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segunda-feira, novembro 24, 2025

"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi

 

VS. Editor. 2022. Tradução de João Coles

Furio Jesi faleceu em 1980, precocemente aos 39 anos deixando-nos, contudo, uma obra ensaística significativa principalmente na questão do conceito de mito. «Spartakus, Simbologia da Revolta» debruça-se sobre os mitos da esquerda, os que sempre acompanharam a construção utópica de sociedades livres em que a esquerda se viu envolvida, mesmo com erros inerentes à aplicação prática numa dada realidade social em ebulição. Furio Jesi parte da revolução espartaquista, entre Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919, para notar que o mito já existe no próprio nome da Liga Espartaquista que vai ser o gérmen do KPD e que lembra a revolta dos escravos liderada por Espártaco contra o Império Romano. Reside aqui o mito que guiou Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt a participar numa revolta que, paradoxalmente, não acreditavam poder ganhar mas que serviu de estímulo para a construção de uma sociedade livre. Para além do sacrifício, talvez desnecessário (por uma análise incorrecta da correlação de forças em campo)  dos revoltosos alemães, perpetrado pela social-democracia de Ebert, Furio Jesi expande as suas considerações sobre o que distingue uma revolta de uma revolução. Enquanto que, na primeira, existe uma suspensão do tempo histórico, na revolução há uma apropriação desse mesmo tempo. Uma destrói, a outra constrói e é nessa destruição que existe a suspensão, pela violência e pela identificação próxima com o  outro, de uma realidade que se quer outra. A revolução retoma o tempo normal, sob outras formas, é certo, mas a construção de um tempo é um dos objectivos não escondidos de qualquer revolução. Assim foi em 1789 e em 1917. 

A esquerda actual vive igualmente de mitos. O mito da comuna de 1871, dos conselhos de 1918/19, da Guerra Civil de Espanha de 36/39, do Maio de 68, da guerrilha de Che, mas não deixa de ser sintomático que essa identificação do mito persista nos derrotados e não nas revoluções vitoriosas, como a de 1917. Compreende-se que o sangue derramado dos heróis, construa uma identificação psicológica forte quando a derrota foi o culminar das suas utopias. 

A esquerda, não por acaso, deixou de ser subversiva, dispensando a propaganda como coisa de nazis e fascistas, não compreendendo que ela foi uma das razões que uniu (e ganhou) camadas de gerações revolucionárias em torno de uma ideia comum. Hoje acantonou-se no parlamentarismo deixando para outros a construção de uma sociedade mais livre. A subversão deixou de fazer sentido para largos estratos da esquerda, receosa de perder votos afirmando-se como uma espécie de corpo bem-comportado em debates que julga fracturantes, mas que não são mais do que o caminho óbvio da evolução das liberdades. O tempo aqui não será suspenso, porque não há revolta que lhe valha com estes pressupostos. 

De Furio Jesi:
«Podemos amar uma cidade, podemos reconhecer as suas casas e ruas nas nossas mais remotas ou mais caras memórias, mas só na hora da revolta sentimos verdadeiramente a cidade como nossa: nossa, por ser do eu e aos mesmo tempo dos ''outros''; nossa, por ser campo de uma batalha que se escolheu e que a colectividade escolheu; nossa, por ser espaço circunscrito no qual o tempo histórico está suspenso e no qual cada acto vale por si só, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando na alternância das investidas, muito mais do que brincando, quando crianças, nas suas ruas, ou passeando por elas mais tarde com uma rapariga. Na hora da revolta já não estamos sozinhos na cidade.» (pág.77)

alc

segunda-feira, outubro 20, 2025

«A Consciência de Zeno», Italo Svevo

 

Penguin, 2022. Introdução de Gonçalo M. Tavares. Tradução de Ana Cláudia Santos

Um dos motivos que me levam ao modernismo (e tão depressa não sairei dele, embora de uma forma intermitente, é certo) é o seu gosto pelo inconsequente, pela ruptura com a normalidade, embora hoje nos pareça um pouco ingénua, tal a forma abrupta como as sociedades e as mentalidades se transformaram. Nada hoje importa. Svevo escreveu este romance em 1923, entre as duas guerras e está subjacente a derrocada dos valores burgueses: o casamento como mentira, a mulher como objecto que se pode usar e abusar porque efectivamente é explorada pelo trabalho ou pelo género, o comércio como obtenção especulativa do lucro e da usura (aproximava-se 1929 e a crise capitalista que levou milhões à miséria e ao desemprego), a mentira como alfa e ómega de toda a relação, o individualismo exacerbado e explicativo de todas as atitudes sejam elas danosas ou não para os outros, e, principalmente, a anomia social, característico da época a que se deu o nome de modernismo que abarca, ele próprio, outras modalidades e expressões literárias e artísticas. O Outro não existe e essa indiferença só é ultrapassada quando a consciência se obriga a actos pusilânimes, teatrais, algo burlescos, até beneméritos mas desde logo, repentinamente esquecidos e até lamentados pela atracção de fazer o bem.

Italo Svevo tem uma particularidade que admiro num romancista: é íntegro. No meio da tempestade que foram o anos 20, os chamados «roaring twenties» dos Fitzgerald e companhias, ele consegue ver o essencial: a queda. Não que os jovens ricos não a pressentissem, mas esses, na sua maior parte escolheram a guerra e o autoritarismo. Svevo presume o que aí vem, não augura nada de bom e tem razão: a queda dos valores mais sólidos dão lugar à festa terrífica da ditadura, do totalitarismo onde tudo é possível dentro da orgia dos possidentes. A psicanálise, a sua eventual doença, o acaso como um fim que tudo justifica porque já não decide nada é a forma que procura para uma salvação que nunca virá. Digamos que ele será aquilo que Shaw chamou de um «socialista insociável».

Zeno não se enquadra na época, se bem que aqui e ali tergiverse e se encontre com ela. É essencialmente um tipo bom, que aceita e, simultaneamente, recusa a psicanálise e o positivismo, nessa altura em plena expansão. Escreve por ordem de um médico suíço que odeia, mas que cumpre, com este mesmo livro, o que ele lhe exige. Embora longe de um mero diário ou literatura epistolar, coloca-se como um observador na primeira pessoa. Que experimenta, que age e analisa os resultados da sua acção. A parte final do livro é comovedora pela incompreensão da guerra que se lhe atravessa em 1915, em Trieste. E ser triestino é mais que do um mero nacional, é estar num limbo entre ser austro-húngaro (o nome verdadeiro de Italo Svevo é Aron Hector Schmitz) e italiano. Não escolhe um ou outro. É como ser alsaciano, bascos ou catalães franceses. É nascer em Trier, na Alsácia, como Marx, e ser-lhe dito que afinal a cidade é Trèves. Já velho, custa-lhe não conseguir beber o seu café com leite porque uma brigada alemã marcou-lhe a fronteira da sua terra: «zurük!», palavra espúria que se recusa a aceitar. A guerra, em 1915, coincide igualmente com a sua decadência física. Quantas vezes me lembrei, nessa tristeza entranhada de um velho, a «Morte em Veneza»: 

«Naquele momento, lembrei-me de que entre as muitas mentiras que eu impingira àquele observador penetrante que era o doutor S., estava também a de que eu não voltara a trair a minha mulher depois da partida de Ada. Também a respeito desta mentira fabricou as suas teorias. Mas ali, à beira daquele rio, de repente e com espanto, recordei que era verdade que há alguns dias, talvez desde que abandonara o tratamento, eu não tinha procurado a companhia de outras mulheres. Estaria curado, como defendia o doutor S.? Velho como sou, há algum tempo que as mulheres já não olham para mim. Se eu deixo de olhar para elas, ficam cortadas todas as relações entre nós.» (pág.420)

E sobrevoando um futuro da Humanidade:

«Talvez através de uma catástrofe inaudita, produzida pelos instrumentos, voltemos à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem como todos os outros, no segredo de um quarto deste mundo, inventará um explosivo incomparável, em relação ao qual os explosivos atualmente existentes serão considerados brinquedos inofensivos. E um outro homem, também como todos os outros, mas um pouco mais doente do que os outros, roubará esse explosivo e irá ao centro da Terra para o pôr no sítio onde o seu efeito possa ser maior. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, restituída à forma nebulosa, errará nos céus livre de parasitas e de doenças.» (pág.438)

Italo Svevo morre em 1928 num desastre de automóvel, aos 66 anos. Sendo judeu, vivendo em Trieste, é possível que o mundo lhe tenha poupado ao horror que se seguiu em nova guerra.

