sexta-feira, junho 23, 2023

«Outono Alemão», Stig Dagerman

 

Antígona, 3ª ed. 2020. Tradução, introdução e apresentação de Júlio Henriques. Capa de Gonçalo Duarte

Stig Dagerman escreve este livro em 1947 com apenas 24 anos. Sueco, tem uma vida tramada
desde miúdo sendo educado por avós, já que nunca conheceu a mãe e o pai. Anarquista, extremamente humano, suicida-se contudo aos 31 anos, em 1954. Deixa vivas impressões nos seus livros acerca da existência da humanidade numa época de guerra e principalmente no pós-1945 quando se jurava a pés juntos que as guerras teriam acabado de vez. Algo me diz que Dagerman estava longe de acreditar nisto.

Não foi fácil certamente, para Stig Dagerman, escrever o que escreveu acerca de uma Alemanha derrotada, ocupada e violentada nos últimos dias do nazismo e após o suicídio de Hitler, Nuremberga e a desnazificação levada a cabo pelos vencedores. Isto em 1947, quando estava ao rubro o sentimento de ódio pelos alemães a quem acusavam de condescendência geral, quando não cumplicidade para com a violência e horrores nazis. Dagerman tenta compreender, percebe aqui e ali o que levou quase um povo inteiro a jurar lealdade até à morte a um Führer (não a uma constituição que o III Reich nunca teve) e o ter levado a declará-lo mesmo tendo sido obrigado nos últimos dias a defender uma pátria já exangue e em derrota total. Nos pequenos julgamentos de desnazificação realizados pelos ingleses e americanos aos colaboradores das SS, das SA ou do NDASP, estes não se arrependiam, pura e simplesmente diziam que tinham «jurado lealdade» pelo que não conheciam outra maneira de o evitar. Stig Dagerman adivinhou aqui uma das tragédias que assolaram o povo alemão, alguns culpados, outros nem tanto, outros (principalmente o peixe graúdo dos nazis) aproveitados para o funcionalismo da nova social-democracia e da democrata-critã CDU.

Júlio Henriques, num apontamento final sobre Stig Dagerman, dá-nos uma espécie de epitáfio escrito por este último, num esboço de um romance (O Viajante, de 1951): «Deixo simultaneamente sonhos imutáveis e ligações inconstantes. Deixo uma carreira promissora que simultaneamente me prometeu o desprezo por mim mesmo e a consideração geral. Deixo simultaneamente uma má reputação e a promessa de uma reputação ainda pior ainda. Deixo uma centenas de milhares de palavras, algumas escritas com prazer e a maior parte escritas com tédio e por dinheiro. Deixo uma situação financeira miserável, uma posição hesitante perante os problemas do nosso tempo, uma dúvida que já serviu mas de boa qualidade, e a esperança duma redenção. 
Levo, na minha viagem, um conhecimento inútil do globo uma leitura superficial das filosofias e da terceira via, um desejo de extinção e a esperança de uma redenção. Levo, ainda, um baralho de cartas, uma máquina de escrever e um amor desgraçado pela juventude europeia. E levo, finalmente, a visão duma pedra tumular que se ergue no deserto ou no fundo do mar com a seguinte inscrição: 

«Aqui jaz/um escritor sueco/que sucumbiu por nada/o seu crime: a inocência/esqueçam-no muitas vezes.»

Stig Dagerman não tem grandes ou nenhumas expectativas sobre a capacidade de a humanidade fazer o bem, principalmente quando esta se enquadra em instituições burguesas do Estado e do liberalismo capitalista. Sabe do que é capaz e nota-o no seu olhar perspicaz de jornalista e escritor quando conhece in loco a Alemanha após a II Guerra Mundial e o sofrimento do povo alemão, que teve  a ver mais com vingança inútil, como de rapina sem limites. Mais a mais, quando ele observou que essa mesma rapina e exploração atingia as classes mais desprotegidas e sem crimes nazis, enquanto os ricos e os membros do partido nazi se safavam e nada lhes faltava. É claro que na campanha eleitoral de 1946, na Alemanha, os partidos burgueses negavam veementemente a existência de luta de classes. Pudera...

