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segunda-feira, julho 08, 2024
segunda-feira, abril 15, 2024
«Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70, seguido de Os Quentes Anos 70 em Coimbra», M. Ricardo de Sousa e F. Carmichael
Letra Livre, col. Anátema, 2024
Livro interessante e um contributo importantíssimo para a história da radicalidade em Coimbra nos anos 70. Mais visivelmente entre o final dos anos 60, com a crise de 69 na cidade estudantil, o final dos anos 70 e início dos anos 80. Ricardo Sousa, que assina «Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70», sendo seguido por F. Carmichael numa pequena nota em «Os quentes anos 70 em Coimbra» apresenta-nos um breve ensaio sobre a República dos Galifões e a centralidade revolucionária desta casa/comuna para as intervenções radicais de uma Coimbra que se ergueu contra a praxe académica e trilhou um caminho alternativo e provocador a uma cidade que preferiu a desgraçada tradição basbaque com o seu cortejo de imbecilidades e fluxos de autoritarismo político das direitas e das esquerdas reformistas, baseados em conceitos hierárquicos de chefias, mandos e violências sobre os caloiros que, ávidos de serem castigados, as aceitaram, servis. A grande maioria da população juntou-se à astúcia restauracionista fascista, à cupidez comercial e ao comprometimento universitário, levando Coimbra ao estado comatoso em que encontra hoje. Acelerou-se, então, a destruição do operariado sempre incómodo para a universidade que já ensinava pouco, os bairros operários com tradições de luta que passaram, por exemplo, na participação de ferroviários no 18 de Janeiro de 1934, ou ainda antes, em confrontos abertos contra os Camisas Azuis de Rolão Preto em plena baixa de Coimbra e que se soldaram por dezenas de feridos. Muitos desses operários anarquistas acabaram (e morreram) no Tarrafal. Tudo isso fez parte do passado de Coimbra que esta teima em ostracizar.
Coimbra revolta-se em 1962 e, principalmente, em 69 com a greve estudantil que levaram muitos estudantes à prisão, à tortura, à clandestinidade, à fuga para o estrangeiro e à incorporação militar forçada na Guerra Colonial. Esta luta está relativamente bem documentada. Para além disso, em 69, como também trata o ensaio de Ricardo Sousa, existiu um laivo de modernidade e de resistência ao fascismo que fugia claramente ao que era proposto pela oposição democrática, liderada pelo PCP e, em 1972, com a recém-formada UEC. Valham os estudos de Manuela Cruzeiro, Rui Bebiano ou Miguel Cardina, entre outros, assinalados por Ricardo Sousa, que referem a existência destas correntes, e teria esta luta sido atirada para o esquecimento histórico, não fosse, aqui e ali, sido lembrada, embora de um modo disperso, diga-se. Este livro é uma prova de que há uma resistência ao esquecimento.
A luta contra a praxe toma a dianteira na análise de Ricardo Sousa que lembra igualmente o seu percurso pessoal, juntamente com outros estudantes radicais onde sobressai a acção do Karpa e de muitos outros, citados no livro da Letra Livre. Mas há igualmente o cuidado de referir as bases teóricas de um movimento que era extremamente diverso e plural dentro daqueles que acreditavam ainda numa retoma do que foi a alegria popular do PREC e o movimento das ocupações por todo o país. Em Coimbra, praticamente toda a Sé Velha e Praça da República era domínio dos estudantes revolucionários enquadrados nas repúblicas onde pontificavam comunistas, maoístas, trotskistas, anarquistas, conselhistas e situacionistas para além de muitos que não tinham a pachorra para rótulos mas que alinhavam nesse espaço de liberdade que era, sem dúvida, a chamada «zona vermelha» com que o Diário de Coimbra, jocosamente e por analogia com a mesma zona de Amesterdão, apelidava o conjunto da teia urbana que recusava serenatas e capas e batinas. Queria-se muito mais, mas não esperávamos que o DC o compreendesse. Miserável foi o fim desta liberdade conquistada. O jornal publica em 1979, as fotografias, em primeira página, do desastre de viação horrível em que morreram, carbonizados, cinco estudantes (Victor, Pinto, Freitas, Patrícia e Luísa) que eram repúblicos dos Galifões. O choque foi, então, grande para quase toda a população estudantil e sentimos que algo mais se perdeu para além daquelas vidas. A recuperação da praxe e com ela os governos do PS e da AD levaram a um reforço da repressão sobre as repúblicas e a uma «normalização» das instituições que no Prec levaram um abanão consistente. A violência e raiva fascistas e «democráticas» continuaram e em 1985 (pessoalmente já não estava em Coimbra) um estranho fogo acabou com a Comuna dos Galifões, sem que houvesse um inquérito digno desse nome.