A tradução de Ana Cláudia Santos é límpida, o mínimo que posso dizer. 

alc

segunda-feira, abril 14, 2025

«O Triunfo da Morte», Gabriele D'Annunzio

 

Minotauro, 2018. Tradução de Celestino Gomes
Um decadentista romântico tardio como Gabriele D'Annunzio chamava-me, há muito, cada vez que eu ia a uma livraria. «Qualquer dia, leio-o» era um mantra constante quando eu via a lombada de «O Triunfo da Morte». Corto Maltese dizia, através do seu autor, Hugo Pratt, que qualquer dia acabaria de ler «A Utopia» de Thomas More e, que eu saiba, «morreu» sem o conseguir. Também podem pensar: «Mas este tipo só lê fascistas?», embora não haja a certeza que D'Annunzio o seja ou que o número de fascistas que li é ínfimo, mesmo contando com o actual Houellebecq. Portanto, entrar-se-ia numa polémica que não terá aqui lugar, se o autor era ou não um deles. Pouco interessa. O que vale num pequeno artigo sobre este livro é que este autor anunciou claramente o fascismo sem precisar de nomeá-lo, mas pensou-o, delimitou-o ideologicamente, romantizou-o. O livro foi escrito em 1894, quando a demo-liberalismo entrava em decadência absoluta e defende, contudo, a entrada na I Guerra ao lado dos Aliados e a Itália tergiversa: primeiro, ao lado dos alemães e austro-húngaros e depois ao lado dos Aliados durante a própria guerra. Mau augúrio político que vai pagar caro nas conferências de paz. D'Annunzio combateu nas fileiras do exército e em 1918 ataca e ocupa Fiume com um grupo de apaniguados que, mais tarde, Mussolini exalta. Os tratados ignoram as pretensões italianas e Fiume, agora novamente austríaca, cai. O fascismo italiano impõem-se em 1922. O que tem isto a ver com o livro? Tudo.

Nietzsche só é citado uma única vez no início do livro, embora isso nada prove. O filósofo, como sabemos, estava longe de qualquer pretensão política totalitária. No entanto, estranhamente, atribui o conceito de super-homem a Goethe! Giorgio e Ippolita são as personagens. Longe da moral vigente, poder-se-ia dizer que estamos na presença de uma obra que foge aos trâmites burgueses. É certo que sim, mas pelo lado de uma aristocracia que pode, deve, ter o poder total sobre as classes estando acima delas. Apresenta um desprezo total pelas massas, pelo dinheiro, pelo povo, pela religião cristã ou outra qualquer. Até pela racionalização filosófica: «Pensas demais!» dirá Ippolita, em fuga de um casamento falhado e amante de Giorgio que atinge paulatinamente a felicidade na ideia de morte, no pensamento da morte, no espectro da morte. Este odeia o seu pai, um burguês rico mas falido, não encontra paz na família, mas na sua própria individualidade e na violência do seu pensamento: «Era, na vida, como um navio que soltava todas as velas à tempestade». Ou então: «Este homem intelectual, sabe-se lá por que influxo da consciência atávica, não podia renunciar aos sonhos românticos de felicidade. Este homem sagaz, apesar de ter a certeza de que tudo é precário, não podia furtar-se à necessidade de buscar a felicidade na posse de outra criatura. Ele bem sabia que o amor é a maior das tristezas humanas...» 

É assim que ele vê, que sente as outras criaturas: como suas, pertencendo-lhes totalmente para as dispor consoante o seu desejo que está longe do carnal. A mulher é um objecto em nada virtuoso. Sagrado ao princípio, torna-se inútil quando ele se farta, vê-a «como o Inimigo» que o fragiliza na sua virilidade, na sua força intelectual, na possibilidade de vencer o mundo. O povo é visto como uma massa demente, suja, que se arrasta em volta dos ídolos do cristianismo e, ao mesmo tempo, paradoxalmente para ele, que festeja a força da natureza no arranque da primavera, nas festas paganizadas de uma ruralidade pura, que revivifica a natureza em ciclos dionisíacos. Tal como a guerra. Tal como a morte libertadora. Giorgio sofre agora com a ausência de um chefe condutor que para si foi um seu tio, Demétrio, que se suicida. Ele segue-lhe o rasto. Fá-lo, atirando-se de um precipício e assassinando nesse último voo, Ippolita.

Calha-me dizer que sim: D'Annunzio é um fascista antes do tempo e Mussolini abraçou-o sem que aquele alguma vez tenha aderido ao PNF. Para quê? «O Triunfo da Morte» é um clássico, incontornável e a literatura deu-lhe a possibilidade de evitar qualquer apresentação panfletária de um programa. Mas toda a ideologia fascista está contida em «O Triunfo da Morte». 

Por que razão o li? Por uma questão que me parece ser essencial nos dias que correm: o fascismo contemporâneo aparenta ser pobre ideologicamente e os intelectuais ainda resistem ao seu chamamento, mas os principais pressupostos estão nos seus ódios e que coincidem neste livro de 1894: o povo, essa entidade heterogénea que admite dentro de si uma luta de classes que não terminou, um ódio particular e explícito às mulheres, ao livre arbítrio individual, à liberdade e à paz. Não é Giorgio que diz pela mão de D'Annunzio que perante um povo amorfo, crente, pobre, rastejante é nas cristas das ondas que se vê o poder dos fortes, verdadeira metáfora fascista para o poder das elites? 

Estejamos certos que os tempos estão extremamente perigosos e que a caixa de Pandora da guerra e da arbitrariedade política está aí ao virar da esquina. 

Veneza


 



Milão

 





Florença

Florença, um dos pólos culturais mais significativos da chamada civilização ocidental apresenta, orgulhosa e impante, as cenas de violência comuns cá na casa: cacetadas de porrete, facas afiadas, espadas que decepam tudo, olhares desafiantes, raptos e violações de mulheres; Perseu corta a cabeça de Medusa, David contra Golias que o mata e decapita, a vingança sanguinária de Artemisa, Hércules parte a espinha a Centauro, Aquiles jaz morto com Ajax e este a arfar de vingança, as Sabinas sofrem às mãos dos romanos. Lá dentro da Uffizi jazem crucifixos e dor, torturas a Santa Catarina com rodas dentadas, a Santo Estêvão esfolado, a S. Sebastião espetado. E isto não acaba nunca...

Só me resta acalentar a esperança que isto tudo é só reinação para o estrangeiro ver: os budistas do Japão, os xintoístas da China, os lamas do Tibete, os hindus, os ameríndios do norte, os africanos, que pensarão deste tipo de arte degenerada?
E um tipo recua até à Piazza della Signoria e repara que calca uma estela: lê que foi ali que queimaram vivo Savonarola, o tal que durante quatro anos criou uma república cristã onde tudo era proibido, onde se seguiam as leis rígidas das escrituras. Literalmente: fogo!

sábado, agosto 24, 2024

«A Malnascida», Beatrice Salvioni

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Malnascido por malnascida, haja quem, e o resultado é o mesmo: leitura obrigatória de uma nova escritora italiana e, para mal de alguns críticos lusos, a onda Elena Ferrante (e talvez a de Roberto Saviano) terá muito a ver com o sucesso momentâneo deste «A Malnascida». Os factos aí estão: Beatrice Salvioni, de 28 anos, edita o seu primeiro livro e repentinamente é um best-seller traduzido em 32 línguas. Atenção que não estou a afirmar que estamos perante um mau livro, nada disso. Embora alguns diálogos pudessem ter sido trabalhados mais um pouco (alguns encontram-se nos mesmos patamares de uma Enid Blyton ou de um Mário Cláudio, e isto não é um elogio. Este último estará bem perto do rés do chão!).

A ideia do romance não sendo uma coisa nova, lê-se bem e a época está bem retratada ao pormenor o que lhe dá verosimilhança e seriedade básica para uma leitura que se quer honesta. Se assim é, reconhece-se, igualmente, trabalho e honestidade à jovem autora. As personagens são descritas psicologicamente de um modo eficaz e não se deixam contradizer à medida que a narrativa se desenvolve para situações-limite. 

