniggs enquanto um casaco custava 700 marcos, uma inflação descontrolada, a fome a instalar-se e o sentimento de vergonha, quando o Muro foi aberto e a RFA oferecia 100 marcos a cada visitante oriental, por um só dia, para se comprar qualquer coisa! 

«(...) O despertar que pouco antes estava ainda em contradição com a ordem existente no Leste não tarda a tornar-se em contradição com a ordem do Ocidente que aí vem.
Pessoas que, no Inverno e no início da Primavera, viveram o êxtase da emancipação têm agora, em vez de forjar projectos inéditos, de estudar os diários do governo da Alemanha Ocidental.
Deveriam, em vez de discutir quem há-de agora dirigir este ou aquele departamento, esta ou aquela brigada, apurar o que é uma SARL ou como é o direito das fundações oeste-alemão. (...)
Aprenderam na escola o que significa a propriedade privada dos meios de produção, o que significa uma sociedade funcionar segundo os princípios da economia de mercado, mas nunca relacionaram isso consigo mesmos. Para que as instituições e, assim, os seus postos de trabalho sobrevivessem ao Outono, teriam, elas, as pessoas correspondentes, de ter um passado diferente do que têm, teriam de ser diferentes do que são, teriam de passar a ser o que não são.
Tudo isso que deveriam fazer, elas não sabem, não querem, não está em seu poder.» (pág.290)

«(...) Quando, em contrapartida, Katharina percorre a parte ocidental, sente-se como uma cópia de má qualidade das pessoas que têm ali o seu quotidiano, sente-se como uma embusteira, em risco permanente de ser desmascarada. Com os seus olhos, que, na outra metade da cidade, são os olhos de uma estranha, vê que, nas lojas do Ocidente, há muito tempo todas as necessidades imagináveis foram respondidas por um produto, a liberdade de consumo parece-lhe uma parede de borracha que separa as pessoas dos anseios que estão além das suas necessidades pessoais. Será que, porventura, também ela não tardará a ser apenas clientela?» (pág.288)

Entrar no mundo de Katharina é descobrir uma outra dimensão. Não geográfica, nem só política, nem apenas social. É estarmos com ela e tentar compreender as suas contradições, que provavelmente serão igualmente as nossas e é o que faz este livro ser interessante, porque somos obrigados a um exercício de desconstrução/construção psicológica enquanto a História de assenhora do seu destino, sendo ela um peão que resiste em sê-lo. Não sabemos se ganha este jogo.

alc

quinta-feira, março 13, 2025

«O Futuro é o Mal», Heiner Müller

 

Língua Morta, Janeiro de 2025.
Organização e Tradução de Fernando Ramalho
Foi no já longínquo 1992 que me deparei, pelo Teatro da Cornucópia e por Luís Miguel Cintra, com a dramaturgia de Heiner Müller. Em Janeiro, com «A Missão» e, logo em Abril, com «Mauser». Desde aí, não mais me separei dele, dos seus ensaios, da sua poesia e do seu teatro. Caso único que me aconteceu após ter assistido a «Mauser», no Teatro do Bairro Alto: presente com amigos, estive horas, pela noite dentro, sem conseguir dizer uma única palavra. Nem a efervescência dos bares do Bairro me conseguiram arrancar uma única formulação, mesmo rápida, sobre o que senti. Tarde demais, balbuciei qualquer coisa entre «violência», «angústia», «guerra», «aniquilação» pensando que assim, bem vistas as coisas, poderia construir uma síntese desesperada para explicar todo o complexo mundo de Müller. Este livro trouxe-me o que de melhor tem Heiner Müller e por via da Língua Morta e de Fernando Ramalho que o organizou e traduziu. Fez mais do que isso: afastou a lógica cronológica, até certo ponto limitadora da obra do autor, e desenvolveu um livro sólido perante a já citada complexidade do pensamento de Müller. Não tendo sido tarefa fácil, conseguiu-o plenamente com a tradução sustentada, e referida pelo próprio organizador, com os anteriores trabalhos de João Barrento e Adolfo Luxúria Canibal. As entrevistas a Müller são tão esclarecedoras que me pergunto por que razão não as conhecemos antes traduzidas para português. Os seus poemas, a sua biografia, os seus pensamentos e a lógica emprestada por Fernando Ramalho nos seus textos complementares são um exemplo de sobriedade e de seriedade.

«Desespero» e o seu anjo. Era esta a expressão mais evidente e mais lógica que eu poderia ter dito nessa ocasião, em 1992. Retomo a leitura: «O Anjo Desditoso», embora diferente de «O Anjo sem Sorte» da tradução de João Barrento na Relógio D'Água (editado em 1997, um ano após a morte de HM), tem a mesma cadência, nada perde em absoluto, talvez até ganhe mais solidez nas expressões apresentadas e isso acontece igualmente com «O Anjo do Desespero», de 1979, que ganha uma nova força. «O Anjo Desditoso 2», de 1990, que não consta no livro da Rd'A, é escrito após a queda do Muro de Berlim e vale a pena dar-vos a conhecer a versão de Fernando Ramalho neste «O Futuro é o Mal»:

Entre cidade e cidade
Depois do muro o abismo
Vento pelos ombros a estranha
Mão sobre a carne solitária
O anjo ouço-o ainda
Mas ele já não tem outro rosto a não ser
O teu que eu desconheço

Heiner Müller tem uma relação tensa com a Alemanha, tal como vimos em outros autores de língua germânica e aqui lembramo-nos dos austríacos, mais livres de escrutínio antinazi (até sabemos porquê!) que os seus congéneres alemães. Essa tensão é medida nos escritos de HM tanto para a RFA, como para a RDA em que viu os seus escritos serem proibidos ou censurados. Mas o tal «abismo» que ele vê na queda do muro e exposto no poema acima transcrito é apresentado como uma espécie de vazio que nunca poderia ser preenchido numa sociedade capitalista que ele condena com um socialismo que já não o era há muito. Deixou-se morrer, tal como a Revolução de Outubro. O fim de uma era suscita-lhe o tal anjo que ainda o sente, que ainda o ouve, mas que desconhece o rosto antes deformado por Klee ou pelo anjo da História de Benjamim.

Observem a síntese de Fernando Ramalho sobre a escrita de Heiner Müller:
«Além dos mortos, há também muitos dos seus contemporâneos a habitar os seus textos, expressa ou implicitamente. Figuras como Anna Seghers, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Ernst Jünger, Jean Braudillard, Alexander Kluge, entre muitos outros, foram, em tempos e modos diversos, participando desse diálogo incessante com a tradição. Como, de resto, também figuras do seu espaço familiar ou episódios da sua vida: a relação tensa com a memória do pai e do avô, o suicídio da segunda mulher, Inge Müller, a possibilidade de viajar com alguma frequência para fora da RDA, as dificuldades de relação com a RDA e as suas instâncias políticas e culturais, a relação feliz com a sua última mulher, Brigitte Maria Meyer, ou o cancro no final da vida.
A composição desse mosaico povoado de espectros, vozes, labirintos, memórias, sonhos, imagens de uma expressividade e violência sem concessões, implicou sempre, para Müller, um trabalho aturado sobre a linguagem que, com o passar do tempo, foi consolidando uma tonalidade elíptica e fragmentária.» (pág.132,133)

Sobre o título deste livro «O Futuro é o Mal», que alguns, seguramente, entenderão como angustiante (e o mundo não está a sê-lo?), aponta para um outro facto que não devemos, quanto a mim, colocar de lado em Müller: a sua capacidade de «ver» o futuro numa perspectiva tanto tecnológica, como de possibilidades revolucionárias, transformadoras: 

«A derrota da utopia como uma linha de fuga não é necessariamente negativa, uma vez que a utopia exige do indivíduo sacrifício e renúncia. Reduz o valor do presente a favor de uma ficção do futuro. A utopia existe sempre à custa da vida real. A questão que se põe é saber se podemos continuar a pensar o futuro como uma qualidade. Nas estruturas ainda instáveis que entretanto emergiram não é suposto que o indivíduo exista, mas apenas que funcione. Isto abre caminho para que o computador tome o poder. (...)» (pág.157). 