Deixo aqui registado um dos trechos mais significativos e também mais dilacerantes de «Outono Alemão»: «Que distância haverá entre literatura e sofrimento? Será ela função da natureza do sofrimento, da sua intensidade ou do espaço que os separa? A obra literária estará mais próxima do sofrimento que causa o reflexo do fogo ou daquele que provém do próprio fogo? Exemplos imediatos, tanto no espaço como no tempo, mostram existir relações praticamente directas entre a literatura e o sofrimento remoto, fechado, sendo porventura possível afirmar que o facto de sofrer com os outros constitui uma forma de literatura ardentemente em busca das suas palavras.(...)». (pág.132)

Em cada linha de «Outono Alemão», Stig Dagerman partilha desse sofrimento, não tanto para com os alemães que eram, em última análise, os «culpados» de exercerem sofrimento aos outros povos dominados, mas pelo absurdo do sofrimento de homens, mulheres e crianças baseado na guerra em bombardeamentos a cidades onde a temperatura atingia os 1000 graus centígrados, na vida permanente em caves húmidas, na morte pela fome e tuberculose até meados dos anos 50, na prostração psíquica de seres humanos que viam os seus entes queridos, famílias inteiras a soçobrarem em menos de uma semana, a serem obrigadas a roubar, a matar inclusive, a prostituírem-se para sobreviver. Tudo isso, Dagerman observou, sentiu talvez como nenhum outro jornalista ou escritor da altura, também não isentos de culpa acerca da imagem que davam dos próprios alemães. É dele esta ideia transcrita em «Outono Alemão»: quando se pergunta a um alemão, ou alemã, com fome e desprovida de qualquer bem material ou de afecto, se vivia melhor no tempo de Hitler, a resposta provavelmente não seria aquela que o jornalista queria ouvir; mas é esse mesmo jornalista que vai escrever no seu artigo que o amor a Hitler ainda perdura na Alemanha!

domingo, junho 18, 2023

Estudos 10. Elfriede Jelinek


 

«Confissões de uma Máscara», Yukio Mishima

 


Livros do Brasil, ed. de bolso. Tradução e apresentação de António Mega Ferreira

Tradução a partir do inglês, tal como Mishima exigia quando não era possível fazê-lo directamente do japonês, de António Mega Ferreira cuja apresentação, quanto a mim, seria dispensável. Aliás, cada vez mais penso que toda e qualquer apresentação de um clássico como é «Confissões de uma Máscara» ou é acompanhada por dados novos e análises baseadas em factos seriamente estudados ou é inócua. Isto para todas as apresentações ou introduções, não estou a pensar particularmente nesta.

É um clássico que é um poema de amor. Não o amor entre um homem e uma mulher, embora também o seja, mas amor no sentido mais abrangente do conceito quer ocidental ou oriental. Aqui, não há lugar para ambiguidades. Um amor em tempo de guerra total, em tempo de Hiroshima e bombardeamentos constantes às cidades japonesas que fazem pensar na morte possível e omnipresente, que é o mesmo, segundo Mishima, de pensar numa vida possível: «Foi nesta época que aprendi a fumar e a beber. Quero dizer que aprendi a fingir que sabia fumar e beber. A guerra suscitara em nós uma maturidade estranhamente sentimental. Esse sentimento vinha-nos da sensação de que a vida podia terminar aos vinte anos; e nem sequer admitíamos que pudesse haver qualquer coisa para lá destes poucos anos que nos restavam(...)» (pág.116).