O fascismo italiano está presente e sente-se o medo inerente a um estado de coisas que vive essencialmente dele. Mas esse medo não é só político. E aqui reside um certo interesse pelo livro e pela sua personagem principal, Francesca. O medo é real, nascido pelas regras duras de uma família da média burguesia que vê com maus olhos a relação cada vez mais estreita com Maddalena, uma jovem pobre e rebelde, incontrolável, livre, numa sociedade que já não o é há muito e assente no totalitarismo edificado pelo Duce. O antifascismo confunde-se com a necessidade de liberdade, da rejeição da guerra (no caso, da Etiópia) e o medo é mais pessoal que social. Principalmente, a ultrapassagem individual do medo. o medo adolescente de que todos nos lembramos em todas e quaisquer frentes, e é aqui que reside o mote principal deste livro. Beatrice Salvioni guarda aqui uma vitória singular porque nos faz recordar o crescimento da juventude que cada um de nós partilha ou que guarda dentro de si. A transgressão por uma educação violenta, seja no desígnio e construção artificial do género, seja pelas imposições religiosas ou sociais alicerçadas em dogmas falsos.

A tradução de Ana Cláudia Santos é impecável e atenta. Parece-me, até, que evitou males maiores nos tais diálogos que referi antes.

alc

quinta-feira, julho 18, 2024

«Révolution», Enzo Traverso

 

La Découverte, 2022. Edição francesa. Traduzida do inglês por Damien Tissot.
Capa de Ferdinand Cazalis
Numa época de triste recuo histórico das esquerdas mundiais, nunca é demais um exercício de memória sobre as revoluções passadas. Não se pense, contudo, que este livro se baseia numa melancolia revolucionária de quem pensa que a revolução é letra morta, que numa sociedade de capitalismo de vigilância e nas tecnologias avançadas, as experiências insurreccionais (sejam elas revoltas ou motins e revoluções) estarão necessariamente votadas ao fracasso. É exactamente o contrário. Ler este livro é uma lufada de esperança para quem acredita que a vida, a verdadeira vida, residirá numa saída única da catástrofe anunciada a que o sistema de exploração sistemática dos recursos do planeta e do trabalho alienado humano nos votou. Ler este livro de Enzo Traverso é tão-só analisar, pelas suas 450 páginas que se lêem num ápice de entusiasmo, as grandes derrotas históricas, as vitórias «dos assaltos aos céus», o «tempo das cerejas» ou dos «enragés» e sans-culottes que só exigiam governar-se a si próprios. É revisitar a vitória libertária de 1917, também sob o prisma tanto dos derrotados de Cronstadt como, ironicamente, a de Trostsky. É conhecer melhor Marx e Engels, Blanqui e Fourier, Bakunine e Proudhon, Walter Benjamim, Fanon e Constant, Lenine, Estaline e Mao e tantos outros; foi com muita atenção que o historiador referiu a grande massa de revolucionários anónimos e que pereceram numa aura de heroísmo e de «santidade» nas barricadas de 1830 e 1848, já em desuso e criticadas em 1871, mas nem por isso menos simbólicas no Maio de 68 francês, na Alemanha e Hungria de 19 ou na Espanha em 1936. Ou revisitarmos igualmente os vitoriosos de Sierra Maestra, o Vietname, o Laos e o Camboja, a China da grande marcha ou Tiananmen de 90. O século XX foi farto em dar-nos essas experiências, muitas delas afundadas em sangue e em experiências que melhor fora não terem tido lugar. O que não retira uma vírgula, à vontade de mudança radical que é aposta numa revolução e à sua carga utópica. 
Por isso há uma impossibilidade clara de haver um compromisso entre revolução e contra-revolução seja ela legitimista, conservadora ou fascista. Esses perigosos compromissos dar-se-ão, como demonstra Enzo Traverso, na social-democracia e no socialismo democrático. Mesmo que, entre as duas guerras, se tentasse fazer essa síntese, foram todas votadas ou ao esquecimento, muitas delas junto com esses autores, ou ao fracasso. Essa força, a força revolucionária, nada tinha a ver com a autoridade legitimada das classes subalternas no poder, e a vontade ilegítima (porque pessoal) de um qualquer duce ou führer. A revolução, as revoluções, são sempre a consequência de causas de injustiças e de exploração insuportáveis para os seres humanos. Que elas sejam mais ou menos violentas ou que as instituições mudem de mãos sem um único tiro (lá vem o caso português de 74 e a Checoslováquia de 89!) as revoluções mostram sempre as suas particularidades e igualmente as suas idiossincrasias. Criticadas e temidas por muitos, até por aqueles que delas beneficiariam, retiram-lhes quase sempre as suas causalidades e as conjunturas históricas em que explodem. 

Vejamos ao que vem Enzo Traverso logo no início do livro na página 25: 

«O objecto deste livro é a revolução, para o melhor e para o pior. Ele não opera nenhuma selecção entre as boas e as más revoluções, distinção tão difícil quanto estéril visto que as revoluções não pedem para serem idealizadas ou diabolizadas: elas são experiências vivas que se transformam em permanência e cuja dinâmica é imprevisível. Mais do que um julgamento moral, uma idealização ingénua ou uma condenação intransigente, merecem uma compreensão crítica. É ainda a melhor maneira de compreender o seu significado histórico e transmitir a sua herança. Numa passagem célebre, Marx escreveu que as revoluções modernas ''não retiram a sua poesia do passado'', enquanto que Benjamin vê o seu motor escondido num desejo de redenção dos vencidos que não é mais do que ''o compromisso tácito entre as gerações passadas e a nossa''. É muito provável que as revoluções oscilem entre estas duas temporalidades: elas salvam o passado inventando o futuro, mas podem incluir os dois.»

Mais à frente:

«Contrariamente à maior parte dos trabalhos sobre as revoluções, este ensaio não consagra um capítulo específico à questão controversa da violência. Há várias razões para esta ausência, que não resulta de maneira nenhuma de uma estratégia de fuga. A mais importante prende-se com o facto de a violência revolucionária atravessar esta obra, de maneira explícita ou subterrânea, duma ponta à outra. Com algumas excepções as revoluções são erupções, pontos de viragem traumáticos. A violência pertence à sua estrutura ontológica. As revoluções pacíficas são excepções, não a regra e, em muitos casos, elas não não mais do que arautos de explosões do futuro. Em 1974, a «revolução dos cravos» em Portugal foi pacífica porque foi desencadeada por uma parte do próprio exército e se, quinze anos mais tarde, as «revoluções de veludo» na Europa central se desenvolveram sem efusão de sangue, é porque as forças repressivas foram provavelmente neutralizadas na URSS. (...) 
A segunda razão pela qual esta obra não conta com um capítulo sobre a violência é mais especificamente historiográfica. Os historiadores conservadores escrevem à maneira de promotores, que estigmatizam as revoluções não como uma, mas mais especificamente, a fonte do totalitarismo moderno. Eles repartem-se em geral em duas categorias: de um lado os apologistas astutos do fascismo, do outro, os pregadores de uma sabedoria política solidamente amarrada aos postulados do liberalismo clássico. (...)» 

«Assim, esta obra junta fragmentos intelectuais e materiais dum passado revolucionário impulsivo e bastante esquecido, com o fim de re-articular uma composição com sentido, elaborada por imagens dialécticas: locomotivas, corpos, estátuas, colunas, barricadas, bandeiras, sítios, pinturas, pósteres, datas, ruas singulares, etc. De uma certa maneira, os conceitos, eles próprios, são tratados como imagens dialécticas, na medida em que emergem nos seus contextos próprios, como as cristalizações intelectuais de necessidades políticas e do consciente (ou do inconsciente) colectivo. (pág.31).