Repete-se: «Nas estruturas ainda instáveis que entretanto emergiram não é suposto que o indivíduo exista, mas apenas que funcione.» Isto foi afirmado numa entrevista dada a Frank M. Raddatz, em 1991!

quarta-feira, agosto 28, 2024

«O Passo da Floresta», de Ernst Jünger

 

BCF Editores, 2021. Tradução de Maria Filomena Molder. Capa de Ana Jotta. Não segue o AO90
Uma edição de 1995 da Cotovia, traduzida por Maria Filomena Molder, já tinha sido colocada nas livrarias. Pelo que entendi, esta é uma excelente nova versão. 
Não conheço suficientemente a obra de Ernst Jünger ao ponto de me alongar muito em qualquer tentativa de interpretar a sua filosofia como um todo. Fico-me por este livro, lembrando-me vagamente que desde há uns anos ter lido apressadamente «Eumeswil», editado pela Ulisseia em 1977 e «Chasses Subtiles», da Christian Bourgois, editado igualmente nesse mesmo ano. Não li ainda «Tempestades de Aço» sobre a sua experiência nas guerras. Ainda os mantenho, apesar das vicissitudes várias da vida dos livros que teimam em acompanhar-me. Sinceramente, nem sei explicar bem por que razão este autor vive comigo há tanto tempo, sendo ele um conservador assumido. Mas não é só por isso que o tenho e o leio de quando em vez, visto que é necessário conhecer o que pensam os conservadores de várias matizes e qual a acção concreta que os faz mover. Vamos a factos: o que me afasta dele é o militarismo e o nacionalismo latente nos seus escritos, mesmo que se esforce em recusar qualquer laivo racista. Sendo difícil esta posição assumida, não é de todo impossível de a concretizar. O que me leva a lê-lo é a sua iconoclastia: amante da natureza, de Nietzsche (do verdadeiro, do que entende que o Super-Homem é o escravizado e que a sua luta constante é o dia em que se libertará), do seu ateísmo e niilismo e, igualmente o facto de duvidar tanto da Humanidade, como da democracia burguesa que, a ser concretizada totalmente, levará inevitavelmente à ditadura baseada, contudo, em eleições. Sendo este livro escrito em 1951, não nos será muito difícil, hoje em dia, concordar com ele; infelizmente, temos conhecimento real do crescimento contínuo do aparecimento de democracias «iliberais» (eufemismo para o fascismo) pelo mundo fora. Afirma neste «O Passo da Floresta» que a um ditador não lhe convém um resultado eleitoral de 100% porque lhe retiraria toda e qualquer hipótese numa existência de oposição; assim, será avisado que se mantenha 2% de votos ou vontades que se oporão à sua governança, nem que sejam teleguiadas pelos estados. 98% seria o ideal, portanto! Essa percentagem residual manteria a possibilidade infinita de um exercício totalitário de sucesso. O que não impediria, simultaneamente, de um «desterrado», uma das «figuras» tratadas posteriormente por Jünger tal como a de «trabalhador», um opositor consciente, em accionar todo um tipo de momentos políticos que levassem ao desgaste do poder totalitário, votasse ou não, participasse ou não nas eleições «democráticas». Não é por acaso que hoje vemos a banalização do acto democrático por Estados que ou não seguem as suas próprias constituições e abastardam os resultados eleitorais ou cometem fraudes cada vez mais frequentes legitimadas por uma nova necessidade de um estado de excepção. Um Carl Schmitt assinaria por baixo, tal como este novo Leviatã protagonizado por Jünger. Exemplos não faltam nos dias que nos passam pelos nossos olhos: Trump, com o assalto ao Capitólio, Macron que não reconhece os ganhos da esquerda nas urnas, Putin, Maduro... De qualquer maneira, Ernst Jünger avisa-nos que o passo da floresta pode ser tanto a liberdade-refúgio para nós próprios como para o outro reconhecível e essencial para uma sociedade livre. Mas, para além desse ethos social, pode ser igualmente o nosso retiro antes da morte, um sentimento de alguma coisa já feita, realizada. Uma necessidade de partir, sem medo de tomar a liberdade em mãos. É um livro vagamente orientalista, mas com uma grande ânsia de liberdade que a Alemanha pouco lhe deu e que a Europa e o Ocidente não cumpriram de todo, restando somente a rebelião como última arma. A única racional, já que o Iluminismo falhou em todo o século XX que ele conheceu bem. Infelizmente, bem demais.

Ernst Jünger morre aos 102 anos, em 1998. Lutou na I Guerra Mundial (antes dela já lutava em África pela Legião Estrangeira, com apenas 15 anos, tendo sido resgatado pelo pai!) e foi ferido sete vezes, tendo recebido os acostumados louvores chauvinistas alemães. Pertenceu a unidades de choque que, pela calada da noite, atacavam as trincheiras inimigas e degolavam as sentinelas com as baionetas. O que não o impediu de amar os insectos, os animais e as plantas ao ser um entomologista, zoólogo e botânico de renome. Perante isto, só me resta desejar que nenhum filósofo tenha responsabilidades governamentais ou desenhe o destino de um país e de um povo! Era, igualmente, um pesquisador sensorial e um opiómano, embriagando-se e experimentando todas as drogas que lhe vinham às mãos, escrevendo num estado de êxtase, o que lhe vinha à cabeça. Muitos dos seus melhores livros estão aí para o provar. Militar exemplar para os cânones habituais das casernas, claro que nos anos 20 e 30, Hitler e os seus meninos de coro andaram-lhe a arrastar a asa, mas Jünger renegou sempre o nazismo, talvez pela sua origem aristocrata, e a partir de 1943 chega a ser vigiado pela Gestapo. O exército, que ele tanto amou, mata-lhe um filho em Itália, obrigando-o a uma missão suicida num batalhão disciplinar e, claramente, por motivos políticos. Deixo-vos com um trecho deste «O Passo da Floresta» sobre a liberdade:

«O verdadeiro problema reside, antes, no facto de uma grande maioria 'não' querer a liberdade, no facto de até ter medo dela. É preciso 'ser' livre, para chegar a ser livre, porque liberdade é existência - é, sobretudo, o sentimento harmónico da existência e o prazer, sentido como destino, em a realizar. É, então, que o ser humano é livre, e o mundo cheio de coacção e de meios de coacção tem de servir, daqui em diante, para tornar visível a liberdade em todo o seu esplendor, do mesmo modo que as massas da pedra primitiva, pela pressão que exercem, fazem germinar cristais.
A nova liberdade é velha, é liberdade absoluta na roupagem da época; pois, conduzir uma vez mais, apesar de todas as astúcias do espírito do tempo, ao triunfo da liberdade: eis o sentido do mundo histórico.» (pág.119)