O amor é portanto, além da identificação e do carinho pelo outro, a necessidade de confronto com a conquista, com o poder,  saber exactamente os passos a dar como um libertino, mas sabendo que há o limite do desejo que no caso de uma mulher, Sonoko ou as prostitutas de um bordel, o conduzirá a uma espécie de impotência por falta dessa líbido em torno do feminino. Mishima é um homossexual e tenta perceber desde jovem o que é, num crescimento natural de entusiasmo e de uma postura recatada, não totalmente fugidia por obrigação social de que está apartado. A atracção física pelos colegas de liceu é descrita em «Confissões de uma Máscara» com um misto reconhecível da vergonha imposta pela família e pelos outros, pela sociedade em geral, ainda por cima eivada pelo militarismo nipónico, e, igualmente, por uma beleza assumida pelo corpo masculino. Atracção essa que levará Mishima a um verdadeiro culto do seu próprio corpo que muscula nas artes marciais até à sua morte trágica em 1970. «Desde que estava obcecado pela imagem de S. Sebastião que eu tinha o hábito de cruzar as mãos acima da cabeça, quando estava nu. Tinha um corpo magricelas, sem o mínimo reflexo da beleza luxuriante de Sebastião. Naquele momento, pus-me uma vez mais em pose, e, como por acaso, o olhar dirigiu-se para as minhas axilas. Foi então que um misteriosos desejo sexual despertou em mim.» (Pág.90).

A parte final do livro, quando ele se encontra com Sonoko, já no final da guerra e entretanto já casada com um funcionário de um Ministério, é de tal modo arrebatadora e de tão grande beleza literária que me escuso de a transcrever aqui porque perderia todo o sentido. Proponho-vos essa leitura.

segunda-feira, junho 12, 2023

«Cavalos em Fuga», Yukio Mishima

 


Livros do Brasil, Outubro de 2022. Tradução de Tânia Ganho

No Japão entre as duas guerras existiam dois fortes movimentos: um, de cariz «moderno» vinda da Era Meiji do século XIX, tentava alinhar pelo Ocidente e não perder o comboio do desenvolvimento e do progresso capitalistas; outro, claramente conservador, fazia alinhar as forças comummente chamadas de direita e extrema-direita com os valores entretanto perdidos da era dos samurais e do xogunato que pretendiam revivificar o carácter divino do imperador. 

Isao é a personagem que Mishima dá vida neste romance brutal e de uma grande beleza literária, onde poderemos ver algum fio autobiográfico, principalmente na questão dos valores defendidos em vida por Mishima e que o levará a fazer seppuku ritual filmado pelas televisões em 1970, após a tentativa falhada de exigir um levantamento militar que repusesse a antiga ordem política nipónica. Tal como Mishima, Isao em «Cavalos em Fuga» faz seppuku após assassinar Kurahara, o patrão dos patrões japoneses, que tudo corrompe inclusive dando dinheiro, secretamente, à jovem e pura Associação de Patriotas de que Isao era membro destacado e praticante de Kendo uma arte marcial dos samurais. Isao e os seus vinte jovens companheiros criam, a par com a legalizada Associação de Patriotas, uma clandestina Liga do Vento Divino (Kamikazé significa literalmente «vento divino») que glosava uma associação secreta do século XVII que era formada por samurais cujo objectivo era manter e defender o imperador contra todas as influências externas e estranhas à tradição milenar do Japão, budismo incluído.

Não devemos, contudo, menorizar ou reduzir o romance de Mishima, um autor excepcional que, talvez não por acaso, conheci e entusiasmei-me nos meus vinte anos, com um libelo da extrema-direita ou tradicionalista. Mishima está fortemente imbuído de uma forte ética do corpo e da mente e não é por acaso que o seu objecto de ódio se concentra sobretudo no capitalismo e no que ele representa de corrupção. Muito antes do assassinato pelo punhal do já citado Kurahara, Isao/Mishima traçava-lhe o perfil: «Um dos seus comentários mais conhecidos, citado por um jornal, denotava uma displicência que parecia cuidadosamente forjada: ''É claro que o grande índice de desempregados é desagradável. Mas é uma falácia tomá-lo automaticamente como sinónimo de uma economia frágil. O senso comum diz-nos que o contrário é que é verdade. Para haver bem-estar no Japão não é necessário que haja alegria na cozinha de toda a gente.'' Essas palavras suscitaram raiva e rancor e ficaram gravadas na mente das pessoas. 

