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| Os últimos livros da coleção de ficção da Deriva têm nomes como Xavier Queipo, Pedro Teixeira Neves, João Paulo Sousa, Paulo Kellerman e Anjel Rekalde. |
segunda-feira, dezembro 31, 2012
Em 2013 poderá adquirir alguns títulos da coleção de ficção da Deriva
quinta-feira, março 17, 2011
THEO ANGELOPOULOS - O ÚLTIMO MODERNISTA: O PASSADO COMO HISTÓRIA, O FUTURO COMO FORMA.
TEATRO DO CAMPO ALEGRE | (17 a 23 de Março)
O título do último filme de Theo Angelopoulos não podia adequar-se mais aos objectivos deste pequeno ciclo que agora lhe dedicamos. “A Poeira do Tempo”, assim se intitula, e corporiza, logo ali no título, uma espécie de enunciado programático daquilo que é fundamental no seu cinema: o tempo.
18 Março, O OLHAR DE ULISSES (1994) | 19 Março, A ETERNIDADE E UM DIA (1998)
Horário das sessões: 18h30 e 22h (excepto 22 Março, só 18h30)
sexta-feira, março 04, 2011
Tertúlia "Nós somos o que lemos" - Livraria Leitura [Ceuta] - 5 de Março
com a presença de:Manuel António Pina
Rui Amaral
Manuel Jorge Marmelo
João Paulo Sousa
Miguel Miranda
moderação:António Costa
quarta-feira, junho 02, 2010
Os autores da Deriva na Feira do Livro do Porto [programação]
João Paulo Sousa (O Mundo Sólido) e valter hugo mãe
domingo, 6 de Junho, 18h
Bando dos Gambozinos (Com quatro pedras na mão)
(praça ESMAE)
quarta, 9 de Junho, 21h30 | Pelos Caminhos de Portugal (auditório)
Álvaro Domingues, Miguel Carvalho (Aqui na Terra)
domingo, 13 de Junho, 17h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório)
Fernando Pinto Amaral, Paulo Kellerman [Chega de Fado]
sexta, 18 de Junho, 18h30 | LEITURAS CRUZADAS (auditório)
António Mega Ferreira, Filipa Leal
sexta, 18 de Junho, 21h30 | LEITURAS CRUZADAS [Praça Azul]
Pedro Eiras, Rui Zink
sexta-feira, março 12, 2010
A noite da ficcão, João Paulo Sousa
No rescaldo das Correntes d'Escritas, o Bibliotecário de Babel publica um excerto da comunicação de João Paulo Sousa, autor de O Mundo Sólido.
"Ao contrário de tantos autores, decerto muito mais previdentes do que eu, que optam por conceber de antemão as diversas cenas que hão¬ de estruturar a obra e que as preparam minuciosamente, tendo em conta todos os detalhes que nela deverão figurar, redigindo a primeira versão e a segunda e ainda a terceira, antes de se abalançarem à redacção provisoriamente final, eu procedo desse modo muito mais angustiante que consiste em navegar na noite da ficção sem um mapa definido" (continua aqui)
domingo, fevereiro 28, 2010
Correntes d'Escritas: João Paulo Sousa, no sábado, dia 27, na mesa «Duvido, portanto Penso» moderada por José Mário Silva
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
1º dia de Correntes d'Escritas. Encontro com Paulo Kellerman e Pedro Teixeira Neves. João Paulo Sousa no sábado

quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Recensão crítica de Ariadne Nunes sobre Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas, na Românica18
Excelente recensão crítica de Ariadne Nunes na última edição de Românica 18, do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas. Estão lá todos aqueles jovens autores que naquele Outubro de 2007 (já?) debateram vivamente connosco a poesia e a deriva poética. Pedro Eiras foi o culpado. Os cúmplices, citados criteriosamente por Ariadne Nunes, estão lá todos: Marinela Freitas, Mariana Leite, João Paulo Sousa, Catarina Nunes de Almeida, Miguel Ramalhete Gomes, Raquel Ribeiro, Margarida Gil dos Reis, Helena Lopes, Joana Matos Frias, José Ricardo Nunes, Filipa Leal, Andréia Azevedo Soares, Daniel Jonas e muitos outros.
domingo, janeiro 03, 2010
João Paulo Sousa editado no Brasil?
quarta-feira, dezembro 09, 2009
O balanço da década, por Eduardo Pitta, na última Ler
Já aqui dissemos que a nova Ler está melhor. A última Ler, a nº 86, tem vários motivos de interesse, embora nos tenha tocado muito particularmente o balanço que Eduardo Pitta faz da década que está a passar (já, dez anos?).
