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domingo, outubro 05, 2025

«Perto do Coração Selvagem», Clarice Lispector

 

Companhia das Letras, 2025

«Que façam harpas dos meus nervos quando eu morrer.» (pág.178)

Clarice Lispector escreveu «Perto do Coração Selvagem» com 23 anos. Só quem ler o livro e reler algumas passagens com o cuidado merecido é que pode relevar este facto aparentemente inócuo. Foi precoce na escrita e na morte, igualmente. É gelo, é cruel, é puro aço de um fio de lâmina que se atravessa em nós, sempre pronta a ferir-nos. Ou seja, cumpre-se mais uma vez literatura. Porque nos envolve emocionalmente, mesmo que Clarice Lispector se mostre extremamente distante e pouco interessada no que viermos a sentir pelo que lemos dela. Reparem nisto:

«Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios - na língua principalmente -, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer.» (pag.20) 

As palavras como traição, como armadilhas montadas para nos apanhar em teias com as quais não nos desenvencilhamos facilmente. Por isso, os indígenas acham que o homem branco fala demais, que esconde o seu sentir através das palavras enganadoras. Creio ser esse o alfa e ómega de um «coração selvagem» que dá título ao livro. As palavras sendo perigosas, possuem, contudo, beleza suficiente para nos levar a um fim, a um sentido traído. 
Como quando escreve em «aço franzindo e esfriando o meu corpo» verdadeiro verso de um poema em forma de aliteração, tal como este «Tudo desliza suave, em combinação muda. Já era no fim - fim de quê? da escadaria nobre e lânguida, inclinada, acenando o longo braço brilhante, o belo e orgulhoso, o fim da noite - (...)» (pág.159) 

A toada é esta, a de Clarice Lispector. Uma impressão que se nos impõe no processo de leitura em que o desapego e abandono é a forma verdadeiramente eficaz na aproximação (também ela erótica) que sentimos pela liberdade total da autora. No entanto, afirma que uma «liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.» (pág.72) Mas que não se pense que as barreiras são transponíveis. É matéria suficiente para construir um mistério a que Lispector deu forma, provavelmente sem um propósito que não seja o que escreveu e como escreveu. Talvez a proposta de um eterno adiamento «porque os últimos cubos de gelo haviam-se derretido e agora ela era tristemente uma mulher feliz.» (pág.116)

alc

quarta-feira, outubro 16, 2024

«A Resistência», Julián Fuks

 

Companhia das Letras, Penguin Random House, 2023
Pode não constituir ainda um padrão literário, mas esta narrativa de uma nova realidade sul-americana nasce de uma pesquisa difícil e dolorosa de uma memória reconquistada pela escrita. Trata-se de uma memória que tentou ser anestesiada pelas ditaduras da América do Sul e que teimosamente emerge, lutando contra o medo, contra a morte. Esta literatura nasce de gente nascida nos anos 80 e são escritores e escritoras que teimam em fazer reviver os que morreram sob torturas, desaparecimentos, sequestros, raptos de crianças, numa espiral de violência indescritível da extrema-direita no poder. Falamos da Argentina de 1976, do Chile de 1973, do Brasil, do Uruguai, da Nicarágua de Somoza, etc, etc,. A Operação Condor nas Américas não foi uma ficção. Lembramo-nos, para além de Fuks, da chilena Alia Trabuco Zerán, em «A Subtracção» e mesmo Layla Martínez em «Caruncho» e embora este último se passe em Espanha os mortos sem morada são os mesmos. Este rastro existe, o dos desaparecidos, dos mortos ainda sem sepultura. Como nos lembra o autor, as Avós e Mães da Praça de Maio, em 30 anos, «recuperaram» 114 netos adoptados à força. Faltam cerca de 400. Este facto pesará sempre na consciência de cada um de nós, ao menos em nós, dado que a dos verdugos é um enorme vazio assassino. A literatura é viver isto, também.