«O Passo da Floresta» deve ler-se com os olhos de hoje; não perderão nada porque a sua actualidade é impossível de esconder. Pelo medo que as grandes massas mostram ter por essa liberdade posta em causa cada vez mais por pequenos führers que se vão apresentando aqui e ali nas ruínas de uma sociedade verdadeiramente doente em que a guerra permanente, a anomia, a violência destrutiva e a ignorância surgem como um vórtice que nos arrasta para um fim anunciado. Ler Jünger talvez nos aplaque a vontade de mergulhar nesse vórtice. 

alc

segunda-feira, setembro 11, 2023

«Auto-de-Fé», Elias Canetti

 

Cavalo de Ferro, 3ªed.2023, Tradução de Luís de Almeida Campos
Livro editado em 1935, escrito desde 1929 em Viena e terminado em Berlim, e que estava para ter outros títulos entre os quais «Cegueira», «Kant incendeia-se» ou «Brand». Elias Canetti escolheu «Auto-de-Fé» que, contudo, teria a ver sempre com o fogo. Fogo e livros. Livros estes que eram a obsessão louca de Peter Kien, a personagem «homem-livro» que acaba devorado pelo incêndio que provocou à sua enorme biblioteca, perecendo com ela no final do romance. Aliás, como nota avulsa, deve dizer-se que a palavra «kien» é também a «madeira resinosa» que se usava para atear fogueiras. Ironia pérfida é o facto deste livro ter feito parte dos incêndios de publicações que iluminavam as noites macabras das marchas nazis de archotes a partir de 1933 e que o consideraram «degenerado». Canetti exilou-se então nos Estados Unidos para não morrer às mãos dos nazis como judeu sefardita que era. Voltando à personagem que enforma «Auto-de-Fé», Peter Kien era o protótipo de o «Homem-livro», aquele que vivia para eles e neles só encontrava a «verdade», ignorando tudo o resto incluindo os vícios e, talvez, as virtudes da humanidade. Alto e magro, misógino, egocentrado, professor universitário que desprezava os alunos deambulava por Viena com uma pasta, passeando os livros que escolhia nesse dia para o fazer. Dormia num divã com eles. Contudo, casa-se com a governanta que sentia tratar bem dos livros...
Não me ocorre uma «descrição» do único romance de Canetti e que, junto com outros, o levou ao prémio nobel de 1981, e que seria forçosamente redutora tal a profundidade filosófica com que o ilustrou. Diz o autor, talvez referindo-se ao processo de escrita de «Auto-deFé» que «A crueldade daquele que se obriga a admitir uma verdade atormenta-o sobretudo a si mesmo: o escritor violenta-se a si próprio cem vezes mais que o leitor.(pág.553)» Não pretendendo, sequer, ousar desmenti-lo posso todavia afirmar que o leitor não sai incólume da leitura desta obra clássica. Estão lá plasmadas a alienação, das massas sim, mas também do indivíduo que mergulha no mundo dos livros e que os considera mais humanos que os humanos que desconhece, a loucura, a religião (todas elas sem agravo), a psiquiatria ou a mesquinhez quer dos poderosos, quer dos subordinados. Todo este exercício literário sobre a alienação remete-nos já para os livros de ouro de Canetti como «Massa e Poder» e «Língua Resgatada» cuja leitura se tornou agora obrigatória para mim, se bem que já tenha lido, há demasiado tempo e julgo que sem o instrumento poderoso da idade, o primeiro deles. 

«A ciência tinha-lhes inculcado uma fé cega na causalidade. Personagens convencionais, cingiam-se fielmente aos costumes e opiniões da maioria. Procuravam o prazer e interpretavam tudo e toda a gente em função dessa procura: uma mania da época que dominava todos os espíritos sem dar grandes resultados. E por prazer entendiam, naturalmente, todos os vícios tradicionais que o indivíduo,. desde que existem animais, pratica com um afinco que não desfalece.
A verdade é que nada sabiam daquela força motriz da história, muito mais profunda e autêntica: o impulso humano para se fundir numa espécie animal superior, a massa, e perder-se tão irremediavelmente nela como se nunca tivesse existido um homem isolado. Porque, além disso, eram educados, e a educação é uma arma defensiva do indivíduo contra a massa que transporta dentro de si.
Não menos que a luta pela fome e pelo amor, praticamos a chamada luta pela vida com o fim de aniquilarmos a nossa massa interior. Mas esta fortalece-se tanto, sob certas condições, que obriga o indivíduo a a gir de forma desinteressada e até contra os seus próprios interesses. A humanidade existia como massa já muito antes de ter sido formulada e diluída em conceitos. Como um animal monstruoso, selvagem, ardente e exuberante, a massa ferve e agita-se no mais profundo do nosso ser, a maior profundidade que as nossas próprias Mães. É, apesar da sua idade, o mais jovem de todos os animais, a criatura essencial da Terra, a sua meta e o seu futuro. Mas nada sabemos dela e vivemos, supostamente, como indivíduos. Não obstante, a massa abate-se às vezes sobre nós como uma maré espumante, como um oceano furioso em que cada gota permanece viva e aspira ao mesmo. Passado pouco tempo dispersa-se, devolvendo-nos ao nosso estado habitual de pobres diabos solitários. E então torna-se-nos inconcebível recordar que alguma vez chegámos a ser tanto, tão grandes e tão «Uno». «Doença», dirá um comentarista inteligente; «a fera do homem», atenuará um humilde cordeiro, sem suspeitar quão perto da verdade se encontra o seu erro. Entretanto, a massa prepara um novo ataque de dentro. Até que um dia não volte a dispersar-se, talvez num único país, no princípio, e dali comece a propagar-se para todos os lados até que ninguém ponha em dúvida a sua existência, porque já não haverá mais Eu, nem Tu, nem Ele, mas apenas ela: a Massa.» (pags. 476,477)

Este trecho de «Auto-de-Fé» foi escrito em 1935, lembrando-nos que estava na forja, pelo menos, desde 1929, ano de todas as acções de massas principalmente as do fascismo e do nazismo contra os quais Elias Canetti lutou, até de armas na mão, como eles nos conta no Posfácio de 1973 a uma edição vienense deste livro. O caso deve ser descrito aqui: numa manifestação de esquerda assassinaram nove operários em Viena. Os jornais, os jornalistas e escritores da altura ou, na sua maioria, defenderam os assassinatos ou, mantiveram-se cobardemente calados, menos Karl Kraus, evidentemente; o veredicto do julgamento absolveu os perpetradores e julgou até necessário esse crime. A resposta foi espontânea dos operários que, sem os seus chefes conciliadores social-democratas, atacaram e incendiaram o Palácio da Justiça de Viena. A polícia fez então 90 mortes entre os operários onde se encontrava Elias Canetti, também ele em protesto. Ao seu lado estava alguém que, exuberante, gritava «Foram-se os processos! Todos queimados!». O jovem Elias Canetti não se conteve e violentamente retorquiu-lhe: «Há dezenas de pessoas mortas e você só pensa nos processos?» (no Posfácio). Significativo.

