segunda-feira, agosto 31, 2020

«Epítome de Pecados e Tentações», de Mário de Carvalho

Epítome de pecados e tentações - Livro - WOOK

Há poucos escritores assim. E talvez não erre se disser que Mário de Carvalho será o único escritor que conhece como ninguém a nossa classe média criada com Cavaco Silva lá pelos anos 80, da Bolsa e toda caganças, possuidores de Jaguares, Rolex, plenos de Joana Vasconcelos e José Rodrigues dos Santos, visto que também são dados às artes. Elas são mais cultas e sensíveis que eles, mas também cruéis, estilo «não estar apaixonada mais de 12 horas seguidas». E será necessário ter acompanhado a escrita dele para notar o seu poder de síntese e de observação que, em poucas linhas, nos leva a perceber as características físicas e psicológicas das personagens. A arte do conto não é fácil de fazer, suponho, mas, quando é conseguida, lê-se com um interesse crescente. Foi o que aconteceu comigo: comecei a ler «Epítome de Pecados e Tentações» ainda na livraria e acabei-o no mesmo dia em casa. Como as mulheres que povoam os contos a engatar homens desajeitados, machos latinos, imberbes ou hesitantes. Foi tiro e queda! Quem, senão Mário de Carvalho, pode escrever assim uma cena de amor «(…)O ror de tempo que ele demorava, festas, festinhas, mais aqui, mais além, agora o do lado direito, agora o do lado esquerdo, depois os dois, agora mais abaixo…Não era inteiramente desagradável, mas vinha muito cheio de lances, confusões e cócegas. O meu homem do matrimónio avia esta coisa despachadamente, em força, acima, a fundo, mas este era todo de caganifâncias. Chupava, soprava, lambia, intrometia mão, nariz, dedos… Fazia-me impressão. Tive que lhe dar um par de sapatadas. Se era para entrar, que entrasse como Deus manda, usando o meio competente, eu esperava e consentia. Agora atravessamentos pianistas… era só sentir corpos estranhos onde não deviam estar. Fazia-me impressão. Arredei-lhe a mão, com força. E ele a dar-lhe. Nova berlaitada minha.(…)» e as sapatadas continuam pelo livro todo em cima de homens cheios de convicção, mas algo rebaixados com as mulheres de iniciativa confirmada. O que os deixa­ em baixo.

Mas voltemos à burguesia tão cara à observação atenta de Mário de Carvalho. Notem esta introdução à caracterização de um certo auditor, uma personagem ímpar do livro: «Descendente de campónios, aquela sagacidade instalada, a inteligência de lidar com a diversidade, o domínio sereno das nomenclaturas, a compreensão dos modismos, o complexo lastro casuístico causavam nos colegas uma interrogação atónita. Eles, ao fim e ao cabo, eram filhos de pequeno-burgueses urbanos, não sabiam o nome dum pássaro, dum insecto, duma árvore, mas tinham sido acostumados, desde muito novos, a dares e tomares, com as camadas sociais intermédias. Palavras, gestos, atitudes, pausas.» O mote e o ambiente estão dados e a entrada triunfal do auditor acontece agora perante a submissão do resto dos colegas. Agora o homem poderá falar da mulher como «minha esposa» e usar advérbios como «tocantemente» e «talqualmente». Digam-me que nunca viram pessoas assim. Eu, pela minha parte, encontro-os quase todos os dias. São uma chusma de gente em cada repartição, instituição ou acomodação política.

Um livro a ler com a urgência necessária, mesmo que para isso tenhamos de nos interrogar a cada linha: «’pera aí! Eu já fiz isto?», «mas este sou eu?», ou pior um pouco «já tratei alguém por você? Alguém me tratou por você?». É que eu sou doutor. Se possível com um largo e complexo lastro casuístico! Impagável, este livro.

António Luís Catarino

Coimbra, 31 de Agosto de 2020

«O Vermelho e o Negro», de Stendhal

 Vanina Vanini (racconto) - Wikipedia

Houve quem dissesse que «O Vermelho e o Negro», de Stendhal, era uma história da luta de classes… mas ao contrário! Embora não saiba já quem o disse, a verdade é essa. Julien Sorel é um sacana, aliás, mais que um sacana. Um verdadeiro filho da mãe que não a nomeia sequer uma única vez em todo o romance. Só o ódio pelo pai, carpinteiro, e pelos dois irmãos que não suportavam o ar pedante do herói de Stendhal. Conseguimos mesmo embirrar com a hipocrisia e o ar angélico de quem estudou pelos jesuítas no seminário e se preparava para ser padre, ou talvez bispo. Julien subiu todos os degraus da escala social da época francesa da Restauração aristocrática iniciada em 1830. Embora devoto de Deus e de Napoleão, nunca mostrou publicamente a admiração deste último, porque isso o poderia embaraçar. Inteligente, mas pouco culto, sabia somente os Evangelhos de cor e em latim o que fazia com a burguesia e aristocracia abrissem, com espanto e denodo, as suas bocas em jantares e salões que frequentava. Depois de amar Madame de Rênal, cujo marido serve de trampolim social a Sorel, vai para casa do Marquês de Mole que lhe abre as portas da nobreza lembrando-lhe sempre a sua pobre ascendência pequeno-burguesa. Julien não se verga continuando a mostrar-se bastante adestrado para a casa De Mole, enquanto lhe seduz a filha, Matilde, que engravida. A sua «carreira», de um extremo calculismo, sofre um abalo fatal e o fim do livro é pungente do romantismo mais exacerbado, mesmo que Stendhal seja conotado com o início do realismo: tenta matar a senhora Rênal a tiro e após a sua mulher tentar corromper o júri do tribunal, após várias tramas políticas, Julien é condenado à morte pela guilhotina, o que acontece. A sua cabeça é colocada literalmente no colo de Madame Rênal!

No fundo, a aristocracia triunfa sobre a burguesia, mas «O Vermelho e o Negro» traduz bem a luta por vezes surda, outras, completamente aberta, entre as várias personagens pertencentes às classes sociais opostas. O medo da revolução ou da revolta das classes subalternas, ou seja, o medo de 1789 ou, mais concretamente, do «Terror» de 1793, está sempre presente em todo o romance e as decisões são tomadas tendo em conta o domínio político e social da aristocracia após a época imperial. Marquês de Mole, numa reunião política secreta em que Julien a secretaria, chega a afirmar que se o projecto aristocrático falhar depois de 1830, a Europa só conhecerá repúblicas e os castelos e igrejas serão pilhados sem piedade. Ainda faltava algum tempo até 1848 e 1870!

Stendhal foi um soldado de Napoleão e, como tal, esteve na Itália em serviço militar. Observador, sabia do que falava e não esconde a sua simpatia por Napoleão, mas é igualmente explícita a sua antipatia quer pela aristocracia, quer pela burguesia, que lhe chama balofa e ávida de subir socialmente, seja a que preço for. Entra aqui Julien que é bem o retrato desta mesma classe e que paga com a sua vida esse propósito.

Mas o autor de «O Vermelho e o Negro» é clarividente: a burguesia substituirá, pela paz ou pela força e pela violência, o que nunca se saberá, a ridícula nobreza já mais morta que viva, praticamente dizimada entre 1789 e 93, alvo de expropriações, conhecedora de dificuldades nunca antes sentidas na emigração, endividada e sempre aberta a receber prebendas dos governos, tentando aumentar os impostos e direitos sobre o povo, que odeia. O que é retribuído por este, aliás. O ressentimento existe em cada página do livro. O ódio que alimenta Julien contra toda a nobreza que o recebe em casa e que lhe dá a perspectiva de ascensão social é disso testemunho. Mas a nobreza sabe que poderá perder a sua prevalência política e social e, para a evitar, nada melhor do que imitar o liberalismo, seu inimigo, criando condições para eleições, jogando o jogo da política e comprando apaniguados, apoiando-se na igreja e no exército. De Mole, opõe-se a um golpe de estado para restabelecer um governo mais radical que poderia fazer entrar em guerra a França contra a Áustria e a Prússia ou mesmo contra a Inglaterra. Para quê criar um exército de leais ao absolutismo se depois de morrerem os soldados, vinham outros e outros, acabando o exército de ser composto, se isso acontecer, por camponeses? É este o terror da nobreza; que as armas se virem contra ela. Lutar contra a revolução, substituindo 1789? Não seria possível. Aqui está a clarividência de Stendhal e uma lembrança do absolutista De Maistre: «lutar contra a Revolução é o mesmo que tentar engarrafar o lago de Genebra e colocá-lo numa adega!»

António Luís Catarino

Coimbra 31 de Agosto de 2020

quinta-feira, agosto 27, 2020

«O Ouriço e a Raposa», de Isaiah Berlin

 O Ouriço e a Raposa”: o livro mais importante de Isaiah Berlin é publicado  pela primeira vez em Portugal – Comunidade Cultura e Arte

Era uma vez um ouriço e uma raposa... este ensaio de Isaiah Berlin poderia iniciar-se assim mesmo, que não levaríamos a mal. Poderia tomar a forma de uma fábula, mas não é disso que se trata. É uma adaptação de versos de Arquíloco quando este afirma «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Quereis ser raposa ou ouriço? Aqueles que veem o mundo através de um princípio organizador único serão um ouriço. Raposas serão os que interpretam o mundo através de várias pontas e vários prismas. I.B. dá então um exemplo: como raposas estão inseridos Dante, Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce; ouriços, embora em graus diferentes, são Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust.