quinta-feira, dezembro 03, 2009
À Volta dos Livros com João Paulo Sousa
A entrevista de Ana Aranha a João Paulo Sousa, no programa À Volta dos Livros, da Antena 1. Podem ouvi-la aquiquarta-feira, novembro 18, 2009
Henrique Fialho escreve sobre O Mundo Sólido
Sou informado, através de uma breve nota biobibliográfica reproduzida numa das badanas de O Mundo Sólido (Deriva, Março de 2009), que João Paulo Sousa (n. 1966) publicou, anteriormente, alguns ensaios e dois romances: A Imperfeição (2001) e Os Enganos da Alma (2002). Sei que o segundo romance, publicado pelas Quasi Edições, foi escrito no âmbito de uma bolsa atribuída pelo Ministério da Cultura em 2001. E sei que o primeiro foi publicado pela Campo das Letras. Infelizmente, escaparam-me ambos. Recomponho-me da falta com a leitura de O Mundo Sólido, uma narrativa que dificilmente poderei classificar de romance, mesmo tendo em conta a dimensão mais reduzida do romance actual. O Mundo Sólido oferece-nos, em aproximadamente 120 páginas muito bem escritas, um monólogo interior sem quebras, sem parágrafos, escrito como quem narra o pensamento de um homem circulando nos labirintos da memória. Esta opção por um texto sem divisões confere à leitura uma experiência estética que, ao contrário de outras, não se reduz à gratuitidade do mero efeito estilístico. Assim escrito, o texto reproduz a forma de um bloco compacto, ao mesmo tempo que cria a sensação de estarmos perante um monólito cuja erosão se tornará perceptível à medida que a leitura avança.
Francisco, um homem a entrar na chamada meia-idade, arquitecto de profissão, pai de Álvaro, viúvo, é o actor principal de uma viagem interior motivada por uma carta do filho que lhe anunciará uma trágica notícia. O texto começa, pois, com a suspensão de um dia de trabalho ─ projecto da nova biblioteca de Ravenna ─, para vir a terminar, depois dessa digressão interior pelo passado, mais ou menos onde havia começado, ou seja, com Francisco concentrado num novo projecto: museu de Ferrara. Talvez a consistência temporal da narrativa fosse outra se o texto terminasse com Francisco a pensar no projecto inicial. Assim, entre o projecto da nova biblioteca de Ravenna e o projecto do novo museu de Ferrara, somos confrontados com uma dispersão temporal que nos leva a crer haver entre o princípio e o fim da narrativa um aparente hiato que nos escapa. Por outro lado, o itinerário memorialista de Francisco processa-se do presente para o passado, não respeita nenhuma coerência cronológica, errando antes por momentos distintos da vida que se inter-relacionam com a naturalidade de quem salta de etapa para etapa sem nunca sair do mesmo lugar. E esse mesmo lugar é, precisamente, o lugar da memória, um lugar íntimo, porventura sólido, porventura volúvel. É que «a memória é uma arca com muitas fendas, por onde não se cansa de expelir o que julgávamos arrumado e definitivo» (p. 67).
Assim como o confronto com as fotografias torna explícita a manipulação da memória sobre a realidade, também o confronto com o passado aclara a ductilidade da memória. O mundo sólido surge como uma imagem que Francisco guarda do seu avô, quando este lhe fala, numa pousada de Valença do Minho, desses mundos aos quais devemos a nossa protecção. Mas esses mundos estão num estado de ruína na vida de Francisco, nomeadamente o edifício familiar, essa espécie de antigo anfiteatro romano onde todos os crimes são justificáveis. A família é o edifício em ruínas que aparece, não sem ironia, no centro das atenções deste O Mundo Sólido. Francisco é um homem desabrigado e desprotegido, a doença que ele diz ter, contra todos os diagnósticos médicos, é a doença de um homem em pânico perante a solidão que o confina. Ele é um homem desprotegido, sobretudo por não se poder proteger de quem mais o ameaça, ou seja, dele próprio. O contraste é exaltante: entre os projectos de novos edifícios, a ruína da vida privada, a ruína do edifício familiar, desse edifício evocado nas palavras de Salazar como a base, o pilar fundamental, de uma unidade que conferiria «a indispensável solidez ao nosso mundo» (p. 84).