A maldade de Kurahara era a de um intelecto que não tinha laços com o sangue nem com a terra natal. De qualquer maneira, embora Isao não soubesse nada sobre Kurahara enquanto indivíduo, a maldade dele era-lhe absolutamente clara.

Havia os burocratas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ansiosos por agradar a Inglaterra e à América, transbordando charme, capazes só de jogar a cartada da coqueteria. Os empresários, que fediam a lucro e a ganância, farejando o solo em busca do seu jantar, como gigantescos papa-formigas. Os políticos autotransformados em montes de corrupção. As cliques militares, tão encouraçadas com o culto do carreirismo que pareciam escaravelhos imobilizados. Os académicos, de óculos,  quais larvas brancas inchadas. Os especuladores, desejosos de explorar a Manchúria, a sua amada filha bastarda. E o próprio céu reflectia um panorama de pobreza, como cores de sol-nascente espalhadas pela terra. Kurahara era uma cartola de seda fria e preta colocada no meio desta lamentável paisagem. Sem o dizer, Kurahara desejava muitas mortes, ansiava por elas.» (pág.241)

Torna-se evidente ao longo da leitura deste romance que Isao tem o seu fim traçado. Torna-se um chefe carismático  da jovem Liga do Vento Divino, mas sabe interiormente que só ele terá forças para levar a cabo a tentativa de chamar o Japão ao caminho dos seus ancestrais. É traído pelo próprio pai, afasta-se de Makiko que o ama e que mente em tribunal para o salvar, é traído igualmente por membros do exército, é preso e levado a tribunal, sendo-lhe dado uma leve pena suspensa, cuja condescendência ele desconfia por ser tomado por militante de direita. Tem por garantido que se fosse de esquerda a pena pesada ou perpétua e a tortura seria uma realidade. No início do livro, Isao Iiunuma chega a invejar os estudantes universitários de extrema-esquerda pela sua postura diante da polícia. Portanto, para Isao, no final de tudo, compreende que o seu acto será solitário. Violento, mas solitário e necessário para redimir os ancestrais e os deuses insultados pelo dinheiro e pela corrupção ocidental.

Quanto ao livro existem páginas inesquecíveis como esta: «Enquanto os conduzia [aos seus companheiros] ao longo do carreiro que atravessava os campos, Isao reparou nos vestígios carbonizados de um incêndio que não estavam ali na véspera. as cinzas finas de palha queimada tinham deixado um padrão cinzento no trilho, mas no sítio onde se concentravam num sulco eram pretas retintas. Esse negro misturava-se com o vermelho da argila de uma maneira que cativava Isao. Estranhamente, não foi a mistura de cinza e uns quantos restos de palha fresca que suscitaram pensamentos sobre o incêndio fulgurante no seu auge, mas sim o sulco negro esmagado por uma roda. O vermelho intenso e bárbaro das chamas, o preto forte do sulco: eis a expressão perfeita, o perfeito contraste. Ser ateado e, depois, extinto com os pés: ambos tinham o mesmo poder vívido. A associação que tudo isto provocou na mente de Isao foi, obviamente, o espectro da revolta.» (págs. 268,269)

domingo, junho 04, 2023

Estudos 9. Robert Walser

 

