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segunda-feira, setembro 08, 2025

"Luís de Camões", Aquilino Ribeiro

 

Bertrand, 2014 (1ª ed.,1950). Prefácio de António Valdemar
O que aprecio mais em Aquilino, para além de uma escrita única, incomparável, rica, é a sua inteligência viva. Quando esta última qualidade se alia ao rigor e às operações que obrigam à sua existência, como a indução, a dedução e a comparação das fontes disponíveis, temos uma obra ímpar que não se esgota neste livro que ainda se enquadra nos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, visto que Aquilino tende a aceitar a data de 1525 como a data de nascimento do poeta.

Mas existem outras razões para ler este livro: Portugal e os portugueses, o povo e a suposta elite inculta e marialva, estão ali retratados de uma forma que não deixa dúvidas sobre o que fomos, o que ainda somos e, desgraçadamente, o que viermos ainda a ser. Sendo que o futuro espera por nós, não se vê coisa melhor que uma pobreza de espírito, conquanto admirável pela dimensão, das governanças e das gentes que as compõem. Na política e na cultura. Pobreza económica que não faltou a Camões, como todos sabemos, e que foi inscrita no túmulo do poeta por um nobre ressabiado, embora dado ao mecenato, um tal Coutinho dado a versos enxabidos e dormentes, como um poeta «...que viveu pobre e miseravelmente». O termo «miserável», segundo Aquilino, nada tem a ver com as dificuldades de que padeceu Camões, mas sim com a vida que viveu na Mouraria e na noite lisboeta.

Camões com sangue na guelra na juventude, constante enamorado, versejador repentista nas tascas, castigado diversas vezes pelo município e pelas leis, desterrado em Ceuta, ferido possivelmente num raide contra os árabes, desterrado novamente para a Índia, naufragado no Mekong, funcionário em Macau, destituído sem sabermos o porquê, ou adivinhando-o somente, quase a morrer à fome em Moçambique, valeu-lhe então Diogo de Couto que o trouxe para Lisboa. Quando chega, a peste recebe-o em Lisboa o que o obriga à quarentena. A verdadeira desgraça estava a acontecer, contudo, com o «rei histérico» (Aquilino verrinoso) na preparação de Alcácer-Quibir. Dezassete anos depois, a Lisboa que deixou nada tinha a ver com esta nova realidade que encontrou: os habitantes eram outros, que vinham de um interior abandonado, a preparação da guerra exigia novas funções, os seus amigos e conhecidos cirandavam pelo Império em busca de fortunas inexistentes ou simplesmente roubadas à má-fila. Os Lusíadas estão consigo e são imprimidos já em Lisboa, a primeira edição com erros tipográficos e alguns de ortografia que Camões corrige para uma segunda reimpressão, a tal com o pelicano do frontispício para a direita. Não se podia furtar à Inquisição e foi um tal Frei Bartolomeu que impôs a censura que existiu, negociada com o poeta e completamente abstrusa, tão ridícula que se consegue ler o que foi aposto pela moralidade católica em substituição, ou menorização, do paganismo grego e romano. A bela e desgraçada Vénus tinha sempre de ser aceite pela Virgem Maria.