De qualquer modo, e pelo que escrevi, não pensem os liberais e os «neos» que os acompanham que Canetti é um deles. Decididamente, não. Antes pelo contrário: de matriz claramente marxista, não fosse da geração nobre de entre guerras de Viena e Berlim, conheceu Karl Kraus a quem não regateou influências, o desenhador George Groz de quem foi grande amigo e Isaak Babel, para além de Brecht que o «adoptou» como seu discípulo e, mais tarde, depois de ter ultrapassado alguma desconfiança acerca dos escritores vienenses não tão frontais e hiperactivos como os de Berlim, tornou-se íntimo de Musil e de Broch. Há um facto curioso e que tem a ver com Brecht: na minha leitura de «Auto-de-Fé» deu-me para pensar na possibilidade de uma adaptação grandiosa para o teatro desta obra à maneira de Kraus ou de Brecht; aquela obra, dividida em três grandes capítulos, não era de todo impossível e não sei se alguém o tentou ou, sequer, se era um desejo de Canetti realizá-la. Já com Thomas Mann (mais uma achega para eu detestar o homem) as coisas não correram tão bem. Durante muito tempo «Auto-de-Fé» esteve parado na gaveta por recusa de o publicar por editores medrosos, como Suhrkamp por exemplo, e quando Canetti o enviou para apreciação a Mann este recusa lê-lo, visto que não teria muito tempo para o fazer. Quando foi editado em Viena e o êxito começou a mostrar-se como devia, este tem o desplante de o considerar «tão bom como o ''Henri Quatre'' de Einrich Mann, seu irmão» (!?). Pergunto: alguém conhece este última obra ou o autor? Pobre Thomas Mann! Elias Canetti morre em Zurique, em 1994. Deixou-nos um clássico impossível de não ler.

domingo, julho 16, 2023

«Berlim Alexander-Platz», Alfred Döblin

 

D. Quixote, 4ª ed. 2020 (1ªed. 1992). Trad.: Sara e Teresa Seruya. Prefácio: Teresa Seruya
O que Alfred Döblin poderia fazer? Alemão, falecido em 1957, escreveu este romance épico, segundo as suas palavras, em 1929, ano de todos os perigos não só na Alemanha humilhada por Versalhes, mas para todo o mundo que já adivinha novo conflito de lesa-humanidade. Este romance é não só épico, mas inigualável. Em dois posfácios publicados nesta edição e escritos, um, em 1932, outro, em 1955, ele repete em ambos a intriga que foi compará-lo a Ulisses de Joyce, que só veio a conhecer já um quarto do livro estava escrito. Negou sempre essa influência, mesmo que o tivesse elogiado e afirmasse que foi uma lufada de ar fresco na literatura. Mas o que é estranho é que, quer a prefaciadora e tradutora do livro, quer por arrastamento a editora, não o entendem assim e pespegam, inclusive na badana, a tal influência que o autor nega! Como poderia contestar Alfred Döblin? O mesmo para integrar «Berlim Alexander-Platz», à força, no movimento expressionista, ou futurista. Por que não dadaísta, devido às múltiplas onomatopeias utilizadas por Döblin no final de certos períodos? E, talvez o mais acertado, não o colocar em nenhum movimento, a não ser a época em que foi escrito, tal como aventa o próprio autor num dos posfácios já citados? Por vezes, os prefácios tornam-se áridos e complicam mais do que esclarecem, salvo o nome do próprio prefaciador, embora com felizes excepções, acrescente-se. O que se sabe, sem sombra de dúvida, é que «Berlim Alexander-Platz» foi dos livros que os nazis das SA queimaram em grandes fogueiras regeneradoras contra a «arte degenerada» logo em 1935. O que se sabe igualmente é que este é um livro arrebatador cuja leitura será necessária para compreender o século XX e ao período entre as duas guerras mundiais. Os «roaring twenties», nada tinham de maravilhosos nos anos 20 berlinenses. Franz Biberkopf está aí para nos provar no decorrer dos acontecimentos deste livro espantoso.

Franz Biberkopf é a personagem que dá vida a «Berlim Alexander-Platz». Passados 5 anos na prisão de Tenger, por ofensas corporais graves de que resultou a morte da sua companheira Ilda, chulo, assaltante, biscateiro, desempregado, traído duas vezes pelos comparsas, sem um braço devido a contas por saldar, por uns tempos usando a camisa castanha e a suástica, vive em plena capital da Alemanha a lamber ainda as feridas da derrota e da humilhação imposta pelos países da Entente. Na página 509, Döblin apresenta-nos, já no dealbar da sua existência, Biberkopf desta maneira: 

«Quem é este que aqui está na Alexanderstrasse, mexendo vagarosamente uma perna atrás da outra? O seu nome é Franz Biberkopf, vocês já sabem o que andou a aprontar. Chulo, delinquente perigoso, pobre diabo, um homem arruinado, é agora a vez dele. Malditos punhos o espancaram! Terrível punho o agarrou! Os outros punhos espancaram e largaram-no, ficou uma ferida, ficou ele, mais nada, a ferida veio a sarar, Franz ficou o que era e continuou o seu caminho. Agora o punho não despega, o punho é incrivelmente grande, destrói o corpo e na alma, Franz caminha a passos curtos e apercebe-se: a minha vida já não é minha. Não sei o que fazer pelo meu lado, mas Franz Biberkopf está liquidado de vez.»

Döblin conheceu bem Berlim, principalmente os seus bas-fond. Médico, muitas vezes em reformatórios e penitenciárias, chamava à cidade a sua Babilónia, a grande prostituta, indiferente e paradoxalmente castigadora, rancorosa, sempre a ceifar vidas de gadanha pronta. São várias as vezes que o autor recorre a esta imagem, a esta metáfora, incluindo o recurso bíblico, nomeadamente a referência a Job e a Ester. No entanto, coloca dois anjos ao lado de Biberkopf. Os seus nomes são Sarug e Terah que mais tarde o abandonam, deixando às vicissitudes da vida terrena o fim de Franz, deixando que o ódio puro seja mais forte que o celeste arbítrio ou à vontade e solidariedade dos seus amigos próximos como a sua amante Mieze (assassinada mais tarde por Reinhold), Eva ou Herbert. O maravilhoso texto onde se encontra o diálogo entre os anjos é este: 

«O que é que tu achas, ó Terah, que ia acontecer se se deixasse este homem entregue a si próprio, se o deixássemos ficar para aqui e ele fosse apanhado?» Sarug: «No fundo não havia de fazer grande diferença, por mim acho que vão apanhá-lo de qualquer maneira, é inevitável. Ele pôs-se a olhar para o edifício vermelho além, e tem razão, que dentro de semanas já lá está atrás das grades.» Terah: «Então achas que, a bem dizer, nós somos supérfluos?» Sarug: «Um pedaço, acho que sim - já que não nos é permitido tirá-lo por completo daqui.» Terah: « Ainda és uma criança, Sarug, só andas a ver isto há um par de milénios. E se levarmos o homem daqui e o mudarmos para outro lado, para outra existência, terá ele feito tudo o que podia fazer aqui? É que, em 1000 seres e vidas, como deves saber, registam-se 700, não, 900 fracassos.(...)» (pág.505 e seguintes)