Robert Walser. Aguarela e tinta-da-china

«Petite Prose», Robert Walser


Éditions Zoé, 2009. Trad. do alemão para francês de Marion Graf
«Petite Prose», publicado em 1917, corresponde ao período em que Robert Walser vivia em Bienne e é considerado um dos livros mais importantes e característicos da sua obra. São vinte e um textos maravilhosos, de uma finíssima ironia, em que alterna a autobiografia e a ficção. As personagens, muitas vezes, são mesmo reais (Luisa Schweizer «Louise», Rosa Schätzle «Rosa», Franz Blei, e outros) mas colocando-as em situações fictícias, desenvolvndo uma narrativa atravessada por uma ironia por vezes cáustica, outra vezes de uma tristeza ou euforia invulgares. Quanto mais se conhece Robert Walser, mais se quer saber. Quanto a este livro ele é publicado tinha Walser já 40 anos e as personagens que ele criou nas suas pequenas narrativas eram ainda vivas. Há quem explique esta «demora» em publicar, mas o escritor era completamente alheio, ou mesmo adverso, a qualquer carreira literária. Parece que o seu irmão mais velho, pintor de renome, Karl Walser, terá sido o responsável por o apresentar a editores suíços, já que a guerra o tinha impedido de viver em Berlim onde já escrevia para alguns jornais e editado pequenos poemas. Contudo, creio que não se pode ver os trabalhos de Walser à luz de um trajecto normal de um escritor. Foi internado durante perto de 20 anos no hospício de Herisau e nessa ocasião não publicou absolutamente nada, dedicando-se a escrever, a lápis, autênticos quebra-cabeças em pequenos textos que levaram anos a decifrar. Pouco importa para o caso. A escrita de Robert Walser é luminosa e o que nos deixou basta para sabermos de que é feita a sua poesia, tenha ela o formato que tiver.

«Basta

Je suis né à telle et telle date, j'ai grandi `tel et tel endroit, j'ai fréquenté l'école comme il se doit, je suis ceci et cela et m'appelle tel et tel, et je ne réfléchis pas beacoup. Rapport au sexe je suis un homme, rapport à l'État, je suis un bon citoyen et pour ce qui est du rang, j'appartiens à la bonne société. Je suis un membre propret, tranquille et sympathique de la société humaine, ce qu'on appelle un bon citoyen, j'aime boire ma bière avec raison et je ne pense pas beaucoup. Évidemment, j'aime surtout bien manger, et tout aussi évidemment, je suis loin d'avoir des idées. Loin de moi toute réflexion pointue; loin de moi d'avoir des idées, et c'est pour cela que je suis un bon citoyen, car un bon citoyen ne réfléchit pas beaucoup. Un bon citoyen mange sa soupe, et basta! (...)» (págs. 65/66).

sábado, junho 03, 2023

«Morte a Crédito», Louis-Ferdinand Céline

 

Livros do Brasil, 2023. Tradução de Luiza Neto Jorge
Escrever mais sobre Céline quando poderá estar tudo escrito sobre ele? A questão que coloco é qual a verdadeira razão de se voltar à sua leitura, se não pela paleta que Céline nos mostra sobre a realidade humana, bem testemunhada pela sacanice, invejas, violências várias e constante repugnância pelos outros? Principalmente, Céline sabe do que fala e atira-nos à cara o que ela, a humanidade, tem de pior. Sabe-se o que o autor foi e os «estudos» que dele se faz e da sua literatura não é menos responsável pelos lugares-comuns que lhe foram atribuídos e que me recuso a dar eco aqui. Não é pois novidade a personalidade muito particular de Céline, sem dúvida, mas o libelo antimilitarista e anti-bélico está inteiramente presente no que escreve e o mesmo se passa sobre o desprezo que nutre face à burguesia rapace e hipócrita, seja ela de pequena ou grande dimensão. 

