sábado, novembro 29, 2025
segunda-feira, novembro 24, 2025
"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi
segunda-feira, outubro 20, 2025
«A Consciência de Zeno», Italo Svevo
segunda-feira, abril 14, 2025
«O Triunfo da Morte», Gabriele D'Annunzio
Florença
Florença, um dos pólos culturais mais significativos da chamada civilização ocidental apresenta, orgulhosa e impante, as cenas de violência comuns cá na casa: cacetadas de porrete, facas afiadas, espadas que decepam tudo, olhares desafiantes, raptos e violações de mulheres; Perseu corta a cabeça de Medusa, David contra Golias que o mata e decapita, a vingança sanguinária de Artemisa, Hércules parte a espinha a Centauro, Aquiles jaz morto com Ajax e este a arfar de vingança, as Sabinas sofrem às mãos dos romanos. Lá dentro da Uffizi jazem crucifixos e dor, torturas a Santa Catarina com rodas dentadas, a Santo Estêvão esfolado, a S. Sebastião espetado. E isto não acaba nunca...
sábado, agosto 24, 2024
«A Malnascida», Beatrice Salvioni
quinta-feira, julho 18, 2024
«Révolution», Enzo Traverso
segunda-feira, julho 01, 2024
«O Caderno Proibido», Alba de Céspedes
quarta-feira, janeiro 24, 2024
«Tasmânia», Paolo Giordano
segunda-feira, junho 27, 2022
«História da Menina Perdida», Vol.IV, Elena Ferrante
«Eram anos complicados. A ordem do mundo em que nós crescêramos estava a dissolver-se. As velhas competências devidas a um longo estudo e à ciência da linha política certa pareciam, de repente, um modo insensato de passar o tempo. Anárquico, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotsquista, maoista, operaísta, estavam rapidamente a tornar-se rótulos retrógrados, ou pior, um estigma de brutalidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica do lucro máximo, que antes eram consideradas uma abominação. tinham voltado a ser, por toda a parte, as bases da liberdade e da democracia.»(pág.376).
E entretanto, toda a gente ia parar à prisão, cujas portas se abriam à repressão brutal e à discricionariedade da polícia e da «justiça». Bastava ser amigo de um «terrorista» e passava dois anos na cadeia para averiguações: Nadia, a «filha-família» de intelectuais de renome de Itália e florentinos (nos dois sentidos) e que tinha entrado nas Brigadas Vermelhas, cujo pai influente tinha sido apanhado também ele pelas teias da corrupção, denuncia Pasqualle das BV por crimes que fez e que não fez, a troco de uma redução substancial da pena. A partir daí lista nomes já por vingança, por invejas ou para pagar uma afronta. Denuncia outros amigos como Enzo e Antonio Pannucci que nada tinham a ver com as BV ou a Prima Línea. Os irmãos camorristas Sollara são mortos em frente à Catedral sem que ninguém visse quem foi e embora tenham dito que não tinham passa-montanhas, a heroína corroía os jardins de Nápoles, a filha de Lila foi raptada pelos Solara e passados anos nada se sabia dela, a carreira literária de Lenú tem outro alento e a vida continua, violenta, brutal, tanto no ódio, como no amor. No fim Elena Ferrante dá-nos conta da metáfora que liga a Praça Carbonaria de Nápoles com toda a Itália. No meio do lixo, de animais mortos de cadáveres insepultos, de legumes podres, lutam jovens até à morte e pela navalha e pela honra. Morre-se um pouco sem saber o porquê.
Nada disto, todavia, me tenta saber quem é de facto Elena Ferrante. Não a procuro na net. Não me interessa nada. Que é uma boa escritora, é-o sem dúvida.