Um livro que devemos ter sempre em conta e nunca desfazê-lo num alfarrabista, até pelas imprevisibilidades várias que podem vir a existir no futuro. Sabe-se lá.

alc

segunda-feira, julho 01, 2024

«O Caderno Proibido», Alba de Céspedes

 

Alfaguara, Maio de 2024, Tradução de Ana Cláudia Santos

Livro datado de 1952 e um dos mais importantes de Alba de Céspedes, pelo que li sobre ela. Antifascista, conheceu as prisões de Mussolini e foi fundadora da revista Mercurio. A autora opta por uma epistolografia imaginada em torno de um diário escrito em sobressalto e cuja personagem, Valeria, esconde da família. Um género que se vai perdendo com o tempo, mas que acolhe sempre uma grande intimidade, cumplicidade com o leitor e lança a denúncia de um quotidiano do que julgamos ser uma simples dona de casa romana, na Itália do pós-guerra. Não é só um quotidiano marcado pelo tratamento dos outros, da casa, isso seria muito pouco; a verdadeira perturbação deste livro vem da emergência do desejo de alguém que é sistematicamente secundarizado c obrigado a marcar o ponto das obrigações de uma família pequeno-burguesa em que Valeria é tratada de «mãe» pelo marido, como para sublinhar a sua condição reprodutora, e ostracizada pelos filhos adolescentes que a observam como uma «velha» de 43 anos, salva de qualquer arrobo amoroso ou de fuga daquela vida de cansaço que é, paradoxalmente, a sua libertação:
 «Devo reconhecer que, se calhar, a determinação com a qual me defendo de qualquer possibilidade de descansar não é senão o medo de perder esta única fonte de felicidade que é o cansaço.» 
A perturbação deste livro extraordinário reside aí. Mas não só. Somos obrigados, na sua leitura, a pôr tudo em dúvida em relação a nós próprios e à nossa própria família e eis onde Alba de Céspedes triunfa neste «Caderno Proibido». A crueldade e a afectividade de que se alimenta um grupo familiar de personalidades obviamente distintas e que se magoam, mais do que provam o seu amor senão através de glosas e metáforas maldosas, daquelas que deixam um rasto de mágoa e de ódio tantas vezes camuflado:
«Tenho de destruir o caderno, destruir o diabo que nele se esconde entre cada página, como entre as horas da vida. À noite, quando nos sentamos todos juntos à mesa, parecemos claros e leais, sem insídias; mas sei agora que nenhum de nós se mostra como verdadeiramente é, escondemo-nos, camuflamo-nos todos, por pudor ou por despeito.»
A questão que antes se colocava, após o conhecimento atento de todo o diário de Valeria, a tal «velha de 43 anos» é exactamente aquela que perturba quem o lê. Valeria tem um caso fora da família que não chega a ser consumado, mas intenso. E damo-nos a pensar que atrás da cozinha em que cada mãe nossa, porque o pai nos anos 50 e 60 tinha todo o direito a ter «casos» ou amantes, se deslocava para fazer a comida, ir para o trabalho, vir à pressa, passar a ferro, aconselhar os filhos e vigiá-los, teria ela, perguntar-se-á, o direito de amar alguém nos intervalos da sua vida de cansaço? Teria ela, a «mãe», a veleidade de sonhar com uma fuga de casa com um amor dissimulado e que se desenhava um desejo sexual óbvio por outra pessoa fora da família? E teria ela o direito de nos odiar, por vezes? De nos olhar como empecilhos para uma liberdade coartada? Por mim, tenho uma resposta clara. Mas que este livro nos perturba, sem dúvida que sim. 
alc

quarta-feira, janeiro 24, 2024

«Tasmânia», Paolo Giordano

 

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato
Não esperem grandes rasgos literários e, muito menos após lerem «Tasmânia», concordarão que Paolo Giordano é «um dos mais importantes escritores italianos da actualidade» ou que o seu livro é «feroz e ao mesmo tempo comovente» como alertam as badanas do livro editado pela D. Quixote.

Apocalipse, vise-se hoje em Gaza e na Ucrânia. Preparam-se tantos mais, quanto mais depressa entrarmos num inverno nuclear que nos levará eventualmente à extinção. Nada que não saibamos sobre a programação oculta inscrita nos vários países do mundo apostados em acreditar nas alternativas autoritárias a autocráticas, para não dizer ditaduras que, segundo a ONU, nos últimos anos tiveram um aumento exponencial. Não escolho palavras ao acaso, basta fazer uma investigação no Sr. Google e os gráficos da organização mundial dizem tudo.

Paolo Giordano é um jornalista físico, dedicado a temas científicos sobre as alterações climáticas e a cada vez mais certa catástrofe. Foi este assunto que me levou a adquirir o livro. Depois, aparecia por todo os jornais, em operações de marketing bem visíveis elaboradas pelos críticos da praça, como se fosse uma experiência brutal de um novo tipo de literatura. Não vi lá nada. Diziam que para além do apocalipse físico do planeta, também ele vivia um, pessoalmente. Sinceramente nada vi. Se o apocalipse era a relação com a sua mulher, temo dizer que 90 em cada 100 portugueses que pediram o divórcio após o casamento, também já o viveram, com a agravante lusa de terem de continuar a morar um com o outro devido ao preço da habitação. Isso talvez configure uma verdadeira calamidade. Mas adiante.

Quanto ao apocalipse em si, o da Terra, ele mistura tudo, as alterações climáticas verdadeiras, o terrorismo islâmico, as megatoneladas de satélites que envolvem a atmosfera da terra e que a todo o momento podem cair sobre nós numa reacção em cadeia, os problemas de género, o negacionismo que provoca a síndrome de Cassandra que se explica pela impotência dos cientistas do ambiente em fazerem-se acreditar por políticos e pela população alimentando um estado pré-traumático e depressivo sobre eles, a proximidade real de um inverno nuclear por uma guerra mundial, a seca e a falta ou envenenamento dos recursos hídricos, as pandemias, o desaparecimento das nuvens ou a transformação destas em nuvens de metano com luz própria para além da libertação do permafrost, também de metano que liberta o CO2, só para citar alguns dos problemas que fala sem grande aprofundamento. Enquanto isso, ele viaja pelas COP's, não gosta do que vê, vai tendo aqui e ali relações com mulheres fugazes e apocalípticas, claro, não consegue ter filhos sabe-se se lá se pela qualidade da água cheia de feromonas, vai comendo hambúrgueres e embebeda-se de vez em quando para aliviar o stress. 

Sobre a guerra mundial que será nuclear, (daí Paolo Giordano se encontrar, por várias vezes, em Hiroxima e Nagasáqui para estudar ainda hoje os efeitos das bombas A), vejo-me na quase obrigação de lembrar uma afirmação de Einstein, não sei se apócrifa, mas que ainda assim vou citá-la: «Não sei as consequências se houver uma Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta será à pedrada!». Tasmânia? Por que não a Patagónia, igualmente? De qualquer modo, os abrigos atómicos das elites já estão a ser construídos sub-repticiamente. Onde irão eles, após o colapso, comer os hambúrgueres e as coca-colas, pergunto-me? Mandam vir pela Uber? Através da net? Qual net? Qual Uber?

A referência à Tasmânia, em somente duas páginas do livro e que lhe dá o título, explica-se porque, segundo o jornalista científico Paolo Giordano e alguns outros cientistas, terão a certeza que será o único lugar que reúne as condições necessárias para a sobrevivência após o apocalipse, tenha ele as características que tiver. Marte? A proposta hilariante de Elon Musk de explodir bombas nucleares em cadeia nesse planeta, de modo a produzir uma atmosfera viável para o ser humano, é de um ridículo que ultrapassa Trump quando este afirmou que não havia aquecimento global porque nevava e rodos em Nova Iorque! Depois, há afirmações, no mínimo grotescas, como a que Marie Curie foi a primeira cientista negacionista da História, por ter rejeitado que a doença que a levou à morte, mesmo com as mãos verdes fosforescentes devido à manipulação de urânio, nada tinha a ver com radiações. Forçado, isto. 

Tudo muito leve, demasiado leve. Se a táctica era misturar um problema real do clima e do planeta como metáfora da sua vida real, falhou totalmente. Quanto a mim, há livros bem mais preocupantes e sérios, com dados científicos verificáveis sobre o colapso. Basta procurá-los. Talvez o fim deste livro na minha estante, signifique que a plataforma olx seja uma alternativa interessante.