Perante a atonia social de que padece Berlim e a Europa (em Portugal continuávamos pobretes e alegretes) entre as duas guerras e com as graves convulsões económicas capitalistas que desembocou na crise de 1929 a 35, era necessário resistência. Não só política, contra os fascismos e a claudicação social-democrata e liberal perante estes, mas também pessoal que levasse os indivíduos a ultrapassar as restrições económicas e materiais e, tão importante como aquelas, a postura ética que em tempos de miséria generalizada pode ficar a dever muito às consciências dos «homens de bem». Biberkopf não é decididamente um deles. Ele procura uma postura jovial perante todas as crises:

«Todas as coisas, todas as coisas têm o seu tempo e todo o agir sob os céus tem a sua hora, todas as coisas têm o seu ano, nascer e morrer, plantar e exterminar o que se plantou, todas as coisas, todas as coisas têm o seu tempo, estrangular e curar, quebrar e construir, procurar e perder, o seu tempo, guardar e atirar fora o seu tempo, rasgar e coser, calar e falar. Todas as coisas têm o seu tempo. Por isso vejo que não há nada melhor do que ser jovial. Melhor do que ser jovial. Ser jovial, vamos lá a ser todos joviais. Não há nada melhor debaixo do Sol do que se rir e ser jovial.» (pág.445)

Vamos lá ser todos joviais. Mesmo que os tempos sejam tristes e se aproximem tempestades negras, sigamos de perto os conselhos de Franz Biberkopf.

António Luís Catarino

terça-feira, junho 27, 2023

«Alemanha Ensanguentada», Aquilino Ribeiro

 

Bertrand, 2015. Prefácio de Pedro Mexia
A maior parte deste livro foi escrita em 1920, tendo-se seguido algumas impressões sobre os campos de batalha da I Guerra Mundial em 1928, em viagens que Aquilino Ribeiro fez à Alemanha nessas mesmas datas. As descrições que faz da Alemanha completamente exausta económica e moralmente devido ao diktat do Tratado de Versalhes de 1918/19 não faz dele, longe disso, um «germanófilo» no sentido militar que lhe foi na ocasião apontado; era, contudo, um claro apaixonado pela cultura alemã, sabendo falar bem a língua, visto que era casado com Grete Tiedemann que vem a falecer precocemente em 1927. Para além disso aponta-se uma tendência clara pelo anarquismo em Aquilino e alguns factos relacionados com as suas actividades políticas e consequentes prisões em Portugal, ainda durante a monarquia e a sua participação na revolta de 1927 contra a Ditadura Militar, não deixam dúvidas. 

Perante o verdadeiro entusiasmo que é ler Aquilino e desfrutar o seu português límpido e depurado, com a palavra certeira, em todos estes apontamentos diarísticos, de viagem, teremos de nos fixar somente em dois aspectos: a clareza das suas posições políticas sobre a violência de Versalhes sobre a Alemanha, a tentativa Espartaquista da Revolução de 18 de que ele viu ainda barricadas não levantadas e paredes esburacadas por balas e petardos e as conversas mantidas com oficiais soviéticos ainda na Alemanha depois da derrota às portas de Varsóvia. Reparemos que as impressões de Aquilino foram escritas somente 3 anos após o Armistício. 

Logo na página 18, Aquilino dá-nos uma visão muito particular dos ingleses que ocupam a Alemanha com este trecho delicioso: «Ponho-me a examinar-lhes as caras, cujo taciturno ou seriedade, se quiserem, não é mais que contenção ou fisionomia do animal lançado numa determinada pista. Os britânicos têm sempre no sentido um alvo a tocar. Vão a reflectir, ou devaneando como eu? Qual! Vão embalados no seu inconsciente, ruminando porventura o corned beef, e parece que se não dignam reparar que vai gente ao pé deles. A vigília e inquietação são apanágio do espírito; o motor inglês é instinto e aí está a sua força. Sobem sem olhar para nós; passam diante de nós sem vénia; o comboio como o mundo é ring para eles; eis a gente de alto lá com ela a quem os pregadores alemães, durante a guerra, chamavam em suas imprecações ao Altíssimo «malandragem escrofulosa dos nevoeiros». Mas esta definição dos gentlemen ingleses, Pedro Mexia no seu prefácio não teve em conta!

Não deixa de ser observável a simpatia que Aquilino nutre pelos revolucionários alemães de 1918, nomeadamente a Karl Liebknecht e a Rosa Luxemburgo, a quem destinou um fim trágico por não terem compreendido que a hora da revolução não se teria dado então. Mas tem a noção clara do que terá representado para a Europa a criação dos sovietes de Berlim e Munique por menos de três meses. Por pouco a Europa Ocidental não teria sido socialista. A sua evidente simpatia, não obstante mais à frente criticar a revolução russa em guerra civil, é inversamente proporcional à antipatia que sente pelo social-democrata Ebert verdugo dos revolucionários que utilizou a tropa imperial, ou o que restava dela, para sufocar com sangue a insurreição. Nota Aquilino que a paga desses mesmos militares monárquicos foi o desprezo! A 10 de Outubro de 1920 Aquilino regista no seu diário o seguinte trecho que considero dos mais importantes do livro no que à Revolução de 1918 diz respeito: «(...) semelhante atonia [dos parlamentares social-democratas] acabou por dar fôlego à reacção, chamando à vida os exânimes burgueses e aristocratas, e dando origem a uma oposição ferina, com apartar-se do flanco esquerdo da social-democracia e socialismo independente, chefiado por Lebedour, e do modo mais formal o espartaquismo de queram cabecilhas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Foram estes as cabeças da hidra. O seu cavalo de batalha estava em forçar o Governo a prosseguir a via revolucionária, ceifando por um lado nos privilégios das classes possidentes, por outro trazendo, além da liberdade, bem-estar económico ao proletariado. A sua táctica consistia em quanto mais lhe dessem mais reclamar. (...) Nessa altura, reuniam os plenipotenciários em Versalhes e os exércitos da Enterite atacavam a Rússia Soviética por Odessa e o Mar Báltico. A Ditadura de Moscovo tirava o sono aos vencedores da guerra. Além do fermento revolucionário que ameaçava, levedando, contagiar a Europa doente e insatisfeita, havia o perigo de uma aliança germano-soviética, mercê da qual podiam sorvar os laboriosos frutos da vitória.» (pág.64,65). É muito interessante a visão muito própria de Aquilino Ribeiro acerca das causas do fim da revolução soviética alemã, para além daquela que se referiu acima. Afirma, com evidente conhecimento de causa, que a situação de penúria a que estava votada a Alemanha e a falta de armas e de alimentação geral foi a causa próxima da atonia que o escritor apontou atrás. Cremos que haverá outras mais consistentes no plano da estratégia revolucionária, mas damos estas como importantes igualmente.

