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sexta-feira, julho 25, 2025

"Cossacos", Lev Tolstói

 

Relógio D'Água, 2010. Tradução e notas de Nina Guerra e Filipe Guerra
Continuo no registo de Tolstói sobre o Caúcaso e, ao mesmo tempo, assinalar um apontamento sobre a tradução de Filipe Guerra, muito recentemente falecido e que, juntamente com Nina Guerra fizeram um trabalho notável directamente do russo.
É um lugar-comum dizer-se que a literatura de Tolstói é universal, sendo que este parte de uma dada realidade, aparentemente localizada, para descrever todas as misérias, vaidades e realizações humanas (sejam elas boas ou más). Daí que George Steiner tenha comparado «Cossacos» às obras de Homero. Não me choca a afirmação, sinceramente. Depois de o lerem, caso o não tenham feito ainda, terão o mesmo sentimento de uma humanidade registada nas letras inconfundíveis de Tolstói. E, sim, lembrei-me várias vezes de episódios da Odisseia, pelo desregramento, abusos de todos o tipo, assassinatos cruéis, liberdade total das acções humanas que sabendo da ira de deuses castigadores, tentavam ser maiores do que eles. 

Tolstói escreveu «Cossacos» em 1952. Ora, foi um ano antes que se juntou ao exército russo contra todas as opiniões de amigos e familiares (não por integrar o exército, mas por causa da fama do Caúcaso). Sendo que, para um junker como ele, a comissão era de quatro anos, podemos afirmar, com alguma segurança, que Lev Tolstói, o escreveu ainda durante a comissão militar, mesmo que tenha acabado este romance, dez anos depois. É importante fazer estas contas para entender as descrições muito vívidas do Cáucaso e da «sua» Tchetchénia enxameada de guerreiros independentistas, cossacos que lutavam com os russos e os desprezavam simultaneamente, mulheres que tinham um poder efectivo nas aúns (aldeias) vazias de jovens e homens em permanente guerra, caçadas ou negociações tribais, bebendo vinho quente, vodka e infligindo ao inimigo castigos cruéis. Podemos supôr que o jovem Tolstói, saído da Moscovo cosmopolita e de amizades fictícias, se tenha apaixonado vivamente por esta «verdade» tão real, como atractiva pela liberdade que demonstrava. As relações humanas eram nítidas, vivazes, sem pinga de fingimentos, frontais. Por vezes, violentas. A personagem central tomou o nome de Olénin, certamente o alter ego do escritor.

Tolstói percebeu, no século XIX, que não se pode subjugar o Cáucaso. E, a menos que o consigam, os custos seriam enormes para o agressor. Os russos entenderam-no só em parte e, pelo que lemos em «Cossacos», só com um enorme tabuleiro de xadrez, em que as peças eram mudadas constantemente, se poderia permanecer como ocupante numa Tchetchénia ou em todo o Cáucaso. O que percebemos é que os exércitos russos sabiam ao que vinham e ao assinar tratados, muitas vezes só a palavra bastava, tinham a percepção que seria por pouco tempo. Mas mantinham-se apesar do desprezo enorme que Tolstói reservava para com o Estado-maior, príncipes e o próprio Czar Nicolau I, que reverteu a abolição parcial da servidão de Alexandre I. O retrato que dá dele é uma peça literária inesquecível. 

Foi com amargura que Olénin (Tolstói) pediu a transferência de local, abandonando a sua aldeia cossaca e a mulher tchetchena por quem se tinha apaixonado sem que houvesse qualquer correspondência da parte dela. Tarde, percebeu que não sendo um deles, apesar de provas reais de amizade de alguns dos seus habitantes, se tornaria um viajante, um nómada que em breve sairia do território livre das montanhas e das estepes. Acredito que lendo o final deste «Cossacos», nunca mais o esquecerão.

alc

quarta-feira, julho 23, 2025

"Khadji-Murat", Lev Tolstoi

 