«Morte a Crédito» foi escrito em 1936, quatro anos após a publicação da «Viagem ao Fim da Noite». Nessa ocasião, antes da II Guerra Mundial, Louis-Ferdinand Céline era considerado um homem de esquerda, premiado e convidado pela intellentsia das letras francesas para palestras sobre o seu modo muito particular de escrever, comparando-o inclusive a Rabelais devido ao seu argot cáustico e irónico. Depois foi o que se viu com a colaboração com os alemães, embora nos seus romances nada sobressaia desse mesmo apoio. Digo romances, não os célebres panfletos ainda hoje proibidos de publicar em França e que o levaram à maldição e ao ostracismo a partir de 1945

De qualquer maneira, este romance editado pela Livros do Brasil, em Fevereiro de 2023, tem uma tão difícil como excelente tradução de Luiza Neto Jorge, o que lhe acrescenta um valor inquestionável. A mesma poeta também esteve na base da tradução, nos anos 80, de uma edição publicada pela Assírio & Alvim. Paradoxalmente, a trama de «Morte a Crédito» passa-se antes da «Viagem...». Não sendo consideradas obras totalmente autobiográficas, esta última descreve a sua vida terrível na frente da guerra de 1914/18 e a recuperação dos ferimentos sofridos, acrescentando as viagens que o autor faz à América e ao Congo juntando, no final, a sua experiência de Paris, também como médico e frequentador de bares soturnos. Já em «Morte a Crédito» realça-se a sua vida antes de se juntar ao corpo militar francês que combateu contra a Alemanha. A conclusão do livro é de uma ternura imensa (a conversa mantida com um Ferdinand exausto perante um tio que é o único a compreender os seus azares e insociabilidade constantes) contrastando com a violência imprimida durante toda a narrativa e que descreve um ambiente familiar de cortar à faca com o pai que o agredia violentamente e uma mãe doente, queixosa e que era igualmente vítima das frustrações paternas. Nada disto, contudo, será comparado aos trabalhos verdadeiramente indignos a que se sujeitou para sobreviver, para «ganhar a côdea»,  ou a perspectiva de um amor quase sempre fugaz. Alguns momentos há que são de cunho surrealista como aquele em que com os De Pereires, em fuga de Paris por imensos calotes e dívidas, cria uma quinta pedagógica para ser criada uma «Nova Raça»; claro que esta «nova raça» não fez mais do que passar fome e frio, roubar e assaltar todas as quintas limítrofes ao «falanstério» e que se viu, subitamente, fechado pela polícia e com o seu responsável a suicidar-se com uma caçadeira. Não deixo de considerar esta «experiência» tão ironicamente relatada como uma metáfora inesquecível no campo literário sobre as ideologias assentes na criação de «novas raças» europeias que floresciam desde o final do século XIX e inícios do século XX e cujas consequências horríveis se vieram a dar-se na II Guerra Mundial. 

Céline é um clássico incontornável.

domingo, maio 28, 2023

«24/7», de Jonathan Crary

 

Antígona, 2018. Tradução de Nuno Quintas
O título do livro de Jonathan Crary, professor de História de Arte na Universidade da Columbia e editor da Zone Books, tem um significado: é o objectivo do capitalismo, dos muitos que tem, em apoderar-se de que ainda não foi capaz - não por incompetência, mas por falta de mais tempo que entretanto já domina - a saber o nosso sono. Aliás, o sub-título é revelador: «O capitalismo tardio e os fins do sono». A partir daqui entendemos que 24/7 refere-se a 24 horas, a 7 dias da semana. O trabalho transformar-se-á num continuum absoluto, não desligável de qualquer aparelho tecnológico, a lógica da separação relativamente ao Outro torna-se inquestionável, a luz permanece em todos os lugares (o silêncio já não mora aqui no planeta, já que se assenhoreou completamente de espaços públicos e privados, como sabemos), a paz e o bem-estar é a novilíngua orwelliana, enquanto as massas clamam por guerra «defensiva», a pobreza alastra para zonas nunca antes afectadas e a crise climática vende-se com ainda mais extractivismo que nos leva, radiosos, para o fim de uma era inigualável e irrepetível por exaustão. 