Para um liberal como Isaiah Berlin esta preocupação de catalogar personalidades tão ricas, de ambos os lados, não deixa de nos espantar e mesmo preocupar, pensando nós que esta necessidade de compartimentação intelectual, não se sabe bem porquê, pertenceria eventualmente à esquerda, traduzida do «gauche»  francês por canhestro, desajeitado, do italiano «sinistra», belíssimo termo que nos transporta a uma entidade suspeita de muitos males e a portuguesa «esquerda», esquerda que, até meados do século XX, ainda era conotada com o diabo, razão pela qual os canhotos eram obrigados na escola a corrigirem, por vezes à pancada, a mania estúpida de escrever sem ser com a mão direita! E, já agora, Lenine para quem o esquerdismo era uma doença infantil do comunismo, tipo sarampo ou escarlatina.

Mais nos admiramos com a prelecção de Berlin, considerada pelo The Guardian como o 28º melhor ensaio de todos os tempos (nada meigos!), quando este se debruça sobre o «Guerra e Paz» de Tolstói e sobre o autor, ele-mesmo. Tolstói não figura, se repararem naqueles rótulos, como raposa ou ouriço. Isaiah Berlin coloca-o num limbo afirmando que Tolstói era um ouriço que queria ser raposa, devido à sua visão unitária do mundo, mas com dúvidas imensas que o levavam a analisar tudo sob várias perspectivas. Até se compreende mas, ao afirmar que Stendhal era a «dívida» de toda a obra de Tolstói o que ele teria corroborado numa entrevista, porque não o colocou aquele como raposa? Mas a surpresa maior é que esta alocução, que teve vários títulos diferentes, críticas a rodos e contrariedades várias, e que nos apercebemos nesta edição, tem o sub-título de «Ensaio sobre a visão da História de Tolstói» e aqui, com a devida proporção, surgem tantas dúvidas quantas as que teve Tolstói durante toda a sua vida! Como se pode afirmar o positivismo de Tolstói no epílogo de «Guerra e Paz» que, como nos lembramos, é dedicada às questões históricas? Ora, como sabemos, o positivismo trouxe consigo algumas correcções necessárias às Ciências Humanas, mas limitou-se, em História, a uma descrição interminável de factos e acontecimentos datados, que teriam como protagonistas actores de vulto fossem eles somente reis, presidentes, ministros ou cabos de guerra. Quando lemos o epílogo da obra de Tolstói reparamos que nada disto é seguido optando este por descrever a História como uma sucessão de factos em que os agentes políticos ou militares nada mudam, nunca transformam nada de facto, julgando-se, ao mesmo tempo, donos do devir do mundo. Tolstói apresenta-nos a sucessão de acontecimentos históricos como sendo originados por forças ocultas, telúricas, criadas por uma mole imensa de vontades estranhas e que se conjugam aqui e ali numa forte torrente. Chega a desdenhar os grandes vultos do seu tempo, como Kotuzov, Napoleão, Alexandre, Catarina ou os Habsburgos que julgam poder mudar alguma coisa. Portanto, Tolstói positivista?

Há, contudo, outras afirmações que não são menos polémicas por parte de Isaiah Berlin. Já sabemos que ele era um liberal adverso de todos os totalitarismos. Se pensarmos que este ensaio foi escrito em 1953, oito anos após o derrube do nazi-fascismo em que os sentimentos antifascistas estavam muito vivos (mais do que hoje, diga-se), compreende-se que se possam ver teorias fascistas de um modo exacerbado, mas Tolstói precursor do fascismo indo buscar a Proudhon e a De Maistre as suas ideias não será um pouco demasiado? Mesmo que no fim de um capítulo do ensaio I.B. seja mais suave. Vejamos o que diz Berlin: «A analogia [com De Maistre] não pode, ainda assim, ser excessivamente vincada: é verdade que tanto Maistre e Tolstói atribuem a maior importância possível à guerra e ao conflito, mas Maistre, como Proudhon depois dele, exalta a guerra e declara-a misteriosa e divina, enquanto Tolstói a detesta e a considera, em princípio, explicável, desde que saibamos o suficiente acerca das muitas pequenas causas – o famoso «diferencial» da história. (...) A visão de Maistre é a de um mundo de criaturas selvagens que se atiram umas às outras sem dó nem piedade, matam por matar, coisa que vê como a condição normal de toda a vida animada. Tolstói está longe de tal terror, crime e sadismo, e não é, com a devida licença de Albert Sorel e Vogüé [estes verdadeiros arautos do fascismo moderno], em sentido nenhum, um místico: não receia questionar nada e acredita na existência de uma qualquer resposta simples – basta que não insistamos em torturar-nos a procurá-la em lugares estranhos e remotos quando ela está sempre à nossa frente.»

E as diferenças continuam por mais páginas a seguir a esta. Pergunta-se agora: de que vale levantar uma questão através de uma afirmação polémica, como exemplo «...seria Tolstói um seguidor de De Maistre [ou já agora de Bossuet] paladinos do absolutismo e seguidos por fascistas?», para depois passar o resto do ensaio (o 28º oitavo melhor de todos os tempos, repita-se!) a dizer o contrário e a sublinhar as diferenças? Será esta a verdadeira metodologia para um êxito ensaístico?

António Luís Catarino

Coimbra, 27 de Agosto de 2020

quarta-feira, agosto 19, 2020

«Guerra e Paz», de Lev Tolstói

 Tolstói: “O vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera ...

O que dizer após uma leitura de «Guerra e Paz»? Um manancial de dúvidas se sobrepõe no seu final. Não as dúvidas elaboradas por Lev Tolstói, muitas do domínio metafísico com que encerrou a sua vida, nem pelo seu estranho epílogo em que interroga sobre o papel da História no desenvolvimento dos acontecimentos humanos, mas tão só pelos papéis de André, Pedro e de Karataiev, ou de Natacha e de Maria. Por mais que se leia e tente interpretar aquelas personagens nunca chegaremos a entender o seu papel determinante no decorrer da saga. Creio que esse facto é o que faz um verdadeiro romance. Serão todos alter egos de Tolstói? Escreveram-se páginas infindáveis sobre «Guerra e Paz» e, não me atrevendo a qualquer análise pequena que seja, aquilo que me vem à cabeça é que Tolstói dividiu a sua existência atribulada e contraditória nestas personagens bem reais com sentimentos múltiplos e diversos em que já passámos na nossa vida. É isso que faz a utilidade e unidade de um romance, se bem podemos expressar-nos desta maneira. E as imagens que «Guerra e Paz» nos dá! Um imperador da Rússia, imberbe, rancoroso, quase imbecil e permeável que se mostra da varanda do seu palácio comendo uma bolacha, acenando, e, endeusado por uma multidão, entusiasma-se de tal modo que, pedindo um prato cheio, as atira ao povo! André, quando é ferido gravemente em Austerlitz, olhando para o céu e para os campos, abandona-se a uma grande calma e plenitude, amando naquele instante a humanidade e a natureza. Também a imagem de Napoleão fugindo de Kotuzov que nem o chega a atacar frontalmente, de uma Moscovo destruída deixando as suas tropas para trás com todos os sofrimentos possíveis e este marechal, como uma raposa sabida, que contra todos os arrivistas, segue a sua própria estratégia de desgaste do inimigo e confia na sua Mãe-Rússia que expulsa os soldados franceses como um corpo estranho se tratasse. E Pedro, conde ilegítimo, herdeiro de uma imensa fortuna da nobreza que por fastio e aborrecimento o seu pai lhe deixa, e que encontra a felicidade no despojamento material, espiritual e também no segundo casamento com a ingénua Natacha, enquanto se comove com a sua própria filantropia para com os miseráveis camponeses russos, dando-lhes escolas, hospitais e abolindo as corveias que quase o arruínam. Admira-se quando estes, habituados à escravidão, o não compreendem. Maria, esse miasma criado por um pai absoluto, teocrata, que humilha a sua fé e que só se liberta casando (por conveniência? Nunca o saberemos.) com um Rostov, da grande nobreza já endividada, no início do século XIX.

Este mosaico de personagens é de uma riqueza impressionante só ao alcance de alguns. Não sei se acreditam na genialidade, mas gostava de ver o caixote de lixo de Tolstói e ver o quanto teve de trabalhar para chegar a este apuramento narrativo. Juntamente com questões mais comezinhas como esta e que me poderão responder: a) quem era Madame de Souza que é citada numa festa nobre de um salão? b) porque aparece várias vezes o nome de Conde Tolstói ou Ostermann-Tolstói como sendo um importante membro do conselho superior militar do imperador, Alexandre I, quase cinquenta anos antes de «Guerra e Paz»? Será este um ascendente do escritor?

António Luís Catarino

Atalaia, 19 de Agosto de 2020.

segunda-feira, agosto 17, 2020

Ler um suicídio. Ver um suicídio.

Catedral de Notre-Dame | Suíça Turismo

 Vista do miradouro da Catedral de Lausanne

Ler a notícia de um suicídio é uma coisa. Ver um suicídio é outra. Bate-nos forte cá dentro. No dia 9 de Agosto, subíamos para a Catedral de Lausanne ao fim da tarde. Havia à frente da porta principal um promontório onde se poderia ver grande parte da cidade, o lago Léman e os Alpes já despedidos, devido às alterações climáticas, das suas neves perpétuas. Era o último dia que passávamos em Lausanne.

Saímos de casa pelas vinte. Poucos minutos depois a polícia barra-nos o caminho no passeio para peões. Achámos estranho porque víamos uma alteração de trânsito que nos pareceu um pequeno choque entre automóveis e uma moto. Mas isso era na via rápida, não no passeio. Na sequência da conversa com o polícia tentando perceber a razão de não podermos circular, vimos, então, o corpo de um homem que me pareceu de cerca de quarenta anos. Vestia calças castanhas e um pólo creme. Faziam-lhe a reanimação. Um transeunte disse-nos que se tratava de um suicídio. O homem tinha-se atirado de um viaduto de trinta metros de altura e encontrava-se logo atrás de um Audi e ladeado por uma moto. O automobilista e o «motard» estavam nitidamente alterados. A polícia interrogava as testemunhas. Teriam visto o corpo a cair? Certamente que sim. No viaduto, por cima de nós, a polícia também fechou o trânsito e falava com um grupo de adolescentes que viram o homem a saltar. Havia jovens de lágrimas nos olhos, outros que choravam abertamente, mesmo uma hora depois do que aconteceu e quando passávamos pelo viaduto que pensávamos então livre.

