terça-feira, agosto 02, 2022

Malina, de Ingeborg Bachmann

 

Antígona, 2022. Tradução: Helena Topa

Ingeborg Bachmann - Getty Images

Por vezes pergunto-me, mas só a mim, o que os germânicos, e particularmente os austríacos, têm contra as mulheres livres. A resposta está não só na sociedade fortemente patriarcal do interior da Áustria (não propriamente de Viena, a cosmopolita) como no nazismo que ainda perdura, lá e na Alemanha. «O fascismo é a coisa primeira a vigorar na relação entre um homem e uma mulher...» disse Ingeborg Bachmann citada por outra escritora «maldita» Elfriede Jielinek de quem já falámos aqui, por mais de uma vez neste blogue, e que faz um posfácio datado de 1983, «pago e não publicado» pela Spiegel! Diz Jielinek que os editores não esperavam que ela dissesse bem de Ingeborg.

Vejamos: Ingeborg nasce em 1926 e vê desfilar à sua frente as hordas nazis com verdadeiro «horror». Com 9 ou 10 anos começam as perseguições a judeus  e a Noite de Cristal que podia ser o título de uma bela história infantil que o pai lhe devia ler na cama, não foi mais que o assassínio consentido por milhões de alemães e também pelo pai que adere ao NDASP e por quem alimenta um verdadeiro ódio, em capítulo sonhado, mas extremamente violento. Por essa altura dá-se o Anschluss e lá vai a Áustria integrar o III Reich que inicia a II Guerra Mundial terá ela 13 anos. No final da guerra tem Ingeborg 18 anos, idade de todas as utopias, só que as dela são bem diferentes das delicodoces esperanças do pós-guerra. Em 1946 nasce Jielinek que a conhece e contacta com ela. Por aquilo que li de uma e de outra tornam-se amigas. São verdadeiras escritoras do pós-guerra que puseram os dedos em várias feridas e que são ostracizadas por isso mesmo, já que, falando de literatura, estamos perante o melhor que tenho lido.

Deprimida, arrasadora, violenta e paradoxalmente submissa para com Malina (é um homem, sendo o nome de sonoridade feminina, propositado) e Ivan, cria um triângulo amoroso, que me atrevo a comparar com a sua vida real entre Paul Celan e Max Frisch. Pouco importa. Tais minudências não são para aqui chamadas. O que sobressai é o jogo de domínio exercido pelos dois sobre ela, que a destrói. O final do livro é composto por uma só palavras: «assassínio».

Existe, quanto a mim, uma estranha, quanto assustadora coincidência: durante o livro deparei-me várias vezes com a descrição de fogos. Na Universidade onde faz um doutoramento tem os pés em chamas e o cheiro a queimado invade os corredores, tem preocupações constantes com o fogão, com as velas, com a queima de documentos e cartas, de lume para os seus cigarros. Sabendo, pela sua biografia e pelo belíssimo ensaio de Jelinek que ela faleceu com queimaduras graves devido a um incêndio em sua casa, fico a pensar que isto só acontece a almas atormentadas, mas infinitamente altivas, cujo orgulho que lhe restava ainda se sobrepôs a todos os que a quiseram derrubar. Mas isto, como disse no início, sou eu a pensar. Como se ela fosse o anjo de Klee.

«Surge um tumulto de palavras na minha cabeça e depois um lampejo, algumas sílabas já cintilam, e de todas aquelas frases encaixadas voam vírgulas coloridas, e os pontos, que já foram pretos, sobem-me à cabeça, cheios como balões, porque no livro magnífico que estou prestes a descobrir tudo vai ser como um EXULTATE JUBILATE. Se este livro vier a existir, e um dia terá de existir, as pessoas vão atirar-se ao chão de alegria ao fim de uma página apenas, vão pular de contentes, vão ser confortadas, vão continuar a ler e a morder a mão para não gritarem de alegria, é impossível resistir, e quando se sentarem no parapeito da janela e continuarem a ler, atirarão conffetti às pessoas qua passam na rua, para que se detenham de espanto, como se tivessem ido parar a uma floresta de Carnaval, atirarão maçãs e nozes, tâmaras e figos lá para baixo como se fosse o dia de S. Nicolau, debruçando-se da janela, sem sentir vertigens, e gritando: Ouçam, ouçam! vejam, vejam só!, li uma coisa maravilhosa, posso ler-vos cheguem-se mais perto, é deveras maravilhoso!» págs.45 e 46

«Vivo neste mundo animado como uma mulher semi-selvagem, libertada pela primeira vez dos juízos e preconceitos do mundo à minha volta, incapaz já de fazer um juízo sobre o mundo, capaz apenas de dar uma resposta imediata, de choro e gemido, felicidade e alegria, fome e sede, porque durante muito tempo não vivi. (...)» pág.64

«A História ensina, mas não tem alunos» pág.76

«Um dia virá em que as pessoas terão olhos-negros dourados, em que verão a beleza, em que serão libertadas da sujidade e de todas as cargas, elevar-se-ão nos ares, mergulharão nas águas, esquecerão os seus calos e as suas privações. Um dia virá em que serão livres, todos os seres humanos serão livres, até da liberdade que tinham presumido. Haverá uma liberdade maior, ultrapassará todas as medidas, durará toda uma vida.» pág.104

«Um dia virá em que as nossas casas cairão, os automóveis terão sido transformados em sucata, em que teremos sido libertados dos aviões e dos foguetões, em que renunciaremos à descoberta da roda e da cisão do átomo, em que o vento fresco descerá das colinas azuis e expandirá o nosso peito, em que estaremos mortos e respiraremos, será por toda uma vida.» pág. 122

«Nunca mais,
É sempre guerra.
Aqui há sempre violência.
Aqui há sempre luta.
É a guerra eterna.» pág.207

«Malina» foi escrito em 1971 e faria parte de uma trilogia que, infelizmente, ficou incompleta com a morte trágica da escritora em 1973. Foi agora editado pela Antígona e traduzido por Helena Topa.

domingo, julho 17, 2022

«O Fim do Mundo Não Terá Acontecido», de Patrik Ourednik


Tradução: Júlio Henriques. Antígona, 2022
Depois de «Europeana», o checo Patrik Ourednik, parte, em 2017, para mais um livro sarcástico sobre o capitaloceno e as contradições por vezes kafkianas que são parte dele. O autor não poupa os dirigentes do mundo e muito menos o leitor, não fosse ele igualmente tradutor de Boris Vian, Rabelais, Alfred Jarry (olha que três!) e Raymond Queneau. Um livro de uma ironia tão fina que entra pelos nossos poros e por debaixo da porta, com grande prazer de leitura, mesmo sendo nós os que de um modo ou de outro deixam chegar as coisas até ao estado lamentável em que nos encontramos.

«O futuro já não é o que era.Você deve ter-se apercebido disso: o futuro já não é o que era. No passado, o futuro desenrolava-se principalmente segundo três modos de acção.
  • O mundo acabava e tudo começava do zero para um mundo idêntico, versão pessimista da maioria das crenças.
  • O mundo acabava num banho de sangue medonho e derradeiro, e sobrevinha então um mundo de felicidade, versão optimista de certas religiões.
  • O mundo nunca acabava e a felicidade, que era o seu fermento, ia aumentando até ao fim dos tempos, eles próprios indefinidamente renováveis, versão temerária dos fins da História.
Mas no início do século XXI, estas teorias estavam obsoletas. As previsões tinham evoluído. Todas as pessoas dotadas de um certo sentido das realidades concordavam num ponto: seja qual for o procedimento encarado, isto vai acabar mal. Ou num medonho banho de sangue seguido de coisa nenhuma, hipótese optimista. Ou em banhos de sangue um pouco por toda a parte seguidos de outros banhos de sangue um pouco por toda a parte, indefinidamente, até o universo se dilatar suficientemente para que a sua densidade atinja um valor infinito, provocando assim a destruição das galáxias e dos pobres-diabos que nelas habitam. Alguns observadores acrescentavam a isso um elemento complementar: o embrutecimento paralelo e até aqui inconcebível da Humanidade.» (pág.8)

Acresce dizer que Gaspard a personagem central do livro, embora Adolph, o boche, não lhe fique atrás, é um secretário importante do presidente mais estúpido dos EUA. O problema para o leitor é saber a qual se refere.