Aquilino defende que Camões não teria sido ignorado pelos seus. É provável, até, que nem o conhecessem pessoalmente, mas já é impossível que não tivessem lido «Os Lusíadas», pelo menos desde 1572, data da sua primeira impressão de uns 300 ou 400 exemplares (ou nem isso). Tendo-se recolhido nos dominicanos de Lisboa, Luís de Camões, sabia que daí, da venda dos livros, não ganharia nada, mesmo que a ninharia da tença anual de 15 mil réis, desse para sobreviver com dificuldade junto com a sua mãe e o ajudasse na tipografia. Mas o «desconhecimento» dos Lusíadas pelos seus pares leva a que se pergunte o tamanho enorme da inveja que recaiu sobre um desgraçado poeta, que possivelmente andava de muletas, cego de um olho, maltrapilho, ainda por cima escudeiro por sortilégio, já que não se prova nobreza. Aliás, um dos factores mais ridículos da maioria dos biógrafos de Camões e desconstruído completamente por Aquilino, é o facto de o quererem nobilitar à força, ao ponto de o colocarem como estudante em Coimbra, o que não é provado em lado algum, mesmo que o poeta tenha metaforicamente referido o Mondego. Mas, para ser poeta de conhecimento imenso, teria logicamente de ter estado na vetusta universidade e ser nobre, claro está, mesmo que o vento renascentista não tenha soprado muito para aqueles lados e rompido as teias de aranha que lhe caíam das paredes e das sebentas dos mestres, ou mesmo que a grande maioria dos nobres fosse de todo analfabeta.

Aquilino dá-nos neste livro de 1950, agora editado pela Bertrand, a distinção clara entre o que será verdadeiro e o que é verosímil na vida do poeta. É uma distinção que fará toda a diferença, passe o pleonasmo. Mas o retratado não sai beliscado, embora a sociedade portuguesa seja chamuscada pela arrogância, ignorância das chamadas elites e pelo poder absoluto de que os portugueses deram mostras ímpares de grande simpatia. Ironia da História: foi Filipe II, o primeiro de Portugal, que pagou à mãe de Camões as tenças em atraso (nem lhe pagaram o que deviam) e aumentou-a, por vergonha da quantia irrisória e que editou e divulgou «Os Lusíadas» a partir de duas velhas edições que chegaram a Castela e também foi ele que patrocinou a edição das «Rimas», a sua poesia lírica, sem o cunho censor das edições portuguesas após a sua morte e já sem a «negociação» com a Inquisição. Ficou a versão da reimpressão de 1572 ou 73. Mas por aí tudo bem, não vem mal ao mundo: as chamadas elites e poetas coevos, os tais que «desconheciam» Camões, eram fervorosos apoiantes da União Ibérica. 

Última nota sobre as edições de Aquilino pela Bertrand: não creio que Aquilino Ribeiro necessite de prefácios embora alguns sejam úteis e interessantes, mas que dizer de algumas obras cujos prefaciadores são gente tão «instruída» quanto um Aníbal Cavaco Silva, um Marques Mendes, um Augusto Santos Silva ou um beato Mário Cláudio? A Bertrand entende ser este um valor acrescentado a um escritor da craveira de um Aquilino?

alc

terça-feira, junho 27, 2023

«Alemanha Ensanguentada», Aquilino Ribeiro

 

Bertrand, 2015. Prefácio de Pedro Mexia
A maior parte deste livro foi escrita em 1920, tendo-se seguido algumas impressões sobre os campos de batalha da I Guerra Mundial em 1928, em viagens que Aquilino Ribeiro fez à Alemanha nessas mesmas datas. As descrições que faz da Alemanha completamente exausta económica e moralmente devido ao diktat do Tratado de Versalhes de 1918/19 não faz dele, longe disso, um «germanófilo» no sentido militar que lhe foi na ocasião apontado; era, contudo, um claro apaixonado pela cultura alemã, sabendo falar bem a língua, visto que era casado com Grete Tiedemann que vem a falecer precocemente em 1927. Para além disso aponta-se uma tendência clara pelo anarquismo em Aquilino e alguns factos relacionados com as suas actividades políticas e consequentes prisões em Portugal, ainda durante a monarquia e a sua participação na revolta de 1927 contra a Ditadura Militar, não deixam dúvidas. 

Perante o verdadeiro entusiasmo que é ler Aquilino e desfrutar o seu português límpido e depurado, com a palavra certeira, em todos estes apontamentos diarísticos, de viagem, teremos de nos fixar somente em dois aspectos: a clareza das suas posições políticas sobre a violência de Versalhes sobre a Alemanha, a tentativa Espartaquista da Revolução de 18 de que ele viu ainda barricadas não levantadas e paredes esburacadas por balas e petardos e as conversas mantidas com oficiais soviéticos ainda na Alemanha depois da derrota às portas de Varsóvia. Reparemos que as impressões de Aquilino foram escritas somente 3 anos após o Armistício. 