A reanimação continuava e convencemo-nos, à medida que descíamos da Catedral e ainda sob comoção, que todo aquele acto de reanimação era para descansar os transeuntes que paravam nas redondezas. Alguém poderia sobreviver a uma queda daquela altura? Fiquei, ficámos, transtornados com a vista do corpo inerte. Passou-me tudo pela cabeça; quem seria? Donde vinha, onde residia? Seria suíço, um migrante, um refugiado? Que levaria aquele homem a cometer um suicídio à vista de todos, sinal de profunda depressão e de raiva não contida? Aquele grito seria para nós? Terá sido por amor? Por desemprego ou por perder a casa? Gostaríamos de saber pelo menos o seu nome. Naquelas condições passa-nos tudo pela cabeça e ficamos prostrados, impotentes perante o corpo. Tentamos uma explicação o mais possível racional para o que acabámos de ver.

O que vimos foi um ponto final numa vida. Um homem pôs-lhe termo de uma forma brutal, dirigida a nós. Sem apelo, nem agravo. Não quis viver mais e nós nunca havemos de compreender isso, pensando que há sempre uma saída e mesmo que em certas situações, qualquer pessoa saudável, tenha pensado no seu próprio suicídio.

O poema cínico de Álvaro de Campos «Se te queres matar, por que não te queres matar?/ Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,/ Se ousasse matar-me, também me mataria.../Ah, se ousares, ousa! veio-me à memória quando olhei (...)» veio-me então à memória e fiz desfilar em mim alguns suicídios que marcaram, de uma forma indelével, os meus amigos que escolheram essa estrada da memória e da vida, pondo-lhe fim, de uma forma violentíssima. Dirigidos, provavelmente, aos que cá ficaram.

Aquela morte em Lausanne marcou-nos. Como seria esse o objectivo do homem que se suicidou. Uma pessoa não consegue esquecer.

António Luís Catarino

Atalaia, 17 de Agosto de 2020

terça-feira, julho 28, 2020

«Vida de Ramon», de sobrenome Llull, de Luísa Costa Gomes


Leyaonline - Vida de Ramon - GOMES, LUÍSA COSTA
«Vida de Ramon», de Luísa Costa Gomes

É um livro empolgante e de um rigor linguístico e histórico assinalável. Já há muito que deveria ter-me debruçado, nestas notas de leitura que faço para este blogue, por Luísa Costa Gomes como autora que leio desde sempre. Mas quis que o fizesse a este «Vida de Ramon». Luísa Costa Gomes leva-nos por mão amiga do leitor para os finais do século XIII e início do XIV, século este que veio a ser dos mais infames da História. Não só por causa da peste, mas também. E nunca saberemos, porque de comparação se trata, se o século XX não lhe ficou à frente em lástima. Adiante.

Já se vislumbra pela biografia do catalão Ramon Llull, mais profeta da Unidade do que filósofo, embora precisasse em pormenor, nos seus quase duzentos livros editados, o argumentário católico para a conversão de todos os infiéis à face da terra, principalmente a dos sarracenos, que não seria uma vida de curso fácil. Ficaremos na Ars Magna ou a Ars Generis em que apresenta a sua visão muito particular da maneira mais astuta de converter os maometanos. No fundo, fingindo ser um deles para melhor os ganhar para a fé católica, já envolta em graves conflitos internos. Não faltou quem discordasse da estratégia.

Ramon Llull nem sempre foi um fervoroso cristão e franciscano, embora a autora na laboriosa pesquisa que fez sobre ele não tenha a certeza que tenha aderido formalmente à fraternidade. São Francisco já teria morrido e os irmãos lutavam entre si pela continuidade entre espirituais e reformistas. Ganharam os primeiros e com uma regra bem longe do que queria o seu fundador e mais próxima até dos beneditinos. É poca em que os cátaros foram massacrados e o cisma era uma realidade já no cristianismo. A corrupção, o luxo e os pecados veniais, mais uns do que outros bem mortais, grassavam pela igreja.

Llull, à semelhança de Saulo e depois Paulo, Santo Agostinho, talvez Aquino e Francisco, teve uma vida considerada dissoluta e dada à trova e ao amor. Depois, também teve uma espécie de «estrada de Damasco» e aí vai ele, que viu Deus, ou o Senhor Cristo incarnado. Para o caso não interessa. Tornou-se um profeta dado à filosofia. Tanta pancada apanhou que a sua vida me lembra mais a do Cândido industriado por Pangloss do que propriamente a de um mártir. Não que a conversão do libertino fosse fácil. Escreve Luísa Costa Gomes: «A conversão de Ramon deu muito trabalho ao Nosso Senhor. Ou porque fosse avesso a toda a contrição e a toda a penitência, ou porque o Crucificado não fizesse acompanhar as suas aparições do necessário estado de graça, ou de exibições vistosas, o certo é que, como se diz na Vida Coetanea,[a vida de Llull, ditada por ele e atribuída a um monge: Vauvert] depois da visão terrífica, Ramon continuou a fazer a sua vida.»

Sendo maiorquino e convivendo de perto com mouros e sarracenos (para usar os termos mais utilizados por Llull), mais as iniquidades cristãs e as cruzadas, lutou, até ao fim da sua vida, pela unidade religiosa com um deus único e verdadeiro, visto que Alá era um falso deus, arregimentando hereges cristãos, maometanos, sufis, judeus e outros para o deus cristão. Para isso, uniria todo o mundo sob um único deus, através de uma única cruzada redentora e salvífica para com Jerusalém, tomando a Síria, a Arábia, a Palestina, a Pérsia e sei lá que mais, uma única ordem militar e um único livro, o dos Evangelhos e o dos antigos profetas. Constantinopla tornar-se-ia de novo católica! Aprendeu árabe através do ensinamento de um escravo que ele comprou e que queria ser livre a todo o transe (esta mania dos escravos!) e que atirava desesperado a roupa ao chão, clamando a sua condição de ‘Abd! Abd! Abd!’. Várias vezes preso e mal visto pelos papas e príncipes, aturavam-lhe os sonhos e os desvelos religiosos, foi espancado na Berbéria, metido nas latrinas de condenados meses a fio, arrancaram-lhe a longa barba e despiram-no amiúde, lapidado algumas vezes, naufragado, ele nunca soçobrou na sua fé e na sua escrita prolixa, também ela perpassada pela Unidade. Contra Averróis, principalmente mas não só. Pelo aristotelismo e pelos seus, cada vez mais numerosos, seguidores. A história deu-lhe razão: Averróis foi morto pelos radicais islâmicos, os Templários foram extintos e remetidos para a Ordem Hospitalária e a quinta e sexta cruzada uma realidade, triste é certo, mas que reuniu os príncipes e reis da altura. A unidade, enfim! Trecho de «Vida de Ramon»: «[Quando chegou a Viena]…Trazia proposições necessárias, ordenadas numa petição ao Concílio Geral para a conquista da Terra Santa: queria a instituição de colégios em Roma, Paris e Toledo, a fusão das ordens militares e que se reservasse uma parte dos rendimentos da Igreja ao empreendimento de uma cruzada universal; queria, no que dizia respeita à reforma dos costumes do clero, que fosse proibido de acumular prebendas, suprimisse as despesas ociosas, se vestisse com uniformidade e modéstia; queria o herói da luta antiaverroísta que o ensino da filosofia de Ibn-Ruchd e dos seus divulgadores e comentadores, que se tornara, entretanto, quase corrente na Faculdade das Artes, fosse inteiramente proibido.»

Podemos, aos olhos de hoje, achá-lo uma personagem fantástica, acusação que lhe fizeram os apóstolos da Razão, ele que queria fundir a Razão com Religião numa última tentativa de uniformização, mas não deixa de ser comovente a figura quixotesca que Luísa Costa Gomes nos traz pela sua mão e pela sua escrita notável.

Por alguma razão tenho-a lido. Por alguma razão tenho comigo o seu último livro. Mas não deixem de ler este «Vida de Ramon».

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de Julho de 2020

terça-feira, julho 21, 2020

«Eternidade», de Ferreira de Castro


LETRAS LUSAS: "Eternidade", de Ferreira de Castro - alma-lusa

«Eternidade», de Ferreira de Castro

Um tipo, quando tem 13 anos salta sobre um banco em direcção à estante dos pais e procura debalde um livro que lhe acalme as hormonas. Lá fica com Eça, Camilo, Brandão, Ferreira de Castro, Alves Redol, Soeiro, Gomes Ferreira. O Jorge Amado e Erico Veríssimo, também. Lê-os e esquece-os na voragem dos vinte e trinta na procura do novo que tudo ponha em causa e muito para «épater le bourgeois» que os há em cada família e não só. Por vezes, esquece-os e não volta a tocar neles. Agora, a memória reflexiva dos sessenta faz com eu regresse às leituras.

Pessoas há, e eu sou uma delas, que só dão conta das pérolas que lhes vêm às mãos muito depois. «Eternidade», de Ferreira de Castro é um exemplo desses. Nunca o tinha lido, embora existisse em casa dos meus pais, e adquiri-o num impulso porque o comecei a ler ainda na livraria. Logo que tirei a máscara e me desinfectei nunca mais o larguei. Por que razão não consigo ler de máscara ainda será um mistério que me assiste. Mas, num dia! Li-o num simples dia, coisa que não fazia há muito.