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato

segunda-feira, junho 27, 2022

«História da Menina Perdida», Vol.IV, Elena Ferrante

 


E é isto: a saga chegou ao fim, com alguma pena minha que não me importava nada que continuasse. Mesmo que a parte final do livro se arraste um pouco em descrições psicológicas de que já tínhamos pressentido e (re)conhecido em volumes anteriores. Mas o mais interessante deste volume é não só a separação, muitas delas bem violentas, das famílias daquele bairro velho de Nápoles, mas igualmente a «separação» do povo italiano como um todo. As grandes famílias ligadas à intelligensia política caíram como um castelo de cartas que julgariam sólido na sua base. A corrupção era o mote, não só dos políticos, mas de juízes, procuradores, polícias, intelectuais. Tudo arrasava o Estado, servido logo ao pequeno-almoço para ser esbulhado. Mas também a esquerda caiu enredada na sua teia, dividida, arrependida, subserviente ao novo poder dos «novos» partidos que afundam ainda hoje a Itália. A violência, essa, continua sobre novas realidades, com leis e penas incompreensivelmente gravosas. A classe operária negociou a «pace» através de um reformismo que julgava ser a única saída. Não o foi. Não será nunca.

«Eram anos complicados. A ordem do mundo em que  nós crescêramos estava a dissolver-se. As velhas competências devidas a um longo estudo e à ciência da linha política certa pareciam, de repente, um modo insensato de passar o tempo. Anárquico, marxista, gramsciano, comunista, leninista, trotsquista, maoista, operaísta, estavam rapidamente a tornar-se rótulos retrógrados, ou pior, um estigma de brutalidade. A exploração do homem pelo homem e a lógica do lucro máximo, que antes eram consideradas uma abominação. tinham voltado a ser, por toda a parte, as bases da liberdade e da democracia.»(pág.376). 

E entretanto, toda a gente ia parar à prisão, cujas portas se abriam à repressão brutal e à discricionariedade da polícia e da «justiça». Bastava ser amigo de um «terrorista» e passava dois anos na cadeia para averiguações: Nadia, a «filha-família» de intelectuais de renome de Itália e florentinos (nos dois sentidos) e que tinha entrado nas Brigadas Vermelhas, cujo pai influente tinha sido apanhado também ele pelas teias da corrupção, denuncia Pasqualle das BV por crimes que fez e que não fez, a troco de uma redução substancial da pena. A partir daí lista nomes já por vingança, por invejas ou para pagar uma afronta. Denuncia outros amigos como Enzo e Antonio Pannucci que nada tinham a ver com as BV ou a Prima Línea. Os irmãos camorristas Sollara são mortos em frente à Catedral sem que ninguém visse quem foi e embora tenham dito que não tinham passa-montanhas, a heroína corroía os jardins de Nápoles, a filha de Lila foi raptada pelos Solara e passados anos nada se sabia dela, a carreira literária de Lenú tem outro alento e a vida continua, violenta, brutal, tanto no ódio, como no amor. No fim Elena Ferrante dá-nos conta da metáfora que liga a Praça Carbonaria de Nápoles com toda a Itália. No meio do lixo, de animais mortos de cadáveres insepultos, de legumes podres, lutam jovens até à morte e pela navalha e pela honra. Morre-se um pouco sem saber o porquê. 

Nada disto, todavia, me tenta saber quem é de facto Elena Ferrante. Não a procuro na net. Não me interessa nada. Que é uma boa escritora, é-o sem dúvida.

terça-feira, junho 14, 2022

«História de quem vai e de quem fica», Elena Ferrante, vol.III

 

«Na fábrica - percebera logo isso - a grande fadiga fazia com que as pessoas desejassem foder, mas não com a mulher ou com o maridos nas suas casas, onde regressavam extenuadas e sem desejo, mas ali, no trabalho, de manhã, ou de tarde. Os homens davam apalpões sempre que tiham oportunidade, faziam propostas ao passar; e as mulheres, sobretudo as menos jovens, riam-se, roçavam neles o peito grande, apaixonavam-se, e o amor tornava-se uma diversão que atenuava o cansaço e o tédio, dava uma impressão de verdadeira vida.» (pág.82)

Os Anos de Chumbo:
«Ah, sim, antifascismo militante, nova resistência, justiça proletária, e outras fórmulas a que ela, que por instinto sabia esquivar-se à cassete do partido, era sem dúvida capaz de dar consistência. Imaginei que aquelas acções fossem obrigatórias para entrar, sei lá, nas Brigadas Vermelhas, na Primeira Linha, nos Núcleos Armados Proletários. Lila desapareceria do bairro como já fizera Pasquale. Talvez fosse por isso que tentara entregar-me Gennaro, aparentemente por um mês, mas na realidade com a intenção de mo dar para sempre. Nunca mais a veríamos. Ou seria presa, como acontecera aos cabecilhas das Brigadas Vermelhas , Curcio e Fransceschini. Ou escaparia a todos os polícias e à prisão, fantasiosa e temerária como era. E quando a cosa grande se realizasse, ela reapareceria triunfante, pelas suas proezas, com indumentária de chefe revolucionário, e dir-me-ia: tu querias escrever romances, eu fiz o romance, com pessoas de verdade, com sangue de verdade, na realidade.» (pág.243)

quarta-feira, maio 25, 2022

«A História do Novo Nome», de Elena Ferrante, vol.II


Segundo volume da saga de Elena Ferrante iniciada com «A Amiga Genial». Este «A História do Novo Nome» cuja acção se desenrola em volta da vida de duas personagens femininas, Lila e Lenù, não é mais do mesmo. Trata-se do amadurecimento natural das duas amigas numa Nápoles atrasada, dialectal, sofredora com domínios vários, entre os quais sobressai o domínio masculino, violento, machista, aceite por quase toda a sociedade do sul de Itália. Um país que mal saído da guerra e das suas misérias e destruições, encalha agora nas tradições seculares, familiares em que as principais vítimas são as mulheres. Os anos 60, neste sul muito particular, não se adivinha minimamente a chamada libertação feminista. Parece, por vezes e pela escrita de Elena Ferrante, que há uma reacção brutal a que isso aconteça, mesmo protagonizada por muitas mulheres. 

Tanto Lenù, como Lila crescem, neste volume do livro. Com ele, assiste-se não só à descoberta do corpo e do sexo, do desejo também, mas igualmente à diferença social entre as várias personagens. A luta de classes do pós-guerra não é aqui esquecida, antes pelo contrário, todas as contradições são expostas claramente pela autora, entre a democracia cristã ganhadora e o forte partido comunista italiano, dividido em facções estalinistas, social-democratizantes ou trotsquistas. 

Pouca mobilidade social existe aqui. O seu elevador funciona mal. A existir ou é pelo casamento (Lila) que se transforma numa cilada cruel, com espancamentos logo no seu dia inaugural, ou pela universidade (Lenù) e mesmo aqui, depara-se com um nepotismo e uma campânula social que bloqueia uma ascensão merecida. Mesmo quando inicia a publicação de um romance por uma conceituada editora milanesa é por interposta influência de uma professora universitária, mãe do seu namorado que também ele rapidamente sobe na carreira universitária como assistente, tal como a sua irmã e pai catedrático todos da Universidade de Pisa. Elena Ferrante, lembra-nos sempre que Lenù é oriunda de um bairro pobre de Nápoles, que esconde a sua origem no incómodo que sente quando a mãe a vai visitar à universidade onde se encontra doente ou quando esconde o seu dialecto napolitano. Essa contradição é vivida intensamente quando se aproxima das suas origens através de uma Lila caída em desgraça e tornada operária por sobrevivência.

Há, contudo, nos dois volumes que li até agora, uma questão incontornável e por vezes inquietante: a do comportamento da mulher. Elena Ferrante consegue entrar no âmago da psicologia feminina como eu não consegui ver até hoje em literatura contemporânea e muito menos quando são homens a tentar decifrá-la e escrevê-la. Lembro-me de algumas passagens de livros que agora me dão vontade de sorrir e pensar quão longe, alguns homens, estão de compreender atitudes de mulheres adolescentes ou mais maduras. Aviso-vos amigos: nem sempre o que parece é e o que se descreve, de um modo magistral, em simples encontros entre sexos já foi passado, vivido por nós todos. E dá-me ideia que pensámos tudo ao contrário... é esta a importância de Ferrante, uma observadora implacável de todo o comportamento humano em que nos vemos e revemos. É isto que faz a boa literatura.

domingo, abril 24, 2022

A Entrada na Guerra - Italo Calvino

 

É um livro inédito em Portugal, saído agora mesmo, em Abril de 2022, não vá a D.Quixote perder a «mensagem» que lhe está subjacente nos tempos que correm - a guerra. O original é de 1954. Como tudo o que é pertença de Italo Calvino, lê-se num instante, tendo este homem o condão de dizer muito mais do que aparenta a técnica literária que usa, ou seja, o depuramento da sua escrita que nos faz estar agarrados à leitura e estarmos livres das hipérboles, metáforas que nos enfadam em certo tipo de literatura. 