Também sobre o lema que a editora escolheu (e bem) para a contracapa é este pensamento de Ourednik: «O abuso da inteligência impede que se compreenda a estupidez e, por conseguinte, que a ela se pode resistir. Deste modo, a partir de um certo grau, a inteligência torna-se suficientemente estúpida para considerar a estupidez tão inteligente como ela própria.» (pág. 125)

Artigo publicado no suplemento Taboa Redonda do El Progreso de Lugo

domingo, julho 10, 2022

«Serotonina», de Michel Houllebecq

 

Tradução de Valério Romão
Alfaguara, 2019
«Deus, na verdade, ocupa-se de nós, pensa em nós a cada instante, e por vezes dá-nos instruções muito precisas. Estes arrebatamentos de amor que nos apertam o peito até nos deixarem sem ar, estas iluminações, estes êxtases, inexplicáveis do ponto de vista da nossa natureza biológica, da nossa condição de simples primatas, são sinais extremamente claros.
    E hoje percebo o ponto de vista de Cristo, o seu reiterado desespero ante o endurecimento dos corações: dispõem de todos os sinais e não os têm em consideração. É mesmo necessário dar a minha vida por estes miseráveis, ainda por cima? É necessário ser explícito a esse ponto?
    Dir-se-ia que sim.»

Michel Houllebecq, Serotonina, 2019, pág.279

sexta-feira, julho 01, 2022

«Realismo Capitalista - Não haverá alternativa?», de Mark Fisher

 

Uma síntese muito bem feita, mas não esperem um calhamaço sobre as diversas teorias anticapitalistas, embora nos ajude a ter pistas reais de alternativa à catástrofe capitalista a que o autor acrescenta o termo «tardio». Sendo ou não tardio, (Engels previa a sua morte iminente em cartas a Marx desde meados do século XIX) ele vai impondo-se subjectivamente, inconscientemente em nós, entrando-nos no corpo, na mente, reduzindo a família nuclear numa espécie de indivíduos desligados entre si, mas ligados às correntes digitais. O público vê-se cada vez mais refém do privado. Mas que privado? Que corporações? Que rostos os do capitalismo? Entretanto este desconhecimento, o esconderijo político e económico a que se remeteu, torna-o soturno, negro, depressivo, perigoso no plano da degenerescência planetária. Mark Fisher apresenta-nos o «Realismo Capitalista» como contraponto ao que foi o «Realismo Socialista» a que chama estalinista, preferindo eu o termo brejnevista, porque aquele tem mais a ver com a estagnação, embora o capitalismo se tenha tornado verdadeiramente repressor, intolerante, concentracionário a um ponto que era impensável, mesmo para os filósofos dos anos 70 do séc. XX que o previram. Um «capitalismo estalinista»? Porque não? Kafkiano? Burocrático? Tornam-se cada vez mais claras estas hipóteses quando o «neoliberalismo» se alia ao «neoconservadorismo» como se vê nos EUA, Brasil ou mesmo na Grã-Bretanha. Fisher recorre a exemplos claros disto mesmo. Perante a desordem liberal a ordem evangélica precisa de colocar o homem em presença de um sentido, uma fraude que o convença que está aqui para trabalhar, consumir, humilhar o outro, ganhar o seu primeiro milhão, coisa que nunca vai acontecer. O Estado e os dinheiros públicos, esses, rapinam-se-se para as bolhas bancárias liberais como em 2008 e transforma-se numa instituição vocacionada para o policial e para travar guerras.

Um dia, já há uns anos, estava eu a falar informalmente com um director de uma escola onde era professor e onde as coisas não funcionavam pelo melhor. Ou seja: não funcionavam mesmo. O director não parava de se queixar que não tinha apoio do Estado nem dos sindicatos. Que ele, nas instituições intermédias das escolas deixava tudo, tudinho, plasmado em atas em protesto. Foi aqui que me veio à memória o período de «estagnação» da era Brejnev. Lembrei-lhe isso mesmo e ele conhecia-a bem visto que na sua juventude tinha sido comunista. Perguntei-lhe como eram as atas, os relatórios, os documentos, as folhas de cálculo, as declarações e requerimentos mil, relatórios de autoavaliação docente e não-docente com que as escolas eram atafulhadas pela burocracia. Chegámos rapidamente à conclusão de que tudo corria pelo melhor nessas milhares de folhas e relatórios digitais: as estratégias davam certo, os alunos tinham o necessário apoio pedagógico, a avaliação era claramente positiva, os professores estavam felizes e encontravam-se doentes por tempo indeterminado por causa da coluna, não por depressões, as estruturas físicas das escolas estavam óptimas, os computadores eram quase o ratio de um por aluno e trabalhavam bem. Os alunos aborreciam-se, não largavam os telemóveis, mas a motivação era um êxito. O dinheiro era pouco, mas uma boa gestão faria dobrá-lo eficientemente. Lembrei-o que a realidade era diferente, muito diferente. Ele encolheu os ombros e disse que tinha de seguir o guião da inspecção que esteve lá somente meio-dia num ano inteiro e que desenvolveu um relatório de 30 páginas. É isto o «Realismo Capitalista» que longe ainda do seu estertor confunde os desejos com a verdadeira realidade e que Fischer reproduz tão bem neste pequeno livro. Não fossem as taras que o capitalismo neoliberal e neoconservador cria e teríamos vontade de rir. Mas até o divertimento é ele que guia. O pensamento crítico, não. Como diz o autor no fim do seu livro «o antagonismo dos mineiros de Tatcher foram substituídos pelo sentimentalismo anódino e vagamente protestativo do Live Aid». Até nos levantarmos em peso por exaustão do consumismo e não termos nada a perder contra o capitalismo a não ser as nossas grilhetas. É preciso é identificar quais são. 

Leiamos Mark Fisher: «Recuperar uma verdadeira vontade política significa antes de mais aceitar a nossa inserção no plano do desejo na trituradora desapiedada do Capital. O que tem sido renegado na abjecção do mal e da ignorância nos Outros fantasmáticos é a nossa própria cumplicidade com as redes planetárias de opressão. O que convém reter é que o capitalismo é uma estrutura hiperabstracta e que nada seria sem a nossa cooperação. A descrição mais gótica do Capital é também a mais exacta. O capital é um parasita abstracto, um vampiro insaciável e um criador de mortos-vivos; porém, a carne viva que ele converte em mão-de-obra morta é a nossa, e os mortos-vivos que ele cria somos nós. Há um sentido em que simplesmente se comprova que a elite política é de facto a nossa serva; o miserável serviço que nos presta é lavar a nossa libido, reapresentar obsequiosamente diante de nós os nossos desejos renegados como se nada tivessem que ver connosco.» (pág.29)

«O sistema através do qual a escola é financiada significa que ela não se pode literalmente dar ao luxo de excluir alunos, mesmo que queira. Os recursos são destinados às escolas com base no sucesso alcançado com base no sucesso no cumprimento das metas de aproveitamento, assiduidade e retenção de alunos. Esta conjugação entre imperativos de mercado e «metas» burocraticamente fixadas é típica das iniciativas «estalinistas de mercado» que actualmente governam os serviços públicos. A ausência de um sistema disciplinar eficaz não foi, para não dizer mais, compensada com um aumento da motivação própria dos alunos. Os estudantes têm consciência de que se passarem semanas a fio sem irem às aulas, e/ou se não produzirem algum trabalho, não terão de enfrentar nenhuma sanção significativa. A reacção típica que têm perante tal liberdade é não levarem a cabo os projectos, preferindo entregar-se à lassidão hedónica (ou anedónica): a suave nracose, o esquecimento reconfortante da Playstation, a televisão noite fora e a marijuana.» (pág.42)

Edições VS - Vasco Santos

2ª edição, 2022


segunda-feira, junho 27, 2022

Flauta de Luz, nº9. A minha colaboração num número de excelente qualidade

 




Gosto de ver os meus desenhos para o artigo de José Janela, assim, como se tivesse num café a folhear uma revista que pela equipa de Júlio Henriques nos chega às mãos. Tal como no Jornal Mapa 34, ficam toscos, com luz difusa, cortados... mas que fiquei feliz, sim fiquei.