As personagens são românticas, como aliás é aí dito a certa altura. Ferreira de Castro não o é, e a estória muito menos. Não é realista ou neorrealista. Não cabe em rótulos. Um único que lhe cabe é que é extraordinário. Ou seja, muito para além do ordinário. Não é moralista ou decadentista. É cheio de vida. Contraditório e selvagem. Juvenal, engenheiro silvicultor é um homem apaixonado por uma mulher, Helena, que lhe morreu em Lisboa. Nunca percebemos se o seu amor é mesmo por ela se pela morte que a acompanha. Na viagem à sua cidade natal, o Funchal, vê-se enredado em desejos que passam por Renée, pelas putas de rua junto à Sé, por Elisabeth, casada com o industrial romeno e que se divorcia para o acompanhar para a deportação em Cabo Verde, na Ilha do Sal, castigo esse que abre a hipótese de um campo de concentração que, intuímos, se inaugurará mais tarde.

Estamos em 1933, ano da «legitimação» constitucional do Estado Novo e todas as oposições são possíveis ainda que de um modo gestacional. A ressaca da crise mundial de 1929 ainda se sente na queda das exportações e os preços e os salários sofrem baixas terríveis. A personagem principal vê-se envolto na burguesia salazarista madeirense de onde a família é oriunda e o contraste brutal de uma população que ainda permanece com os seus traços feudais, quer na situação de operários da indústria exportadora conserveira e vinícola que se apegam ainda às associações mutualistas (embora se manifestem já de bandeira vermelha), quer às bordadeiras (40 a 60 mil segundo o autor), ou aos camponeses das levadas que são explorados até à morte, mais que não seja pela tuberculose, loucura ou pela aguardente.

Juvenal muda de campo e adere aos mais pobres. Não lhe interessa viver assim. Adere através de uma manifestação de fome, violenta, em que se incendeiam algumas sedes de exportações de bordados. Pressente-se já a presença de comunistas organizados, doze anos depois da fundação do PCP. «Ser humano, só humano perante a dor infinita, era sentir-se complexo como um deus e insignificante como um grão de pó. Era ser tudo e ser nada – e sofrer, no seu egoísmo, a sensação de ser nada, nada, nada! Ninguém articulara ainda, entre tantos que sofreram o mesmo drama ao longo de milénios, a palavra consoladora. Ninguém! Ou se tinha uma utopia e se marchava agarrado a um velho bordão metafísico, ou a razão cambaleava por caminhos sem saída. E se a ansiedade duma certeza era maior, por chaga recente avivada, só se encontrava o silêncio universal e, entre a tribos, a submissão de quem se fatigara de tanto perscrutar». E Juvenal, pela caneta de Ferreira de Castro, coloca as culpas ao chicote salazarista e ao medo que a Igreja impõe às populações.

A eternidade aqui conta-se por milénios. Ferreira de Castro coloca Juvenal numa redoma de dúvida perante a capacidade do Homem em regenerar-se, em criar uma sociedade igualitária. Pelo menos em vida dele. E torna-o triste, cabisbaixo, quase desesperado, só não sendo indiferente para com a sorte dos subalternos. Aí ele age e paga com o ferimento, a prisão e a deportação onde se junta Elisabeth, vinda de Inglaterra, já divorciada e grávida de um filho que, segundo ele, talvez continue a luta. «A compreensão…A compreensão e os homens libertos de injustiças que sobre eles pesavam, das injustiças que ajudavam a manter viva e aderida a ganga inicial. Havia de existir um ponto convergente. Havia de existir ou havia de produzir-se, com o rodar dos tempos, a possibilidade duma conciliação entre todas as disparidades; uma conciliação mesmo nos pegos mais profundos, onde as incongruências da natureza se ocultavam melhor. Porque o homem não era só aquilo, não era só como ele o via nos seus momentos de desespero. O homem era, pela força do espírito, uma promoção sem limites, mesmo quando gastava milénios a ascender a um novo grau».

Este homem, Ferreira de Castro, vislumbrou esse grau e é um grande escritor. Que tivesse recusado ser proposto para Nobel, depois de ser reconhecido mundialmente e ser traduzido em 10 línguas, percebe-se agora porquê. Razão pela qual, se não tivermos cuidado, e geralmente nunca temos, ele vai ser esquecido dos mais jovens, tal como Brandão e Aquilino. Esperemos e lutemos por um novo grau, então.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Julho de 2020.

segunda-feira, julho 20, 2020

«Le Lambeau», de Phillipe Lançon


Le Lambeau" : le récit dur et poignant de Philippe Lançon sur l ...
Capa de «Le Lambeau» e o autor Philippe Lançon

A 7 de Janeiro de 2015, em Paris, dois verdadeiros imbecis, os irmãos Kouachi, entram na sede da Charlie Hebdo aos gritos de «Allah Akbar!» e assassinam doze pessoas ligadas à redação que estava reunida para preparar o próximo número do jornal. Entre elas, morrem Wolinski, Cabu, Charb, Elsa Cayat, Tignous e Honoré. Entre os feridos, cinco na totalidade, conta-se Philippe Lançon que escreve este livro que foi publicado pela Folio em 2018. Uma onda de indignação percorreu a Europa lançando a estranha palavra de ordem «Je suis Charlie».

Devo dizer que eu fui sempre Charlie, mas recusei-me, talvez por isso mesmo, a subscrever este estribilho que percorreu todas as redes sociais e paredes do país. Não que não me tivesse emocionado com a morte de desenhadores que eu aprendi a seguir e rir-me com eles. A morte de Wolinsky, por exemplo, foi muito sentida. A Câmara do Porto, cidade onde eu vivia na ocasião, fez-lhe uma enorme homenagem e tinha motivos: ele pertenceu, juntamente com Gémeo Luís que fez trabalhos excelentes para a Deriva Editores, ao júri do Porto Cartoon durante anos. Mas eu acompanhava-o desde sempre. Pelo menos a partir de 1976 eu comprava sempre a Charlie Mensuel e, intermitentemente, a Hebdo, juntamente com a revista Hara Kiri, Métal Hurlant ou Pilote. Fui sempre um apaixonado pela Banda Desenhada. Francesa, principalmente.

Phillipe Lançon, traça neste livro, toda a história desde o atentado onde foi seriamente ferido. Ficou sem maxilar inferior com uma bala de Kalashnikov. Traduziria «Le Lambeau» por «A Retalho» ou «O Pedaço» que foi o que lhe fizeram no hospital durante dois anos recompondo-lhe tecidos queimados, dentes que desapareceram, ossos retirados do perónio para o maxilar, titânio para juntar ao puzzle em que se tornou o maxilar. Ele conta-nos os delírios da morfina, as paragens respiratórias, as infecções constantes, o não poder beijar, beber um copo, a saliva a inundar-lhe as gazes à volta do rosto. O horror que ele conta não desejaria ao meu pior inimigo. Jornalista do Libération e da Charlie Hebdo fez reportagens de guerra como na Síria, no Iraque, no Líbano, na Palestina e, porque não dizê-lo, na Colômbia e no México dos cartéis de droga. Foi alvo de um grave ferimento de guerra, como disse o bombeiro que o resgatou do mar de sangue em que se tornou a sala da redacção, em Paris! A última crítica de livros que enviou para o Libération era sobre «Insubmissão» de Houllebecq o que não deixa de ser premonitório. Quem o leu (está editado em português) sabe do que falo. Poucos minutos antes do ataque, estavam a discutir se valeria a pena dar voz a um reaccionário nas páginas da Hebdo. O debate não chegou ao fim. Rajadas de metralhadora acabaram com a possibilidade de editar fosse o que fosse. No chão, cadáveres de desenhadores que conhecíamos bem, que nos rimos com eles que por vezes sentíamos que se estavam a expor demasiado como quando publicaram as imagens de Maomé de um desenhador dinamarquês alvo de uma fatwa, ou quando incendiaram em 2011 a sede do jornal. Eles não queriam saber. Charb dizia para Lançon que se fossem a dar importância às várias ameaças vindas de um leque largo do espectro político francês o jornal não sairia nunca. E, sabêmo-lo hoje, o jornal não respirava saúde económica reduzindo, semana a semana, as tiragens. Portanto, não deixa de ser paradoxal, que todos dissessem à uma «Je suis Charlie». E Lançon di-lo com todas as letras a hipocrisia de tal palavra de ordem. Não eram todos Charlie. E no momento da grande causa comum havia sempre quem dissesse «Eles puseram-se a jeito!» ou «Quando se brinca com a religião…».

A palavra a Phillipe Lançon: «A 7 de Janeiro de 2015, pelas 10:30, não havia muita gente em França para ser «Charlie». Os tempos mudaram e nós não podíamos fazer nada. O jornal só tinha importância para alguns fiéis, para os islamitas e para aquela espécie de indivíduos mais ou menos civilizados, variando entre jovens suburbanos que não liam, a amigos de longa data dos condenados da terra que prontamente o chamavam de racista. Nós sentimos a ascensão desta raiva primária, que transformava o combate social em espírito de intolerância. O ódio é uma bebedeira; as ameaças de morte, habituais; os mails de lixo, numerosos. Acontecia-me perguntar a um dono de um quiosque, geralmente árabe, que dizia não receber o jornal com uma tal expressão de raiva que não escondia a mentira. Sem se dar por isso, a atmosfera mudava. Tinha chegado um momento, sem dúvida a partir do incêndio criminoso de 2011, onde parei, sem deixar de sentir vergonha, de abrir Charlie Hebdo no metro».

A partir daqui foi a contagem decrescente até ao atentado, ao massacre. E Philippe Lançon explica bem o que sentiu por parte de alguma esquerda culpabilizante e defensora de uma moral e de uma ética onde não cabe o riso e a liberdade de expressão, já que, pela direita se sabia o que daí vinha. Portanto a barbárie, no caso, chegou viu e venceu e passados seis anos os factos estão aí para o provar. Quando se começa a culpar a vítima (como Lançon, jornalista, despreza esta palavra!) porque provocou o agressor tudo de sujo será possível. E foi o que aconteceu no caso de Charlie Hebdo.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de julho de 2020
Je Suis Charlie: O Jornalismo está de luto! - Pplware
A ironia e o sarcasmo sempre presente em Charlie Hebdo. E a liberdade de expressão também.

quarta-feira, julho 08, 2020

«Teoria da Viagem», de Michel Onfray

Teoria da Viagem (Portuguese Edition): MICHEL ONFRAY ...