Logo na página 18, Aquilino dá-nos uma visão muito particular dos ingleses que ocupam a Alemanha com este trecho delicioso: «Ponho-me a examinar-lhes as caras, cujo taciturno ou seriedade, se quiserem, não é mais que contenção ou fisionomia do animal lançado numa determinada pista. Os britânicos têm sempre no sentido um alvo a tocar. Vão a reflectir, ou devaneando como eu? Qual! Vão embalados no seu inconsciente, ruminando porventura o corned beef, e parece que se não dignam reparar que vai gente ao pé deles. A vigília e inquietação são apanágio do espírito; o motor inglês é instinto e aí está a sua força. Sobem sem olhar para nós; passam diante de nós sem vénia; o comboio como o mundo é ring para eles; eis a gente de alto lá com ela a quem os pregadores alemães, durante a guerra, chamavam em suas imprecações ao Altíssimo «malandragem escrofulosa dos nevoeiros». Mas esta definição dos gentlemen ingleses, Pedro Mexia no seu prefácio não teve em conta!

Não deixa de ser observável a simpatia que Aquilino nutre pelos revolucionários alemães de 1918, nomeadamente a Karl Liebknecht e a Rosa Luxemburgo, a quem destinou um fim trágico por não terem compreendido que a hora da revolução não se teria dado então. Mas tem a noção clara do que terá representado para a Europa a criação dos sovietes de Berlim e Munique por menos de três meses. Por pouco a Europa Ocidental não teria sido socialista. A sua evidente simpatia, não obstante mais à frente criticar a revolução russa em guerra civil, é inversamente proporcional à antipatia que sente pelo social-democrata Ebert verdugo dos revolucionários que utilizou a tropa imperial, ou o que restava dela, para sufocar com sangue a insurreição. Nota Aquilino que a paga desses mesmos militares monárquicos foi o desprezo! A 10 de Outubro de 1920 Aquilino regista no seu diário o seguinte trecho que considero dos mais importantes do livro no que à Revolução de 1918 diz respeito: «(...) semelhante atonia [dos parlamentares social-democratas] acabou por dar fôlego à reacção, chamando à vida os exânimes burgueses e aristocratas, e dando origem a uma oposição ferina, com apartar-se do flanco esquerdo da social-democracia e socialismo independente, chefiado por Lebedour, e do modo mais formal o espartaquismo de queram cabecilhas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Foram estes as cabeças da hidra. O seu cavalo de batalha estava em forçar o Governo a prosseguir a via revolucionária, ceifando por um lado nos privilégios das classes possidentes, por outro trazendo, além da liberdade, bem-estar económico ao proletariado. A sua táctica consistia em quanto mais lhe dessem mais reclamar. (...) Nessa altura, reuniam os plenipotenciários em Versalhes e os exércitos da Enterite atacavam a Rússia Soviética por Odessa e o Mar Báltico. A Ditadura de Moscovo tirava o sono aos vencedores da guerra. Além do fermento revolucionário que ameaçava, levedando, contagiar a Europa doente e insatisfeita, havia o perigo de uma aliança germano-soviética, mercê da qual podiam sorvar os laboriosos frutos da vitória.» (pág.64,65). É muito interessante a visão muito própria de Aquilino Ribeiro acerca das causas do fim da revolução soviética alemã, para além daquela que se referiu acima. Afirma, com evidente conhecimento de causa, que a situação de penúria a que estava votada a Alemanha e a falta de armas e de alimentação geral foi a causa próxima da atonia que o escritor apontou atrás. Cremos que haverá outras mais consistentes no plano da estratégia revolucionária, mas damos estas como importantes igualmente.