«História da Menina Perdida», Vol.IV, Elena Ferrante

 


E é isto: a saga chegou ao fim, com alguma pena minha que não me importava nada que continuasse. Mesmo que a parte final do livro se arraste um pouco em descrições psicológicas de que já tínhamos pressentido e (re)conhecido em volumes anteriores. Mas o mais interessante deste volume é não só a separação, muitas delas bem violentas, das famílias daquele bairro velho de Nápoles, mas igualmente a «separação» do povo italiano como um todo. As grandes famílias ligadas à intelligensia política caíram como um castelo de cartas que julgariam sólido na sua base. A corrupção era o mote, não só dos políticos, mas de juízes, procuradores, polícias, intelectuais. Tudo arrasava o Estado, servido logo ao pequeno-almoço para ser esbulhado. Mas também a esquerda caiu enredada na sua teia, dividida, arrependida, subserviente ao novo poder dos «novos» partidos que afundam ainda hoje a Itália. A violência, essa, continua sobre novas realidades, com leis e penas incompreensivelmente gravosas. A classe operária negociou a «pace» através de um reformismo que julgava ser a única saída. Não o foi. Não será nunca.

«Eram anos complicados. A ordem do mundo em que  nós crescêramos estava a dissolver-se. As velhas competências devidas a um longo estudo e à ciência da linha política certa pareciam, de repente, um modo insensato de passar o tempo. Anárquico, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotsquista, maoista, operaísta, estavam rapidamente a tornar-se rótulos retrógrados, ou pior, um estigma de brutalidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica do lucro máximo, que antes eram consideradas uma abominação. tinham voltado a ser, por toda a parte, as bases da liberdade e da democracia.»(pág.376). 

E entretanto, toda a gente ia parar à prisão, cujas portas se abriam à repressão brutal e à discricionariedade da polícia e da «justiça». Bastava ser amigo de um «terrorista» e passava dois anos na cadeia para averiguações: Nadia, a «filha-família» de intelectuais de renome de Itália e florentinos (nos dois sentidos) e que tinha entrado nas Brigadas Vermelhas, cujo pai influente tinha sido apanhado também ele pelas teias da corrupção, denuncia Pasqualle das BV por crimes que fez e que não fez, a troco de uma redução substancial da pena. A partir daí lista nomes já por vingança, por invejas ou para pagar uma afronta. Denuncia outros amigos como Enzo e Antonio Pannucci que nada tinham a ver com as BV ou a Prima Línea. Os irmãos camorristas Sollara são mortos em frente à Catedral sem que ninguém visse quem foi e embora tenham dito que não tinham passa-montanhas, a heroína corroía os jardins de Nápoles, a filha de Lila foi raptada pelos Solara e passados anos nada se sabia dela, a carreira literária de Lenú tem outro alento e a vida continua, violenta, brutal, tanto no ódio, como no amor. No fim Elena Ferrante dá-nos conta da metáfora que liga a Praça Carbonaria de Nápoles com toda a Itália. No meio do lixo, de animais mortos de cadáveres insepultos, de legumes podres, lutam jovens até à morte e pela navalha e pela honra. Morre-se um pouco sem saber o porquê. 

Nada disto, todavia, me tenta saber quem é de facto Elena Ferrante. Não a procuro na net. Não me interessa nada. Que é uma boa escritora, é-o sem dúvida.

«A Eliminação», de Rithy Panh ou a utopia sangrenta dos khmers vermelhos

«Se és um libertário, se queres ser livre, porque é que não morres ao nascer?» Slogan Khmer, 1977

Há imbecis em todo o lado. Principalmente em intelectuais que escrevem para os jornais a troco de algumas prebendas sejam elas em dinheiro ou notoriedade no «Le Monde» como Alain Badiou, Edward Herman ou Chomsky para citar os mais conhecidos. Ou pior: por cumplicidade ideológica. Só que esta última pouco tem a ver com o comunismo ou coisa que o valha. Só que este slogan, repetido e expandido por muitos outros slogans completamente dementes tiveram consequências num povo inteiro, o khmer, ou melhor o cambojano, que entre 1975 e 1979, fizeram padecer em execuções sumárias ou à fome programada 1,7 milhões de pessoas. O seu objectivo, o objectivo do Angkar ou do colectivo 807 e principalmente do Camarada número 1, ou Pol Pot, era construir um 4 anos apenas uma pátria (ah, o nacionalismo!) de operários e camponeses. Evacuaram totalmente Phnom Penh, executaram os intelectuais, estudantes membros das profissões liberais, deslocaram em massa populações inteiras para as aldeias, criaram uma divisão entre «povo antigo» os da montanha e das florestas que conheciam um tipo muito particular de «comunismo primitivo» e o «povo novo» que em princípio era identificado como sendo os que tinham a influência da cidade, do pensamento burguês, da influência francesa ou americana. Quando os Khmers derrubaram o antigo regime corrupto foram recebidos com grande expectativa, embora se notasse já um autoritarismo singular que não permitia o contacto físico dos guerrilheiros com o povo que o vinha saudar. A partir daí, o Angkar (o comité central do PCK) foi dono e senhor dos destinos do chamado Kampuchea Democrático.

O autor é Rithy Panh, um cineasta premiado em Cannes, em 2013, com Un Certain Regard, mas foi com S21- A Máquina da Morte dos Kkmers Vermelhos, de 2003 que ele atingiu uma certa notoriedade que o levou à denúncia do verdadeiro genocídio do povo khmer. Para fazer desaparecer !/4 da sua população só com um método igual aos genocidas nazis. E é assim que Panh se senta, na prisão do Tribunal Penal Internacional (que até certo ponto foi vergonhoso) para entrevistar o Camarada Duch. Tenho de explicar: durante 4 anos do regime Khmer houve carrascos e o carrasco-mor era Duch. Panh (na ocasião, umjovem de 16 anos) passou 4 anos em várias situações de humilhações e violências indescritíveis: viu suicidar-se o pai, morrer de exaustão a mãe, as suas irmãs, um irmão e 3 sobrinhos de 3, 5 e 7 anos de idade através da fome. Viu morrer amigos em campos de arrozais. Nada que não saibamos de descrições similares noutras latitudes, infelizmente. Mas este livro tem um condão interessante: eu vi o seu primeiro filme há uns anos creio que na RTP2 e vi o camarada Duch que se ria bastante durante a entrevista, que assumia tudo o que se passava no campo de extermínio S21, mas que não viu nada, não ouviu os gritos dos supliciados, que cumpria ordens. Contudo, é diferente de Eichmann. Duch não é um burocrata. Duch era um assassino em nome da ideologia. Era a ideologia, melhor, os slogans que o comandavam ao ponto de enviar para execução familiares seus. Duch ri-se muito e exalta-se somente quando Panh lhe pergunta se a sua recém conversão ao cristianismo evangélico o vai salvar! A resposta é linear e mórbida: «Deus já me perdoou e, Sr, Panh, não brinque com a religião!» É evidente, para mim, que me passou ao lado estes pormenores no filme, onde há sempre elementos distractores, mas o livro, embora não estando muito bem escrito, mesmo com a ajuda de Cristophe Bataille, ajuda-nos a fixar momentos inesquecíveis e relermos pormenores que dantes não reparámos em imagens.
Uns dos momentos que mais me inquietou neste livro foi o facto de um único ténue protesto que nos foi dado a conhecer frente aos Khmers (com a devida retaliação a quem os fez) e devido à fome generalizada foi o recurso ao exemplo de Cuba e da China, países comunistas «onde não se passava fome e havia cuidados de saúde» e uma outra foi o facto de os torturados antes de serem executados terem de assinar a sua confissão que estavam ao serviço do KGB, da CIA ou do Vietname que o invadiu o Camboja em 1980, remetendo os khmers para a selva. Pol Pot morreu em 1985, em paz, numa aldeia do norte, em pleno «comunismo primitivo».
Quanto à ONU de Kurt Waldeim, um cretino que andou pelos Balcãs a exterminar guerrilheiros junto com o exército nazi, esse, assinou um relatório apresentado pelos americanos que afirmava que entre 1978 e 79 não teria havido uma única execução! As organizações independentes afirmam categoricamente que foi um ano terrível onde se poderiam contar mais de 500 mil vítimas das 1,7 milhões que o «regime» produziu! O Tribunal Penal Internacional assinou de cruz e o Camarada Duch e outros tiveram uma pena considerada leve. 