Aquilino, neste livro a todos os títulos notável, considerado talvez um diário longe de outras obras de grande fôlego que nos doou, tem a noção exacta do que pode acontecer à Alemanha, se vier, como veio a verificar-se em 1933, um aventureiro que cavalgasse a miséria material e psíquica, atónica, a que estava votado o povo alemão; esse aventureiro chamou-se Hitler que ele refere nominalmente numa carta a Francisco Pulido Valente, em Maio de 1935 e aposta ao livro. Aí lê-se, a páginas 97 e 98, o seguinte: «Desiludido está, de modo geral, o povo germânico, desiludido de Deus, dos estadistas, da justiça, da força, desiludido desde as unhas dos pés até aos cabelos da cabeça deste governo social-democrata com Ebert na presidência, mantenedor do mais ortodoxo burguesismo para os operários, serventuário nojento dos aliados para os nacionalistas. Reconhece que o povo germânico tem necessidade de ocupar a imaginação com alguém ou alguma coisa que pelo tamanho e prestígio personifique o extraordinário. Mas onde está essa figura de proa? O Kaiser é o bronze partido à martelada de que fala Nietzsche. Hindenburgo não passa de um gigante com pescoço de toiro, bastante rebarbativo e intratável, de ignorância enciclopédica para tudo o que não seja a arte da guerra. Lundendorff, inteligência mais dúctil e penetrante; verga sob a responsabilidade da derrota. Mackensen, o invencível, não soube criar idólatras. Se aparecer um aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia, que bata o pé ao vencedor, misto de Anticristo e de Lohengrin, tem povo. Vencida mas não derrotada, a Alemanha quando puder voltará a desembainhar a espada, no que, de resto, não faz mais do que obedecer à estúpida condição humana.(...)». 

Aquilino escreve isto em 1920. Previu com antecipação notável, que só os grandes observadores são capazes, a ascensão do nazismo e a guerra que Versalhes e os vencedores foram capazes de criar em 1918. Que este livro nos sirva, para além de contemplarmos uma das maiores escritas da nossa língua, de aviso sério sobre as consequências de humilharmos povos e estados e de ver um qualquer «aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia» a sair do buraco onde hibernou durante décadas. Em 1920 ainda estávamos longe do apocalipse nuclear.

sábado, novembro 05, 2022

«Arte em Fluxo», de Boris Groys

 

Orfeu Negro, 2022, Trad. Pedro Elói Duarte
Sem dúvida um dos mais interessantes pensadores contemporâneos que une a arte e a política. São 12 capítulos que julgamos, pela sua diversidade, terem sido compilados através de artigos publicados em revistas ou jornais e que Boris Groys terá juntado neste livro.
Explica, logo no prólogo, o conceito de arte em fluxo: «A arte não prevê o futuro, mas demonstra o carácter transitório do presente - e, assim, abre caminho ao novo. A arte em fluxo engendra a sua própria tradição, a reencenação de um evento de arte como antecipação e realização de um novo começo, de um futuro em que as ordens que definem o nosso presente perderão o seu poder e desaparecerão. E como, para o pensamento do fluxo, todos os tempos são iguais, esta reencenação pode ser realizada em qualquer momento.» (pág.14)

Muito importante a tentativa (penso que com êxito) de superação do conceito de «sociedade do espectáculo» de Guy Debord. Não que este não tivesse sido exemplar na definição da sociedade, mas esta já não existe de todo. Ou seja, quando Debord falava nos tempos livres do trabalho e do trabalhador como tempo alienado, como forma de aprofundamento da exploração e estupidificação das massas, hoje o «tempo livre» já não é passado no museu, no cinema, no teatro, na livraria ou se quisermos o café falando uns com os outros. Hoje, nos tempos livres, as pessoas «trabalham, viajam, fazem desporto e exercício físico.» Não lêem livros ou contemplam arte. São «activas» no sentido muito particular do que quer dizer «criar», escrever ou fazer vídeos no Facebook, no Instagram ou no Twitter. Portanto, a acção está presente nos tempos livres, embora tão alienada como nos anos sessenta, setenta ou mesmo oitenta. É nesta inexistência de contemplação que Groys aponta a destruição e queda dos museus ou do cinema. A arte fixa, imóvel, morreu para dar lugar à performance que já vinha a ser tendência há muito tempo. Daí, hoje não haver exposições sejam elas permanentes ou não, mas sim curadorias onde se apresenta arte efémera que, em certos casos, apela politicamente à inversão da vida quotidiana ou ao combate político. Nasce assim uma espécie de activismo social que ainda está nos seus primórdios. E é aqui que Boris Groys coloca um dilema: estaremos perante arte propriamente dita ou antes na emergência de várias formas de design? 

Se estamos a aceitar que a arte é, hoje, design antes de tudo, entramos na estetização da arte o que, citando Benjamin, nos levará a uma estetização igualmente da política inerente a esse activismo, que foi o que fez o fascismo nos anos 30 com Marinetti, ou Estaline com o realismo socialista. Antes, já o construtivismo russo tinha arredado o revolucionário futurismo cujo expoente máximo seria Malevich com o seu «quadrado negro». Entramos aqui na análise dos movimentos que, de alguma forma, estiveram na primeira linha da destruição da arte como o dadaísmo e o surrealismo. Aliás, voltando a Malevich, o seu manifesto a partir de «O quadrado negro» já pedia ao poder soviético que destruísse todos os museus para dar lugar a uma arte «verdadeira e viva».

O sujeito enquanto artista e a sua relação com os Outros obriga necessariamente a uma revisitação das teorias de Marx e de Stirner sobre a produção na arte e é dos capítulos mais interessantes do livro. Se o artista quando produz arte é um ser único (Stirner) ou se é a conclusão de um processo de produção social integrado (Marx).

Seja como for a afirmação de Groys de que «as sociedades modernas estão assombradas por visões de controlo e exposição totais - visões distópicas do tipo orweliano» levam-nos para um outro patamar em que a arte ou a instalação performativa é claramente um centro de denúncia ou de acção.

«A Arte na Internet» é dos capítulos mais esclarecedores de Groys e socorro-me de uma ou outra citação sua para que fiquemos com a percepção do seu pensamento: «A internet funciona como base no pressuposto do seu carácter não-ficcional, de ter um ponto de referência na realidade offline. A internet é um meio de informação sobre algo. E este algo está sempre fora da internet - ou seja, offline.» Pode-se dizer, portanto, que na net não há arte ou literatura mas sim informação sobre arte e literatura. Não sendo uma novidade total para os utilizadores da internet não deixa de ser sintomático algumas afirmações certeiras de Groys que inverte todo o pensamento de uma possível globalização através desta ferramenta: «Seguimos certos blogues, sites de informação, revistas electrónicas e outros sítios, e ignoramos tudo o resto.  Assim, o trajecto tradicional de um autor contemporâneo não é do local para o global, mas do global para o local.(...) Na verdade, a internet não é um lugar de fluxo de dados; é uma máquina que trava e inverte os fluxos de dados. O medium da internet é a electricidade, e o fornecimento de electricidade é finito. Por conseguinte, a internet não pode suportar fluxos de dados infinitos. (...) Não devemos esquecer que a internet é propriedade privada. E os lucros dos seus proprietários decorrem sobretudo da publicidade dirigida a públicos-alvo. Temos aqui um fenómeno interessante: a monetarização da hermenêutica.(...) A mais-valia que este sujeito produz e que é apropriada pelas empresas da internet é o valor hermenêutico: o sujeito não só faz ou produz alguma coisa na net, como também se revela como um ser humano com s«certos interesses, desejos e necessidades. A monetarização da hermenêutica clássica é um dos processos mais interessantes com que nois confrontamos nas últimas décadas». Eu diria mais perigosos, igualmente.

quarta-feira, abril 27, 2022

A Honra Perdida de Katharina Blum - Heinrich Boll

 

«As personagens e a acção desta narrativa são fictícias. Se da descrição de certas práticas jornalísticas tiverem resultado semelhanças com as práticas do jornal Bild, tais semelhanças não foram intencionais nem tão-pouco casuais, são antes uma inevitabilidade.» Esta é a epígrafe que Heinrich Boll nos coloca logo no início de «A Honra Perdida de Katharina Blum» cujo subtítulo, negligenciado por muitas editoras, é este «Ou como a violência pode surgir e onde pode conduzir». 