Italo Calvino, nasceu em 1923, convém dizê-lo para explicar uma questão: conheceu a ascensão do fascismo de Mussolini na Itália, sendo muito novo para ir para a primeira mobilização em 1938 e demasiado «velho» para não se safar a vestir o uniforme das Juventudes Fascistas do PNF. Aconteceu a muito boa gente. Mas em 1943 adere ao PCI e luta de armas na mão contra o fascismo de Mussolini e Hitler. Torna-se um resistente. E para todos os efeitos é assim que eu vejo um resistente. Um tipo que combate de armas na mão contra as ditaduras, mas com um devir revolucionário presente. A resistência pela resistência deu mostras que não vai longe a menos que tenha por detrás apoios desmesurados.

Neste livro, «A Entrada na Guerra» Italo Calvino descreve-nos como se apercebeu da guerra demasiado cedo. Primeiro os desfiles marciais, os uniformes, a masculinidade e a virilidade que muitas vezes levavam jovens como ele a não saber o seu lugar nesta estirpe guerreira: ou são sensíveis e vergonhosamente afastados ou são viris e têm de o demonstrar a todo o momento, mesmo que os factos exigidos pela hierarquia o obriguem. O sexo, atinge o rubro e o inimigo está em todo o lado, as mulheres tornam-se objectos quer na prostituição, quer violadas, o que está implícito em descrição de cenas que o jovem Calvino nos conta.

O saque a Menton, em que ele esteve presente como jovem fascista (que não era), teve raias de loucura. Menton era uma cidade francesa, derrotada pelos nazis alemães e aproveitada pelos italianos para a configuração fascista das novas fronteiras, para vingar a «vitória desonrosa» de 1918. Menton estava deserta porque a população francesa fugiu a tempo em vagas de refugiados. O saque às casas é das descrições mais pungentes do livro. Tudo serve para ser pilhado, partido, incendiado. O vazio, o cheiro, a mutilação, a fuga, sente-se em cada palavra escrita de Calvino. «A viagem a Menton era um caso muito diferente: estava curioso de ver agora aquela cidadezinha, vizinha e parecida com a minha, tornada território conquistado, devastado e deserto; aliás: a única simbólica conquista da nossa guerra de Junho. Tínhamos visto recentemente no cinema um documentário que mostrava a luta das nossas tropas nas ruas de Menton; mas nós sabíamos que era falso, que Menton não tinha sido conquistada por ninguém, mas apenas abandonada pelo exército francês na altura do ataque e depois ocupada e pilhada pelos nossos. (pág.39)»

Uma foto, um jornal, cartas de amor, são destroçadas, enquanto se procura coisas mais valiosas com o incitamento dos chefes nas casas abandonadas. O nosso Italo Calvino, envergonhado por nada saquear, rouba as chaves do Clube francês que agora era a sede do Fascio. Nem se apercebe o que fez: roubou a casa do fascismo local e entretanto, como um rasto de loucura, rouba todas as chaves que encontra enchendo os bolsos que chocalhavam ao som do bater das botas. Entretanto os refugiados aumentavam de dia para dia sem saber o seu fim, o seu destino, homens do campo e da cidade velha que morrem de fadiga ou porque nada mais lhes resta para viver.

A mais inquietante frase do livro está aqui para todos lerem: «Ao ouvir este relatos, a minha mãe dizia já não reconhecer o rosto familiar do nosso povo; e não sabíamos chegar a outra conclusão senão esta: que para o soldado cada terra conquistada era inimiga, até a sua. (pág.42)»

A tradução é de Leonor Reis Sousa.

terça-feira, abril 05, 2022

« O Logro da Arte Contemporânea », Gianfranco Sanguinetti

 

Barco Bêbado, 2022
Gianfranco Sanguinetti, activista e pensador situacionista foi já publicado em Portugal, pela Antígona que publicou o oportuno (estávamos a sair dos anos de chumbo na Europa) «Do terrorismo e do estado» e pelos seus textos na revista da IS dispersos e co-assinados com Debord, entre outros. 

Aliás, o que faz um livro útil é exactamente a sua oportunidade e este livrinho da Barco Bêbado cumpre esse papel. «O Logro da Arte Contemporânea» foi publicado originalmente em Abril de 2021, na Itália e o título que lhe deu forma diz ao que vem. Com base nas teorias sobre arte e de um panfleto de Pablo Echaurren que denuncia a arte contemporânea como mero produto mercantil (D-M-D) em que D é o dinheiro e M, mercadoria, Sanguinetti define esse mesmo logro como um «fazer crer aos contemporâneos que a arte é aquilo que hoje se vem apresentando enquanto tal.» e continua: «E, como a contemporaneidade dá, e tem dado, repetidas vezes, prova de ser essencialmente uma tola crédula, além de ignorante, pode pôr-se-lhe à mesa, todos os dias, mil alimentos falsificados, rotulados como ''arte'', de que ela se alimentará sem nunca protestar, assim como não protesta contra a neo-comida que se vende em todos os supermercados.»

Para os urbanistas entusiastas das cidades modernas, Sanguinetti dedica-lhes um pequeno capítulo «A Cidade infeliz» onde vê magnetizada essa enorme infelicidade quer nos transportes públicos, quer na taxa de suicídios que sobe cada vez mais e avisadamente escondida; nessas cidades infelizes cresce a violência, a corrupção, a proibição contínua sobre o indivíduo e as liberdades. O autor questiona o que faz a arte sobre isto: «Sobretudo, dá a impressão de [a arte] não querer correr riscos; torna-se assim numa presença que se quer tranquilizadora: tem medo de meter medo. (...) Contenta-se em ser uma arte triste e vil, como de facto é: é, pois, normal que seja infundida daquilo a que Espinosa chamava as paixões tristes, como a do dinheiro.»

Em «Felizes Excepções» e depois de nos apresentar algumas experiências alternativas e de rejeição ao estado e à arte «conceptual» (Sanguinetti, atrás explica como aparece esta noção de conceito ligada à arte, o que é mais um logro), levanta o véu de uma verdadeira arte de revolta de insubmissão ao mesmo tempo que nos apresenta alternativas a seguir: «(...)Estes artistas de facto criam situações conflituantes, provocatórias e verdadeiramente escandalosas, que põem à prova as contradições do espectáculo, a frigidez e a imunidade do público, a solidez das instituições, com a crueldade do détournement pós-situacionista, a impostura subs«versiva, a usurpação da identidade e das prerrogativas do poder, e de uma centena de outros modos.»

Não deixem escapar este livro até por que a sua tiragem é de somente 300 exemplares. Pode adquirir-se pela Livraria Snob, como eu fiz.
A tradução é de Ana Isabel Soares.


quarta-feira, março 30, 2022

« A Amiga Genial », Elena Ferrante

 

Relógio D'Água, 1ª ed. 2014, 10ª ed. 2022

Escrevo estas notas sem ter lido nada sobre Elena Ferrante. Sei que é um pseudónimo de alguém que não se quis identificar e que escreve torrencialmente e bem. Para mim isso basta. Não acredito que ter escondido o seu nome e recusado a dar qualquer entrevista (creio que até hoje) tenha sido uma montagem publicitária. Da sua editora não digo nada, mas dela não acredito, visto que descobrir quem era num mundo de vigilância capitalista era uma questão de tempo, o que tornava o exercício de Elena Ferrante completamente pueril. O que me leva a dizer isto? Basta ler o que escreve e como escreve. O modo desprendido, autobiográfico, frontal, quase brutal, com que nos conta as suas memórias não se enquadra numa pessoa sôfrega de popularidade e de dinheiro. E foi o dinheiro dos direitos de autor que estavam publicados no relatório de contas da editora que se descobriu, paradoxalmente, quem ela era.

