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quarta-feira, julho 09, 2025

Heiner Müller. Estudos 5

 

Heiner Müller. Estudos 5. Tinta da china, acrílico e colagem. 
Com a Galeria / Atelier Ícone 

segunda-feira, agosto 07, 2023

«O Duplo Rimbaud», Victor Segalen

 


Longe de uma tentativa de comparar uma edição e outra, vi-me a ler as duas por uma questão de ter «descoberto» Victor Segalen quando editei em 2008, na Deriva, «O Espírito Nómada» de Kenneth White. No prefácio este explica o conceito de nómada inserido no movimento geopoético fundado por ele. No prefácio desse livro ele explica o que o levou a incluir, entre outros, Rimbaud e Victor Segalen que navegou por mares longínquos, passando por Harare e China. Diz White nesse prefácio o seguinte: «Desde há alguns anos para cá, a palavra "nómada" anda no ar. De um modo vago e que necessita apenas de tornar-se preciso, designa o movimento que se esboça no sentido de um novo espaço intelectual e cultural. Mas nas nossas culturas mediatizadas, cada palavra, de imediato sub-traduzida torna-se pretexto para uma moda. Do que aqui se trata não é de um assunto de moda mas de mundo.» O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes. Neste livro onde se encontrarão portanto mais peregrinações que problematizações, mais mapas que retratos, o prazer de peregrinar acaba por levar a melhor sobre o desejo de saber (aumentar e renovar o campo do saber) e no final da viagem será menos importante a questão de saber do a de ver no vazio.»

A partir deste ponto esclarecedor segundo o «nomadismo poético» de Kenneth White reparamos que Victor Segalen vive obcecado pela vida de Rimbaud, não conseguindo, contudo, que cometesse alguns erros ao citar de cor alguns versos de Rimbaud não totalmente certos, como reparou o tradutor da edição da Sistema Solar, Aníbal Fernandes. Segalen, na sua demanda, entrevistou alguns dos que conheceram aquele poeta luminoso, nomeadamente os irmãos gregos amigos e proprietários do Café de la Paix, em Harare, onde Rimbaud bebia o seu café e fazia os seus negócios, muitos deles fracassados. Creio que Segalen e outros (mais ou menos inteligentes, mais ou menos imbecis) nunca lhe perdoaram o ter abandonado com 20 anos a poesia. Quando Rimbaud perdeu a perna e regressa a França para tentar uma derradeira salvação que não consegue, Segalen, que não o conheceu pessoalmente, segue o seu rasto e fala com a irmã, Isabelle. Citei-a num desenho meu de Rimbaud que expus no Liquidâmbar em «Anjos do Desespero», em 2020, entendendo que ele era um deles. Afirmou ela a Segalen que no seu leito e já muito doente, quando ela lhe lia e, entre a narrativa se sobrepunha um poema, ele pedia-lhe rapidamente para saltar por cima, para não o ler, para continuar a narrativa mas sem poesia! 
Creio que é difícil, para nós, ver um dos maiores poetas odiar a poesia, mas ele odiava-a verdadeiramente. Mesmo que as tais interpretações pseudo-freudianas nos lançarem a bóia do amor/ódio, não há volta a dar: Rimbaud é um poeta luminoso e foi-o entre os 17 e 20 anos. E isso é encantador (no que de mais verídico contém esta palavra)!
Rimbaud, António Luís Catarino, Exposição «Anjos do Desespero», 2020, Liquidâmbar. Encontra-se no desenho a citação atribuída a Isabelle Rimbaud

Edição da Sistema Solar, 2022, Preâmbulo (excelente) de Benjamim Fondane. Introdução e tradução de Aníbal Fernandes. Edição muito completa com desenhos de Verlaine, Léger, Cocteau, Rosman, Berrichon, Forsin e fotos raras de, Fondane, Isabelle e Jean-Arhur Rimbaud e retrato de Victor Segalen por Monfreid. 

Edição da Hiena, 1991, tradução de António Moura, prefácios de Bernard Nöel e Michael Taylor.

terça-feira, dezembro 01, 2020

Últimos exemplares de «Anjos do Desespero»

 

Últimos exemplares de «Anjos do Desespero».

Aproximamo-nos do final da promoção do livro/catálogo Anjos do Desespero baseado na exposição homónima que teve lugar em Coimbra, no Liquidâmbar. Referências poéticas e personagens que vos mostro juntamente com o prazer do desenho, da colagem e da recolha. Foi uma edição de autor, com a chancela da Artes Breves e composta por António Alves Martins. Tiragem pequena, permito-me informar que já existem poucos livros para venda restrita e simbólica de 12 euros. Um abraço de obrigado a quem já adquiriu o livro, todos autografados. Um agradecimento aos espaços que aceitaram expô-lo: Letra Livre em Lisboa, Utopia no Porto, Miguel de Carvalho na Figueira da Foz e Liquidâmbar em Coimbra. Uma grande cumplicidade aos que leram os textos na exposição e presentes no livro. E um obrigado igualmente aos que o vão ainda adquirir, neste fim de ciclo a que me propus. O contacto aqui vai, e a tempo, por causa do tempo: alcatarino3@gmail.com