Publicação da Antígona, Janeiro de 2022

domingo, junho 19, 2022

«A Possibilidade de uma ilha», de Michel Houellebecq

 


Este livro foi-me antipático no início. Nessa ocasião afastei-me dele, digamos, com o ruído possível para um facebook que está na sua grande maioria de costas voltadas para os livros. Voltei a ele desde o início e fui reparando nos seus inúmeros alter ego que constroem a narrativa. Parece-me que o que me levou à expulsão imediata do livro de Houellebecq foi a personagem inicial de um Daniel «humorista» que procurava o seu primeiro milhão de euros através de piadas sobre as palestinianas, sobre as mulheres, os homossexuais, sobre o suicídio do seu próprio filho ou a tristíssima frase «lambe-me a faixa de Gaza». Mas conseguiu o seu milhão depois multiplicado por muitos, mais tarde quando entra no cinema porno de choque e ainda por cima com laivos políticos contra árabes, negros, jovens e mulheres. Às vezes não aguentamos, o leitor ainda não é um tipo anódino, inócuo aos sentimentos (a sua aniquilação é um objetivo do neoliberalismo autoritário). 
Provavelmente, fui impulsivo na minha reação às primeiras páginas. Mas um bom livro provoca-nos. Houellebecq pode não ser nada disso. Pode não ser (não é) um Céline ou um Pound. Politicamente não é um maurrasiano, nem lepenista. Não é decididamente um fascista. Odeia a guerra. Compreendi melhor o que pretende (e já não é o primeiro livro que leio dele): é provável que exija exasperadamente um regresso à humanidade (não ao humanismo!) ao que ela tem de mais positivo nas relações sociais pré-industriais. O escritor é contraditório? Sim, também é. Mas e então? A sua vida, aquela que ele expõe publicamente, é constituída por um consumo obsessivo por produtos exclusivamente agro-industriais? Pela mesma marca de bacon ou de presunto e vinho da mesma marca; pelas mesmas parkas verdes e calças castanhas? Por botas Timberland? Que temos nós com isso? Vista o que quiser, mas este «A possibilidade de uma ilha» é um livro de amor. Nunca verdadeiramente atingido, mas de procura incessante de amor e de liberdade. Não vos conto mais, porque lhe devo isso devido à minha primeira reacção. Seria, talvez, mais honesto colocar aqui trechos que ilustrassem o que digo aqui e em contradição com a minha primeira crítica a Michel Houellebecq. Mas há uma que não posso deixar de vos lembrar: a procura da imortalidade e o seu êxito (o tema central do livro num planeta destruído por guerras inter-humanas) por induções genéticas pode ser uma possibilidade não tão longínqua como isso. Pouco importa, nem valeria a pena introduzir essa questão já que o livro o faz com propriedade e com bases científicas plausíveis, mas o corpo procura o desejo sexual. O fim da vida, mesmo com a imortalidade ali mesmo e disponível para os mais ricos vem quando já procuramos «desejar o desejo». Aí, já morremos, sem que se saiba bem como. Um livro que vos recomendo, mesmo em contraciclo. 

terça-feira, junho 14, 2022

«História de quem vai e de quem fica», Elena Ferrante, vol.III

 

«Na fábrica - percebera logo isso - a grande fadiga fazia com que as pessoas desejassem foder, mas não com a mulher ou com o maridos nas suas casas, onde regressavam extenuadas e sem desejo, mas ali, no trabalho, de manhã, ou de tarde. Os homens davam apalpões sempre que tiham oportunidade, faziam propostas ao passar; e as mulheres, sobretudo as menos jovens, riam-se, roçavam neles o peito grande, apaixonavam-se, e o amor tornava-se uma diversão que atenuava o cansaço e o tédio, dava uma impressão de verdadeira vida.» (pág.82)

Os Anos de Chumbo:
«Ah, sim, antifascismo militante, nova resistência, justiça proletária, e outras fórmulas a que ela, que por instinto sabia esquivar-se à cassete do partido, era sem dúvida capaz de dar consistência. Imaginei que aquelas acções fossem obrigatórias para entrar, sei lá, nas Brigadas Vermelhas, na Primeira Linha, nos Núcleos Armados Proletários. Lila desapareceria do bairro como já fizera Pasquale. Talvez fosse por isso que tentara entregar-me Gennaro, aparentemente por um mês, mas na realidade com a intenção de mo dar para sempre. Nunca mais a veríamos. Ou seria presa, como acontecera aos cabecilhas das Brigadas Vermelhas , Curcio e Fransceschini. Ou escaparia a todos os polícias e à prisão, fantasiosa e temerária como era. E quando a cosa grande se realizasse, ela reapareceria triunfante, pelas suas proezas, com indumentária de chefe revolucionário, e dir-me-ia: tu querias escrever romances, eu fiz o romance, com pessoas de verdade, com sangue de verdade, na realidade.» (pág.243)

Jornal Mapa 34. Ilustrações a preto e branco.









Ilustrações para Jornal Mapa 34. Junho de 2022

 



Jornal Mapa, nº 34, Junho de 2022. Ilustrações para o artigo de Júlio Gomes «Mil e uma diatribes e um sopro de vida - (Neo)Fascismos, democracia liberal e o devir-esperança (Parte III)



«Rachador», de Hélder Folgado, com posfácio de António Barros.

 





"Rachador", do madeirense Hélder Folgado, mas feito a várias mãos, foi-me oferecido pelo António Barros e logo o tornei "meu" no sentido mais emocional do termo. Trata-se de uma colectânea que é "um tributo ao artesão do vime da Camacha". Conto 1890 como a data mais antiga dos rachadores que aparecem em excelentes fotografias e para mais com o nome dos artesãos seus proprietários. Para que servia um rachador? Para descascar o vime e dividi-lo em três ou em quatro para que se utilizasse no artesanato da mobília característica da Camacha, tal como explica o autor, Hélder Folgado; é num texto final do próprio de que retiro o seguinte trecho: "(...) A mão é a ferramenta, motor de toda a transformação, e a ela associa-se o podão, o passador ou o martelo. Contudo, é o rachador que de entre as demais ferramentas me desperta interesse, não só por se tratar de um objecto talhado em madeira (de pedreiro, urze, bucho entre outras), por cada um dos artesãos - para se adequar ao formato da sua mão e servir de extensão desta - mas, também, pela sua forma e função: este objecto cilíndrico, ligeiramente arredondado no topo e com incisões nas faces laterais, era tudo quanto bastava para abrir agilmente, mas com a necessária mestria, uma haste de vime em outras três, por vezes quatro (em concordância com a espessura do vime), e assim obter a liaça. (...). " No texto final de António Barros "Mão Segura" pode ler-se " Se há uma mão que afirma hirta e incisa gerando o deslumbramento e a proliferação, há outra mão que segura precisa na delicadeza do equilíbrio e sustentação do rigor.
Esta lição, gerada no resgate que o olhar formula sobre o gesto, resulta estruturante, denunciando um ponto de tensão. Esta disciplina dos limites com que a mão, a outra mão, nos contempla, traz-nos a consciência de raiz. De raiz que comunga com o corpo e, nesse tanto, faz voltar ao corpo e à importância deste como lugar. (...) "
Ter este livro na mão é igualmente a extensão da nosso pensamento em objectos extraordinários, desconhecidos da sua utilidade por continentais, nós todos, mas reconhecidos como autênticos objectos de arte pura, primitiva, durável pelos tempos passados e futuros.

Não sei onde se pode adquirir este livro maravilhoso, mas tente-se a Câmara Municipal de Santa Cruz, na Madeira. Creio que haverá resposta.

quarta-feira, maio 25, 2022

«A Força da Não-Violência», de Judith Butler


Livro para ler e reler, sublinhar, anotar, guardar, argumentar num mundo feito em cacos, em levantamento mundial antes do covid e da(s) guerra(s), da desinformação, da crise ambiental já irreversível, da morte programada, da declaração capitalista de inutilidade do ser humano e do capitalismo de vigilância que nos entra pela casa dentro onde quer que estejamos.

Num momento em que falar de paz e não-violência é quase compararem-nos a seres extra-terrestres e amigos da violência justificando o ataque de um estado sobre outro estado, com consequências imprevisíveis sobre milhões de seres humanos, compreendemos melhor a subversão linguística e ideológica daqueles que nos acusam de «compreender» essa violência. São esses que vociferam totalitarismos inexistentes, ódios escondidos, cabeças não pensantes, quando são eles próprios os melhores exemplos disso mesmo, ao disporem o vocabulário do poder e da violência sobre aqueles que se lhes opõem.