Um livro relativamente inútil para quem conhece pouco o que já se escreveu sobre as viagens e o nomadismo poético ou «geopoético»; totalmente inútil para quem já as leu de várias fontes e de datações várias.

A questão que se me coloca é que Michel Onfray é conhecido por ter editado o excelente livro «A Política do Rebelde», em 1997 e que teve uma repercussão importante como «Tratado de Resistência e de Insubmissão», o seu subtítulo, nos espíritos dados à revolta e à não aceitação das normas sociais dominantes, que ainda os há por aí. Ou seja, o que levou este autor a escrever em 2007 um livro (a edição portuguesa, de 2019, sai portanto com atraso significativo e com um prefácio a despachar de Francisco José Viegas) sem qualquer dado novo sobre a viagem, vazio de uma teoria estruturada do «nomadismo geopoético» que antes já não tivesse sido apresentada e formulada mais consistentemente por outros? Exemplos não faltam: Victor Segalen, Kenneth White http://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=kenneth+white , autores que ele cita, e mesmo a este último retirando-lhe, sem sequer lhe pedir licença, o termo «geopoético», e outros que ele não cita por não querer, tal a parafernália de autores que ele trouxe à colação. Onde estão, Ryszard Kapuscinski ou Claudio Magris, que poderiam preencher uma lacuna importante como autores contemporâneos? E porque escolhe Hesíodo e não fala de Heródoto? Já Rimbaud, o nómada, e Pessoa, o sedentário, dão sempre um jeitão para a prosa.

Prosa essa que cansa. Tal o número de repetições de significados que nunca mais acabam, mais parece que estamos a jogar ao jogo dos sinónimos. Sejam eles adjectivos, substantivos ou verbos, a coisa não pára. Se Onfray pensa que produzir equivalências linguísticas tornando-as autênticos mantras tem como fim sublinhar uma determinada ideia, está redondamente enganado. Produzem quanto muito um longo bocejo. E a tradução de Sandra Silva é boa, portanto é mesmo a escrita do autor.

A leitura deste pequeno livro permite-nos descobrir que Deus estava enganado. Começa logo no Antigo Testamento quando Caim, o sedentário, mata Abel o pastor nómada (seria mesmo nómada?). Porquê? Bom, Onfray aqui hesita, mas dizendo que ninguém o sabe, avança com a hipótese de ciúmes de Caim por causa da preferência Dele por Abel. Seja! O que Onfray nos apresenta, duas páginas após esta hipótese, é que o Todo-Poderoso muda de agulha no Novo Testamento quando Cristo sobe ao Golgotá e um «larápio» (que era nómada pela certa!) Lhe nega água. A partir daqui e «Desde então, associa-se a viagem sem retorno à vontade punitiva de Deus. A ausência de casa, de terra e de solo pressupõe, doravante, uma falta um mal infligido a Deus. O esquema paira sobre os homens há séculos: os judeus, os ciganos, os roms, os boémios, os zíngaros e todos os povos viajantes sabem que, num momento ou noutro, os desejaram condenar ao sedentarismo, chegando mesmo a negar-lhes o direito à vida». Mas então em que ficamos? Deus é ele próprio a favor do sedentário ou do nómada? É que 2500 anos de intervalo entre o Antigo e o Novo Testamento não é coisa para Deus mudar assim de opinião!

Já nos verdadeiros conselhos de autoajuda que MIchel Onfray nos dá (podia ser running ou gastronomia, coisa a que ele se dedicou igualmente) para nós, viajantes e não meros turistas, é que toda a viagem começa numa biblioteca. De acordo. Mas com quem? Diz Onfray: «Sozinhos ou em grupo, a alternativa não é muito animadora». Então como? «(…) penso que viajar a dois ilustra uma fórmula romana, pois permite uma amizade construída, que cresce dia após dia, pouco a pouco». Óptimo! Portanto, com a minha parceira ou parceiro com quem vivo todos os dias? «O nosso Ocidente cristianizado não aprecia a amizade (…). Para além disso, a moda burguesa do casamento por amor torna caduco este exercício pagão: no seio do casal exige-se que o outro represente dali em diante uma série de papéis afectivos, inclusive o de confidente e companheiro». Portanto, tudo bem desde que fora do casamento procurando a tal «amizade romana». Entendo-te, ó Michel! «Viajar a dois permite deixar à distância os indesejáveis, bem como escolher os indivíduos eleitos. A viagem a dois poupa-nos aos perigos de ser apenas um e aos inconvenientes de vários». E o filósofo continua a ensinar-nos numa pedagogia um pouco difícil de pôr em prática, passe o eufemismo. «Numa viagem digna desse nome, o amor ficaria exposto, fragilizado. Por exemplo, a relação com o outro sexo fica distorcida ou interdita na sua espontaneidade durante uma viagem romântica. As possibilidades de conhecer livremente as mulheres de um país, para falar, rir, discutir, brincar, sem estar forçosamente preocupado com uma aventura sexual, é estorvada pela presença da esposa (já entendemos há muito, Michel!), companheira ou namorada. Do mesmo modo, as mulheres são prejudicadas nas suas relações com os homens autóctones devido à presença dos maridos, esposos ou companheiros (lá vêm os sinónimos!)». Conclusão: «Partir com o amigo oferece a certeza de prazeres diamantinos». E eu a pensar que eram romanos!

Mas o amor que o homem tem pelo avião ultrapassa tudo, até Howard Hughes, Lindbergh ou Saint-Exupéry! «Saber-se homem na carlinga deste instrumento transformado em energia e em velocidade metamorfoseia certamente mais a alma do que a leitura dos Evangelhos». Ah, Marinetti (ele também o cita, lá para trás)! O elogio do avião começa na página 66 e só acaba na 72. Bem que as companhias aéreas precisam disto, no tempo das maiores crises sobre as ditas. Mas não pensem que ele não casca nos lerdos: «Um elogio reaccionário da lentidão impele ao elogio da nostalgia, a acalentar a simples paixão pelas recordações e a cultivar a angústia face ao futuro». Eu até que já tinha reparado nisso, mas as limitações do passado sem aviões? «Montaigne ia a cavalo, Rimbaud a pé, Morand de barco, Cendrars de comboio, Bouvier de carro, Chatwin de avião, mas ninguém impede Kenneth White ou Guido Cerronetti de andarem a pé, nem mesmo Théodore Monod de optar pelo camelo…». Isto vai tudo numa questão de escolha do freguês.

No fim da viagem a memória e vamos a um banho de repetições de que vos falava há linhas atrás: «A memória trabalha-se exercita-se, solicita-se, deseja-se, caso contrário, definha, morre, seca, dobra-se sobre si própria, transformando-se por fim numa concha vazia, num ser oco. A imprensa, a gravura, a fotografia, o cinema, o gravador, a calculadora e o computador aumentam as memórias artificiais, sem dúvida (…)» Uff!

E no final a lágrima no olho: «Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho…»

Para um filósofo não está mal. Realizaremos tudo se a morte não nos surpreenda pelo caminho!

António Luís Catarino
Coimbra, 8 de julho de 2020

terça-feira, junho 30, 2020

«Flauta de Luz», Boletim de Topografia, nº7

Revista Flauta de Luz Nº 7
«Flauta de Luz» - Boletim de topografia, nº7
Tenho adquirido a revista Flauta de Luz. Júlio Henriques é seu editor e coordenador e abre a publicação com «Civilização». Aí, poder-se-á ler numa descrição de uma sociedade doente e a crise de civilização a que assistimos: «(…) A torrente inovadora que tornou crianças, adolescentes e adultos furiosamente agarrados (enganchados, como se diz no calão da droga) a computadores, tablets e smartphones criou uma atmosfera geral de ausência comunicativa, de relação preferível com as coisas, em que avulta um novo tipo de insensibilização. Juntando a cultura do narcisismo [que, mais à frente, Anselm Jappe bem explica juntamente com o fetichismo da mercadoria, nota minha] (modelo parental educativo em que passaram a evoluir as novas gerações) ao impelido apego destas últimas às ‘’tecnologias da informação’’, chegamos assim a auto-estrada digital conducente a este coktail de shots corporais de aturdimento garantido.(…)». O mote está dado e as coisas dividem-se deste modo: os que se apegam às novas tecnologias sofregamente e aqueles que, como eu, ainda compram, leem e divulgam revistas como a Flauta de Luz.

De resto, é com verdadeiro prazer que lemos os artigos que se sucedem a um ritmo vertiginoso para quem pega  na revista, perdão, boletim de topografia, sem a conseguir largar. Comecemos por Raoul Vaneigem, mais lúcido que nunca, a perspectivar novas insurreições e a urgência em criá-las em direção a uma verdadeira humanidade que salve não só o planeta como a espécie humana que se quer autónoma e livre. Que conhece o percurso deste homem, sabe do que fala e da coerência que sempre o acompanhou.  Interessante a sua posição sobre a epidemia de hoje «Seria mesmo necessário o coronavírus para demonstrar aos mais obtusos que a desnaturação em prol da rentabilidade tem consequências desastrosas para a saúde universal? Esta saúde que de forma constante é gerida por uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas disfarçam o desaparecimento dos hospitais públicos? Há uma correlação evidente entre o coronavírus e o desmoronamento do capitalismo mundial. Ao mesmo tempo não é menos evidente que aquilo que recobre e submerge a epidemia do coronavírus é uma peste emocional, um medo histérico, um pânico que simultaneamente dissimula as carências de tratamento e perpetua o mal assustando os pacientes. (…)». Vaneigem assina mais dois artigos um deles uma entrevista truncada no Le Monde e que conhece aqui a sua versão definitiva. Atenção a esta entrevista onde o autor declara a real importância do movimento dos Coletes Amarelos, juntando as ZAD (Zonas A Defender), o movimento zapatista e a crítica contundente aos Black Bloc. Mas, principalmente, a apresentação de uma saída insurrecional e alternativa ao modelo capitalista.