terça-feira, junho 14, 2022
«História de quem vai e de quem fica», Elena Ferrante, vol.III
quarta-feira, maio 25, 2022
«A História do Novo Nome», de Elena Ferrante, vol.II
domingo, abril 24, 2022
A Entrada na Guerra - Italo Calvino
terça-feira, abril 05, 2022
« O Logro da Arte Contemporânea », Gianfranco Sanguinetti
quarta-feira, março 30, 2022
« A Amiga Genial », Elena Ferrante
domingo, dezembro 26, 2021
Auschwitz, Cidade Tranquila - Primo Levi
Hoje será preciso alguma dose de coragem para ler um livro cuja capa tenha o nome de Auschwitz, tal a imensa bibliografia (?) com este nome gerada pelo comércio livreiro a que não escapa sequer o baratinho e promocional «Pack Auschwitz». Ler Primo Levi devia ser um exercício obrigatório a quem se lance a adquirir a mercadoria abjecta do filão «holocausto». Não que seja um escritor de primeira linha, longe disso, mas é de uma grande objectividade e não rodeia questões, como se as houvesse!, perante o horror programado dos nazis. Este «Auschwitz, cidade tranquila» vale não só pelo seu título sardónico; conta-nos histórias e pequenos contos do tristemente célebre Lager alemão. Lembremo-nos que Levi foi encarcerado pela Gestapo em 1943 na Itália donde era natural e não por ser judeu. Era resistente ao fascismo e só mais tarde, depois de apurada a sua ascendência judaica, é que terá seguido para o campo da morte. Só que era igualmente um químico de renome e talvez tenha sido essa a razão de ter sobrevivido, embora não haja certeza absoluta desse facto. Muitos outros químicos que pertenciam ao «Komando» químico do campo soçobraram de frio, de fome ou na marcha forçada aquando da queda do campo devido ao avanço russo. Essa marcha forçada de prisioneiros escravos até Birkenau é dos momentos mais horríveis de que há memória na história da II Guerra Mundial. Só um quarto, como nos diz Levi, lá chegou. O autor encontrava-se entre os sobreviventes. Isto foi em Janeiro de 1945. A libertação total do campo pelos soviéticos e a morte de Hitler foi em Maio.
Fixei, contudo, um pequeno conto de Levi que sintetiza bem a mentalidade de um jovem casal nazi alemão, em 1943. Ele químico, ela não sei, o autor não diz. O jovem Mertens teme os bombardeamentos aliados e prefere uma zona mais tranquila já que quer construir família e ganhar algum dinheiro. Os amigos berlinenses tentam demovê-lo; que não, a vida no campo rural é um rame-rame, há os aldeãos, terão de habituar-se a ritmos diferentes, eles que são citadinos. No entanto, Mertens está decidido e pede a transferência para a fábrica química de Buna-Werke na Polónia, agora Alemanha: ganha-se bem, não há bombardeamentos, a guerra decorre lá longe e terá oportunidades para subir mais depressa. Mertens e a agora mulher instalam-se na cidadezinha com o nome polaco de Oswiecim, em que muitas casas bonitas se encontravam vazias e à espera de ocupação. Nem isso o fez perguntar porquê. Na fábrica onde subiu rapidamente a Oberingenieur, tinha como trabalhadores uns tipos esqueléticos, medrosos, de olhar baixo, tremendo de frio e fome, que vestiam uns pijamas azuis às riscas. O nosso Mertens nada perguntou. Um deles era Primo Levi e trocou com ele duas ou três frases. Numa ocasião, pediu que lhe dessem sapatos mais quentes e um casaco. Depois vieram os russos e Mertens nunca mais foi visto até aos anos 60, em que o acaso de uma troca de correspondência entre fábricas químicas devido a um erro de uma encomenda, Levi se cruza com Mertens. Era ele. A troca de cartas é demolidora para qualquer um de nós, em que ainda reste alguma sensibilidade: à pergunta lógica de Levi sobre o que ele pensava do seu papel no genocídio, respondia que não, nunca deu por isso no campo de morte, nunca viu morrer ninguém, que seria punido se tal viesse a ser comentado, então sabia ou não?, não!, falava-se mas nada de provas. Dedicou-se ao trabalho e nada mais, e que se lembrava dos sapatos e do casaco, sim, enfatizando claramente o facto, como um lampejo de arrependimento. Como bom alemão, obediente e escrupuloso, burocrata, nada sabia, nada viu, nada comentava. O nome da cidadezinha polaca que agora era alemã tomou o nome de Auschwitz, em vez de Oswiecim. Mas ele não sabia de nada, claro. Morreu pouco depois desta troca de correspondência.