Estamos nos finais dos anos 50 em Nápoles, numa cidade com feridas abertas da guerra e do fascismo, e onde duas miúdas crescem num bairro pobre, onde se cruzam proletários, pequenos comerciantes em busca de algum lugar ao sol numa Itália a sair da miséria e camorristas. Pode-se contar pelos dedos das mãos as vezes que Elena Ferrante, em todo o seu livro, recorre ao nome de Camorra, mas ela está lá, exerce o seu poder real, nas relações que estabelece com todo o bairro napolitano. De um modo ou de outro, as duas jovens Elena e Lina (Lila) desenham uma amizade que perdura em todo o livro. O que é estranho é que não existe na narrativa uma vontade férrea de sair do bairro onde se confrontam todos os tipos de violências. A ténue possibilidade de mobilidade social vem com a escola, ler, escrever, contar, conhecer línguas que permitam não propriamente fugir dali para fora, mas controlar o que há de mais podre nas relações sociais sempre tensas e prontas a explodir. Um dos trechos mais significativos do que acabei de escrever vem pela voz de Lila, em dialecto napolitano a uma invectiva de Elena (Lenù) para voltar ao estudo:

«(...) Tu ainda perdes tempo com essas coisas Lenù? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo. A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. Nessa parte construímos edifícios, as pontes e as estradas. De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio, ou então provoca um terremoto que destrói tudo. Há micróbios por todo o lado, que nos fazem adoecer e morrer. Há guerras. Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis. A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo, que não há lágrimas que cheguem. E tu o que fazes?  Um curso de Teologia em que te esforças por compreender o que é o Espírito Santo?» Mais tarde Elena vai escrever uma dura discussão com o professor de Teologia que a expulsa da aula e cujo resumo escrito do acontecimento irá ser publicado por uma revista comunista de Nino Sarratore.

Mas o livro é muito mais do que isso, como é evidente. O próprio crescimento de duas jovens que querem ser livres e encontram caminhos barrados pela tradição napolitana e por múltiplas barreiras de índole social, intelectual e sexista é descrito de uma forma pouco experimentada em literatura. Isto porque o leitor intui a verdade, a realidade, que está por detrás dessas experiências muitas delas traumáticas. No fundo, acabando o livro, fechando-o e pensando quando se atreve a continuar a saga aberta por este «A Amiga Genial» poderá rever a sua própria experiência; a Nápoles de 1959, liberta da guerra e do fascismo não é assim tão diferente do Portugal desses anos que se preparava para uma longa guerra de 13 anos e que continuava com o fascismo caseirinho e mesquinho. Mas quotidianamente violento, sem dúvida. Sem camorra, mas com bufos, a Pide, a Legião e um machismo quase sempre brutal que emergia a todas as horas, em todos os lugares. Basta que a memória não nos traia e nos conduza aos anos 60, éramos nós ainda miúdos. E há coisas que não se esquecem nunca. Acabo com uma exclamação significativa de Lenù em diálogo com a sua antiga professora Oliviero:

«''Sabes o que é a plebe?'' ''Sim, professora.'' Naquele momento eu soube o que era a plebe, com muito mais precisão do que quando, anos antes, ela mo perguntava. A plebe éramos nós. A plebe era aquela que luta por comida e vinho, aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor, aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás, aqueles brindes cada vez mais ordinários. A plebe era a minha mãe, que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai, que estava sério, e ria-se, de boca escancarada, das alusões sexuais do comerciante de metais.» 

domingo, dezembro 26, 2021

Auschwitz, Cidade Tranquila - Primo Levi

Hoje será preciso alguma dose de coragem para ler um livro cuja capa tenha o nome de Auschwitz, tal a imensa bibliografia (?) com este nome gerada pelo comércio livreiro a que não escapa sequer o baratinho e promocional «Pack Auschwitz». Ler Primo Levi devia ser um exercício obrigatório a quem se lance a adquirir a mercadoria abjecta do filão «holocausto». Não que seja um escritor de primeira linha, longe disso, mas é de uma grande objectividade e não rodeia questões, como se as houvesse!, perante o horror programado dos nazis. Este «Auschwitz, cidade tranquila» vale não só pelo seu título sardónico; conta-nos histórias e pequenos contos do tristemente célebre Lager alemão. Lembremo-nos que Levi foi encarcerado pela Gestapo em 1943 na Itália donde era natural e não por ser judeu. Era resistente ao fascismo e só mais tarde, depois de apurada a sua ascendência judaica, é que terá seguido para o campo da morte. Só que era igualmente um químico de renome e talvez tenha sido essa a razão de ter sobrevivido, embora não haja certeza absoluta desse facto. Muitos outros químicos que pertenciam ao «Komando» químico do campo soçobraram de frio, de fome ou na marcha forçada aquando da queda do campo devido ao avanço russo. Essa marcha forçada de prisioneiros escravos até Birkenau é dos momentos mais horríveis de que há memória na história da II Guerra Mundial. Só um quarto, como nos diz Levi, lá chegou. O autor encontrava-se entre os sobreviventes. Isto foi em Janeiro de 1945. A libertação total do campo pelos soviéticos e a morte de Hitler foi em Maio.

Fixei, contudo, um pequeno conto de Levi que sintetiza bem a mentalidade de um jovem casal nazi alemão, em 1943. Ele químico, ela não sei, o autor não diz. O jovem Mertens teme os bombardeamentos aliados e prefere uma zona mais tranquila já que quer construir família e ganhar algum dinheiro. Os amigos berlinenses tentam demovê-lo; que não, a vida no campo rural é um rame-rame, há os aldeãos, terão de habituar-se a ritmos diferentes, eles que são citadinos. No entanto, Mertens está decidido e pede a transferência para a fábrica química de Buna-Werke na Polónia, agora Alemanha: ganha-se bem, não há bombardeamentos, a guerra decorre lá longe e terá oportunidades para subir mais depressa. Mertens e a agora mulher instalam-se na cidadezinha com o nome polaco de Oswiecim, em que muitas casas bonitas se encontravam vazias e à espera de ocupação. Nem isso o fez perguntar porquê. Na fábrica onde subiu rapidamente a Oberingenieur, tinha como trabalhadores uns tipos esqueléticos, medrosos, de olhar baixo, tremendo de frio e fome, que vestiam uns pijamas azuis às riscas. O nosso Mertens nada perguntou. Um deles era Primo Levi e trocou com ele duas ou três frases. Numa ocasião, pediu que lhe dessem sapatos mais quentes e um casaco. Depois vieram os russos e Mertens nunca mais foi visto até aos anos 60, em que o acaso de uma troca de correspondência entre fábricas químicas devido a um erro de uma encomenda, Levi se cruza com Mertens. Era ele. A troca de cartas é demolidora para qualquer um de nós, em que ainda reste alguma sensibilidade: à pergunta lógica de Levi sobre o que ele pensava do seu papel no genocídio, respondia que não, nunca deu por isso no campo de morte, nunca viu morrer ninguém, que seria punido se tal viesse a ser comentado, então sabia ou não?, não!, falava-se mas nada de provas. Dedicou-se ao trabalho e nada mais, e que se lembrava dos sapatos e do casaco, sim, enfatizando claramente o facto, como um lampejo de arrependimento. Como bom alemão, obediente e escrupuloso, burocrata, nada sabia, nada viu, nada comentava. O nome da cidadezinha polaca que agora era alemã tomou o nome de Auschwitz, em vez de Oswiecim. Mas ele não sabia de nada, claro. Morreu pouco depois desta troca de correspondência.

segunda-feira, setembro 21, 2020

«Vírus soberano? A asfixia capitalista», de Donatella Di Cesare. Algumas colagens


Este livro não faz parte da teoria da conspiração sobre o Covid-19. Pelo contrário. A filósofa italiana Donatella Di Cesare analisa a pandemia que atravessamos de modo cabal, claro e sintético como só os mais capazes o fazem em temas desta complexidade. Não por acaso foi António Guerreiro a traduzi-lo, o que nos deixa sossegados. Presumo que foi dele a responsabilidade de propor às Edições 70 a sua edição. Trata-se da melhor exposição sobre o vírus que nos mudou a vida totalmente. A análise está aí para quem quiser adquirir este livrinho. Mas inquieta-nos muito e leva-nos a reflectir sobre as causas que levaram ao culminar de uma catástrofe anunciada por muitos. Mas quem lê, hoje, filósofos e escritores? Talvez uma imensa minoria, todavia, incapaz de fazer mudar o que quer que seja da «distanciação social» política da nossa «democracia imune». O capitalismo, no seu estádio actual, a não ser combatido, levar-nos-á à morte que ele próprio nos propõe abolir através das leis do mercado e do domínio mais que insano da natureza. Estamos a pagar muito caro, talvez com a morte, a aceitação da acumulação especulativa de capitais e da conquista fictícia da amortalidade que a propaganda das mercadorias nos propõe diariamente. Claro que é um paradoxo. Donatella Di Cesare explica-nos porquê, nestas breves «colagens» que vos proponho que conheçam e, principalmente, que adquiram o livro.