Diz Butler: «(...) O facto  de os esforços políticos de dissensão e crítica serem com frequência rotulados de «violentos» pelas mesmas autoridades estatais que são ameaçadas por esses esforços não é razão para desesperar com o uso da linguagem. Significa apenas que temos de alargar e refinar o vocabulário político para pensar a violência e a resistência à violência, levando em conta o modo como esse vocabulário é distorcido e usado para escudar autoridades violentas contra a crítica e a oposição. Quando a crítica da contínua violência colonial é considerada violenta (Palestina), quando uma petição para a paz é reformulada como um acto de guerra (Turquia), quando lutas pela igualdade e liberdade são idealizadas como ameaças violentas à segurança do Estado (Black Lives Matter) ou quando o «género» é retratado como um arsenal nuclear apontado à família (ideologia antigénero), estamos, nesses casos, a operar no meio de formas politicamente de correntes de fantasmagoria. A fim de expor o ardil e a estratégia destas posições, temos de estar em condições de rastrear os modos como a violência é reproduzida ao nível de uma lógica defensiva impregnada de ódio e paranóia. (pág.30)»

E a não- violência só pode ser igualitária no plano social, arredando de si todo o tipo de individualismo inerente à ideologia desgraçada do neo-liberalismo:

«Quando os movimentos não-violentos trabalham a partir de ideais de igualitarismo radical, é a reivindicação igualitária a uma vida enlutável e vivível (livable) que serve de ideal social orientador, um ideal que se revela fundamental para uma ética e política de não-violência que ultrapasse o legado do individualismo.»

Jornal Mapa, nº 34


Neste número do Jornal Mapa encontram-se 3 ilustrações que fiz para o artigo de Júlio Gomes. Em breve darei conta aqui mesmo, dessas ilustrações.

Cá está mais um Jornal MAPA – edição 34 (Maio-Julho 2022)!

No meio da tempestade perfeita, potenciada pela espiral de destruição da guerra na Ucrânia, a edição #34 (Maio-Julho) do Jornal MAPA, reflecte inevitavelmente sobre a barbárie da guerra e a militarização das nossas vidas, essa normalidade do «medo permanente» que recusamos. Nestes tempos é cada vez mais importante que falemos do mundo rural e do sistema agro-alimentar que nos toca a todos/as – aqui numa conversa com a revista espanhola Soberanía Alimentaria, Biodiversidad y Culturas; como que mantenhamos sempre em destaque as lutas contra a mineração, desta feita num artigo sobre os truques de ilusionismo levada a cabo pelas companhias mineiras na região do Barroso; ou que anunciemos outras não menos importantes Lutas pelo Território como a do recente movimento Idanha Viva contra o projecto do IC31. Porque importa que sejamos espaço para outras memórias e narrativas, a história da Livraria Utopia, no Porto, inaugura a primeira de várias peças onde tentaremos trazer à superfície as histórias e estórias de Abril ligadas à espontaneidade e auto-organização. E continuamos a ser veículo de cartas vindas directamente das prisões, para que se possa ler aqueles/as que nunca tem direito à voz. Outros apontamentos e crónicas levam-nos aos despejos de dezenas de casas ocupadas por todo o país, à ciganofobia, assim como a falar do desporto popular lisboeta d’ O Relâmpago; ou do festival Periferias, cinema combativo entre Marvão e Valência de Alcântara. E outros temas mais há para descobrirem.

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«A História do Novo Nome», de Elena Ferrante, vol.II


Segundo volume da saga de Elena Ferrante iniciada com «A Amiga Genial». Este «A História do Novo Nome» cuja acção se desenrola em volta da vida de duas personagens femininas, Lila e Lenù, não é mais do mesmo. Trata-se do amadurecimento natural das duas amigas numa Nápoles atrasada, dialectal, sofredora com domínios vários, entre os quais sobressai o domínio masculino, violento, machista, aceite por quase toda a sociedade do sul de Itália. Um país que mal saído da guerra e das suas misérias e destruições, encalha agora nas tradições seculares, familiares em que as principais vítimas são as mulheres. Os anos 60, neste sul muito particular, não se adivinha minimamente a chamada libertação feminista. Parece, por vezes e pela escrita de Elena Ferrante, que há uma reacção brutal a que isso aconteça, mesmo protagonizada por muitas mulheres. 

Tanto Lenù, como Lila crescem, neste volume do livro. Com ele, assiste-se não só à descoberta do corpo e do sexo, do desejo também, mas igualmente à diferença social entre as várias personagens. A luta de classes do pós-guerra não é aqui esquecida, antes pelo contrário, todas as contradições são expostas claramente pela autora, entre a democracia cristã ganhadora e o forte partido comunista italiano, dividido em facções estalinistas, social-democratizantes ou trotsquistas. 

Pouca mobilidade social existe aqui. O seu elevador funciona mal. A existir ou é pelo casamento (Lila) que se transforma numa cilada cruel, com espancamentos logo no seu dia inaugural, ou pela universidade (Lenù) e mesmo aqui, depara-se com um nepotismo e uma campânula social que bloqueia uma ascensão merecida. Mesmo quando inicia a publicação de um romance por uma conceituada editora milanesa é por interposta influência de uma professora universitária, mãe do seu namorado que também ele rapidamente sobe na carreira universitária como assistente, tal como a sua irmã e pai catedrático todos da Universidade de Pisa. Elena Ferrante, lembra-nos sempre que Lenù é oriunda de um bairro pobre de Nápoles, que esconde a sua origem no incómodo que sente quando a mãe a vai visitar à universidade onde se encontra doente ou quando esconde o seu dialecto napolitano. Essa contradição é vivida intensamente quando se aproxima das suas origens através de uma Lila caída em desgraça e tornada operária por sobrevivência.

Há, contudo, nos dois volumes que li até agora, uma questão incontornável e por vezes inquietante: a do comportamento da mulher. Elena Ferrante consegue entrar no âmago da psicologia feminina como eu não consegui ver até hoje em literatura contemporânea e muito menos quando são homens a tentar decifrá-la e escrevê-la. Lembro-me de algumas passagens de livros que agora me dão vontade de sorrir e pensar quão longe, alguns homens, estão de compreender atitudes de mulheres adolescentes ou mais maduras. Aviso-vos amigos: nem sempre o que parece é e o que se descreve, de um modo magistral, em simples encontros entre sexos já foi passado, vivido por nós todos. E dá-me ideia que pensámos tudo ao contrário... é esta a importância de Ferrante, uma observadora implacável de todo o comportamento humano em que nos vemos e revemos. É isto que faz a boa literatura.

quarta-feira, maio 11, 2022

«Pedro Páramo», de Juan Rulfo

 

Em 1955 foi publicado este livro difícil de descrever e mesmo de classificar. As personagens são intemporais, os mortos falam com os vivos, a realidade por vezes sobrepõe-se ao sonho, outras vezes é este que se afirma perante uma realidade que ultrapassa a simples sociedade mexicana em ebulição política e social. A paz é quase desconhecida e as guerras e revoltas uma constante da uma vida pautada pela injustiça e pela religião que coincide, por vezes mal, com o paganismo indígena. Neste romance magnífico não se vive muito, vive-se para a morte e para o além seja ele qual for. Os mortos afinal vivem com tanta comoção e vingança como os vivos. O bem convive com o mal e há perdão ou arde-se no inferno que é a terra ou a posse dela. O combate pela dignidade e pelo poder, pelo domínio. 
Juan Rulfo nasceu em 1917 e faleceu em 1986. Afirmar. como disse atrás, que ele pertence a uma escola literária que denominamos de «realismo mágico» é muito pouco, embora García Márquez o tenha colocado nos nomes mais importantes da literatura mundial, tal como Carlos Fuentes, Álvaro Mutis, Max Aub ou Carlos Velo. 
Quero ler bem depressa, na mesma coleção da Cavalo de Ferro, «A Planície em Chamas». Este, «Pedro Páramo» foi publicado em 2004 e a 3ª edição em 2017. Os tradutores foram Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues.