O mundo interior desta personagem arquitectada por João Paulo Sousa chega-nos como uma pedra atirada contra um corpo frágil, o texto estilhaça toda e qualquer previsibilidade com um rigor que desconforta. Repare-se como Francisco lembra a falecida mulher: «A morte da minha mulher, ocorrida tão pouco tempo depois do reconhecimento clínico da doença, libertou-me do cerco em que eu me deixara encerrar e deu-me a possibilidade de respirar de novo a plenos pulmões» (p. 30); ou como a vontade de ter um filho acaba reduzida a um gesto violento e egoísta que apenas gerará asfixia e produzirá frustrações, sendo, então, a família um edifício que serve para «esmagar o indivíduo» (p. 72); ou ainda como o enamoramento por Laura, a empregada (suposta amante) do falecido pai de Francisco, redundará numa autoflagelação silenciosa: «era a mim que pretendia dilacerar as feridas, sem, no entanto, as revelar a quem quer que fosse, até que o extremo sofrimento apagasse de vez a causa da minha angústia» (p. 82). «Acomodado na sua clausura» (p. 103), Francisco é um homem angustiado, desprotegido e solitário, sobretudo por se limitar a esperar que algo lhe aconteça (note-se o contraste com Galeotto, o amigo italiano), por se acomodar às circunstâncias sem nada fazer para superar o cerco que ele julga ser-lhe imposto de fora, quando, na realidade, não parece senão ser um cerco nascido por dentro, na intimidade, como uma doença que nenhum médico logrará diagnosticar.
Henrique Fialho
quarta-feira, outubro 28, 2009
Entrevista de João Paulo Sousa a António Levy Ferreira na RUM
João Paulo Sousa, nosso autor que publicou O Mundo Sólido teve uma interessantíssima conversa com António Levy Ferreira na Rádio Universitária do Minho, no programa Livros com Rum. Pode ouvi-la aqui
domingo, outubro 18, 2009
Hoje, pelas 20:00, na RUM, João Paulo Sousa conversa com António Levy Ferreira
quarta-feira, setembro 16, 2009
Correntes d'Escritas 2010: Paulo Kellerman e João Paulo Sousa presentes
Ainda não é oficial, mas já é oficioso: Paulo Kellerman e João Paulo Sousa vão estar presentes nas XI Correntes d'Escritas. O primeiro autor irá apresentar o seu próximo livro da Deriva (o quarto) em Fevereiro, durante as Correntes e dele falaremos adiante, até porque esperamos algumas novidades que serão, também aqui, analisadas. Com ele trará Gastar Palavras (premiado com o APE de Conto), Os Mundos Separados que Partilhamos e Silêncios entre Nós.
terça-feira, julho 07, 2009
Sobre O Mundo Sólido: A arte da fuga, por Tiago Bartolomeu Costa
Foto de O Mundo SólidoApresentação de O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa, por Tiago Bartolomeu Costa
Bulhosa, Entrecampos (Lisboa), 23 Abril 2009
Reconhecendo embora o exercício de imaginação extremo que a comparação sugere, facilitemos: há em O Mundo Sólido uma madalena. Uma madalena que não é mergulhada numa taça de chá, que aqui surge sob a forma de uma carta, seca e fria, pragmática e reveladora das tensões que, perceberemos mais tarde, definem todo o conflito interior no qual vive a personagem Francisco, mas uma madalena.
A madalena de O Mundo Sólido é essa carta escrita pelo filho de Francisco, Álvaro, e será a partir do que nela não se pode ler, porque não estava escrito, que entraremos nesse processo de fuga que Francisco decidiu encetar. A partir de uma carta, feita de “um texto breve que estava impresso numa folha branca, demasiado branca, sem uma única palavra escrita à mão, nem mesmo o nome no fim a assinar, permitindo pensar que outra pessoa a teria redigido”, temos acesso a um universo paralelo estranho e distante, hiper‑pessoal e perigosamente desejado.
Francisco é um homem acossado. Nunca saberemos exactamente porque age assim. Percebemos, no entanto, pelas insistentes recorrências que tem uma (ou vive numa) permanente e traumática relação com os médicos e os hospitais (quase primária e pueril se não soubéssemos que não foge muito à verdade). Sabemos também que saiu de Lisboa para ir para Roma acreditando que conseguia recomeçar uma nova vida junto de Paola, jovem mito, mulher mais nova, também arquitecta, italiana charmosa e misteriosa, que surge nas horas da vida de Francisco, ou Francesco, como lhe chama, como uma sombra, uma figura pouco definida, de quem ele tem medo, nunca saberemos porquê. Podemos imaginar que a memória, o fantasma de Joana, a sua anterior mulher que morreu nas mãos dos médicos, terá algo a ver com isso. O mesmo mecanismo louva-a-deusiano ou aracnoidiano tipicamente feminino é razão para mais uma fuga de Francesco, aliás Francisco. Há ainda o filho, Álvaro, projecção falhada do fugitivo, em tudo semelhante aos conflitos que teve com o pai e longe, muito longe, da cumplicidade, agora tornada em modelo inacessível da que manteve com o avô.