Este livro de Ricardo Sousa merece ser lido. Não só pela revisitação dos lugares que nos foram comuns em anos seguidos de liberdade em que fizemos Coimbra um lugar onde valia a pena a «arte de viver» tão caro a Vaneigem, mas também pelo cruzar de filamentos revolucionários e de resistência ao capitalismo que tivemos (alguns de nós ainda têm) a ousadia de o confrontar. Citados pelo autor lembramo-nos ainda do GAME (Grupo Anti-Militarista e Ecológico da AAC onde pontificava o Francisco Pedroso Lima e Pais de Sousa, para além do próprio Ricardo Sousa), do CITAC, da Centelha de Soveral Martins (onde, para além de literatura política alternativa, se criou a Ekomedia, mais tarde, em rede com a antiga Indymedia) para além de muitas secções da AAC quando esta se mostrava independente e em contactos íntimos com as repúblicas onde, sem dúvida, os Galifões não deixaram de ter um papel muito peculiar e frontal. No deve e haver da recuperação de direita, alguns destes estudantes e jovens trabalhadores que se juntavam entre si, escolheram trilhos mais difíceis de luta e aí pagaram demasiado caro, mas tão legítimos quanto os que escolheram as derivas do trabalho da «sobrevida», de expressões artísticas ou de cooperação de afinidades políticas e sociais, nunca esquecendo que a vigilância do estado nunca nos deixou totalmente em paz.
Hoje, a cidade pode gabar-se de comemorar de ano para ano o seu cortejo tão bárbaro, quanto entediante, a superioridade moral do vómito em alcatrão quente, sempre pelos idos de Maio. Os comerciantes de uma baixa decadente agradecem, a universidade lambe-se de entusiasmo, a polícia é condescendente com os futuros «dótores» e os hospitais mobilizam tendas e ambulâncias por todo o lado não vão eles sujar os corredores. A população com dinheiro suficiente consegue fugir para outros sítios menos poluentes e regressa, após uns dias, para o mar de lixo que entupiu as ruas.
Autores: Ricardo Sousa e F. Carmichael
Ano: 2024
Pedidos à Editora Letra Livre
domingo, janeiro 17, 2021
«Negreiros-Dantas. Coimbra Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Ou de como os «palermas de Coimbra» ousaram lutar contra a Santa Pasmaceira
«Negreiros- Dantas. Coimbra, Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Capa: João Bicker. Fenda. 2009
Ou os «palermas» de Coimbra lutando na Santa Pasmaceira universitária!
Este livro de Rita Marnoto, editado na Fenda em 2009, levanta questões inauditas sobre o movimento futurista em Portugal. Sabemos que este movimento, cuja figura mais proeminente foi Almada, nunca foi muito homogéneo, mas torna-se mais interessante quando percebemos que em Coimbra se afirmou um fulgor de índole futurista que se opôs, em parte e pela mão do estudante Francisco Levita, contra Almada Negreiros. É Rita Marnoto que nos diz: «A desafiar Almada Negreiros houve muitos, mas a fazê-lo como futurista, Levita teria sido um dos poucos». Antes de apresentar-vos aqui algumas descrições do livro valerá a pena referir Petrus. Não fosse este editor ter arrolado, em enciclopédia, múltiplos manifestos, poemas soltos, livros, panfletos, volantes e papéis de todos os feitios dos movimentos modernistas e de vanguarda, teríamos perdido para sempre um espólio de grande riqueza que fará, certamente, retratar um país um pouco menos parolo e tão sonolentamente académico como o foi no século passado.
Fixemo-nos em Francisco Levita, estudante da Universidade de Coimbra em Direito, menino com posses, vindo de Portalegre, e dado à tão falada coboiada noctívaga da cidade. Também amante da «photographia». Dele, sabemos o que outros deixaram em memórias e está devidamente registado o escândalo no Hotel Palace do Bussaco em que exigiu uma ementa futurista de frango com chocolate e omelete de pêssegos, regado a champanhe o que os fez vomitar na volta da brincadeira, além de uma interrupção abrupta, na Sala dos Capelos, a um famoso lente, logo após a instauração da República que o futurista apoiava. Suicidou-se em 1924, um ano antes do manifesto futurista de Coimbra. Levita não era mau poeta e os seus poemas são claramente futuristas, com onomatopeias, monossílabos ou caracteres tipográficos identificadores da corrente. Aliás, a autora conseguiu resgatar, na biblioteca de Portalegre, outros livros dele que não o manifesto de 1916 que deu mais brado. Falamos do que se opôs a Almada Negreiros.
