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quinta-feira, agosto 14, 2025

"Flauta de Luz" 11

 

Cada número que sai constitui uma surpresa pela qualidade, mas igualmente pela insubmissão que espelha em cada artigo que se lê, não fosse ela feita de Luz. Gostaria de aqui destacar um ou outro artigo, mas seria injusto e ostracizaria todos os outros. Arrisco, no entanto, falar do genocídio de Gaza ("Gaza é o destino da Humanidade", de Ognian Kassabov, por exemplo, é arrasador de tão verdade que é), um texto maravilhoso de Christian Bobin, o fim do extractivismo no Barroso, Alfred Jarry, Gunther Anders, Júlio Henriques, Joelle Ghazarian, David Watson, etc...etc...

quarta-feira, março 26, 2025

«Liberne», Júlio do Carmo Gomes

 

Livros Flauta de Luz, 2025. Ilustrações de Rita Faia
Distribuição: Antígona
Um livro mágico, este novo «Liberne» de Júlio do Carmo Gomes. O subtítulo denomina-se «Histórias dos montes baldios» e é fruto de uma longa estadia, em residência artística, em 2021, promovida pela Rural Vivo no Gerês do nosso imaginário. Não é por acaso que escrevo «imaginário», porque a maior parte de nós (que vivemos nas cidades, bastando para ter esta certeza ver a distribuição populacional do recanto) estaremos muito longe da vivência real e mítica do campo, daquela que teimosamente as gentes de lá se agarram ao ancestral, aos velhos costumes dos compartes na organização social e numa auto-produção realista, autónoma. Senti-o, pessoalmente, quando estive três dias na aldeia do Campo do Gerês, durante um festival rural. Foi evidente a minha distância tímida face ao modo como as pessoas vivem o campo, reparar na vida comunitária e várias vezes me dei a pensar como se poderia transpor esta forma de vivência social partilhada, justa, capaz, para uma cidade onde as pessoas mal se conhecem, onde vivem sozinhas, expostas ao frémito urbano e ao oblívio quando velhas, quando a única ligação social que tinham eram os laços do trabalho produtivo para o lucro de alguns. Pensei igualmente num outro livro, este de João Carlos Louçã, «Pensar a Utopia», quando permaneceu nos Pirenéus e nos deu a conhecer também as colectividades urbanas, no Porto, que promovem as trocas justas e as relações humanas nas grandes cidades. «Liberne» obriga-nos igualmente a tecer hipóteses de construir, de optar, perante o vivido pela sua leitura. Apetece fugir daqui, da cidade.

Não se pense, contudo, que a vida rural, assente em milenares hábitos comunitários, não está isenta de regras rígidas. Não é a «liberdade» completamente livre como se pensa nos chamados mitos urbanos. No decorrer da leitura de «Liberne» deparamos com uma justiça ancestral, mas óbvia nas suas regras, quer por quem aplica as leis não-escritas, bem entendido, mas também quem as recebe como multas em que o próprio «réu» também beneficia. Assim se faz a cola social baseada num saber adquirido há muito. A construção de uma base social é definida por todos, que delimitam o que é bom para a comunidade e o que é nocivo, que afastam os que não aceitam as regras e que põem em causa esse cimento de que são feitas muitas das comunidades do Gerês ainda hoje. O excelente conto «A Condena» é disso um exemplo: as regras são rígidas, até violentas, mas capazes de perdoar, de integrar, de absorver o que transvia, talvez a hipótese última de continuar o ancestral ritmo de vida rural comum a todos. O comunitarismo é explicado, em todos os contos, pelo fruir do que lemos com prazer e sem qualquer entrave de suposta matéria pseudo-pedagógica que não é para aqui chamada. 