«Kitsch», de Fritz Karpfen

 

Sinceramente, não entendo as toneladas de páginas que foram publicadas acerca do fenómeno «Kitsch» quando Fritz Karpfen, logo em 1925 fez esta síntese notável e que a Antígona,em 2017, publicou com tradução e introdução de João Tiago Proença.

Assim, não é kitsch quem quer, nem quem pode. O kitsch aparece quando menos se espera, literalmente, podemos dizê-lo, logo ao virar da esquina. Ele aparece na arquitectura, na literatura, na poesia, na imagem, na publicidade na pintura. O kitsch surpreende-nos elaborado por nomes importantes da nossa praça artística e até por clássicos medievalistas, renascentistas, góticos, rococós...contemporâneos! 

Surge o kitsch, inclusive, na sala de estar ou na guerra: «Não revelará a absoluta falta de lógica, a falta de espírito guerreiro, o facto de esta época ''grande'', ponto de viragem da História, não ter produzido uma única obra de arte? Somente a negação, a indignação, a contra-acção da Humanidade difamada criou a arte da guerra. Os únicos monumentos de guerra de importância artística intemporal são os testemunhos contra a guerra mundial.(...) O que na guerra nasceu de ''a arte e a guerra'' já caiu hoje no esquecimento - como a lírica e o romance de guerra. O mesmo se passou na literatura: a maldição lançada sobre a loucura, a revolta contra a guerra criaram as grandes obras literárias - obras que atingiram uma validade imortal. (págs. 59,60)»

Mas a mais notável definição do Kitsch aparece-nos no capítulo referente ao Kitsch Moderno: «Se, por acaso, numa exposição moderna, todas as obras forem más e deploráveis, nem por isso deixa de faltar muito para serem kitsch. A diferença é a seguinte: as coisas são formadas, à maneira dos epígonos, em conformidade com modelos antigos, essas são kitsch, pois falsificam o estilo e a vontade da época. . Os objectos, porém, que são formados sem nenhum modelo existente, que tão ousados são, que têm uma acção provocatória e são desprovidos de todo e qualquer valor artístico, podem ser maus, disparatados, inartísticos e vulgares - mas kitsch é que não são! Porque não falsificam nada do passado nem falsificam nada do presente, porque não mentem. Talvez seja uma atoarda e, por isso, uma completa fraude. Pois bem, suponhamos que se trata mesmo de uma fraude. Mas fraude e kitsch não são uma e a mesma coisa. (págs.77 e 78)».

quarta-feira, abril 27, 2022

A Honra Perdida de Katharina Blum - Heinrich Boll

 

«As personagens e a acção desta narrativa são fictícias. Se da descrição de certas práticas jornalísticas tiverem resultado semelhanças com as práticas do jornal Bild, tais semelhanças não foram intencionais nem tão-pouco casuais, são antes uma inevitabilidade.» Esta é a epígrafe que Heinrich Boll nos coloca logo no início de «A Honra Perdida de Katharina Blum» cujo subtítulo, negligenciado por muitas editoras, é este «Ou como a violência pode surgir e onde pode conduzir». 

Comprei a velhinha edição de bolso da Europa-América (baratinha, baratinha), li-o e não mais me esqueci dele. Os anos 70, na Alemanha, foram marcados pelos anos de chumbo e a polícia prendia suspeitos de terrorismo a torto e a direito, não sem o apoio e cumplicidade explícitos entre a polícia, o Estado e o jornalismo tipo Bild que tem os seus gémeos em quase todos os países europeus. Aqui em Portugal não será preciso sequer mencioná-los porque são evidentes nos escaparates das tabacarias. Baseiam-se na manipulação, em notícias falsas, para assim aumentarem as audiências e o lucro, mas também para fazer favores políticos e policiais a fim de justificarem o injustificável. Se acabarem com a reputação de uma pessoa, grupo ou partido político, azar deles. Defendam-se sabendo que em princípio um desmentido ou uma indemnização negociada a priori não tem o efeito de enorme mentira.

A narrativa em si não chega a ser um clássico, até porque Boll afirmou que se tratava de um panfleto, tão caro à política ocidental, tal como os di-bao chineses o foram na Revolução Cultural. Mas os nossos panfletos já vêm do século XVIII. Katharina Blum é uma rapariga da classe pobre alemã que no fim da II Guerra colhe os frutos do Plano Marshall e da prosperidade alemã ocidental que tenta rivalizar a todo o custo com a RDA. Solteira, consegue uma casa com um empréstimo, um volkswagen em segunda mão e é exemplar nos empregos que tem. O que não a impede de um dia para o outro ser acusada de terrorismo. Não como suspeita de terrorismo, mas como verdadeira militante de uma organização de esquerda, cúmplice de outro «terrorista» que afinal só era um desertor que roubou o cofre do regimento onde estava. A narrativa acaba com ela a dar um tiro fatal ao jornalista que manipulou toda a informação que lhe foi confiada, subvertendo afirmações, inventando outras, ameaçando testemunhas, etc.

O mais interessante desta edição da Cavalo de Ferro é o posfácio de Heinrich Boll, além da inquestionável qualidade da narrativa. 10 anos depois da edição de «A Honra Perdida...» escreve o autor: «A respeito da violência de cabeçalhos ainda é pouco o conhecimento de que se dispõe [hoje talvez se saiba mais um pouco]; e pouco se sabe também sobre até onde a violência desses cabeçalhos pode conduzir. Investigá-lo seria uma tarefa de que um dia a criminologia deveria ocupar-se: aquilo que, em toda a sua bestial ''ausência de culpabilidade'', os jornais podem vir a causar. (pág.123)»

É evidente, sabemos todos, que este jornalismo cresceu a um ritmo alucinante desde o período dos anos de chumbo europeu e que se alcandorou exatamente no chamado terrorismo de esquerda dos Baader, das Brigadas Vermelhas, e dos independentistas de esquerda como a ETA e o IRA, servindo o Estado em toda a dimensão da denúncia e da falta de respeito pelo Direito e pelas liberdades individuais e pelo direito de expressão. A emergência da prática de tortura para esses considerados «monstros» começou a ser legitimada pelo povo exatamente com a ajuda desse tipo de jornalismo. O que Boll não teria dito hoje após o 11 de Setembro! Por isso mesmo o autor nobelizado em 1972, teve problemas com a polícia alemã, acusando-o de pactuar com o terrorismo, assaltada a sua casa, imposta a censura a artigos seus nas principais revistas e por aí adiante. Não foi o único, mas provavelmente um dos primeiros perseguidos dos media (ele nunca usou este termo).

Tradução de Paulo Rêgo.
Cavalo de Ferro, Abril de 2022.

António Luís Catarino

domingo, abril 24, 2022

A Entrada na Guerra - Italo Calvino

 

É um livro inédito em Portugal, saído agora mesmo, em Abril de 2022, não vá a D.Quixote perder a «mensagem» que lhe está subjacente nos tempos que correm - a guerra. O original é de 1954. Como tudo o que é pertença de Italo Calvino, lê-se num instante, tendo este homem o condão de dizer muito mais do que aparenta a técnica literária que usa, ou seja, o depuramento da sua escrita que nos faz estar agarrados à leitura e estarmos livres das hipérboles, metáforas que nos enfadam em certo tipo de literatura. 

Italo Calvino, nasceu em 1923, convém dizê-lo para explicar uma questão: conheceu a ascensão do fascismo de Mussolini na Itália, sendo muito novo para ir para a primeira mobilização em 1938 e demasiado «velho» para não se safar a vestir o uniforme das Juventudes Fascistas do PNF. Aconteceu a muito boa gente. Mas em 1943 adere ao PCI e luta de armas na mão contra o fascismo de Mussolini e Hitler. Torna-se um resistente. E para todos os efeitos é assim que eu vejo um resistente. Um tipo que combate de armas na mão contra as ditaduras, mas com um devir revolucionário presente. A resistência pela resistência deu mostras que não vai longe a menos que tenha por detrás apoios desmesurados.

Neste livro, «A Entrada na Guerra» Italo Calvino descreve-nos como se apercebeu da guerra demasiado cedo. Primeiro os desfiles marciais, os uniformes, a masculinidade e a virilidade que muitas vezes levavam jovens como ele a não saber o seu lugar nesta estirpe guerreira: ou são sensíveis e vergonhosamente afastados ou são viris e têm de o demonstrar a todo o momento, mesmo que os factos exigidos pela hierarquia o obriguem. O sexo, atinge o rubro e o inimigo está em todo o lado, as mulheres tornam-se objectos quer na prostituição, quer violadas, o que está implícito em descrição de cenas que o jovem Calvino nos conta.