Comprei a velhinha edição de bolso da Europa-América (baratinha, baratinha), li-o e não mais me esqueci dele. Os anos 70, na Alemanha, foram marcados pelos anos de chumbo e a polícia prendia suspeitos de terrorismo a torto e a direito, não sem o apoio e cumplicidade explícitos entre a polícia, o Estado e o jornalismo tipo Bild que tem os seus gémeos em quase todos os países europeus. Aqui em Portugal não será preciso sequer mencioná-los porque são evidentes nos escaparates das tabacarias. Baseiam-se na manipulação, em notícias falsas, para assim aumentarem as audiências e o lucro, mas também para fazer favores políticos e policiais a fim de justificarem o injustificável. Se acabarem com a reputação de uma pessoa, grupo ou partido político, azar deles. Defendam-se sabendo que em princípio um desmentido ou uma indemnização negociada a priori não tem o efeito de enorme mentira.

A narrativa em si não chega a ser um clássico, até porque Boll afirmou que se tratava de um panfleto, tão caro à política ocidental, tal como os di-bao chineses o foram na Revolução Cultural. Mas os nossos panfletos já vêm do século XVIII. Katharina Blum é uma rapariga da classe pobre alemã que no fim da II Guerra colhe os frutos do Plano Marshall e da prosperidade alemã ocidental que tenta rivalizar a todo o custo com a RDA. Solteira, consegue uma casa com um empréstimo, um volkswagen em segunda mão e é exemplar nos empregos que tem. O que não a impede de um dia para o outro ser acusada de terrorismo. Não como suspeita de terrorismo, mas como verdadeira militante de uma organização de esquerda, cúmplice de outro «terrorista» que afinal só era um desertor que roubou o cofre do regimento onde estava. A narrativa acaba com ela a dar um tiro fatal ao jornalista que manipulou toda a informação que lhe foi confiada, subvertendo afirmações, inventando outras, ameaçando testemunhas, etc.

O mais interessante desta edição da Cavalo de Ferro é o posfácio de Heinrich Boll, além da inquestionável qualidade da narrativa. 10 anos depois da edição de «A Honra Perdida...» escreve o autor: «A respeito da violência de cabeçalhos ainda é pouco o conhecimento de que se dispõe [hoje talvez se saiba mais um pouco]; e pouco se sabe também sobre até onde a violência desses cabeçalhos pode conduzir. Investigá-lo seria uma tarefa de que um dia a criminologia deveria ocupar-se: aquilo que, em toda a sua bestial ''ausência de culpabilidade'', os jornais podem vir a causar. (pág.123)»

É evidente, sabemos todos, que este jornalismo cresceu a um ritmo alucinante desde o período dos anos de chumbo europeu e que se alcandorou exatamente no chamado terrorismo de esquerda dos Baader, das Brigadas Vermelhas, e dos independentistas de esquerda como a ETA e o IRA, servindo o Estado em toda a dimensão da denúncia e da falta de respeito pelo Direito e pelas liberdades individuais e pelo direito de expressão. A emergência da prática de tortura para esses considerados «monstros» começou a ser legitimada pelo povo exatamente com a ajuda desse tipo de jornalismo. O que Boll não teria dito hoje após o 11 de Setembro! Por isso mesmo o autor nobelizado em 1972, teve problemas com a polícia alemã, acusando-o de pactuar com o terrorismo, assaltada a sua casa, imposta a censura a artigos seus nas principais revistas e por aí adiante. Não foi o único, mas provavelmente um dos primeiros perseguidos dos media (ele nunca usou este termo).

Tradução de Paulo Rêgo.
Cavalo de Ferro, Abril de 2022.

António Luís Catarino

terça-feira, dezembro 22, 2020

«A Ladra da Fruta», de Peter Handke

Relógio D'Água, 2020, Tradução de Helena Topa

Já me tem acontecido na leitura de um livro, mas as primeiras palavras desta ficha de leitura vão, directas, para o trabalho de Helena Topa nesta tradução de «A Ladra da Fruta», de Peter Handke. É um trabalho excepcional e não queria (nem poderia) estar na sua pele a traduzir do alemão palavras, expressões, referências literárias inesperadas mas ganhando todo o sentido ao serem explicadas no final do livro por Helena Topa. Palavras e frases que o próprio Handke afirma, no decorrer da história, serem intraduzíveis alternando com expressões em alemão (a certa altura até faz um elogio à sua língua que, cá por mim, até corroboraria se não fossem as palavras de 23 letras!), francês e espanhol. Nada que não se esperasse de um livro da Relógio d'Água, mas este trabalho de tradução é mesmo de registar.

Quanto ao livro em si, lê-se de um fôlego. Não tendo capítulos ou espaços em branco para respirarmos, a cadência que nos transmite faz a leitura discorrer sem grandes problemas de fadiga. O facto estará, creio, no acompanhamento que queremos fazer com Alexia, mais tarde também com Valter, cuja viagem em espiral dura três dias. O motivo aparente, se é que é necessário um motivo, é uma caminhada pelas estradas, bosques, rios, na Picardia francesa em busca da mãe e de um irmão que não vê há muito. Alexia é siberiana e viaja em diversas situações quase surrealistas se não tivéssemos a certeza que a realidade ultrapassa em muito a ficção, tornando a deriva de Alexia verosímil. 

Utilizei o termo «deriva» porque é mesmo o que acontece nesta viagem. Se isto não é uma deriva, então o que é a busca de Alexia? Se atentarmos em Thomas de Quincey que afirmava em «Confissões de um Opiómano inglês» que Londres era uma cidade onde existiam quadrículas desconhecidas ou mapas não registados oficialmente pela polícia, onde se errava em liberdade e perigosamente, então temos uma Alexia em deriva constante. Se quisermos até chamar a psicogeografia, teremos igualmente uma Alexia em busca permanente de uma identidade e de um lugar onde se identifique com ela própria. Por isso move-se em espiral, como nos informa Handke. Porque se encontra com lugares, pessoas e animais que lhe dizem quem é, mas que ela abandona de seguida - em espiral, para nunca se repetir o encontro, tal como a História, em Mircea Eliade. Esta nunca se repete se bem que os lugares-comuns, muitos deles assinalados pelo autor na obra, o repitam até ao enjoo. Não, a História não se repete. Toca-se em espiral, num movimento helicoidal, como as molas dos nossos automóveis. 