Francisco corre. Corre dentro de um universo que o autor criou paralelamente a esta existência‑fantasma. E corre seguindo regras onde só são válidas as lógicas concentracionárias e rizomáticas que, ao longo do novelo que Francisco vai desfiando à nossa frente, já não buscam uma lógica exterior mas antes se reorganizam, regeneram, auto-sustentam.
Neste universo só entra Francisco, agora respondendo por um outro nome, que poderia ser Francesco se ele não sentisse que nem esse alter‑ego, essa projecção em pouco responde à imagem que havia projectado para si mesmo, quando estivesse em Roma. E Roma, como antes Lisboa e antes disso Valença, são apenas e só portas de entrada.
É de uma viagem sem tempo e sem espaço, sem corpo e sem matéria – porque o corpo de Francisco está doente mas só ele o sabe (nem os médicos lhe dizem o que ele quer ouvir, nem Paola desconfia porque não iria perceber, nem os mortos agora lhe valem porque antes de nada lhe serviram), sem tempo e sem espaço porque as várias cidades se sobrepõem criando um mapa único, onírico, kafkiano onde deveria ser kavafiano.
O autor, citando Giordano Bruno, chama-lhe cosmogonia omnicêntrica, ou seja, uma organização espacial “segundo o qual o centro está em toda a parte onde haja um observador e a periferia, uma vez que o universo é infinito, não se encontra em nenhum lugar”.
Francisco é o centro e a periferia, ele define as margens e o que são as margens, desloca as personagens – que deveriam ser figuras reais da sua vida mas que ele manipula a seu bel‑prazer – conforme os cenários mais convenientes, ficciona uma vida, um universo, uma existência da qual não fazemos parte, que recusamos porque reconhecemos nele o mesmo esquema artificial de relações no qual nos enredamos diariamente.
Não será por acaso que João Paulo Sousa nos coloca à margem deste homem, fazendo‑o operar em modo automático, quase irracional (para nós, não para ele). Facilmente nos poderíamos identificar com esta figura que de tanto se querer relacionar com o que o envolve mais depressa se afasta, mais distante fica. A razão surge já bem perto final, mesmo que não sirva de completa justificação para esta opção narrativa. É que uma relação de cumplicidade precisa de gestos imediatos e “um gesto que não se realiza no momento em que seria leve não fica apenas adiado, torna-se anacrónico e adquire cada vez mais peso à medida que se afasta desse ponto de flutuação natural, para sempre perdido, transformado em definitivo no que nunca foi e também nunca será, no que apenas poderia ter sido”.
E, precisamente, aquilo em que Francisco não acredita é em gestos imediatos, em dados adquiridos. Ele busca nas acções mais efémeras (a carta do filho, as revistas do avô, o formalismo da empregada que apenas cumpre as suas funções, Paola a dormir ao fim de um dia de trabalho no sofá da sala, barrando-lhe o acesso ao quarto) uma razão última, que seja primeiro o resultado de estratégias em vez de ser apenas e só uma acção. E, com isso, Francisco, o arquitecto que foi para Roma tentar viver, vive “numa solidão cada vez mais irremediável”.
Diz-se que o pior que se pode dizer a alguém é que temos pena dele. Mas eu confesso que tenho imensa pena de Francisco, e de Francesco. Tenho pena que ele não seja capaz de percorrer as ruas de Roma sem se sentir incomodado com as hordas de turistas que enchameiam a Praça de Espanha. Tenho pena que ele não faça amor com Paola como ele imagina que o seu pai fez com Laura, a empregada que nunca assumiu o papel de mãe – ou de como ele, mesmo pequeno e inevitavelmente, queria ter feito com Laura, desejando estar com a mãe. Tenho pena que nem ele nem Álvaro, o filho, encontrem formas de dialogar. E tenho pena que Roma, cidade que ele quis abraçar para fugir à “infelicidade de nascer em Lisboa”, não lhe sirva para outra coisa que não de cenário para o arquitecturar de uma fuga, sem destino.