O saque a Menton, em que ele esteve presente como jovem fascista (que não era), teve raias de loucura. Menton era uma cidade francesa, derrotada pelos nazis alemães e aproveitada pelos italianos para a configuração fascista das novas fronteiras, para vingar a «vitória desonrosa» de 1918. Menton estava deserta porque a população francesa fugiu a tempo em vagas de refugiados. O saque às casas é das descrições mais pungentes do livro. Tudo serve para ser pilhado, partido, incendiado. O vazio, o cheiro, a mutilação, a fuga, sente-se em cada palavra escrita de Calvino. «A viagem a Menton era um caso muito diferente: estava curioso de ver agora aquela cidadezinha, vizinha e parecida com a minha, tornada território conquistado, devastado e deserto; aliás: a única simbólica conquista da nossa guerra de Junho. Tínhamos visto recentemente no cinema um documentário que mostrava a luta das nossas tropas nas ruas de Menton; mas nós sabíamos que era falso, que Menton não tinha sido conquistada por ninguém, mas apenas abandonada pelo exército francês na altura do ataque e depois ocupada e pilhada pelos nossos. (pág.39)»

Uma foto, um jornal, cartas de amor, são destroçadas, enquanto se procura coisas mais valiosas com o incitamento dos chefes nas casas abandonadas. O nosso Italo Calvino, envergonhado por nada saquear, rouba as chaves do Clube francês que agora era a sede do Fascio. Nem se apercebe o que fez: roubou a casa do fascismo local e entretanto, como um rasto de loucura, rouba todas as chaves que encontra enchendo os bolsos que chocalhavam ao som do bater das botas. Entretanto os refugiados aumentavam de dia para dia sem saber o seu fim, o seu destino, homens do campo e da cidade velha que morrem de fadiga ou porque nada mais lhes resta para viver.

A mais inquietante frase do livro está aqui para todos lerem: «Ao ouvir este relatos, a minha mãe dizia já não reconhecer o rosto familiar do nosso povo; e não sabíamos chegar a outra conclusão senão esta: que para o soldado cada terra conquistada era inimiga, até a sua. (pág.42)»

A tradução é de Leonor Reis Sousa.

segunda-feira, abril 18, 2022

« A Retirada dos Dez Mil », de Xenofonte. Tradução do latim e versão de Aquilino Ribeiro, prefácio de Mário de Carvalho

 

Não gostaria que encontrassem nesta ficha de leitura algum tipo de insolência intelectual, mas é minha convicção, cada vez mais séria, que a consulta dos clássicos nos ensina muita coisa, principalmente as causas das boas e más excentricidades humanas e mesmo dos povos. Esta edição da «Anábase» de Xenofonte (para os cépticos será um pseudo, mas é deixá-los dizer, até para dar um ar de sabedoria de copo de branco fresco na mão) é enriquecida com um prefácio de Mário de Carvalho e uma introdução do próprio Aquilino que também o traduziu a partir do latim e versou-o para a língua portuguesa. Já lá vamos. A própria tradução do título faz com que Aquilino nos tenha prevenido da sua infidelidade, mas a verdade é que fica assim muito melhor. Um dos grandes autores do século XX português, segundo as palavras certas de Mário de Carvalho que nos descreve tão bem o sentir grego, do soldado que vota, plebiscita, mata, fere, escraviza, rouba, pilha, até ao comandante e capitães que só decidem depois do plano seja votado pela turba livre de vontades, mas que, ao tomá-la (a decisão) todos lhe seguem sem pestanejar. O grego ama a liberdade, os seus deuses, a quem oferecem inúmeros holocaustos e hecatombes, as suas superstições escondidas nas entranhas dos animais sacrificados, as suas polis. A escrita de Mário de Carvalho leva-nos a perceber este ardor pela vida e também o seu desprezo pela morte justa.

Aquilino Ribeiro, está em Paris em 1938, na Rive-Gauche, supõe-se na gandaia (para usar um termo dele) e a escrever muito, a debater ideias. Conhece M.Tournier, orleanista, católico fervoroso, vive pobremente, de uma cultura enorme. É ele que, após um refrega em que Tournier se encontrava e por ter dado uma paulada a um tipo que o importunava, levou Aquilino a dar um enxurro de porrada ao desgraçado que teve a ousadia de responder com um murro a Tournier. Este, dias mais tarde, oferece-lhe «Anábase» que, segundo as palavras do mestre português é uma «deliciosa, de linfa pura e estreme, colhida com discutível escrúpulo pelas mãos de mil e um tradutores.» A edição que Tournier lhe deu foi uma tradução latina de Joannes Leunclavius, tendo sido comprada por «cinquante sous».

«A Retirada dos Dez Mil», de Xenofonte, tem lugar após a guerra de 29 anos do Peloponeso entre Atenas e Esparta, com a vitória desta última e a decadência gradual da imperialista Atenas, que erradamente se embrenhou na Liga de Delos que exerceu um abusivo domínio sobre outras polis. Milhares de soldados encontravam-se desempregados e sabendo somente guerrear deu-lhes para aceitar um projecto manhoso do sátrapa persa da Lídia, o famoso até hoje Ciro. Manhoso, porque não disse de início ao que ia. O seu projecto megalómano era retirar o rítulo de imperador ao seu irmão Artaxerxes II, no centro da Pérsia, e levando milhares de mercenários e soldados gregos ao engano. É evidente que a sua glória caiu por terra. Venceu a batalha contra o irmão, mas pereceu.

O que ficou para a História, não foi Ciro, foi a retirada de 10 mil soldados gregos de volta à Grécia, às suas pólis, em grande parte sob o comando de Xenofonte, amigo de Sócrates. Esta retirada, maravilhosamente contada por Aquilino, está nos anais das principais escolas militares como sendo uma das mais bem sucedidas do mundo. Outras há, como a retirada de Massena, na 3ª invasão francesa (nos 200 anos desta efeméride não foi utilizado, por Portugal, o termo «invasões», mas sim de «guerras peninsulares» o que hoje não deixa de ser irónico para bom entendedor), ou como as retiradas, bem mais atabalhoadas e cobardes, de Napoleão e Hitler na Rússia. E já que estamos a falar de retiradas marciais, penso que West Point não estudou bem as lições de Xenofonte aos seus pupilos, já que nos lembramos bem das fugas americanas no Vietname, na Somália ou, agora, no Afeganistão. Mas qual o verdadeiro interesse de ler uma retirada clássica como esta? Porque em época de guerra, como a de hoje, uma pessoa honesta compreende o que está na base de um enorme conflito: a guerra deverá sempre ser evitada. Xenofonte prefere, com os seus soldados, a negociação, a alimentação e a manter a vida deles ao ímpeto destruidor de um avanço sangrento. Só opta pela guerra, pela pilhagem ou pelo castigo pela escravidão, quando a hostilidade dos vários povos por onde passam até ao Ponto Euxino e depois ao Bósforo não consegue ser ultrapassada. E mesmo no mar, muitas vezes recorreu à pirataria. Os limites humanos estão sempre postos à prova e nessas condições as prédicas (os gregos amam a palavra), em busca da liberdade e de justiça, por parte de Xenofonte aos seus capitães, aos soldados e aos pensamentos para si próprio fazem parte de uma verdadeira tragédia ou epopeia comparada à Ilíada e, desconfio eu, superior à Odisseia. E foi assim em quinze meses, em avanço e retirada, percorridas mil cento e cinquenta e cinco parasangas (cada, 5,520m). Contei 25 povos em cujos territórios os gregos atravessaram, não sem que houvesse igualmente mudanças políticas ao nível do poder. O povo esse, continuava a pagar tributos a quem quer que fosse.

quinta-feira, abril 07, 2022

« A Rapariga já não gosta de brincar », Filipa Leal

 

Uma interessante experiência em que não está ausente o confinamento obrigatório que se iniciou em 2020. Creio que a Filipa Leal se divertiu neste exercício tão paciente como solitário. A colagem, matéria cara aos surrealistas e ao acaso, às matérias esquisitas e intrigantes em jogos de mesas de pé de galo como diria o nomeado Cesariny neste livro. Igualmente uma referência bonita a Perfecto E. Cuadrado e ao seu «A Única Real Tradição Viva» que guardo em casa e que me serviu para a minha segunda exposição «Abjectos Surreais». Mas a Filipa explica tudo no início, na introdução. 