Aquilino, neste livro a todos os títulos notável, considerado talvez um diário longe de outras obras de grande fôlego que nos doou, tem a noção exacta do que pode acontecer à Alemanha, se vier, como veio a verificar-se em 1933, um aventureiro que cavalgasse a miséria material e psíquica, atónica, a que estava votado o povo alemão; esse aventureiro chamou-se Hitler que ele refere nominalmente numa carta a Francisco Pulido Valente, em Maio de 1935 e aposta ao livro. Aí lê-se, a páginas 97 e 98, o seguinte: «Desiludido está, de modo geral, o povo germânico, desiludido de Deus, dos estadistas, da justiça, da força, desiludido desde as unhas dos pés até aos cabelos da cabeça deste governo social-democrata com Ebert na presidência, mantenedor do mais ortodoxo burguesismo para os operários, serventuário nojento dos aliados para os nacionalistas. Reconhece que o povo germânico tem necessidade de ocupar a imaginação com alguém ou alguma coisa que pelo tamanho e prestígio personifique o extraordinário. Mas onde está essa figura de proa? O Kaiser é o bronze partido à martelada de que fala Nietzsche. Hindenburgo não passa de um gigante com pescoço de toiro, bastante rebarbativo e intratável, de ignorância enciclopédica para tudo o que não seja a arte da guerra. Lundendorff, inteligência mais dúctil e penetrante; verga sob a responsabilidade da derrota. Mackensen, o invencível, não soube criar idólatras. Se aparecer um aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia, que bata o pé ao vencedor, misto de Anticristo e de Lohengrin, tem povo. Vencida mas não derrotada, a Alemanha quando puder voltará a desembainhar a espada, no que, de resto, não faz mais do que obedecer à estúpida condição humana.(...)». 

Aquilino escreve isto em 1920. Previu com antecipação notável, que só os grandes observadores são capazes, a ascensão do nazismo e a guerra que Versalhes e os vencedores foram capazes de criar em 1918. Que este livro nos sirva, para além de contemplarmos uma das maiores escritas da nossa língua, de aviso sério sobre as consequências de humilharmos povos e estados e de ver um qualquer «aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia» a sair do buraco onde hibernou durante décadas. Em 1920 ainda estávamos longe do apocalipse nuclear.

segunda-feira, abril 18, 2022

« A Retirada dos Dez Mil », de Xenofonte. Tradução do latim e versão de Aquilino Ribeiro, prefácio de Mário de Carvalho

 

Não gostaria que encontrassem nesta ficha de leitura algum tipo de insolência intelectual, mas é minha convicção, cada vez mais séria, que a consulta dos clássicos nos ensina muita coisa, principalmente as causas das boas e más excentricidades humanas e mesmo dos povos. Esta edição da «Anábase» de Xenofonte (para os cépticos será um pseudo, mas é deixá-los dizer, até para dar um ar de sabedoria de copo de branco fresco na mão) é enriquecida com um prefácio de Mário de Carvalho e uma introdução do próprio Aquilino que também o traduziu a partir do latim e versou-o para a língua portuguesa. Já lá vamos. A própria tradução do título faz com que Aquilino nos tenha prevenido da sua infidelidade, mas a verdade é que fica assim muito melhor. Um dos grandes autores do século XX português, segundo as palavras certas de Mário de Carvalho que nos descreve tão bem o sentir grego, do soldado que vota, plebiscita, mata, fere, escraviza, rouba, pilha, até ao comandante e capitães que só decidem depois do plano seja votado pela turba livre de vontades, mas que, ao tomá-la (a decisão) todos lhe seguem sem pestanejar. O grego ama a liberdade, os seus deuses, a quem oferecem inúmeros holocaustos e hecatombes, as suas superstições escondidas nas entranhas dos animais sacrificados, as suas polis. A escrita de Mário de Carvalho leva-nos a perceber este ardor pela vida e também o seu desprezo pela morte justa.