Não é de todo impossível que Levita tenha conhecido Almada Negreiros quando este último deambulava também por Coimbra, sendo expulso pelo senhorio que era amigo de seu pai. Talvez por se portar bem e ter reprovado por faltas... digo eu. O último verso do manifesto «Negreiros-Dantas» não clarifica se o conheceu ou não «Este Sterico que eu já vi fazer de gaivota, bailando em noites de podridão, classificou-se agora, é o DANTAS nº2». Ora, noites de podridão, dá-me a ligeira ideia que se trata de Coimbra! Já bailar como uma gaivota, não conhecemos na dramaturgia ou conferências de Almada, tal feito. O que o leva Levita a atacar este? O Manifesto Anti-Dantas é de 1915, um ano antes de «Negreiros-Dantas» e produziu o baque conhecido, maioritariamente pelos saudosistas e naturalistas. Mas por um futurista de Coimbra? «(...) Os meus pensares confirmaram-se quando o pateta que se diz Futurista e Tudo, lançou praï um manifesto em prosa de algodão, tratando de um outro imbecil: o Sr. de Dantas!!,,, Ja é preciso ser Rasco em literatura pra se prender com tal banalidade!!! E' necessario serse idiota ou burro, tarado ou imbecil, ou Dantas, ou cretino ou Almada Negreiros!!!»
Já o Manifesto de 1925 levanta outras questões e a análise torna-se mais atenta porque se trata de um grupo coeso e literariamente mais estruturado. Por isso igualmente mais divulgado tanto no Diário de Lisboa como no Diário de Notícias. Nenhum era natural de Coimbra. Falamos de Mário Coutinho, das Caldas da Rainha, de Abel Almada, de Santana, Madeira, João Carlos, de Ílhavo e António de Navarro, de Nelas. Claramente perfilhados com Marinetti, que o conhecem e lhe leem os manifestos saídos em 1909, no Figaro e em 1912 o Manifesto técnico da literatura futurista onde advoga «a abolição do advérbio e do adjectivo e o uso de pares de substantivos» como nos diz Rita Marnoto.
Na entrevista que Mário Coutinho dá ao Diário de Lisboa, num quarto da Alta, mais propriamente na Rua das Almas, afirma «Queremos mostrar que Coimbra não morreu, que ainda é um centro artístico, onde há vida, aspirações e gente que sabe o que quer, que tem um fim. Há dez anos, pouco mais ou menos, não sai de cá uma obra que fique, que marque. Nós pretendemos construir essa obra.»
Mas é António de Navarro que parece ser o mais esclarecido, tendo levado esta gente a organizar-se em torno de duas revistas antes da publicação do Coimbra Manifesto de 1925 - a Bysancio e a Triptico. Esta última aliás recebe directamente de Marinetti os seus manifestos, poemas e opúsculos da Corso Venezia, 61, Milano, pelo que não nos admiramos de ter havido contactos directos entre os futuristas conimbricenses e o papa do Futurismo. O arrojo e a violência verbal (a física nunca foi afirmada pela corrente portuguesa) teve um episódio bem sugestivo: a 17 de Março de 1925, António de Navarro e os seus amigos, promovem um happening futurista no Teatro Sousa Bastos que acabou com uma agulheta de incêndio a encharcar o palco e os conferencistas que, mesmo assim, não paravam de invectivar o público estudantil e, a bem dizer, algo morcão.
Nesta onda, José Régio, que nunca foi um «convicto» do movimento, abordando-o contudo, afirma sobre o movimento futurista de Coimbra num manuscrito inédito e que Rita Marnoto nos apresenta: «Com a intenção de lhe arrancar informações sobre o movimento literário que presentemente arranha a Senhora Pasmaceira de Coimbra, trago até ao quarto andar em que moro o meu amigo António de Navarro» e num diálogo ao que se julga nesse mesmo quarto, onde via Coimbra «lá em baixo», transcreve um diálogo em que António de Navarro lhe confia: « - Ah, meu amigo! Coimbra tem vivido, ultimamente, num verdadeiro estagnamento. Nós pretendemos abrir brecha, despertando energias e desempoeirando o sentido da arte. Que cada um de nós conquiste a sua própria sensibilidade, desprezando os dogmas, as algemas, a galeria - tudo o que possa atirar poeira e nevoeiros aos nossos olhos - Nós queremos Sol e Ar Livre!»
Bom, foi Eduardo Lourenço que nos disse que toda esta energia acabou na Presença, uma moderação dos sentidos e de rupturas, mesmo que mais tarde se tivesse arrependido de o ter dito. O fascismo de 1926 não explica tudo, nem a Santa Pasmaceira de Coimbra. Chega a ser comovedor este livro publicado pela Rita Marnoto. Eis os ditos «palermas de Coimbra». Ou talvez não. Acabaram (quase) todos no esquecimento e no silêncio.
E a pasmaceira continua, agora que veio para ficar, digo, mais uma vez, eu!
António Luís Catarino
Santa Pasmaceira, 17 de Janeiro de 2021
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