Temos David Watson, autor de Against the Megamachine na conhecida Autonomedia, editora libertária norte-americana, num artigo muito claro «Atualizar os Possíveis» sobre o possibilitismo e as novas utopias na construção de um mundo diferente.

A «Advertência Final» é um exercício irónico de quatro investigadores científicos sobre o tão conhecido «Aviso à Humanidade», de 2017, que juntou 15 mil cientistas de 184 países sobre os perigos que pairam sobre o Planeta. Estes 4 signatários advertem, ao tal aviso, que, sem a crítica ao capitalismo e as alternativas económicas que devem acompanhar essa (ir)responsabilidade do lucro e da rapina de recursos, podem esperar sentados até ao próximo aviso à humanidade. As coisas ficarão na mesma.

Um «suprimento litrário avulso» vai dando conta de autênticos murros no estômago à intelectualidade e ao processo de criação artística em curso. Se o riso era quase impossível de arrancar a quem lesse ou consultasse em diagonal os verdadeiros e reais suplementos literários que proliferam por aí, neste suprimento litrário a verdadeira alegria da leitura neo-abjeccionista brota, incontrolável. Também há insurgência no riso. Atenção aos registos de Júlio Henriques «Amar um robô» (lembrei-me de Sophie, mas podem dar-lhe outro nome qualquer…) e «Mas o que é que nós queremos?». Não percam a sua leitura.

Os artigos sucedem-se com entrevistas a Jorge Valadas / Charles Reeve, que assinou agora o livro «Socialismo Selvagem» saído na Antígona e já divulgado aqui no Deriva das Palavras em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2020/03/a-memoria-e-o-fogo-e-o-socialismo.html e uma importante entrevista a Júlio Henriques onde se fala, entre outros, de Paul Mattick, de René Vienet, do Maio 68, de Serge Bricianer ou de René Lefeuvre, editor da conhecida Spartacus. Uma mostra para uma possível construção de uma «antologia da poesia ameríndia contemporânea» acompanhada de artigos de uma verdadeira topografia indígena, tornados aqui os últimos guardadores da humanidade se quer continuar a ser, como os trabalhos de Ailton Krenak (que refere o importante «A Sociedade Contra o Estado» e que conheceu Pierre Clastres), Davi Kopenawa Yanomani, manifestos da Survival International em defesa dos Povos Índigenas, Stephen Corry com «Os melhores guardiães da natureza construíram o nosso meio ambiente e podem salvá-lo», Corsino Vela com «Uma guerra real num mundo virtual», e «Morrer em Rojava» uma coletânea de depoimentos sobre os internacionalistas que morreram pela autonomia autogestionária dos enclaves curdos na Síria, contra o Daesh e o exército turco às ordens da Nato. Provavelmente, para não dizer quase de certeza, que houve algum ímpeto irracional de quem defendeu que a Guerra Civil de Espanha foi a última guerra por ideais revolucionários!

Podem contar-se igualmente com artigos de Jorge Leandro Rosa, Vasco Santos e Chuang. O primeiro versa sobre as tecnologias e poder e os dois últimos analisam não só as implicações do coronavírus e as consequências sociais das novas epidemias para o século XXI. O último, Chuang, é uma revista e igualmente um blogue. O significado da palavra é um cavalo que passa o portão, que (se) liberta. A análise do que se passa na China de hoje, não só ao nível das epidemias, mas igualmente no campo social e da passagem de uma economia fechada para uma economia de capitalismo integrado mundial aponta as contradições a que está votada a ditadura chinesa. É por isso espectável que se tivesse optado pelo anonimato. Mas que é de alguém que está no terreno e que nos passa informação, não se tem dúvidas.

Também se comemora nesta Flauta de Luz os 100 anos de Lawrence Ferlinghetti, esse jovem beatnick ímpar!

Um número único, este 7º boletim, de 289 páginas!, com ilustrações fabulosas, que dá vontade de requisitar numa livraria mais números (a mim faltam-me dois!). Há, de certeza, na Livraria Letra Livre em Lisboa e na Utopia, do Porto. Ou então, flautadeluz1@gmail.com .

Ah…e Cesariny, pois claro, com um «Lembrete de coisas de um passado recente – Uma Raça Maldita». Quem será a «raça mais infame que apareceu à face da Terra?». Ele dir-vos-á.

António Luís Catarino
Coimbra, 6 de julho de 2020

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

A Ideia celebra o centenário da escrita automática

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

Habituei-me a ler «A Ideia» desde sempre. Este número vale (muitíssimo) por si próprio quando se assinalam três datas directamente ligadas a uma publicação que se define como de «cultura libertária». São 45 anos da criação d’«A Ideia» num círculo de exilados portugueses em Paris e com divulgação assídua em Portugal, mais o apontamento circunstanciado dos 100 anos do jornal «A Batalha» que, como sabem os que acompanham minimamente as lutas operárias do século XX, chegou a ser um diário com uma tiragem de 10 mil exemplares, julga-se, logo atrás de dois jornais institucionais. Para além desta nota, lembrar que foi o órgão anarquista da União Operária Nacional cujo congresso fundacional foi, creio eu, em Tomar e que deu origem à forte CGT. E ainda outro centenário importante para a iniciação de um verdadeiro e genuíno debate a que este número d'«A Ideia» contribui de uma forma indelével – falamos da publicação de «Les Champs Magnétiques» de André Breton e Philippe Soupault, em 1919, e que foram «cruciais para o nascimento do surrealismo entre 1922 e 1924». 

A revista muito pela responsabilidade de António Cândido Franco que coordenou um Inquérito sobre o Centenário da Escrita Automática apresenta-nos uma vasta panóplia de opiniões sobre este tipo de escrita com destaque, subjectivo é certo, para os depoimentos de Alberto Pimenta, Cruzeiro Seixas que, aliás, apresenta um poema inédito de 1961 titulado «Pequeno poema a Angola», Fernando Cabral Martins, Manuel de Freitas que não gosta do termo mas que ainda assim fala dele, Manuel da Silva Ramos, Margarida Vale do Gato com um artigo extremamente interessante sobre escrita automática em Kerouac e Withman entre outros, Maria Estela Guedes que a encontra em Herberto Helder, Michael Löwy, Miguel de Carvalho ou Nuno Júdice que optou por nos dar uma lição pedagógica sobre o tema. Mas são muitos os depoimentos, mesmo daqueles que separam o automatismo psíquico da escrita automática surrealista, apesar de toda a ideia contrária que a revista sugere e ainda que o próprio Breton e os surrealistas o neguem! Mas o resultado do inquérito é francamente bom.

Uma ressalva para as excelentes ilustrações que acompanham a publicação e ao trabalho gráfico cuidado.

Mas deixemos a revista falar por si e através da arte da colagem, do «détournement» se assim o entenderem:

Na página 30, André Breton explica, já como cadavre exquis e com a condescendência para um só depoente que, lesto e impante, apontava o seu dedo académico aos surrealistas afirmando que não foram estes os «inventores» da escrita automática, disse Breton: «Em 1919, a minha atenção tinha-se fixado sobre frases mais ou menos parciais que, em plena solidão, no momento de adormecer, se tornam perceptíveis para o espírito sem que lhes seja possível descobrir uma determinação prévia. Estas frases, notavelmente imaginativas e duma sintaxe perfeitamente correcta, surgiram-me como materiais poéticos de primeira qualidade. Esforcei-me antes de mais por retê-las. Foi só um pouco mais tarde que Soupault e eu pensámos reproduzir de forma voluntária o estado em que elas ocorriam. Bastava para tanto abstrair-nos do mundo exterior. Foi desse modo que elas nos chegaram durante dois meses, cada vez mais copiosas, sucedendo-se em catadupa, sem intervalo e com uma rapidez tal que foi preciso recorrer a abreviações para as registarmos». Foi assim que se iniciou, em 1922, a escrita de «Les Champs Magnétiques» e com ela o movimento surrealista.

Mas é com a profunda análise de António Cândido Franco em «Fluidos, Berlindes, Médiuns, Bolas de Cristal & Carvões – Do automatismo psíquico surrealista» que a clareza das posições surrealistas se tornam mais óbvias, tendo afirmado com toda razão que só existe a expressão «escrita automática» porque Breton e Soupault eram poetas. Seria então mais correto dizer-se «automatismo psíquico» visto que este abarca uma grande amplitude de comunicação artística como a imagem, o desenho, o filme, a pintura, o «ready made», a palavra, a colagem ou a junção de artefactos. Mais à frente o autor afirma, clarificando igualmente algumas confusões já referidas num depoimento em particular que nunca os surrealistas reivindicaram para si a «invenção» da escrita automática, socorrendo-se por vezes do próprio Breton. Diz António Cândido Franco: «O automatismo surrealista nasceu no âmbito da experimentação dos processos mentais, como um modo próprio de análise feito fora do âmbito hospitalar, mas baseado nos mesmos supostos de auto-conhecimento e de terapia catártica. Por isso, o seu criador, André Breton, sempre se negou a classificar o surrealismo como um movimento literário e artístico, preferindo encará-lo como uma nova etapa humana em direcção a uma maior e mais larga liberdade de consciência. O surrealismo tinha um âmbito próprio de pesquisa, uma revolução autónoma a realizar, e não se podia confinar à arte e à literatura.» (bold meu). Cândido Franco aclara mais à frente no mesmo artigo: «O instrumento que o surrealismo colocou disposição de todos, o automatismo mental, e que justificou o seu propósito da poesia passar a ser feita por todos e qualquer um, naquilo que se chamou ‘’o comunismo do génio’’, continua válido pois cada um de nós precisa de fazer a expedição às fontes originais do espírito donde brota a criação e a liberdade para poder viver a vida em plenitude».  Entretanto, o autor chama a atenção, igualmente, para um fenómeno contemporâneo poderosíssimo e que, este que vos escreve, tem chamado a atenção sempre que pode pelo que tem de realmente mau, de distopia. Leiam e meditem: «A tragédia da inteligência artificial é a escravização do espírito, naquilo que este tem de mais autêntico e que só no continente submerso da alma humana se pode encontrar do mesmo modo que apenas na escura profundidade duma mina se pode colher uma rama de oiro (…) no tempo da robótica é ele [o surrealismo] o primeiro a tocar a rebate nos sinos da imaginação».