Em «Laura» estamos perante uma magia pura. Daquela que nos lembra um Rulfo, um García Marquez. Se Júlio do Carmos Gomes escreveu e apurou a sua escrita (este livro não é o seu primeiro, já aqui falámos do seu «Urro») em quatro anos, ou seja, desde 2021, para este livro valeu cada dia. A relação de Laura, a personagem quase banida, com os lobos, esse animal mítico do campo, incompreendido pelos citadinos que abanam a cabeça de assentimento quando os caçadores abatem estes animais como neste momento está a acontecer no estado espanhol, no Xurês galego confinante com o Gerês, e com o beneplácito da UE, é um tríptico inconfundível à individualidade livre, ao mundo partilhado com os animais selvagens e um afastamento claro do cristianismo feito beato que, como sabemos, aproveitou-se de cada ritual «bárbaro» para se integrar melhor nas comunidades e assim abastardar esses mesmos rituais. «Nas terras altas do Gerês, o lobo é o animal fetichizado consagrado ao ritual de luta e sobrevivência com a natureza. É o animal heráldico e sobrenatural, a besta excluída da própria natureza. Forma atávica de o bicho-homem querer, ilusoriamente, humanizar-se e negar a sua própria natureza. A aldeia fica em alvoroço com a descoberta. À boca pequena, o povo aumenta a parada: que Laura não é Laura mas Eufémia, jovem que veio um dia fugida e que ali viveu séculos antes. (...)» (pág.55).

Em «Guardião», Júlio do Carmo Gomes apronta a sua imaginação literária para uma distopia que conseguimos rever tudo aquilo com que as populações do Gerês, alertadas, assustadas e revoltadas contra quem se movem máquinas de extracção das «terras raras», eufemismo trumpista e putinista para uma violência concertada contra o planeta; certamente os ciborgues nos anos 40 do século, que são atacados como forma de resistência das populações a quem foi negado o sossego comunitário. É aí que se destaca o papel das administrações locais, centrais e do Parque do Gerês também ele conluiado com este estado de coisas. Aqui, nestes contos foge-se ao panfletário. Trata-se de um livro de contos estruturado, pensado em cada palavra para ter o efeito desejado pelo autor. Neste «Guardião» o registo literário é de uma grande coerência. Na impossibilidade o colocarmos aqui na sua totalidade apresentamos uma parte do que entendo ser um autêntico manifesto poético do comunitarismo:

«(...) Vem pelo teu próprio pé. Não te apresses pois a sair da encruzilhada. Não te apresses a sair da encruzilhada nem do carreiro ladeado de giestas bravas e de carqueja, fincado pelos pés dos humanos, fincado pela memória de pastores e pastoras, fincado pelos pés dos teus próprios avós, fincado ao longo de séculos por gerações atrás de gerações e que a chuva, o vento e o estio ajudaram a assentar, calcando-o como a pedra antiga da mó moeu o milho que salvou o ano, sulcando o chão que pisas e onde também tu escreves o teu nome e a tua história, homens e mulheres cuja luta ao longo do tempo te abriu a clareira que agora atravessas, por onde agora caminhas e te acrescentas à vida, rendido ao canto que anuncia o crepúsculo, deslumbrado com os pirilampos que cintilam entre os silvedos e pressentindo na obscuridade o rumor que se levanta dos milhares de passos das crianças que desabriram pelos trilhos, consagrando no seu passo miúdo e irrequieto a vida sagrada da infância e fazendo fremir o chão, percorrendo a cangosta sem enxergarem as sombras do mundo (...)» (págs.92,93)

Um livro a não perder, a ler e voltar a ler, pelas expressões, pelas palavras e vocabulário aquilino, uma festa para os sentidos e para os sonhos que ainda permanecem em nós, de um dia podermos viver juntos de seguir os passos de uma república das crianças de que falava Virgílio Martinho ou Raoul Vaneigem. Atenção igualmente às excelentes ilustrações de Rita Faia.

alc

segunda-feira, junho 27, 2022

Flauta de Luz, nº9. A minha colaboração num número de excelente qualidade

 




Gosto de ver os meus desenhos para o artigo de José Janela, assim, como se tivesse num café a folhear uma revista que pela equipa de Júlio Henriques nos chega às mãos. Tal como no Jornal Mapa 34, ficam toscos, com luz difusa, cortados... mas que fiquei feliz, sim fiquei.

domingo, novembro 14, 2021

«O Mito da Razão», de Georges Lapierre

Num momento em que a Conferência de Glasgow se transformou numa palhaçada trágica, chegando-se a propor não fazer mais nenhuma tal a dimensão do seu fracasso, surge-nos, pelas edições «Flauta de Luz» (sim, a da revista homónima) este importantíssimo trabalho de Georges Lapierre sobre o mito da razão. Aliás, ele afirma que o título deveria ser «O Mito do aparecimento da Razão». Deve referir-se igualmente a excelência da tradução de Ana Marques cujo trabalho não foi nada fácil visto que, sendo a linguagem ocidental uma forma de poder, de troca mercantil e de domínio, não se compagina muito bem com povos indígenas cuja linguagem é total, una de sentido e tem o gérmen perigoso da reciprocidade e da dádiva. 