António Luís Catarino

1 de Dezembro de 2020

sábado, novembro 07, 2020

«Anjos do Desespero», livro-catálogo de António Luís Catarino




A exposição Anjos do Desespero, concebida no Porto e em Coimbra entre 2016 e 2018, contém um conjunto de desenhos que pretende mostrar-nos estes anjos enquanto mensageiros, como diria Llansol, que fizeram a modernidade e a contemporaneidade. A sua existência reflectirá nas pessoas interpretações que só lhes cabe a elas verem. Porque é possível «ver» um desenho colectivamente. Não será possível «ver» um livro da mesma forma. As escritas que enformam os desenhos são a tentativa não de uma explicação obviamente absurda, mas de uma recusa da individualização de uma única forma e o desejo de as entrecruzar. Daí, o processo das leituras que acompanham os desenhos/colagens, realizadas por amigos, que tiveram lugar na apresentação pública da exposição no Liquidâmbar (Coimbra), em 14 de Maio de 2018. Os Anjos do Desespero, tal como Paul Klee os pintou, como Heiner Müller fez deles poemas, e Wim Wenders os filmou em As Asas do Desejo, são aqueles que, apesar de tudo, rejeitam a imortalidade porque exigem a Vida total, exaltam uma liberdade pura e tentam enlouquecer-nos, como uma saída possível, para que acabemos com o sofrimento contínuo de uma vida quotidiana sem senso. Müller avisa-nos: Eu sou o anjo do desespero, com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. Substituindo o silêncio e o ruído destes desenhos figurativos a carvão, aguarelados e contornados a tinta-da-china, sobrelevam-se as colagens e as palavras. Porque só as colagens interagem com o impossível, com o absurdo, com o non-sense. Daí a sua importância unificadora e congruente. Produzem todas, no seu cruzamento simbólico, o vácuo. Esse grande vácuo por onde voam estes anjos desesperados, vívidos.

António Luís Catarino

Coimbra 5de Novembro de 2020

 Texto de apresentação
5.      Cartaz da exposição
7.      Leitura 1 – Heiner Müller, leitura de Rui Damasceno, «O Anjo de Desespero», Relógio d’Água.
8.      Desenho 1
9.      Leitura 2 – Isidore Ducasse / Conde de Lautréamont, leitura de António Alves Marins, «Os Cantos de Maldoror», Antígona.
10. Desenho 2
11. Leitura 3 – Guy Debord, leitura de António Alves Martins, «A Sociedade do Espectáculo», mobilis in mobile.
12. Desenho 3
13. Leitura 4 – Charles Baudelaire, leitura de Maria João Seabra Santos, «O Rapaz Raro», Relógio d’Água.
14. Desenho 4
15. Leitura 5 – Asger Jorn, leitura de Manuel Rocha, «A Roda da Fortuna», Frenesi.
16. Desenho 5
17. Leitura 6 – Alfred Jarry, leitura de Rui Damasceno, «UBU», Campo das Letras.
18. Desenho 6
19. Leitura 7 – Raoul Vaneigem, leitura de João Pedro Gonçalves, «Aviso aos alunos do Básico e do Secundário», Antígona.
20. Desenho 7
21. Leitura 8 – Ulrike Meinhof, leitura de João Moreira, «Everybody Talks About the Weather . . . We Don't: The Writings of Ulrike Meinhof», Seven Stories Press.
22. Desenho 8
23. Leitura 9 – Hanna Arendt, leitura de Sílvia Franklin, «As Origens do Totalitarismo», D. Quixote.
24. Desenho 9
25. Leitura 10 – Wallace Stevens, leitura de Sílvia Franklin, «Antologia», Relógio D’Água.
26. Desenho 10

   O preço da edição de autor é de 12 euros.

NIB: PT50003502390000097490077


não te esquecendo de avisar para alcatarino3@gmail.com ou pelo Messenger quando fizeres a transferência e enviares-me por mail o teu endereço.

quarta-feira, maio 23, 2018

Exposição de desenhos Anjos do Desespero, 14 de Maio de 2018, abertura às 21:30 no Liquidâmbar, Praça da República, 28, Coimbra

Cartaz de Ana Catarino


A exposição Anjos do desespero concebida no Porto e em Coimbra entre 2016 e 2018, contém um conjunto de desenhos que pretende mostrar-nos estes anjos como mensageiros, como diria Llansol, que fizeram a modernidade e a contemporaneidade. A sua existência reflectirá nas pessoas interpretações que só lhes cabe a elas verem. Porque é possível «ver» um desenho colectivamente. Não será possível «ver» um livro da mesma forma. As escritas que enformam os desenhos são a tentativa não de uma explicação obviamente absurda, mas uma recusa da individualização de uma única forma e o desejo de as entrecruzar. Os Anjos do desespero tal como Paul Klee os pintou, como Heiner Müller fez deles poemas, e Wim Wenders os filmou em As Asas do desejo são aqueles que, apesar de tudo, rejeitam a imortalidade porque exigem a Vida total, exaltam uma liberdade pura e tentam enlouquecer-nos, como uma saída possível, para que acabemos com o sofrimento contínuo de uma vida quotidiana sem senso. Müller avisa-nos: Eu sou o anjo do desespero, com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. Substituindo o silêncio e o ruído destes desenhos figurativos a carvão, aguarelados e contornados a tinta-da-china, sobrelevam-se as colagens e as palavras. Porque só as colagens interagem com o impossível, com o absurdo, com o non-sense. Daí a sua importância unificadora e congruente. Produzem todas, no seu cruzamento simbólico, o vácuo. Esse grande vácuo por onde voam estes anjos desesperados, vívidos.

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de abril de 2018