Já Michael Löwy, no seu artigo sobre «O marxismo libertário de André Breton» faz-nos uma resenha com pormenores importantes da relação entre Breton e Trotsky e à sua ligação sempre tensa até ao seu afastamento total do Partido Comunista. Breton não desiste da liberdade e essencialmente da liberdade de criar, para isso juntando-se aos anarquistas o que leva o velho Trostsky a subscrever essa ideia no Segundo Manifesto Surrealista o mais politicamente envolvido de todos os manifestos. A ideia é não abandonar os princípios da Revolução de Outubro, mesmo que já traída e adulterada por Estaline. O PC não lhe perdoará e temos o Komintern a adjectivar o surrealismo de «materialismo gótico», de «marxismo romântico» como forma de o reduzir ou esvaziá-lo de sentido. Os surrealistas proclamam então, o «reencantamento do mundo» e a «recusa espontânea das condições de vida propostas aos seres humanos e a necessidade imperiosa de mudá-las». Enquanto muitos ainda duvidavam, eles cortam com o estalinismo em 1935, datas da maior repressão nos «processos de Moscovo».

Três manifestos surrealistas inéditos em português acompanham este número d’«A Ideia». Só por isto valeria a pena a sua rápida aquisição, ao mesmo tempo que nos perguntamos qual a razão de só agora os conhecermos, quando a criação do Grupo Surrealista de Lisboa e, mais tarde, do Grupo Dissidente de Cesariny, Cruzeiro Seixas e António Maria Lisboa entre outros, datam desta precisa época! Mesmo nos Textos de Afirmação e Combate do Surrealismo Mundial de 1977,de Cesariny, não consta alguma referência a estes manifestos (re)fundadores e clarificadores do surrealismo. São textos de uma beleza agressiva e de clara ruptura para com os PC, contra aqueles que em 1947 achavam todos os alemães nazis, clarificadora para com os pressupostos da revolução surrealista denunciando ao mesmo tempo a degenerescência da ditadura do proletariado na ditadura de um só partido. Para eles, os surrealistas, a revolução não se compadecia com a moral ou prática burguesas e denunciavam quer a religião e, com ela, o cristianismo: «os marxistas deverão deduzir que não se produziu nenhuma mudança significativa no domínio da economia desde que Moisés foi chamado ao Monte Sinai», os costumes e a moral «A sua confiança na perfectibilidade do percurso humano é, hoje, como ontem, o prolegómeno que diminui o espectáculo desolador do mundo»  e, ainda em 1947, proclamavam: «O sonho e a revolução foram feitos para se associarem, não para se excluírem. Sonhar com a Revolução não é renunciar-lhe, mas sim fazê-lo duplamente e sem qualquer reserva mental». Portugueses presentes nesta magna assembleia surrealista foram Cândido Costa Pinto e António Dacosta. Sabe-se que foi o primeiro a dar a Cesariny os contactos com André Breton que aquele aproveitou para se encontrar com ele pelo menos duas vezes.

Manuela Parreira da Silva faz um excelente retrato de Pessoa mediúnico cujo automatismo na escrita (principalmente no ortónimo e em Caeiro) nada teriam a ver com o automatismo surrealista tal como estes o entendem. É provável que Pessoa desdenhasse os surrealistas e principalmente os dadaístas. Pelo menos esta investigadora data esse conhecimento de 1917 e talvez este conhecesse bem Apollinaire que, como sabemos, foi colaborador em vida dos surrealistas aquando da apresentação de Les Mamelles de Tirésias, drame surréaliste en deux actes et un prologue. Mas Soupault, que esteve com Pessoa em duas ocasiões em Lisboa, não lhe foi muito simpático, ligando-o a um porto branco e a um sorriso associado! De qualquer maneira, somos levados a concluir que Pessoa, em certos aspectos, não se afasta dos surrealistas pese embora aquele modo mediúnico de conquistar o sonho que o separava destes. Pessoa e Freud seriam incompatíveis. Mesmo Cesariny, mais tarde, acaba por reconhecer a importância de Pessoa, mesmo que as suas loas fossem dirigidas, e muito bem, para Teixeira de Pascoaes.

Quem adquirir a revista não deixe de ler «Abjeccionismo & Automatismo» de Rui Sousa. Aqui entra-se em outra dimensão que é o muito português abjeccionismo, embora Rui Sousa em tese que está a preparar o coloque mais internacionalizado, digamos assim. A questão coloca-se: será o abjeccionismo uma deriva portuguesa do surrealismo? Teríamos então como representantes dessa corrente um Raúl Brandão, Gomes Leal, algum Orpheu, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte e o não menos importante Pedro Oom. Já de fora teríamos um outro tipo de abjeccionismo: Artaud, Bataille, Kristeva. Mas há um nome verdadeiramente esquecido hoje e que se sobrepõe que é o de António Maria Lisboa e a sua Metaciência, esse novo humanismo que ultrapassa a racionalidade e procura a consciência individual, onírica e verdadeiramente livre.

Centenário outro, desta vez o da criação, por Leonardo Coimbra, da primeira Faculdade de Letras do Porto, livre e libertária, que a ditadura fechou denunciada (não há outro termo) pela Faculdade de Letras de Coimbra (cidade/universidade/prostíbulo salazarista dos anos 30) denominando-a «Faculdade das Tretas do Porto». Agostinho da Silva foi seu aluno antes do seu exílio.

Uma pessoa até se encontra a ler «A Ideia» com grande concentração e aparece-nos vindo sei lá de onde um texto sofrível e mesquinho de Stefan Zweig sobre Verlaine. Já li coisas más, mas esta ultrapassa, em muito, alguns textos maus de pessoas más para quem dizer mal de pessoas que não se podem defender é um mal necessário para elas. Uma chusma de males. Que coisa insuportável! Ele, Zweig, refugiado judeu no Brasil e EUA, nunca atacando directamente os nazis porque as suas críticas poderiam originar mais mortes (!!!) tem a veleidade de apontar o dedo à «participação oportunista» junto com a anarquista Louise Michel na Comuna de Paris! Leiam agora este pedaço sobre Verlaine: «O espírito feminino comete muitas vezes o erro de confundir o comovente com o que é grande: se a vida de Verlaine pode ser qualificada de trágica e de profundamente perturbante, seria abusivo querer fazer desta chama vacilante que se apaga uma obra de arte, uma tragédia biográfica». Espírito feminino? Mais à frente: «Em casa de uma amigo [Verlaine] conhece uma rapariga, Matilde Mauté, 16 anos, graciosa, loura delicada, a encarnação da inocência e da pureza [ai, ai, Zweig! Onde pairava a tua alma enquanto escreveste estas linhas?]. O jovem Verlaine, feio com um bugio (sic), tímido e lascivo, um romântico que encontra as suas efémeras aventuras venais à esquina da rua (sic) com a ajuda de um copo de vinho, vê de repente a alva menina, a santa [alva e santa, que se pode mais querer senão cair nas garras de um bugio, ó Zweig?], aquela que lhe pode trazer a salvação [e nós a pensar que era o copo de vinho!]. Pela vossa saúde não vos conto mais. Ele não foi um nobelizado? Ora tomem…

Acabamos com Anselm Jappe com «Reflorestar a Imaginação» com um estudo rigoroso sobre a mudança do trabalho concreto para o trabalho abstracto nos dias de hoje. «É por isso que a sociedade moderna é uma sociedade baseada no contínuo aumento de trabalho, um aumento tautológico do mesmo. Não se trabalha para satisfazer uma necessidade, e logo repousar em sossego, senão que se trabalha para se poder trabalhar ainda mais» ou «Foi sobretudo a tradição poética francesa, primeiro com Baudelaire e mais tarde com os dadaístas, surrealista e outros, que se opôs à sociedade do trabalho – e também a nível prático. A outra grande excepção foi William Morris, que podemos considerar um marxista e que também impugnou de forma admirável o trabalho».

Finalizemos (ou iniciaremos, é convosco) a leitura deste excelente número da revista com Jappe:

«As tecnologias não criam valor, não acrescentam novo valor»

«Antes de mais precisamos de nos deixar de identificar com o papel de consumidor, do trabalhador, do cidadão, do eleitor. Hoje as novas exigências humanas só podem impor-se contra essas categorias. Os movimentos sociais devem insistir em que todos temos o direito a viver mesmo não conseguindo vender a nossa força de trabalho, mesmo não encontrando para ela nenhum comprador».

Pedidos a acvcf@uevora.pt ou António Cândido Franco / Rua celestino David, nº13-C, 7005-389 Évora

António Luís Catarino

Coimbra 2 de julho de 2020

terça-feira, junho 23, 2020

Christian Bobin «L’inespérée». Um livro inesperado comprado a Monsieur Bloch


L'inespérée de Christian Bobin (avec images) | Christian bobin ...
Há todas as razões para o «mainstream» não gostar de um escritor assim embora, paradoxalmente, esteja com uma grande literatura pela frente. 1), adivinha-se o seu catolicismo, 2) é duro e pouco sociável, 3) portanto, contraditório, 4) escreve na forma de conto. 