João Paulo Sousa não facilita, é verdade. O Mundo Sólido é um romance complexo, difícil, inacessível, por vezes. Complexo porque nunca cede na explicação. Difícil porque exige ao espectador um balanço entre o que ele poderia antever a partir da sua experiência com narrativas semelhantes e a confiança numa figura que não se quer deixar apanhar. Por vezes inacessível porque o universo no qual Francisco vive, precisamente por estar cada vez mais isolado, não cabe nos parâmetros tradicionais da normalidade. É demasiado intenso, é demasiado isolado, é demasiado dele.
João Paulo Sousa sabe‑o e diverte‑se com isso. Há um nítido prazer na exploração da linguagem, na sobreposição de planos e espaços físicos e temporais, no cruzamento de referências, na relação entre a acção e a imaginação. As mesmas características que encontramos nos seus cuidados textos sobre espectáculos, a mesma atenção ao detalhe, a mesma preocupação com a legitimidade do argumento, a mesma dedicação na construção de planos de leitura diferenciados que servem um espectáculo, em vez de servirem apenas quem sobre ele escreve. João Paulo Sousa coloca‑se do lado da personagem, narra as suas aventuras – descreve o seu mundo – de acordo com o que Francisco deseja revelar. Dá exactamente a medida do que Francisco autoriza que seja antecipado. O autor preocupa‑se menos com o leitor, parece‑me. A dada altura chega mesmo a escrever, através dos pensamentos de Francesco, que a literatura “consegue levar-nos a ver o que não existe”. Logo, é claro na sua posição. Não explicar, evitar a descrição, impedir as palavras de formarem imagens claras, sugerir apenas, inventar, provocar, prolongar os sentidos, inverter a ordem, obrigar a escolher. Obrigar a ver.
Mas os autores também têm filhos predilectos. Francesco, aquele inventado por Paola e apenas visível nas paredes de Roma, por entre os flashes dos fotógrafos, é mais livre que Francisco. Francisco corre e João Paulo Sousa só lhe desenha a estrada. Aquele a quem ele dá água é Francesco. Claro que poderíamos dizer que este Francisco, quando estendido a Francesco, – de Francesco, diria, se quiséssemos ver Jekyll e Hyde nesta vertigoniana aventura, ser Hyde, naturalmente, o alter‑ego ficcionado de Francisco, apenas existente na vida de Paola, amante e, em si mesmo, a ficção dentro da ficção. É consciente esta escolha e o autor usa a Ilíada para explicar porquê. É que, na sua insistência na descrição, na sua consciente atenção ao detalhe da acção, o autor, tal como Homero ao descrever o escudo de Aquiles, permite que um objecto – no caso uma pessoa – cuja realidade é estritamente verbal se nos imponha como uma representação visual.
Francesco não existe, acho eu. Tal como não existe Paola, nem Álvaro, nem Laura, nem o avô, parece-me. Existe uma ficção dentro da ficção, hiper‑detalhada como só os mentirosos se preocupam em criar. Francisco está, provavelmente, a segurar a carta, a madalena, a olhar para os espaços em branco daquela folha áspera, a pensar o que vai fazer quando entrar em casa. E tudo isto não passa afinal, de um desejo de que o mundo seja feito à medida do que ele pode controlar. Nenhuma das personagens que habitaram a sua vida lhe serviram para a sua história. Quiseram sempre ter liberdade. E é então que Francisco lê no Francesco de Paola a oportunidade de redesenhar a sua vida. E de, finalmente, transformar o seu mundo em algo sólido.

sexta-feira, julho 03, 2009
Ontem, em Gaia, debateu-se Portugal e Galiza
Depois de uma sessão à porta fechada com vários autores galegos e portugueses e respondendo a uma convite do infatigável António Costa, fui ao debate público das conclusões sobre as relações culturais entre Portugal e a Galiza no âmbito de Gaia, Capital do Eixo Atlântico 2009. Estavam lá o Xavier Queipo e o Xavier Alcalá (como foi bom revê-los), María Canosa, Fernando Pinto do Amaral, Manuel Jorge Marmelo, João Paulo Sousa, valter hugo mãe, Rui Costa e Barreto Guimarães que ficaram para o jantar. Talvez seja assim que a relação entre estas duas regiões se fortaleça, mas temo que haja muito mais para andar e, principalmente, andar de outra maneira... não fosse o artigo de Rui Tavares sobre o arquipélago de cidades, do Público de anteontem, um dos temas mais focados na sessão pública. O eixo Lisboa, Porto, Vigo, Corunha vale muito mais do que se pensa no enquadramento de arquipélagos de cidades da Europa inteira. Pelo menos, vale mais do que Madrid. Coisa que não sabíamos de todo.terça-feira, junho 30, 2009
Como se isto fosse uma crítica - Sobre António Guerreiro e O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa. Paula Cruz
O Eclipse, de Antonioni, 1962A sequência final de O eclipse (1962), de Antonioni é notável: vazio, a impossibilidade, a incerteza, o desconforto. Sete minutos sem o agasalho da ficção, sete minutos de agoiro. Porém, esta sequência final, não foi bem entendida por todos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o filme foi exibido várias vezes sem estes últimos sete minutos, que eram tidos um excesso, nada acrescentavam. Às vezes, com a melhor das intenções, cometem-se grandes injustiças.