E, se para esta obra excepcional, fosse necessário mostrar um epílogo, de tantos que tem, visto que a deriva de Alexia, tal como qualquer deriva, não tem fim, eu escolheria este discurso do pai:« «Nós, os que não temos Estado, aqui e hoje livres do Estado, inatingíveis pelo Estado. Tudo se converteu em seitas, Estados e Igrejas e...e...E nós? Fugitivos do tempo, heróis da fuga. Nós, que não temos um papel, enquanto os homens do Estado continuam, imperturbáveis, nos seus papéis. Nós, os eternos destemidos cheios de temor. Os eternos hesitantes e procrastinadores. Os que escolhemos os desvios. Os que andamos em círculos e espirais. Os-que-olhamos-por-cima-do-ombro para o vazio. Os herdeiros da culpa. Os amantes do amargo. Nós, os prestáveis, dinastia de serviçais, nobreza hereditária de obsequiosos. Nós, os rotos, marquesas e condes hereditários ''von Roto''. Nós, as figuras marginais! (Exclamação: «Viva o roto! Vivam as figuras marginais!») «Nós, os ilegais e os desesperados. Que temos, contudo, uma lei. Nós, os lutadores de causas perdidas.» (Exclamação: «Vida longa aos que lutam por causas perdidas!»).»»

Sois dados a serem prestáveis, pertencerem a uma dinastia de serviçais ou, ainda, eternos obsequiosos? Então não leiam este livro. Mas sereis agradavelmente surpreendidos se forem permanentes lutadores de causas perdidas.

António Luís Catarino. 

22 de Dezembro de 2020

quinta-feira, agosto 27, 2020

«O Ouriço e a Raposa», de Isaiah Berlin

 O Ouriço e a Raposa”: o livro mais importante de Isaiah Berlin é publicado  pela primeira vez em Portugal – Comunidade Cultura e Arte

Era uma vez um ouriço e uma raposa... este ensaio de Isaiah Berlin poderia iniciar-se assim mesmo, que não levaríamos a mal. Poderia tomar a forma de uma fábula, mas não é disso que se trata. É uma adaptação de versos de Arquíloco quando este afirma «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Quereis ser raposa ou ouriço? Aqueles que veem o mundo através de um princípio organizador único serão um ouriço. Raposas serão os que interpretam o mundo através de várias pontas e vários prismas. I.B. dá então um exemplo: como raposas estão inseridos Dante, Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce; ouriços, embora em graus diferentes, são Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust.

Para um liberal como Isaiah Berlin esta preocupação de catalogar personalidades tão ricas, de ambos os lados, não deixa de nos espantar e mesmo preocupar, pensando nós que esta necessidade de compartimentação intelectual, não se sabe bem porquê, pertenceria eventualmente à esquerda, traduzida do «gauche»  francês por canhestro, desajeitado, do italiano «sinistra», belíssimo termo que nos transporta a uma entidade suspeita de muitos males e a portuguesa «esquerda», esquerda que, até meados do século XX, ainda era conotada com o diabo, razão pela qual os canhotos eram obrigados na escola a corrigirem, por vezes à pancada, a mania estúpida de escrever sem ser com a mão direita! E, já agora, Lenine para quem o esquerdismo era uma doença infantil do comunismo, tipo sarampo ou escarlatina.

Mais nos admiramos com a prelecção de Berlin, considerada pelo The Guardian como o 28º melhor ensaio de todos os tempos (nada meigos!), quando este se debruça sobre o «Guerra e Paz» de Tolstói e sobre o autor, ele-mesmo. Tolstói não figura, se repararem naqueles rótulos, como raposa ou ouriço. Isaiah Berlin coloca-o num limbo afirmando que Tolstói era um ouriço que queria ser raposa, devido à sua visão unitária do mundo, mas com dúvidas imensas que o levavam a analisar tudo sob várias perspectivas. Até se compreende mas, ao afirmar que Stendhal era a «dívida» de toda a obra de Tolstói o que ele teria corroborado numa entrevista, porque não o colocou aquele como raposa? Mas a surpresa maior é que esta alocução, que teve vários títulos diferentes, críticas a rodos e contrariedades várias, e que nos apercebemos nesta edição, tem o sub-título de «Ensaio sobre a visão da História de Tolstói» e aqui, com a devida proporção, surgem tantas dúvidas quantas as que teve Tolstói durante toda a sua vida! Como se pode afirmar o positivismo de Tolstói no epílogo de «Guerra e Paz» que, como nos lembramos, é dedicada às questões históricas? Ora, como sabemos, o positivismo trouxe consigo algumas correcções necessárias às Ciências Humanas, mas limitou-se, em História, a uma descrição interminável de factos e acontecimentos datados, que teriam como protagonistas actores de vulto fossem eles somente reis, presidentes, ministros ou cabos de guerra. Quando lemos o epílogo da obra de Tolstói reparamos que nada disto é seguido optando este por descrever a História como uma sucessão de factos em que os agentes políticos ou militares nada mudam, nunca transformam nada de facto, julgando-se, ao mesmo tempo, donos do devir do mundo. Tolstói apresenta-nos a sucessão de acontecimentos históricos como sendo originados por forças ocultas, telúricas, criadas por uma mole imensa de vontades estranhas e que se conjugam aqui e ali numa forte torrente. Chega a desdenhar os grandes vultos do seu tempo, como Kotuzov, Napoleão, Alexandre, Catarina ou os Habsburgos que julgam poder mudar alguma coisa. Portanto, Tolstói positivista?

Há, contudo, outras afirmações que não são menos polémicas por parte de Isaiah Berlin. Já sabemos que ele era um liberal adverso de todos os totalitarismos. Se pensarmos que este ensaio foi escrito em 1953, oito anos após o derrube do nazi-fascismo em que os sentimentos antifascistas estavam muito vivos (mais do que hoje, diga-se), compreende-se que se possam ver teorias fascistas de um modo exacerbado, mas Tolstói precursor do fascismo indo buscar a Proudhon e a De Maistre as suas ideias não será um pouco demasiado? Mesmo que no fim de um capítulo do ensaio I.B. seja mais suave. Vejamos o que diz Berlin: «A analogia [com De Maistre] não pode, ainda assim, ser excessivamente vincada: é verdade que tanto Maistre e Tolstói atribuem a maior importância possível à guerra e ao conflito, mas Maistre, como Proudhon depois dele, exalta a guerra e declara-a misteriosa e divina, enquanto Tolstói a detesta e a considera, em princípio, explicável, desde que saibamos o suficiente acerca das muitas pequenas causas – o famoso «diferencial» da história. (...) A visão de Maistre é a de um mundo de criaturas selvagens que se atiram umas às outras sem dó nem piedade, matam por matar, coisa que vê como a condição normal de toda a vida animada. Tolstói está longe de tal terror, crime e sadismo, e não é, com a devida licença de Albert Sorel e Vogüé [estes verdadeiros arautos do fascismo moderno], em sentido nenhum, um místico: não receia questionar nada e acredita na existência de uma qualquer resposta simples – basta que não insistamos em torturar-nos a procurá-la em lugares estranhos e remotos quando ela está sempre à nossa frente.»

E as diferenças continuam por mais páginas a seguir a esta. Pergunta-se agora: de que vale levantar uma questão através de uma afirmação polémica, como exemplo «...seria Tolstói um seguidor de De Maistre [ou já agora de Bossuet] paladinos do absolutismo e seguidos por fascistas?», para depois passar o resto do ensaio (o 28º oitavo melhor de todos os tempos, repita-se!) a dizer o contrário e a sublinhar as diferenças? Será esta a verdadeira metodologia para um êxito ensaístico?

António Luís Catarino

Coimbra, 27 de Agosto de 2020