Cavalo de Ferro, 2014. Tradução de Olga Solovova 
«Khadji-Murat» chega-nos do Cáucaso onde Tolstói esteve quatro anos a cumprir serviço militar como junker, após ter desistido da vida «dissoluta», como gostam de afirmar os seus biógrafos, que mantinha em Moscovo. É evidente que não vou classificar esta novela, porque seria de uma arrogância extraordinária tentar falar de Tolstói literariamente. É, tão-só, um dos maiores da literatura que escreve sobre um povo e com ele, um dos chefes carismáticos que se vê enredado em valores familiares e tribais que irão chocar com os motivos independentistas que o fazem lutar pela liberdade face aos russos. Ou, talvez, pelo que entende ser a liberdade e continuidade dos seus costumes ancestrais de um povo guerreiro da montanha. Tolstói, como génio que é, não se compraz em dar a sua «opinião» sobre o que vê, sente ou observa com atenção peculiar. Simplesmente, descreve o comportamento altivo de um homem que aparentemente trai um outro chefe que lutava contra os ocupantes e se passa para o outro lado - o dos russos. Isto é o que vemos, objectivamente. Mas, para lá, desta história, há uma outra e outra e outra. Tal como sucessivas camadas vemos que Murat é fruto de de uma situação que não tem saída e, como se comprova no final que escuso de desvendar aqui, nem a Rússia constitui qualquer liberdade, nem qualquer dos chefes tribais da Tchetchénia consentem que tenha acesso à sua e à dos seus. A Rússia oitocentista estava longe de o entender, mesmo que o tenha usado. O mundo de Hadji-Murat soçobra com ele, mantendo a sua altivez e orgulho intactas.

alc

terça-feira, outubro 08, 2024

«Infância, Adolescência e Juventude», Lev Tolstói

 

Relógio D'Água, 2012. Tradução de Nina e Filipe Guerra
Houve quem lhe chamasse «o espelho do povo russo». Não sei se o foi, ainda o será, ou, sendo-o, subsistirá como tal pelos tempos fora; ou, sequer, existir a possibilidade de um povo se ver ao espelho, coisa impossível de acontecer, mas por vezes bem necessário e aplicado para todos os povos, não só ao russo bem entendido. Nem sei se o que seria se o povo português se visse ao espelho e de que forma e qual o material que emergiria, não fosse este exercício um rol de abstracções que me dei ao luxo de apresentar-vos. No fundo, faço-o, porque isto é uma rede social. Está explicado por si.

Seja como for, até se aceita que um escritor possa ser um espelho privilegiado de uma época ou de costumes e de mentalidades. Então hoje!, cuja informação em catadupa e a mentira programada na informação e comunicação obriga aos historiadores um labor mais que suado para atingir a objectividade factual. No futuro, permanecerá somente a literatura. A Tolstói, eu venho de tempos a tempos, para saber como se escreve. E não só: para saber como construir frases que nos levam ao pormenor, ao ambiente partilhado, ao cheiro, ao tacto, aos sentimentos, sejam eles bondosos, maldosos ou indiferentes, mesmo que dentro de uma única personagem. Porque Tosltói sabe como nós somos. Está lá tudo e quase todas as hipóteses com que se executa um acto humano; para além de um espelho de um povo ele é essencialmente um espelho de nós próprios. É isto que faz um clássico ser um clássico. A obrigação de retornarmos sempre a ele e de nos vermos nele reflectidos.

Reparem no que ele escreve sobre a sua adolescência:

«Os pensamentos abstractos formam-se em consequência de que o ser humano tem capacidade de agarrar com a consciência, em certo momento, o estado de ânimo e de o transferir para a memória. A minha inclinação para raciocínios abstractos desenvolveu a minha consciência de modo tão antinatural que muitas vezes, começando a pensar numa coisa muito simples, entrava num ciclo vicioso de análise das minhas reflexões e, em vez de pensar no problema concreto, pensava no que estava a pensar. Perguntando a mim próprio: em que estou a pensar? - respondia: penso no que penso. E agora, em que estou a pensar? Penso que penso em que estou a pensar e assim por diante. Ficava tonto...» (pág.186)