A língua portuguesa é traiçoeira, como todos sabemos. Um estrangeiro (essa figura sempre mais contemporânea que nós, o que nos elogia) não compreende na nossa língua a dupla negativa que passa a ser afirmativa e a dupla afirmativa que quer ser negativa. «Não! Não! Queres lá ver!...». Assim é o título deste livro. É de uma grande duplicidade que nos instiga a perceber se primeiro vem o poema, se as palavras encontradas em colagens aqui e ali, à boa maneira surrealista; ou as duas. Mas saiu tão bem, que dá gosto tê-lo sempre consigo e perscrutar de onde surgiu aquele encadeamento tão lógico, como aparentemente absurdo. 

A publicação é da responsabilidade da «Não Edições» e a tiragem é de somente 160 exemplares. Eu já tenho o meu que encomendei pela Snob. Façam o mesmo e não se arrependem.

terça-feira, abril 05, 2022

« O Novo Niilismo », Peter Lamborn Wilson

 

Barco Bêbado, 2022
Com tradução e notas de Joana Jacinto, ensaio visual de Vasco Barata e edição sob a responsabilidade de Emanuel Cameira, mais um interessante livro da Barco Bêbado. Desta vez, «O Novo Niilismo» de Peter Lamborn Wilson, ou Hakim Bey, nome que também utiliza nas suas publicações. Não sendo completamente desconhecido, visto que já se tinha publicado as suas «Utopias Piratas» na Deriva e com publicações avulsas em jornais e revistas anarquistas e libertárias. Tenho para mim, que sou um leitor pró-compulsivo, que quando adquiro um livro é com variados objectivos que não vou agora enumerá-los; este, obriga-me a pensar e perguntar-vos se a catástrofe anunciada já se iniciou há anos e estamos ainda na fase da pré-história do desastre. Portanto, não deixa de ter sentido uma forma de neo-niilismo que nos leve a uma forma radical de actuação social apontando os seus culpados e construindo alternativas nómadas e temporárias.

Este livrinho parece, contudo, um desabafo em forma de manifesto que Peter Lamborn Wilson não esconde no seu início; logo depois, coloca toda a esquerda (e mesmo os próprios libertários) e as suas práticas políticas e sociais em causa. O desânimo e o desinteresse sobre todas as todas as coisas levou muita gente boa a afastar-se do activismo que se consubstanciou, por exemplo, no movimento Occupy. Num mundo cuja catástrofe já se iniciou e que se vai agravar cada dia que passa propõe-nos três caminhos alternativos, enfatizando a criação de TAZ (acrónimo de Temporary Autonomous Zones) que são, com algumas pequenas diferenças, as ZAD europeias que têm tido algum êxito no combate à prepotência do Estado, mais concretamente o do francês.

Também o neo-primitivismo de Paul Goodman, entre outros, é colocado em destaque, desencadeando interesse no debate em torno da questão do survivalismo que Wilson realça. O neo-niilismo reside precisamente nas possibilidades reais de sobreviver ao caos que se instala e que o capitalismo espoletou. Um livro importante que pode ser uma alavanca de debates em espaços alternativos. Seria bom que o discutíssemos colectivamente.

« O Logro da Arte Contemporânea », Gianfranco Sanguinetti

 

Barco Bêbado, 2022
Gianfranco Sanguinetti, activista e pensador situacionista foi já publicado em Portugal, pela Antígona que publicou o oportuno (estávamos a sair dos anos de chumbo na Europa) «Do terrorismo e do estado» e pelos seus textos na revista da IS dispersos e co-assinados com Debord, entre outros. 

Aliás, o que faz um livro útil é exactamente a sua oportunidade e este livrinho da Barco Bêbado cumpre esse papel. «O Logro da Arte Contemporânea» foi publicado originalmente em Abril de 2021, na Itália e o título que lhe deu forma diz ao que vem. Com base nas teorias sobre arte e de um panfleto de Pablo Echaurren que denuncia a arte contemporânea como mero produto mercantil (D-M-D) em que D é o dinheiro e M, mercadoria, Sanguinetti define esse mesmo logro como um «fazer crer aos contemporâneos que a arte é aquilo que hoje se vem apresentando enquanto tal.» e continua: «E, como a contemporaneidade dá, e tem dado, repetidas vezes, prova de ser essencialmente uma tola crédula, além de ignorante, pode pôr-se-lhe à mesa, todos os dias, mil alimentos falsificados, rotulados como ''arte'', de que ela se alimentará sem nunca protestar, assim como não protesta contra a neo-comida que se vende em todos os supermercados.»

Para os urbanistas entusiastas das cidades modernas, Sanguinetti dedica-lhes um pequeno capítulo «A Cidade infeliz» onde vê magnetizada essa enorme infelicidade quer nos transportes públicos, quer na taxa de suicídios que sobe cada vez mais e avisadamente escondida; nessas cidades infelizes cresce a violência, a corrupção, a proibição contínua sobre o indivíduo e as liberdades. O autor questiona o que faz a arte sobre isto: «Sobretudo, dá a impressão de [a arte] não querer correr riscos; torna-se assim numa presença que se quer tranquilizadora: tem medo de meter medo. (...) Contenta-se em ser uma arte triste e vil, como de facto é: é, pois, normal que seja infundida daquilo a que Espinosa chamava as paixões tristes, como a do dinheiro.»

Em «Felizes Excepções» e depois de nos apresentar algumas experiências alternativas e de rejeição ao estado e à arte «conceptual» (Sanguinetti, atrás explica como aparece esta noção de conceito ligada à arte, o que é mais um logro), levanta o véu de uma verdadeira arte de revolta de insubmissão ao mesmo tempo que nos apresenta alternativas a seguir: «(...)Estes artistas de facto criam situações conflituantes, provocatórias e verdadeiramente escandalosas, que põem à prova as contradições do espectáculo, a frigidez e a imunidade do público, a solidez das instituições, com a crueldade do détournement pós-situacionista, a impostura subs«versiva, a usurpação da identidade e das prerrogativas do poder, e de uma centena de outros modos.»

Não deixem escapar este livro até por que a sua tiragem é de somente 300 exemplares. Pode adquirir-se pela Livraria Snob, como eu fiz.
A tradução é de Ana Isabel Soares.


sábado, abril 02, 2022

«Pirilampos», Ricardo Gil Soeiro

 


Tive a sorte de ter editado, na Deriva, Bartlebys Reunidos e Palimpsesto com Ricardo Gil Soeiro. Para além da amizade e a rápida empatia que senti como pessoa, percebemos, todos os que o leram, que se tratava de um poeta sólido, coerente e de uma enorme imaginação poética. Um cultor rigoroso da palavra e da emoção. O futuro vai dar razão aos que o vêem como um dos maiores poetas desta geração. Hoje, dia 2, em Lisboa, na Tantos Livros, pelas 17:00, vai ser a apresentação de «Pirilampos», o seu último livro com a chancela da Assírio. Grande contentamento, embora e infelizmente não possa estar presente. Mas convido-os a conhecerem-no.

O livro, esse já o tenho. Corri a comprá-lo e maravilhei-me com ele, como quando era um puto que, junto com o avô, no Verão e em Coimbra, ia para a Arregaça à noite procurar pirilampos. Trazia um ou dois para casa num copo e deixava-os na mesa de cabeceira da minha cama. No dia seguinte o meu avô libertava-os logo de manhã. Havia uma qualquer magia nesses insectos luminosos e que são percebidos nesta obra do Ricardo Gil, continuando com a sua prática palimpséstica de reescrita inovadora e estranha. Mas inteiramente maravilhosa. Hoje já não se encontram facilmente pirilampos e a sua leve alegoria à morte e à vida breve e inútil que temos assumem uma importância grande na leitura que fazemos dos seus poemas. 

«De mim só me lembro
de um segredo tuvo, 
sem culpa e sem enredos,
no poço sombrio da infância.
Suponho que existir é isto:
sucumbir, impiedosamente,
ao musgo podre da memória.
O lago deixando adivinhar o zumbido
de insectos que disputam, sem saberem,
o mudo brilho das estrelas.
(...)»
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