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quinta-feira, novembro 24, 2022

«Aniquilação», de Michel Houellebecq

 

Isto deve ser a relação normal entre um leitor como eu, que leu o oitavo e último romance de Houellebecq, e sentir que o homem se está a transformar num tipo mais humano, mais comovedor, até. Não será o caso de sentir a velhice a cavalgar face a uma das figuras do Apocalipse com a gadanha apontada a ele, visto que ele nasceu em 1956. Não é assim tão velho e eu também nasci nesse ano, note-se e não gosto nada que mo lembrem, principalmente no registo de «Aniquilação». Embora não me sinta assim tão seguro do que acabo de dizer. Sim, a velhice vem aí e a morte também. Para além disso, Houellebecq não nos lembra somente que somos mortais. Para isso escreveram-se milhões de páginas. Lembra-nos, antes de mais, que somos mortais e do Ocidente o que faz toda a diferença. Para além disso, somos tecnologicamente avançados e presentes numa enorme economia de mercado, cujo dinheiro pressupõe um negócio em tudo o que toca. O nosso corpo, a degenerescência, a doença e a morte são tratados como valor. E sofremos também por isso. O autor que eu gosto e detesto simultaneamente tem esse condão de nos lembrar como sendo quase esse o seu leit motiv dos seus livros. É muito possível que tenhamos perdido uma fatia grande de dignidade na velhice e principalmente na morte. Materializámos a nossa morte e acelerámos a velhice quase pedindo desculpa por teimarmos em viver sem «contribuir» para a riqueza das sociedades. É este o tema principal de «Aniquilação», embora não o entenda como a continuação de mais do mesmo de romances anteriores de Houellebecq. Ele está mais suave, mais empático e continua a escrever incrivelmente bem. Tem trechos de uma beleza notável.

«(...) - A verdadeira razão por trás da eutanásia, na realidade, é que já não suportamos os mais velhos, já nem queremos saber se eles existem, é por isso que os abandonamos em lugares especializados, longe da vista de outros humanos. A quase totalidade das pessoas, hoje, considera que o valor de um ser humano decresce à medida que a idade aumenta; que a vida de um jovem, e mais ainda de uma criança, tem muitíssimo mais valor que a de uma pessoa muito idosa. (...) Em todas as civilizações anteriores, o que determinava a estima, ou até a admiração, que se podia ter por um homem, o que permitia estabelecer o seu valor, era o modo como se comportara efetivamente ao longo de toda a sua vida; (...) Os nossos atos heróicos ou generosos, tudo aquilo que conseguimos atingir, as nossas realizações, as nossas obras, nada disso continua a ter valor aos olhos do mundo; e, muito depressa, deixa de o ter aos nossos próprios olhos. Eliminamos assim qualquer motivação e todo o sentido da nossa vida; é, sem tirar nem pôr, aquilo a que chamamos niilismo. Desvalorizar o passado e o presente, em prol do futuro, desvalorizar o real em favor de uma virtualidade situada num futuro vago, eis os sintomas do niilismo europeu, bem mais decisivos do que todos os relevados por Nietzsche; (págs. 395,396). 

E sobre a morte, depois de considerar que a agonia e principalmente agonia antes da morte se tornou «vergonhosa» no Ocidente a partir dos anos 50, ou seja a partir dos «30 Gloriosos» a própria doença era considerada quase um tabu. Diz o autor de «Aniquilação»: «(...) Quanto à morte, era ela a indecência suprema, rapidamente se determinou a sua ocultação na medida do possível. As cerimónias fúnebres ficaram mais curtas - a inovação técnica da cremação permitia acelerar significativamente os mesmos procedimentos, e a partir dos anos 80 as coisas passaram a ser assim. Muito mais recentemente, as classes mais esclarecidas e as mais progressistas da sociedade começaram a escamotear igualmente a agonia. Tornou-se inevitável, os moribundos defraudavam a esperança que colocávamos neles, reagiam muitas vezes mal à perspetiva de transformar o seu passamento numa festança, o que deu lugar a cenas bastante desagradáveis.» (pág.570)

Houellebecq está pois no seu auge como escritor. Não sei se mudou e no próximo romance espelhará, como foi hábito nos romances anteriores o seu sarcasmo e cinismo, mas a leitura de «Aniquilação» é fundamental porque se trata de um livro extraordinário. É evidente que quando se fala de aniquilação, mesmo que neste caso, seja de pessoas, de sujeitos que amam e vivem até ao fim, a finitude também perpassa para a Humanidade em estado semiletárgico, alienado pela guerra e pela precariedade material e dos sentidos, igualmente. Houellebecq prevê o regresso de um niilismo próprio do estado demencial em que o planeta se encontra. No meio do romance aconteceu-me um sobressalto: cita um livro de John Zerzan que eu editei na Deriva - «Futuro Primitivo» - e um dos agitadores das grandes manifestações de Seattle, como sendo um «anarcoprimitivista» um movimento tipicamente americano embora creio que ele confundiu com o «sobrevivalismo» uma corrente mais radical que não é seguida por Zerzan. São pormenores, mas no essencial até se aceita a descrição de «Futuro Primitivo» https://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=futuro+primitivo como pondo em causa a tecnologia moderna. Compará-lo a Kazinsky, ou Unabomber, é que é um pouco mais forçado. Não têm nada a ver um com o outro. O primeiro não é niilista, joga na ação de massas; o segundo talvez seja, se ainda for vivo, esquecido numa prisão dos EUA. Poderia ter citado um autor que defende um neoniilismo falecido há meses e que também editei - Peter Lamborn Wilson ou Hakim Bey cujo último livro foi recentemente editado em Portugal e defende exatamente um novo niilismo salvífico. O outro sobressalto é quando cita um livro que li e que ainda não foi publicado aqui, trata-se de «Le Lambeau» de Philippe Lançon que ficou gravemente ferido aquando do ataque islamita à Charlie Hebdo. Conta nesse livro o suplício que passou dois anos num hospital de Paris a tentar a recuperação que nunca foi total. Devo dizer que o seu relato é impressionante e que publiquei neste blogue https://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=phillipe+lan%C3%A7on . 