Comprado ao Monsieur Bloch em Delémont, na Suíça, um alfarrabista antiquário que teve a amabilidade de me afirmar o bom gosto que eu tinha em adquiri-lo pela soma de 2 euros, junto a outros e a uma cítara de aprendizagem escolar do século XIX, tive o incómodo de dizer-lhe que não o conhecia, mas que o simples folhear me levou a comprá-lo. Continuo a saber pouco dele, refugiando-se nos seus sessenta e cinco livros que editou e escrevendo livros curtíssimos em contraponto aos autênticos tijolos que vagueiam pelas (ainda abertas) livrarias. Mais um ponto contra ele: muitos livros e quatro prémios um dos quais da Academia francesa em 2016. E um prémio com veneno, o «Grande Prémio Católico de Literatura», em 1993. Este homem não é nobe(i)lizável, portanto.

O que eu acho mais estranho é que a beleza e a extrema limpeza do inútil nas palavras chama-nos para a continuidade do prazer de uma leitura que Christian Bobin nos dá. Aliás, ele não diz o prazer de ler um livro deste ou daquele, diz o «prazer de uma leitura» não identificando o quem. E mais uma estranheza no decorrer da descoberta deste autor foi lembrar-me amiúde de Houllebecq. O grande conhecimento do humano contemporâneo e até um certo desprezo pela envolvência social estão presentes fortemente nos dois autores, embora com meios de expressão diferentes. Como um católico e um ateu empedernido se podem conjugar, mesmo sem o estribilho estúpido de «os extremos tocam-se»!

Em «L’inespérée» e nos onze contos por ele constituído há momentos verdadeiramente fascinantes como em «La traversée des images» onde se lê «Um escritor é alguém que se bate com o anjo da sua solidão e da sua verdade. Uma luta confusa, sem conhecer a sua conclusão. Um combate de rua, uma mistura de bandidos, de penas voando em todas as direções e, por vezes, como em todo o combate, um momento de tréguas». Mais à frente continua «Não é a tinta que faz a escrita, é a voz, a verdade solitária da voz, a hemorragia da verdade no ventre da voz».

Em «Le thé sans thé» podemos ver então a incompatibilidade entre ele e o «socius», a tal verdade contemporânea que ele despreza «A vida em sociedade é quando todos obedecem ao que ninguém quer. A escrita é uma escapatória a esta miséria, uma variação da solidão assim como amar ou brincar – um princípio de insubmissão, uma virtude de infância». Ora esta frase é colocada na boca de um escritor profissional com um anfiteatro pleno de debutantes da literatura e ela é dita por um «alter ego» verdadeiro do escritor, que ele sabe que mentindo para melhor vender, diz a verdade.

O conto «J’espère que mon coeur tiendra sans craquelures (fendas, em português)» fala da fusão entre imagem e a literatura afirmando, sem alguma polémica para os puristas da palavra fácil «Falar de pintura não é como falar de literatura. É muito mais interessante. Falar de pintura é como se rapidamente acabar com a palavra, voltar lesto para o silêncio. Um pintor é alguém que limpa um vidro existente entre nós e o mundo com a luz, como um pano de luz humedecido pelo silêncio. Um pintor é alguém que nos envia, sem parar, fotografias do mundo. Muitas imagens, demasiadas imagens para as encerrar todas num portefólio e de as fazer sair de tempos a tempos: eis como o mundo bate no coração de um desconhecido».

«Uma reforma aos trinta anos» e «Mina» são contos que nos remetem para a mulher. A primeira, uma educadora de crianças deficientes casada e com um amante que, mais tarde, a deixa. Conta, entretanto ao marido e chora durante a noite quando ela chega ao quarto e à casa toda iluminada que ele deixou. Como se a luz ainda se mantivesse lá, na casa dividida pelos dois e um terceiro que a abandona. Reforma-se cedo no plano sentimental, e remete-se à relação rotineira «de quem sempre a compreendeu». Mina é um nome de uma prostituta a quem lhe cabe um cancro de mama com a idade já problemática de quarenta e cinco anos. Não se trata, mas lembra-se que Mina é o nome da namorada de Drácula e de todas as personagens que o pai lhe contava em miúda. Prefere morrer como a «verdadeira Mina» a do vampiro. É ela que lembra ao leitor que não se diz «Eu queria amá-la», mas sim «Eu amo-a» e, ao dizê-lo, a descoberta de um amor bem mais profundo do que todo o vago querer.

Talvez o conto menos conseguido do livro, o do real assassínio da mulher de Garaudy (embora não o cite) às suas mãos. Achei alguns lugares comuns, como os filósofos são notícia quando matam solitariamente e coisas assim. Por acaso pensei em Heidegger e em Carl Schmitt, mas este era constitucionalista do III Reich com ares de filósofo.

Guardei para o fim o conto dos mais belos que li de Christian Bobin. O conto homónimo que deu título ao livro «L'inespérée». Das mais belas cartas de amor que li. Gostava que pensassem agora em Houllebecq ou mesmo em Littell, por exemplo, e vejam um católico a escrever «Estou louco por pureza. Estou louco por essa pureza que nada tem a ver com uma moral, mas a vida no seu átomo elementar, o feito simples e possível do ser em cada um de nós junto às águas da sua negra morte, infinitamente só, eternamente só. A pureza é a matéria mais generalizada sobre a terra. Ela é como um cão. Cada vez que repousamos sobre o nada no nosso coração vazio, ela vem sentar-se aos nossos pés, fazer-nos companhia». Se pensarmos no título «As partículas elementares» de um tal Houllebecq, talvez encontrem semelhanças...ou talvez nem por isso, mas foi uma tentativa que espero não ter sido vã.

«Escrevo desde que me lês, desde aquela primeira carta em que ignorava o que ela poderia dizer-te, que só poderia encontrar sentido nos teus olhos. Nunca escrevi nada de melhor do que as três primeiras frases daquela carta: Não acreditar em nada, não esperar por nada. Desejar que alguma coisa, um dia, chegue. As palavras vieram atrasadas nas nossas vidas. Tu estiveste sempre à frente do que eu esperava de ti. Foste, desde sempre, o inesperado».

Coimbra, 23 de junho de 2020.
António Luís Catarino

segunda-feira, junho 15, 2020

«O Grande Sol de Reil», poema inédito de António Pocinho


António Pocinho, anos 80. Foto de autoria desconhecida

Recebi este manuscrito (a grafia é de António Pocinho) no dia 27 de junho de 1980, entre copos infinitos de cerveja no «Café Califa» e outras substâncias já prescritas, na Rua das Matemáticas em Coimbra e creio que seguiu para a «Fenda - Magazine Frenética». Não confirmo a sua publicação. Diz, por debaixo da assinatura do António com quem privei no triângulo maldito de Coimbra – Tomar - Lisboa, isto: «Poema gravado em Coimbra, nos estúdios do ‘’Bota-Abaixo’’, entre 6 e 27 de junho de 1980. Som, mistura e arranjos de António Manuel Pocinho e Vasco Santos». Tenho comigo o original. Se o Vasco o quiser eu terei todo o gosto em dar-lho. É assim o poema:



O GRANDE SOL DE REIL

O que está escrito, está escrito na vida
e aí tudo tem a sua alquimia.
Descobrir o início das coisas,
percorrer-se o caminho ao longo das pessoas,
ficar-se perplexo com o verbo,
vibrar-se com a acção
é já de si uma prodigiosa armadilha,
uma procura exaustiva da intimidade.

Tudo o que permanece no domínio
dos lugares escondidos da linguagem,
da luta de classes e do poder
está envolvido por uma misteriosa literatura.
O que nos resta da ligação entre o sagrado e o profano
e que conduz a escrita a um jogo demasiado difícil para ela
contém em si a génese neurótica da ficção.

«Há uma linguagem na neurose
que se assemelha ao código da escrita»
- anunciaram os jornais
onde se falava dos polícias de dentro e de fora,
das emissões em línguas estrangeiras,
das manhãs muito cheias de luminosidade,
muito voltadas para dentro do seu próprio amor.

Escreve-se por uma questão alveolar,
por onde uma necessária respiração das células
onde uma espécie de transporte activo das palavras,
à semelhança do que acontece na bomba de sódio
seria um elemento fundamental
na combustão da energia poética associada à vida.

Comove-nos este espaço: a noite, o candeeiro aceso,
a escrita, os autores, alguém dormindo ao lado.
Dormir na ausência para acordar na memória.
Onde a magia, a eternidade,
a infância dos nossos actos, a revolução?
Há algo de abusivo na verdade,
no pousar os olhos sobre o texto,
no beber mais uma cerveja no «Califa»,
no descansar do dia-a-dia da vertigem.
Dói-nos este rock, esta droga
até ao ponto em que nos iniciamos na imagem,
na álgebra superior e mortalmente branca.

Recusamos esta dança, os filósofos
…a hipotética imaginação da luz…

Perseguir a palavra: virtude do corpo ou maldição do espírito.
E foi subornada esta paisagem por um milagre antigo.
Terra benzida nos «sex and drugs and rock’n rol»
porquê o poeta, os computadores, a bomba de neutrões?
Armando a estrada e os anjos de revólver?

Vítimas do crime no acto em que nascemos,
aceitamos a chantagem da vida
ao olhar sobre a misteriosa moralidade destes campos,
pisados por mulheres descalças em busca de uma linguagem para o sexo.
Caminho eterno para a aprendizagem da placenta.
Nas águas – o código amniótico.

Prostituímo-nos na memória, no cio da palavra, no espaço e no tempo deste corpo.

Rosto pintado de anjo no cinema: é rigorosamente inútil o poema.

António Manuel Pocinho
Coimbra, entre 6 e 27 de junho de 1980