Algo vai mal quando metade da população mundial, ou seja, 4 biliões de seres humanos, foi confinada numa prisão domiciliária desde Março de 2020 falando à varanda uns para os outros, sem poder sair, com todos os serviços fechados, hospitais a abarrotar, escolas e universidades fechadas, comércio encerrado, a cultura barrada, tendo por única «comunicação» a acomunicação por excelência: as redes sociais, o videotrabalho, as videoconferências, a televisão, os «especialistas». A polis, a praça pública, fechou e não se sabe quando abre ou se irá abrir no futuro; o processo, contudo, vinha já muito detrás, quando nos anos 80, o «there are no alternative» neoliberal se tornou um mantra e toda a contestação foi amordaçada paulatinamente, retirando às manifestações constantes de revolta a capacidade transformadora. O Estado imunizou-se, imunizando os seus cidadãos contra o Outro, o estranho, que podem ser o estrangeiro, o turista ou migrante, as minorias sexuais, os velhos, os sem-abrigo... a conquista da imunidade defendida pelos cidadãos que aceitam sem protesto a distanciação, a ausência do toque dos corpos, a teletemperatura, as app vigilantes e denunciadoras de infectados, a presença do mal assintomático, veio, escrevia eu, juntamente com a imunidade, a anestesia.

A palavra, em colagens, de Donatella Di Cesare:

«O mal que vem é um biovírus assassino, um germe catastrófico. Mas desta vez não é uma metáfora. É o corpo físico que adoece – o corpo exausto de humanidade, o organismo nervoso, cansado, sujeito durante anos a uma tensão intolerável, a uma agitação extrema. Até à apneia. Talvez não seja coincidência o facto de o vírus proliferar nas vias respiratórias, onde passa o ar vital. O corpo subtrai-se ao ritmo acelerado, não se aguenta, cede, pára.» (pág. 15)

«Não se pode esconder o desejo de mudança que nos últimos anos vem aumentando devido a um sistema económico injusto, perverso, obsoleto, cujos efeitos são a fome e a desigualdade social, a guerra e o terror, o colapso climático do planeta, o esgotamento dos recursos. Agora, porém, é um vírus que abala o mundo. (...) O vírus inesperado suspendeu o inevitável sempre igual, interrompeu um crescimento que entretanto se tornou uma excrescência incontrolável, sem medida e sem fim.» (pág. 17)

«O mal que vem, olhando bem, já tinha chegado. Era preciso sermos cegos para não ver a catástrofe à porta, para não reconhecer a velocidade maligna do capitalismo que não sabe nem pode ir além e tudo envolve na sua espiral devastadora, no seu vórtice compulsivo e asfixiante. » (pág. 29/30)

«O coronavírus chama-se assim por causa da auréola característica que o envolve. Uma auréola sugestiva e temível, uma coroa poderosa. É um vírus soberano, a começar pelo nome. Escapa, sobrevoa, transpõe as fronteiras, passa para além. Escarnece da soberania que pretendia ignorá-la grotescamente ou aproveitar-se dele. E torna-se o nome de uma catástrofe ingovernável que por todo o lado desmascarou os limites de uma ‘’governance’’ política reduzida a administração técnica. Porque o capitalismo – como sabemos – não é um desastre natural.» (pág. 37)

«O poder totalitário é antes um vínculo férreo que funde todos em um; em vez de ser instrumento, é o próprio terror que governa, enquanto devora o povo, isto é, o próprio corpo, e contém já os germes da autodestruição. E hoje? O terror tornou-se uma atmosfera. Cada um fica entregue ao vazio planetário, exposto ao abismo cósmico. Não é necessário um aviso directo porque os riscos parecem vir do exterior. Na sua aparente ausência, o poder ameaça e tranquiliza, exalta o perigo e promete protecção – uma promessa que não pode cumprir. Porque a democracia pós-totalitária requer medo e funda-se no medo. Eis então o círculo perverso desta fobocracia.» (pág. 64)

«A abolição do outro faz-se agora por decreto – em troca de segurança e imunidade. O corpo de cada cidadão é de facto uma fortaleza que deve ser protegida contra inúmeros perigos e imponderáveis ameaças. Prudência e suspeita devem determinar as relações sempre necessariamente mediadas por dispositivos capazes de separar, conter, garantir segurança e preservar. O ‘’distanciamento social’’ é, portanto, o selo da política imunitária.» (pág. 83)

«O que perturba nas disposições tomadas durante a emergência da Covid-19, não é apenas a posição da distância em relação ao outro e, portanto, o veto implícito de qualquer abraço, de qualquer efusão espontânea, mas também a expulsão obscura de todas as relações não protegidas, da co-presença, do encontro dos corpos. As consequências são políticas. É nesse sentido que se deve apreender aqui o laboratório de novas e inéditas disposições.» (pág. 84)

«O aviso da democracia imunitária não é assim tão ilegível: afasta o perigo da massa viva e incontrolável, põe à distância o espectro da revolta, assegurando condições saudáveis de sobrevivência.» (pág. 86)

«As praças e os lugares de encontro espontâneos foram sendo progressivamente substituídos pelo espaço virtual da web.» (pág.87)

«Viver e trabalhar ‘’à distância’’ significa estar rodeado de ecrãs. Na ambiguidade do ecrã resume-se todo o paradigma imunitário: ao mesmo tempo que protege, tutela resguarda, abre o acesso ao mundo.» (pág. 87)

«O risco da prisão domiciliária em massa é uma implosão psíquica com resultados imponderáveis. Os medos multiplicam-se: ficar doente, perder o emprego, ser abandonado, ficar entubado. O choque viral causa tristeza, raiva, irritabilidade, depressão, insónia. As irrupções de violência atingem as mulheres. Sem dúvida que não se ressentem do confinamento apenas aqueles que já têm problemas mentais. A existência de muitos mudou do dia para a noite.» (pág. 92)

«A brutalização securitária requer mais paredes, mais arame farpado, mais prisões.» (pág. 95)

«A vigilância da rede, aquele retículo gigantesco em que todos são espiados por um imenso olho invisível atrás do ecrã, é a versão mais recente do panóptico. Só que aceitamos ser exilados na transparência – e fazemo-lo de bom grado.» (pág. 100)

«Talvez acabemos por sair com uma certificação de imunidade que atesta os nossos anticorpos. Passaremos, quase por hábito, entre sofisticados scanners térmicos e densos circuitos de vídeo-vigilância, em lugares e não-lugares esterilizados, mantendo a distância de segurança, olhando à volta com cautela e desconfiança. As máscaras não nos ajudarão a distinguir os amigos e a ser reconhecidos. Por muito tempo, continuaremos a ver por todo o lado assintomáticos que, sem o saberem, alojam no interior a ameaça intangível do contágio. Talvez o vírus já se tenha retirado do ar desaparecido, dissolvido; mas o seu fantasma permanecerá por muito tempo. E ainda teremos falta de ar, a respiração constrangida.» (pág. 117)

São estas colagens que apontam para a necessidade de uma leitura mais atenta do «Vírus Soberano? A asfixia capitalista» de Donatella Di Cesare. Não há uma só afirmação da filósofa italiana que não concorde, principalmente, na construção dessa «democracia imunitária» distopia assente numa catástrofe respiratória que iremos pagar muito caro se não agirmos contra ela e contra o capitalismo que aqui vê uma forma lógica de tentar perpetuar-se: pela apropriação da atmosfera e do corpo. O bioterror está aí.

António Luís Catarino

Coimbra, 21 de Setembro de 2020.