quinta-feira, julho 26, 2007

Dorregarai - A Casa-Torre, de Anjel Rekalde (extracto do I Capítulo).

Capa de Gémeo Luís
DORREGARAI
A casa-torre
Capítulo I (extracto)

Primeira Parte
1834-1839
A primeira vez que Joaquim Garaiar saiu dos limites da aldeia montanhosa em que tinha nascido foi quando se alistou como voluntário nas forças do pretendente D. Carlos. Sem avisar os seus pais, combinou com outros quatro jovens da região. Marcaram um encontro para a meia-noite junto ao velho carvalho que assinalava o final da praça que se estendia em frente da pequena igreja da aldeia, e dali tomaram um carreiro pelo monte, longe do caminho real, para irem ao encontro da guerrilha comandada por Tomás Zumalakarregi.
Os cinco rapazes saíram praticamente só com o que tinham em cima. Levavam pouca roupa e alguma comida para a viagem e uma inquietação que parecia sair-lhes pelo colarinho da camisa a julgar pela forma com que puxavam por ele com os dedos nervosos.
Da copa do carvalho uma coruja de plumagem esbranquiçada observava-os enquanto caçava.
A revolta dos bascos tinha-se iniciado poucos meses antes. O descontentamento da população tinha-se juntado às intrigas palacianas e ao dos oficiais afectos a D. Carlos V de tal maneira que a detenção e o fuzilamento do general Santos Ladrón de Cegama tinha provocado uma reacção que terminou numa mobilização geral. Os insurrectos ocuparam, em primeiro lugar, as praças de Vitória e de Bilbau assim como numerosos municípios mais pequenos, onde se apoderaram das armas depositadas, encomendadas para a criação de milícias do país para o caso de uma invasão estrangeira.
No território basco peninsular não havia exército nem os seus habitantes estavam sujeitos ao serviço militar. O alistamento em caso de guerra externa era geral, pai por filho. Da mesma forma, os batalhões de terços desmobilizavam-se, depois de terminado o confronto, para voltar aos seus trabalhos habituais.
Com essas armas armazenadas, relíquias de antigas batalhas, ergueu-se o movimento carlista. Eram apenas baionetas, sabres e algumas espingardas de percussão danificadas sem munição.
O governo liberal de Madrid, afecto à rainha regente Cristina, opôs-se a este levantamento e, à falta de efectivos militares próprios das províncias insurrectas, enviou o exército de Portugal sob o comando do general Sarsfield. A soldadesca espanhola entrou no país basco como um touro numa louçaria, esmagando e destruindo tudo à sua passagem. Em menos de uma semana tomou as cidades de Bilbau e de Vitória e expulsou os rebeldes para a montanha.
Zumalakarregi reuniu as forças dispersas e organizou-as em batalhões móveis, ligeiros, capazes de evoluir e manobrar com rapidez. Os comandos e os grupos de guerrilhas, expulsos das províncias ocidentais, agruparam-se em Navarra e constituíram um novo exército no qual a falta de recursos militares era compensada pela audácia e pela surpresa das acções. O êxito face a Sarsfield propagou-se pelos vales como uma epopeia lendária e, tal como noutros tempos, face aos invasores franceses, a população juntou-se às milícias resistentes.
Joaquim Garaiar saiu ao caminho atrás de José Maria Arbelaiz. Alguns anos antes este tinha abandonado a aldeia para entrar para um convento de frades. Em crianças tinham sido amigos, mas desde que se tinha ido embora não o voltara a ver até que, dias atrás, quando Joaquim voltava do trabalho no bosque, ouviu um rastolhar que nascia por debaixo de uns tojos.
Aproximou-se para ver. Escondido, por detrás do matagal, estava o frade que o afastou com enérgico gesto com a mão.
— Fora! Vai-te embora! Que ninguém te veja a falar comigo!
Joaquim parou desconcertado no meio do carreiro.
— O que se passa?
— Tens de me ajudar. Foram ao mosteiro, revistaram-no à procura de armas e escapei por milagre por uma janela no telhado.
— O que aconteceu? O que é que queres?
— Agora, não te posso dizer. Pode passar alguém. Vem à noite, traz-me qualquer coisa para comer e falaremos.
Com o luar, quando a família foi dormir no fim do dia, Joaquim escapou-se do seu quarto em silêncio, com o coração a palpitar de impaciência e os bolsos cheios de broa de milho e algumas tiras de carne da matança que tinha retirado da despensa. Chegou ao local onde tinha deixado o seu amigo e assobiou com precaução na escuridão. Ao fim de alguns instantes ouviu uns passos nas suas costas, na direcção contrária à que pressupunha estar o monge escondido. O seu medo foi tal ao sentir-se apanhado que esteve prestes a desatar a correr pelo monte, ladeira abaixo.
— Calma, sou eu.
— Que susto! Não te esperava desse lado. Pensei que alguém me tinha seguido.
— Ninguém veio atrás de ti. Estava a vigiar e tomei as minhas precauções.
O perseguido comeu as provisões com fome de lobo. Joaquim ouvia-o comer e engolir quase sem mastigar. Não podia ver o seu rosto no escuro, mas sem saber por quê, imaginou-o abatido.
— Porque não foste até à tua casa, onde está a tua família?
— Era muito perigoso. Estão perto de Oleta e da estrada. É possível que estejam à espera para me prenderem.
José Maria Arbelaiz era religioso por obrigação. O irmão mais velho tomaria conta da fazenda familiar e para o segundo não havia sítio no casario. D. Pedro, o pároco que os visitava regularmente e comia uma vez por semana nas cozinhas melhor fornecidas da freguesia, procurou uma colocação e encontrou-lhe um lugar no velho convento dos monges.
José Maria ali entrou para se instruir e adaptar-se à vida da ordem. Ali foi apanhado pelas perseguições da autoridade liberal, pelos ataques ao património da Igreja e pela falta de cobrança das rendas eclesiásticas devido à pobreza da população.
Como outros frades envolveu-se, em seguida, nas teias da insurreição. Andou no contrabando de armas, na espionagem e na vigilância das forças inimigas. Viajou como correio devido ao seu conhecimento dos carreiros do gado impossíveis de controlar pelo exército, e rapidamente entrou para as listas de mandados de captura dos guardas da província.
Era um jovem vivaço. Diziam dele que tinha um duende sob a pele que o mantinha sempre acordado. Qualquer sobressalto fazia-o correr antes de olhar e voltava a cabeça de imediato para ver o que se passava atrás de si, como se receasse uma punhalada imprevista ou o aparecimento de um inimigo. Esta ansiedade tinha-o livrado de ser presa dos soldados. Quando lia uns avisos, retirado na sua cela, sentiu os primeiros passos de botas nos silenciosos corredores do mosteiro. Intuiu que era a tropa que o procurava e escapou-se pela clarabóia no telhado.
Com a boca ainda cheia de broa de milho contou ao seu amigo Joaquim.
— Um soldado velho espreitou e apontou a espingarda pela janela por onde eu tinha fugido. Chegou a disparar, sem pontaria, pois não me apanhou. Atirei-lhe com uma telha, a que escapou por milagre e ninguém mais apareceu para me perseguir.
Falavam em sussurro, com medo, conscientes de que a noite propaga as palavras à distância. No entanto, estavam encobertos pela natureza adormecida, os grilos incansáveis, a passagem da brisa entre as árvores e os ruídos inquietantes dos caçadores da escuridão. (...)

Tradução de Francisco Marques
Obra a sair em Agosto
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