Mas se, por um lado, fazem reviver os mortos ou os desaparecidos, também se questionam a si próprios e aos sobreviventes. E é aqui que nasce este padrão literário, talvez estranho para os europeus habituados à democracia parlamentar e aos bons costumes do «confronto» mais ou menos polido. Julián Fuks é mais brasileiro que argentino, se bem que os seus pais vivessem em Buenos Aires quando do golpe de Videla em 76. Ambos médicos e militantes de esquerda, tiveram de fugir para o Brasil (embora igualmente em ditadura) para sobreviver, levando consigo uma criança que vieram a adoptar e irmão mais velho de Sebastián, nome da personagem que o escritor emprestou para si próprio neste livro. Esta ferida aberta, que Fuks não se inibe de revelar, toma vários formatos: a sua relação com esse irmão, com a sua irmã biológica, com os pais, com as Mães e Avós da Praça de Maio, com a própria esquerda e com a violência, com a ditadura; e a memória que ele se força por trazer ao de cima, sem que isso não impeça um conflito que adivinhamos com os próprios pais que não concordam com o modo como o filho expõe essas mesmas feridas ainda abertas e transcritas para a ficção. A revelação fria pode ser pior que a desmemória. 

O brasileiro Julián Fuks ganhou o Prémio José Saramago em 2017, mas este não é um livro extraordinário. Por vezes, durante a sua leitura, temos a ideia que é volúvel, etéreo, solto. Pouco firme, não muito consistente com os pensamentos ou com as ideias que quer transmitir. Mas talvez tenha sido essa a opção do autor. A memória não será assim, também ela?

«Toda a vida foi infenso a esses objetos. incômoda confluência entre a ameaça efetiva e o símbolo funesto, toda a vida me quis um pacifista. Agora penso nessas armas e não entendo a euforia que sinto, a vaidade que me acomete, como se a biografia do meu pai em mim se investisse: sou o filho orgulhoso de um guerrilheiro de esquerda e isso em parte me justifica, isso redime minha própria inércia, isso me insere precariamente numa linhagem de inconformistas.»

Que esse inconformismo perpasse gerações. Com armas ou com argumentos os tempos necessitam disso.

alc

quarta-feira, março 27, 2024

«Há mundo por vir?», de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro

 

Antígona,2023, grafia brasileira, ilustração da capa de Gonçalo Duarte
Livro mais que necessário para ficarmos a conhecer as diversas correntes de pensamento e acção dos que esperam o apocalipse climático anunciado, os que pensam ainda poder evitá-lo, os «aceleracionistas» de esquerda que, culpando o capitalismo, querem o seu fim desejando simultaneamente uma nova ordem climática, ecológica e social, os «singularistas» defensores do capitalismo verde e das grandes multinacionais como a Google, Amazon, o troglodita do Musk e quejandos, mais (não poderia deixar de ser) os negacionistas que tentam negar tudo acertando na única coisa de que são realmente bons: provarem que são negacionistas até para eles próprios, erradicando todo e qualquer laivo de pensamento estruturado nos seus cérebros. De qualquer maneira estamos todos lixados. O relógio do apocalipse aí está a meros dois segundos do fim. Os «sobrevivalistas» de todos os matizes da extrema-direita americana aos anarquistas, outro dos ramos, já não estão nesta discussão. Abrem o canivete suíço, o isqueiro enquanto tiver gás, constroem uma cabana de ramos de eucalipto e aí estão eles na caça e pesca pelas montanhas. Acho muito bem, sabendo que os ursos, lobos e águias lhes podem fazer a folha em menos de um minuto. É a natureza, estúpido!

Depois, vem a ainda presente polémica sobre o Antropoceno. Que sim, pois se ele existe, continuará depois de nós. Foi o nosso legado. Mas sendo assim, não haverá ninguém para o dizer ou proclamá-lo porque estaremos todos mortos sem sepultura. Ficará o betão armado por mais uns largos anos, e o urânio das centrais a aniquilarem os animais e aves que se aproximarem das grandes chaminés de arrefecimento. O resto, talvez alcatrão, a ferrugem do que foram automóveis, as baterias a escorrerem líquidos corrosivos, minas das guerras passadas a explodirem quando ratos (os sobreviventes) lhes passarem por cima e a Torre de Belém no canto de um país esquisito que durante uns míseros 900 anos (uns nanossegundos do Holoceno e do Antropoceno) se armou aos cucos e não deixou rigorosamente nada a não ser um montão de ruínas com que se deu sempre bem.

Nada mau para uma leitura de páscoa. Imprescindível para as outras partes do ano.