segunda-feira, setembro 21, 2020
«Vírus soberano? A asfixia capitalista», de Donatella Di Cesare. Algumas colagens
Este livro não faz parte da teoria da conspiração sobre o Covid-19. Pelo contrário. A filósofa italiana Donatella Di Cesare analisa a pandemia que atravessamos de modo cabal, claro e sintético como só os mais capazes o fazem em temas desta complexidade. Não por acaso foi António Guerreiro a traduzi-lo, o que nos deixa sossegados. Presumo que foi dele a responsabilidade de propor às Edições 70 a sua edição. Trata-se da melhor exposição sobre o vírus que nos mudou a vida totalmente. A análise está aí para quem quiser adquirir este livrinho. Mas inquieta-nos muito e leva-nos a reflectir sobre as causas que levaram ao culminar de uma catástrofe anunciada por muitos. Mas quem lê, hoje, filósofos e escritores? Talvez uma imensa minoria, todavia, incapaz de fazer mudar o que quer que seja da «distanciação social» política da nossa «democracia imune». O capitalismo, no seu estádio actual, a não ser combatido, levar-nos-á à morte que ele próprio nos propõe abolir através das leis do mercado e do domínio mais que insano da natureza. Estamos a pagar muito caro, talvez com a morte, a aceitação da acumulação especulativa de capitais e da conquista fictícia da amortalidade que a propaganda das mercadorias nos propõe diariamente. Claro que é um paradoxo. Donatella Di Cesare explica-nos porquê, nestas breves «colagens» que vos proponho que conheçam e, principalmente, que adquiram o livro.
Algo vai mal quando metade da população mundial, ou seja, 4
biliões de seres humanos, foi confinada numa prisão domiciliária desde Março de
2020 falando à varanda uns para os outros, sem poder sair, com todos os
serviços fechados, hospitais a abarrotar, escolas e universidades fechadas,
comércio encerrado, a cultura barrada, tendo por única «comunicação» a
acomunicação por excelência: as redes sociais, o videotrabalho, as
videoconferências, a televisão, os «especialistas». A polis, a praça pública,
fechou e não se sabe quando abre ou se irá abrir no futuro; o processo,
contudo, vinha já muito detrás, quando nos anos 80, o «there are no
alternative» neoliberal se tornou um mantra e toda a contestação foi amordaçada
paulatinamente, retirando às manifestações constantes de revolta a capacidade
transformadora. O Estado imunizou-se, imunizando os seus cidadãos contra o
Outro, o estranho, que podem ser o estrangeiro, o turista ou migrante, as
minorias sexuais, os velhos, os sem-abrigo... a conquista da imunidade
defendida pelos cidadãos que aceitam sem protesto a distanciação, a ausência do
toque dos corpos, a teletemperatura, as app vigilantes e denunciadoras de
infectados, a presença do mal assintomático, veio, escrevia eu, juntamente com
a imunidade, a anestesia.
A palavra, em colagens, de Donatella Di Cesare:
«O mal que vem é um biovírus assassino, um germe
catastrófico. Mas desta vez não é uma metáfora. É o corpo físico que adoece – o
corpo exausto de humanidade, o organismo nervoso, cansado, sujeito durante anos
a uma tensão intolerável, a uma agitação extrema. Até à apneia. Talvez não seja
coincidência o facto de o vírus proliferar nas vias respiratórias, onde passa o
ar vital. O corpo subtrai-se ao ritmo acelerado, não se aguenta, cede, pára.»
(pág. 15)
«Não se pode esconder o desejo de mudança que nos últimos
anos vem aumentando devido a um sistema económico injusto, perverso, obsoleto,
cujos efeitos são a fome e a desigualdade social, a guerra e o terror, o
colapso climático do planeta, o esgotamento dos recursos. Agora, porém, é um
vírus que abala o mundo. (...) O vírus inesperado suspendeu o inevitável sempre
igual, interrompeu um crescimento que entretanto se tornou uma excrescência
incontrolável, sem medida e sem fim.» (pág. 17)
«O mal que vem, olhando bem, já tinha chegado. Era preciso
sermos cegos para não ver a catástrofe à porta, para não reconhecer a
velocidade maligna do capitalismo que não sabe nem pode ir além e tudo envolve
na sua espiral devastadora, no seu vórtice compulsivo e asfixiante. » (pág.