A resenha a O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa, no semanário Expresso de 27 de Junho, é um destes casos. A lucidez autocrítica, a tal que sinaliza a entrada em zona vermelha, falhou ao crítico que não conseguiu gerir a frustração de ver o seu horizonte de expectativas quebrado. Isto só costuma acontecer aos leitores menos avisados.
Começa, António Guerreiro por referir que a forma compacta do texto, cria a expectativa de “uma sintaxe em explosão que não se conforma às tradicionais convenções narrativas”.
Não entendemos o motivo que levou A.G. a prever uma explosão sintáctica. A forma compacta do texto – o bloco monolítico de palavras, sem suspensões, sem paragens, sem cortes - deixa adivinhar, desde o início, uma procura de contenção. A explosão – a existir – será no conteúdo, nunca na forma.
Em O Mundo Sólido não há (nem tal fazia sentido) caprichos sintácticos ou frenesis semânticos, mas uma obsidiante demanda de coerência entre a forma - sem parágrafos, sem capítulos – e o valor que cataforicamente o título projecta. A imagem da capa, o título e a mancha gráfica formam assim um todo consequente. Não é um “efeito gratuito”. Gratuita ( leia-se: infundada) é a adjectivação usada por A.G. para se referir a O Mundo Sólido.
A.G. refere-se, ainda, ao facto de O Mundo Sólido seguir as “regras da pura linearidade narrativa.” Passando a redundância, essa sim gratuita, da referência à “pura linearidade” (como é a linearidade impura? E a pura não-linearidade?), fixemo-nos na questão da linearidade narrativa. Com efeito, O Mundo Sólido não é, nem procura ser, uma narrativa fragmentária ou polifónica, mas, como o próprio A.G. reconhece, num outro ponto do seu texto, também não é puramente linear, uma vez que a memória desordeira de Francisco vai desarticulando o passado e o vai sobrepondo fantasmaticamente a outros episódios da sua existência. A sobreposição de planos do passado no presente e do presente no passado é, aliás, umas marcas deste romance. Um romance constantemente redescrito pelo tempo.
Quanto aos “protocolos da narrativa exageradamente explicativa” estes estão em consonância com a tentativa vã de Francisco de (re)construir um mundo sólido. As explicações, as reformulações são usadas pelo narrador não para dar conta do real, mas para descodificar a sua matriz relacional. Francisco não relata a realidade: procura criá-la. É esta a diferença entre a autoria experiencial e a autoria narrativa.
A.G. considera, ainda, que “a redundância e a artificialidade” triunfam devido à “imoderada repetição do «como se»”. Nada a opor. O discurso é artificial, porque é uma construção, ou melhor reconstrução da memória. É redundante, porque só esse caminho, nos permite, por sucessivas reformulações aceder a “alguma” verdade não factual.
Lamentamos, porém, corrigir A.G., uma vez que este falhou na contagem do “como se”. Diz Guerreiro que “só nas primeiras doze páginas podemos encontrar 19 vezes “como se””. Ora, iniciando-se o romance inicia-se na pg. 7, em rigor, nas primeiras 12 páginas , encontramos a expessão “como se” 21 vezes. Mais, acrescentamos: na totalidade da obra, “como se” surge 83 vezes.
Aquilo a que A.G: chama de “tique”, outros, menos avisados, seguramente, chamam simplesmente de repetição que funciona aqui como um expressivo dispositivo linguístico.
A repetição de fórmulas é uma estratégia narrativa, fortemente ancorada na oralidade, que procura criar uma cadência, além de, assim, contribuir para a coesão e organização discursiva e de promover a coerência textual. A.G. tem, legitimamente, um outro entendimento: vê aqui um “eco ruidoso que coloca o leitor à distância, porque este passa a ver no texto manifestações incontroladas de tiques de escrita”, estamos em crer que esta preocupação com o leitor é fruto de uma excessiva e maternal preocupação. Podemos, com firme convicção, afiançar a A.G. que não há perigo algum para o leitor. Onde uns pressentem ruído e dissonância, outros ouvem música.