Conde, portanto aristocrata, estudante brilhante e também dissoluto, religioso, frequentador de salões da elite russa do século XIX já em decadência, no início afastado do seu povo; nos meados e fim da sua vida, como sabemos, funda uma escola na sua aldeia com novos métodos pedagógicos (que ele bem conhecia), afastando-se definitivamente da Igreja e não vê necessidade da existência de um Estado. Obviamente, o Estado esquece-o e a Igreja ortodoxa excomunga-o. Sai de casa e torna-se um nómada caminhando incessantemente, de aldeia em aldeia, até falecer na sala de espera de uma estação. A escrever, dizem.

alc

quarta-feira, agosto 19, 2020

«Guerra e Paz», de Lev Tolstói

 Tolstói: “O vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera ...

O que dizer após uma leitura de «Guerra e Paz»? Um manancial de dúvidas se sobrepõe no seu final. Não as dúvidas elaboradas por Lev Tolstói, muitas do domínio metafísico com que encerrou a sua vida, nem pelo seu estranho epílogo em que interroga sobre o papel da História no desenvolvimento dos acontecimentos humanos, mas tão só pelos papéis de André, Pedro e de Karataiev, ou de Natacha e de Maria. Por mais que se leia e tente interpretar aquelas personagens nunca chegaremos a entender o seu papel determinante no decorrer da saga. Creio que esse facto é o que faz um verdadeiro romance. Serão todos alter egos de Tolstói? Escreveram-se páginas infindáveis sobre «Guerra e Paz» e, não me atrevendo a qualquer análise pequena que seja, aquilo que me vem à cabeça é que Tolstói dividiu a sua existência atribulada e contraditória nestas personagens bem reais com sentimentos múltiplos e diversos em que já passámos na nossa vida. É isso que faz a utilidade e unidade de um romance, se bem podemos expressar-nos desta maneira. E as imagens que «Guerra e Paz» nos dá! Um imperador da Rússia, imberbe, rancoroso, quase imbecil e permeável que se mostra da varanda do seu palácio comendo uma bolacha, acenando, e, endeusado por uma multidão, entusiasma-se de tal modo que, pedindo um prato cheio, as atira ao povo! André, quando é ferido gravemente em Austerlitz, olhando para o céu e para os campos, abandona-se a uma grande calma e plenitude, amando naquele instante a humanidade e a natureza. Também a imagem de Napoleão fugindo de Kotuzov que nem o chega a atacar frontalmente, de uma Moscovo destruída deixando as suas tropas para trás com todos os sofrimentos possíveis e este marechal, como uma raposa sabida, que contra todos os arrivistas, segue a sua própria estratégia de desgaste do inimigo e confia na sua Mãe-Rússia que expulsa os soldados franceses como um corpo estranho se tratasse. E Pedro, conde ilegítimo, herdeiro de uma imensa fortuna da nobreza que por fastio e aborrecimento o seu pai lhe deixa, e que encontra a felicidade no despojamento material, espiritual e também no segundo casamento com a ingénua Natacha, enquanto se comove com a sua própria filantropia para com os miseráveis camponeses russos, dando-lhes escolas, hospitais e abolindo as corveias que quase o arruínam. Admira-se quando estes, habituados à escravidão, o não compreendem. Maria, esse miasma criado por um pai absoluto, teocrata, que humilha a sua fé e que só se liberta casando (por conveniência? Nunca o saberemos.) com um Rostov, da grande nobreza já endividada, no início do século XIX.

Este mosaico de personagens é de uma riqueza impressionante só ao alcance de alguns. Não sei se acreditam na genialidade, mas gostava de ver o caixote de lixo de Tolstói e ver o quanto teve de trabalhar para chegar a este apuramento narrativo. Juntamente com questões mais comezinhas como esta e que me poderão responder: a) quem era Madame de Souza que é citada numa festa nobre de um salão? b) porque aparece várias vezes o nome de Conde Tolstói ou Ostermann-Tolstói como sendo um importante membro do conselho superior militar do imperador, Alexandre I, quase cinquenta anos antes de «Guerra e Paz»? Será este um ascendente do escritor?

António Luís Catarino

Atalaia, 19 de Agosto de 2020.