Aquilino Ribeiro, está em Paris em 1938, na Rive-Gauche, supõe-se na gandaia (para usar um termo dele) e a escrever muito, a debater ideias. Conhece M.Tournier, orleanista, católico fervoroso, vive pobremente, de uma cultura enorme. É ele que, após um refrega em que Tournier se encontrava e por ter dado uma paulada a um tipo que o importunava, levou Aquilino a dar um enxurro de porrada ao desgraçado que teve a ousadia de responder com um murro a Tournier. Este, dias mais tarde, oferece-lhe «Anábase» que, segundo as palavras do mestre português é uma «deliciosa, de linfa pura e estreme, colhida com discutível escrúpulo pelas mãos de mil e um tradutores.» A edição que Tournier lhe deu foi uma tradução latina de Joannes Leunclavius, tendo sido comprada por «cinquante sous».

«A Retirada dos Dez Mil», de Xenofonte, tem lugar após a guerra de 29 anos do Peloponeso entre Atenas e Esparta, com a vitória desta última e a decadência gradual da imperialista Atenas, que erradamente se embrenhou na Liga de Delos que exerceu um abusivo domínio sobre outras polis. Milhares de soldados encontravam-se desempregados e sabendo somente guerrear deu-lhes para aceitar um projecto manhoso do sátrapa persa da Lídia, o famoso até hoje Ciro. Manhoso, porque não disse de início ao que ia. O seu projecto megalómano era retirar o rítulo de imperador ao seu irmão Artaxerxes II, no centro da Pérsia, e levando milhares de mercenários e soldados gregos ao engano. É evidente que a sua glória caiu por terra. Venceu a batalha contra o irmão, mas pereceu.

O que ficou para a História, não foi Ciro, foi a retirada de 10 mil soldados gregos de volta à Grécia, às suas pólis, em grande parte sob o comando de Xenofonte, amigo de Sócrates. Esta retirada, maravilhosamente contada por Aquilino, está nos anais das principais escolas militares como sendo uma das mais bem sucedidas do mundo. Outras há, como a retirada de Massena, na 3ª invasão francesa (nos 200 anos desta efeméride não foi utilizado, por Portugal, o termo «invasões», mas sim de «guerras peninsulares» o que hoje não deixa de ser irónico para bom entendedor), ou como as retiradas, bem mais atabalhoadas e cobardes, de Napoleão e Hitler na Rússia. E já que estamos a falar de retiradas marciais, penso que West Point não estudou bem as lições de Xenofonte aos seus pupilos, já que nos lembramos bem das fugas americanas no Vietname, na Somália ou, agora, no Afeganistão. Mas qual o verdadeiro interesse de ler uma retirada clássica como esta? Porque em época de guerra, como a de hoje, uma pessoa honesta compreende o que está na base de um enorme conflito: a guerra deverá sempre ser evitada. Xenofonte prefere, com os seus soldados, a negociação, a alimentação e a manter a vida deles ao ímpeto destruidor de um avanço sangrento. Só opta pela guerra, pela pilhagem ou pelo castigo pela escravidão, quando a hostilidade dos vários povos por onde passam até ao Ponto Euxino e depois ao Bósforo não consegue ser ultrapassada. E mesmo no mar, muitas vezes recorreu à pirataria. Os limites humanos estão sempre postos à prova e nessas condições as prédicas (os gregos amam a palavra), em busca da liberdade e de justiça, por parte de Xenofonte aos seus capitães, aos soldados e aos pensamentos para si próprio fazem parte de uma verdadeira tragédia ou epopeia comparada à Ilíada e, desconfio eu, superior à Odisseia. E foi assim em quinze meses, em avanço e retirada, percorridas mil cento e cinquenta e cinco parasangas (cada, 5,520m). Contei 25 povos em cujos territórios os gregos atravessaram, não sem que houvesse igualmente mudanças políticas ao nível do poder. O povo esse, continuava a pagar tributos a quem quer que fosse.