Um exemplo dessa dificuldade de tradução vem logo com uma frase da comandanta (assim mesmo, comandanta) zapatista Ana María que no Encontro mundial zapatista de 1996 e em língua tojolabal brindou os presentes algo confusos com esta frase «Atrás estamos vocês»! É evidente que não tem tradução para nós ocidentais; aqui, nesta pequena frase de Ana María encontramos toda a subtilidade de um pensamento único, indígena. Aquele pensamento da unidade que não reconhece a natureza ou cultura porque o homem e a mulher são partes dessa realidade juntamente com o outro. É uma outra cosmogonia, uma mundividência que produz um modo de pensamento realmente recíproco.

O autor está empenhado na luta zapatista que conhece como poucos. Mas desenganem-se os militantes do logro da integração indígena, cujo pensamento nada tem a ver com a razão (aqui talvez com R maísculo tipo Kant ou Descartes) ocidental. Esta última terá nascido na Grécia Clássica e terá trazido consigo a escravatura, o dinheiro, a troca de mercadorias, a desigualdade de género e o afastamento político dos estrangeiros (os barbaroi), que predomina até hoje. Não é necessário partir a cabeça para saber que a Grécia e Roma foram sempre tidas como exemplos a seguir por todos os tiranos e «democratas», como se não houvesse outras alternativas. A escola e a empresa sabem reproduzir, juntamente com o viscoso «bom senso» a ideia base da razão filosófica ocidental que separou o indivíduo da natureza e da cultura. Para haver ligação entre este elementos, ténue que fosse, seria sempre preciso uma «religio», um mediador que tomou várias formas, principalmente o protestantismo do século XVI até hoje e que legitimou o lucro.

Uma das questões mais interessantes do livro de Lapierre é saber por que razão houve uma «paragem» ou «estagnação» do pensamento entre o período do Paleolítico Superior e do Neolítico até ao Crescente Fértil do Próximo Oriente quando a agricultura tomou a forma de acumulação excedentária mercantil. Desde Lévi-Strauss, passando por Vidal-Naquet, e com eles quase todos os académicos, fogem a esta questão. Dezenas de milhar de anos cujo pensamento estagnou na humanidade? Ora, a resposta de Lapierre é consentânea com a de John Zerzan em «Futuro Primitivo», editado pela Deriva. As comunidades humanas primitivas não viam vantagem nenhuma em transformar o seu modo de pensamento e igualmente de «produção» para se entregar à escravidão. Ou seja, da recolecção e da agricultura dita de subsistência para a troca de produtos transformados em valor. Porque o fariam? Não fosse a nova vaga de antropólogos onde se encontra Lapierre, e este na senda de um Pierre Clastres e de um Marshall Shalins («Idade da Pedra, idade da abundância») ainda hoje estaríamos a navegar pelas águas dos arautos da civilização e da razão.

Um livro a ler com a urgência. Urgência essa que não têm de modo algum aqueles que vêem com um sorriso nos lábios a Terra a deteriorar-se sem que levantem um dedo ou que recusem a revolta. Pior, que menosprezem e que denigrem os que lutam. As ditas elites que nos comandam já sabem onde podem colocar as bolhas de oxigénio em redor das suas casas e bairros, pagos por aqueles que sufocam com o ar que já respiram.

Em Glasgow, o tristíssimo documento que conseguiram publicar, mostra bem a indigência intelectual dos seus assinantes; mas é igualmente arrogante ao pretender «preservar a cultura indígena»!! Quando é exactamente o contrário de que se trata. Só nos salvaremos se os compreendermos em todo o seu pensamento racional tão subtil, como intrincado na totalidade da relação humana.

António Luís Catarino