Mas, se a metodologia da contagem de ocorrências é a eleita para aferir do valor do texto, juntamos as seguintes informações, que nos parecem ser de alguma utilidade:
O artigo definido “a” surge pelo menos 2005 vezes; a preposição “de” surge 1897 vezes e o “que” comparece no texto 1999 vezes. Um dado inquietante.
A morte e a vida estão em relação de quase equilíbrio (morte 27 vezes, vida 26 vezes), mas fala-se 11 vezes de viver e uma só em morrer.
A palavra amor nunca é referida, mas o medo ronda o texto (34 vezes).
Há mais “sempres” que “nuncas” : sempre 62 vezes, nunca 76 vezes.
Ela está mais do que ele (ela 178 vezes, ele 110).
Nenhum “sim”, mas 570 ocorrências do não.
Quanto à família: o pai é referido 93 vezes, o avô 82 vezes, o filho 48 vezes, a avó 39 vezes e a mãe, apenas, 18 vezes.
Janta-se mais do que se almoça (29 jantares e 11 almoços);
A estas palavras ( já agora, palavras 77 vezes), juntemos 15 ocorrências de “sorriso”, 11 de “angústia”, 24 de “dor” e 18 de ”cansaço”.
Uma leitura feita a partir desta informação, parece-nos para empregar termos caros a A. G., indigente e linear e, quiçá, de “falsa profundidade”, mas não duvidamos da eficácia operacional da metodologia.
Uma última nota, A.G. fala em “banalidade desconcertante”, para se referir à forma como o narrador se refere à paternidade. Se é desconcertante, já não é banal, mas não nos parece “banal” a ideia que desde a Ilíada, desde os alvores da literatura, a dor é presença obrigatória na relação com um filho. Nunca se fala em amor.
Para concluir, de forma não linear, recuperamos o início. O eclipse termina com uma longa sequência de espaços vazios. Alguns perceberam a ironia, o paradoxo, o desencanto, porém, para outros este final aproximar-se-á perigosamente dos lugares comuns “em versão mais culta.”
(P.S.: reparo, agora, que a coluna de A.G. também é compacta, deveríamos esperar uma “sintaxe em explosão”?)
domingo, junho 28, 2009
Sobre O Mundo Sólido de João Paulo Sousa. Paula Cruz
Eclipse de Antonioni, 1962Giordano Bruno desafia O Mundo Sólido. É uma presença irónica, pois conhece, à partida, a impossibilidade desse mesmo mundo uno, denso, consistente. O artigo (bem) definido no título da obra - O Mundo Sólido- determina a tentativa da completude: não se trata de “um” qualquer mundo entre mundos, mas de “o” mundo.
Giordano Bruno, Francisco e seu pai estão ligados não apenas por um acidente temporal - 52 anos – mas pela incomunicabilidade. Pela impossibilidade de comunicar, de dizer de si.
Neste sentido, o romance de João Paulo Sousa não é apenas uma obra do hoje, pelo contrário, reflecte uma problemática comum àqueles que se pensam desde sempre. A isto se chama angústia: “a ansiedade sente-se como a angústia se pensa. Mais do que um fenómeno da sensibilidade diria que a angústia é um fenómeno mental, ainda que a sensibilidade nela, enfim, se reconheça” (Ferreira, 1987: 60)
Os silêncios que encontramos em O Mundo Sólido são angustiados, dolorosos, , asfixiantes. Os exemplos abundam: “ violência silenciosa” (pg.7), “aquele silêncio começara a incomodá-la” (pg. 12), “aquele silêncio, decerto em consequência da intensidade com que eu tinha recebido as palavras da Paola, adquirira espessura e transformara-se em mutismo.” (pg.15), “ouvi-a de novo em silêncio e senti-me tão mal” (pg.18), “silêncio feroz”.(pg. 36), “envolto num silêncio que me separava do mundo” (pg 55), “Os silêncios em que ela se fechava “(pg. 89 ), “O silêncio em que me fechara transformou-se depressa num exílio interior” (pg. 91), “silêncio mútuo” (pg. 94 ). Há uma hiper-consciência do silêncio que se reflecte numa percepção exacerbada dos mecanismos do corpo: as palpitações, as tonturas, a vertigem, o desmaio, a respiração descontrolada, o medo.