29/30)
«O coronavírus chama-se assim por causa da auréola
característica que o envolve. Uma auréola sugestiva e temível, uma coroa
poderosa. É um vírus soberano, a começar pelo nome. Escapa, sobrevoa, transpõe
as fronteiras, passa para além. Escarnece da soberania que pretendia ignorá-la
grotescamente ou aproveitar-se dele. E torna-se o nome de uma catástrofe
ingovernável que por todo o lado desmascarou os limites de uma ‘’governance’’
política reduzida a administração técnica. Porque o capitalismo – como sabemos –
não é um desastre natural.» (pág. 37)
«O poder totalitário é antes um vínculo férreo que funde
todos em um; em vez de ser instrumento, é o próprio terror que governa,
enquanto devora o povo, isto é, o próprio corpo, e contém já os germes da
autodestruição. E hoje? O terror tornou-se uma atmosfera. Cada um fica entregue
ao vazio planetário, exposto ao abismo cósmico. Não é necessário um aviso
directo porque os riscos parecem vir do exterior. Na sua aparente ausência, o
poder ameaça e tranquiliza, exalta o perigo e promete protecção – uma promessa
que não pode cumprir. Porque a democracia pós-totalitária requer medo e
funda-se no medo. Eis então o círculo perverso desta fobocracia.» (pág. 64)
«A abolição do outro faz-se agora por decreto – em troca de
segurança e imunidade. O corpo de cada cidadão é de facto uma fortaleza que
deve ser protegida contra inúmeros perigos e imponderáveis ameaças. Prudência e
suspeita devem determinar as relações sempre necessariamente mediadas por
dispositivos capazes de separar, conter, garantir segurança e preservar. O ‘’distanciamento
social’’ é, portanto, o selo da política imunitária.» (pág. 83)
«O que perturba nas disposições tomadas durante a emergência
da Covid-19, não é apenas a posição da distância em relação ao outro e,
portanto, o veto implícito de qualquer abraço, de qualquer efusão espontânea,
mas também a expulsão obscura de todas as relações não protegidas, da
co-presença, do encontro dos corpos. As consequências são políticas. É nesse
sentido que se deve apreender aqui o laboratório de novas e inéditas
disposições.» (pág. 84)
«O aviso da democracia imunitária não é assim tão ilegível:
afasta o perigo da massa viva e incontrolável, põe à distância o espectro da
revolta, assegurando condições saudáveis de sobrevivência.» (pág. 86)
«As praças e os lugares de encontro espontâneos foram sendo
progressivamente substituídos pelo espaço virtual da web.» (pág.87)
«Viver e trabalhar ‘’à distância’’ significa estar rodeado
de ecrãs. Na ambiguidade do ecrã resume-se todo o paradigma imunitário: ao
mesmo tempo que protege, tutela resguarda, abre o acesso ao mundo.» (pág. 87)
«O risco da prisão domiciliária em massa é uma implosão
psíquica com resultados imponderáveis. Os medos multiplicam-se: ficar doente,
perder o emprego, ser abandonado, ficar entubado. O choque viral causa
tristeza, raiva, irritabilidade, depressão, insónia. As irrupções de violência
atingem as mulheres. Sem dúvida que não se ressentem do confinamento apenas
aqueles que já têm problemas mentais. A existência de muitos mudou do dia para
a noite.» (pág. 92)
«A brutalização securitária requer mais paredes, mais arame
farpado, mais prisões.» (pág. 95)
«A vigilância da rede, aquele retículo gigantesco em que
todos são espiados por um imenso olho invisível atrás do ecrã, é a versão mais
recente do panóptico. Só que aceitamos ser exilados na transparência – e fazemo-lo de bom grado.» (pág. 100)
«Talvez acabemos por sair com uma certificação de imunidade
que atesta os nossos anticorpos. Passaremos, quase por hábito, entre
sofisticados scanners térmicos e densos circuitos de vídeo-vigilância, em
lugares e não-lugares esterilizados, mantendo a distância de segurança, olhando
à volta com cautela e desconfiança. As máscaras não nos ajudarão a distinguir
os amigos e a ser reconhecidos. Por muito tempo, continuaremos a ver por todo o
lado assintomáticos que, sem o saberem, alojam no interior a ameaça intangível
do contágio. Talvez o vírus já se tenha retirado do ar desaparecido,
dissolvido; mas o seu fantasma permanecerá por muito tempo. E ainda teremos
falta de ar, a respiração constrangida.» (pág. 117)
São estas colagens que apontam para a necessidade de uma
leitura mais atenta do «Vírus Soberano? A asfixia capitalista» de Donatella Di Cesare. Não há uma só
afirmação da filósofa italiana que não concorde, principalmente, na construção
dessa «democracia imunitária» distopia assente numa catástrofe respiratória que
iremos pagar muito caro se não agirmos contra ela e contra o capitalismo que
aqui vê uma forma lógica de tentar perpetuar-se: pela apropriação da atmosfera
e do corpo. O bioterror está aí.
António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Setembro de 2020.


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