Houellebecq é como é. Sabemo-lo bem e o único livro que não li dele foi o seu «Intervenções». Não sendo um romance não me interessava saber mais sobre o que ele pensa. Não sei se está nos meus antípodas políticos. Deve estar, seguramente. Até porque como ele diz desenvolve-se em cada um de nós um pensamento político que concorre para a solução do que é estritamente social e humano. Para ele isso ainda constitui um mistério. Para mim, isso ainda está na base de tudo o que é humano. Mas também sei que o é cada vez menos. De geração após geração vemos o pensamento a fraquejar numa espécie de aniquilação. 

domingo, julho 10, 2022

«Serotonina», de Michel Houllebecq

 

Tradução de Valério Romão
Alfaguara, 2019
«Deus, na verdade, ocupa-se de nós, pensa em nós a cada instante, e por vezes dá-nos instruções muito precisas. Estes arrebatamentos de amor que nos apertam o peito até nos deixarem sem ar, estas iluminações, estes êxtases, inexplicáveis do ponto de vista da nossa natureza biológica, da nossa condição de simples primatas, são sinais extremamente claros.
    E hoje percebo o ponto de vista de Cristo, o seu reiterado desespero ante o endurecimento dos corações: dispõem de todos os sinais e não os têm em consideração. É mesmo necessário dar a minha vida por estes miseráveis, ainda por cima? É necessário ser explícito a esse ponto?
    Dir-se-ia que sim.»

Michel Houllebecq, Serotonina, 2019, pág.279

domingo, junho 19, 2022

«A Possibilidade de uma ilha», de Michel Houellebecq

 


Este livro foi-me antipático no início. Nessa ocasião afastei-me dele, digamos, com o ruído possível para um facebook que está na sua grande maioria de costas voltadas para os livros. Voltei a ele desde o início e fui reparando nos seus inúmeros alter ego que constroem a narrativa. Parece-me que o que me levou à expulsão imediata do livro de Houellebecq foi a personagem inicial de um Daniel «humorista» que procurava o seu primeiro milhão de euros através de piadas sobre as palestinianas, sobre as mulheres, os homossexuais, sobre o suicídio do seu próprio filho ou a tristíssima frase «lambe-me a faixa de Gaza». Mas conseguiu o seu milhão depois multiplicado por muitos, mais tarde quando entra no cinema porno de choque e ainda por cima com laivos políticos contra árabes, negros, jovens e mulheres. Às vezes não aguentamos, o leitor ainda não é um tipo anódino, inócuo aos sentimentos (a sua aniquilação é um objetivo do neoliberalismo autoritário). 
Provavelmente, fui impulsivo na minha reação às primeiras páginas. Mas um bom livro provoca-nos. Houellebecq pode não ser nada disso. Pode não ser (não é) um Céline ou um Pound. Politicamente não é um maurrasiano, nem lepenista. Não é decididamente um fascista. Odeia a guerra. Compreendi melhor o que pretende (e já não é o primeiro livro que leio dele): é provável que exija exasperadamente um regresso à humanidade (não ao humanismo!) ao que ela tem de mais positivo nas relações sociais pré-industriais. O escritor é contraditório? Sim, também é. Mas e então? A sua vida, aquela que ele expõe publicamente, é constituída por um consumo obsessivo por produtos exclusivamente agro-industriais? Pela mesma marca de bacon ou de presunto e vinho da mesma marca; pelas mesmas parkas verdes e calças castanhas? Por botas Timberland? Que temos nós com isso? Vista o que quiser, mas este «A possibilidade de uma ilha» é um livro de amor. Nunca verdadeiramente atingido, mas de procura incessante de amor e de liberdade. Não vos conto mais, porque lhe devo isso devido à minha primeira reacção. Seria, talvez, mais honesto colocar aqui trechos que ilustrassem o que digo aqui e em contradição com a minha primeira crítica a Michel Houellebecq. Mas há uma que não posso deixar de vos lembrar: a procura da imortalidade e o seu êxito (o tema central do livro num planeta destruído por guerras inter-humanas) por induções genéticas pode ser uma possibilidade não tão longínqua como isso. Pouco importa, nem valeria a pena introduzir essa questão já que o livro o faz com propriedade e com bases científicas plausíveis, mas o corpo procura o desejo sexual. O fim da vida, mesmo com a imortalidade ali mesmo e disponível para os mais ricos vem quando já procuramos «desejar o desejo». Aí, já morremos, sem que se saiba bem como. Um livro que vos recomendo, mesmo em contraciclo.