Os silêncios de O Mundo Sólido não são apaziguadores: são fruto de uma contenção consciente, de um pudor excessivo, de um medo de intimidade. O respeito pelo espaço do outro é tanto, que Francisco vai morrendo enclausurado dentro de si:
“Cada minuto que passava valia mais dentro do tempo que faltava para nos separarmos, e a consciência desse facto constituía-se, para mim, na razão de uma dor crescente, em resultado da dificuldade, que eu sentia como cada vez maior, de romper o silêncio e pedir à Paola que não me deixasse, que nunca me abandonasse.” (pg. 127)
Numa modernidade líquida (cf. Bauman), Francisco, o narrador, procura solidez e encontra solidão acompanhada. Ironia: Francisco é arquitecto: desenha mundos.
O texto de João Paulo Sousa é, na forma, sólido. Não há parágrafos, não há capítulos … eppur si muove. Move-se , sem que Francisco faça muito por isso:
“A morte da minha mulher, ocorrida tão pouco tempo depois do reconhecimento clínico da sua doença, libertou-me do cerco em que eu me deixara encerrar e deu-me a possibilidade de respirar de novo a plenos pulmões, como é costume dizer-se, o que, no entanto, demorei algum tempo a conseguir fazer, em virtude da falta de hábito.” (pg.30)
“deixei que ela me conduzisse até ao único quarto, me deitasse sobre a cama e me resguardasse com um cobertor” (pg.38)
As circunstâncias empurram-no e ele acomoda-se a elas, sem em nenhum momento desenhar sequer revolta (mesmo na relação com o filho, prefere a hipocrisia à ruptura: “não fui capaz de ir tão longe, não fui capaz de ser totalmente consequente,o que acabou por constituir a minha derrota” (pg. 94)).
O mais importante é a procura de um centro, de uma memória sólida que sirva de âncora à sua existência. Mas a memória traí, faz-se presente quando não deve, sobrepõe-se ao quotidiano, interfere. A memória não é matéria moldável: “e não sabia ainda que a memória é uma arca com muitas fendas, por onde não se cansa de expelir o que julgávamos arrumado em definitivo.” (pg.67). Apesar do desencanto, há a nostalgia de uma realidade sólida, unitária, estável (cf. Vattimo), uma nostalgia que “corre o risco de se transformar continuamente numa atitude neurótica, no esforço de reconstruir o mundo da nossa infância, onde as autoridades familiares eram ao mesmo tempo ameaçadoras e tranquilizadoras.” (Vattimo, 1992:14). Mas o passado também não é sólido.
Diz Bauman, na senda de Luhman que “para o indivíduo contemporâneo, o ego torna-se o lugar e o foco de toda a experiência interior, enquanto o ambiente, dividido em fragmentos com pouca conexão entre si, perde muito dos seus contornos e da sua autoridade definidora de significados” (pg. 105). Porém, nem entregue a si próprio o indivíduo tem a tarefa facilitada: “o eu é sobrecarregado com a tarefa impossível de reconstruir a identidade perdida do mundo; ou mais modestamente, com a tarefa de sustentar a produção da sua identidade” (106). Francisco tem muita dificuldade em encontrar o seu lugar: a cidade ideal não existe; a memória é um fantasma; o filho um “suplemento perturbador” (cf. Zizek); Paola não precisa dele. Tudo em Francisco é deslocamento e desconforto.
Talvez na sequência final de O Eclipse de Antonioni encontremos um eco justo do desolamento, da impossibilidade, da incapacidade, do desespero mudo que se abate sobre o protagonista de O Mundo Sólido.
Bauman, Zygmunt, (trad. Marcos Penchel), Modernidade e ambivalência, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2007.
FERREIRA, Vergílio, Espaço do Invisível IV, Lisboa, Bertrand Editora, 1987.
FERREIRA, Vergílio, Invocação ao meu corpo, Lisboa, Bertrand Editora, 1994.
Vattimo, Gianni, (Trad. Hoissein Shooja), A sociedade transparente, , Lisboa, Relógio d' Água, 1992.
Zizek, Slavoj, As Metástases do Gozo - Seis Ensaios sobre a Mulher e a Causalidade, Lisboa, Relógio d' Água, 2006.
António Guerreiro e O Expresso
Não concordamos com uma só linha do que escreveu ontem, na edição do Expresso (Revista Actual), António Guerreiro sobre O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa. Trata-se de um excelente romance nada «linear», nada «explicativo», que não «explode» sintacticamente porque não tem de o fazer, que não tem parágrafos porque a visão e a descrição de um mundo sólido assim obriga... mas editores são editores. Não criticam críticos. Mas opinamos que se trata dos melhores romances que já lemos. O futuro vai dar-nos razão e o espaço deste blogue vai estar aberto a novas críticas deste romance. A partir de hoje.




