As previsões distópicas de Joanathan Crary não são improváveis de se verificarem num futuro próximo. Provavelmente poderemos classificá-las como muito pessimistas, até porque no decorrer do seu ensaio transmite-nos a sua perplexidade face aos optimistas que acham sempre que o capitalismo superará a queda anunciada do planeta sempre com novas tecnologias. Até falharem ou serem de todo inúteis. Mas se analisarmos bem a história deste sistema, desde o século XIX até hoje, vemos que este tem tido êxitos sobre êxitos ao ganhar o ar, a água, a terra, os corpos, as florestas, as trocas, as comunidades, com uma violência que só os mais distraídos, ou os indefectíveis, não observam. Ora, Jonathan Crary parte do princípio muito aceitável que este sistema chegará a um patamar não reformável. O autor explica melhor ao que vem na última Electra 20 em entrevista a Afonso Dias Ramos. Vale a pena lê-la até porque se perfila a continuidade da sequela iniciada com 24/7 com «Terra Queimada» ainda não traduzido entre nós. Vejamos alguns trechos de 24/7:

«Quem tenha vivido na costa oeste da América do Norte talvez saiba que, todos os anos, centenas de espécies de aves fazem a migração sazonal para norte e para sul, percorrendo várias distâncias ao longo dessa plataforma continental. Uma dessas espécies é o pardal-de-coroa-branca. No Outono, a sua rota leva-o do Alasca ao Norte do México e, na Primavera, de regresso ao Norte. Ao contrário da maioria das aves, este pardal tem uma capacidade altamente invulgar, durante as migrações, de ficar acordado durante sete dias. Tal comportamento sazonal permite-lhe voar e navegar à noite e procurar alimento durante o dia sem descansar. Nos últimos cinco anos, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América gastou copiosas somas no estudo destas criaturas. Em diferentes universidades, sobretudo em Madison, no Wisconsin, investigadores com financiamento público têm estudado a actividade cerebral das aves durante os longos períodos em que não dormem, na esperança de ganharem conhecimento que possa aplicar-se aos seres humanos. O intuito é descobrir como as pessoas podem não dormir e, além disso, funcionar com produtividade e eficiência. O objectivo primordial é, pura e simplesmente, criar o soldado insone, e o projecto de estudo do pardal-de-coroa-branca é só pequena parte de um grande esforço militar para conseguir um domínio, mesmo que estrito, do sono humano.(...)» Págs. 9 e 10. Devo aqui apontar o departamento de que fala o autor: é o DARPA, acrónimo inglês de Agência de Projectos Avançados de Investigação em Defesa,

Depois de nos apresentar casos concretos da viabilidade deste estudo ainda somente aplicado à Defesa, começamos a entender que o capitalismo, desde sempre, não se contentou em trilhos para aumentar a produtividade contínua. isso sempre o fez. O projecto mais louco de todos parece ser o que juntou os EUA, Rússia, China e Europa na construção de um enorme satélite cujo fim seria enviar a luz do sol para a parte coberta pela noite no planeta, de modo a ser possível «poupar» na electricidade! Até agora todas as tentativas falharam, mas mostram bem que estão longe de desistirem no desejo de nos fazerem zombies. O que agora se pretende é exercer um domínio totalitário sobre o sono humano de modo a estarmos psicologicamente e fisicamente disponíveis para o trabalho contínuo a todas as horas do dia e da semana. Até poderemos ter os quatro dias de trabalho semanal, porque, paradoxalmente, antes de ser implantado já está obsolescente! No final, Jonathan Crary observa em 24/7:

«Hoje, no século XXI, o desassossego no sono apresenta uma relação mais conturbada com o futuro. Situado algures no limiar entre o social e o natural, o sono assegura a presença nos padrões faseados e cíclicos essenciais à vida e incompatíveis com o capitalismo. É preciso ler a sua persistência anómala numa relação com a destruição em curso dos processos que sustentam a existência no planeta. Não podendo o capitalismo restringir-se a si próprio, a ideia de preservação ou conservação é uma possibilidade sistémica. É neste contexto que a inércia restauradora do sono contraria a imortalidade de toda a acumulação, financeirização e desperdício que arrasou tudo aquilo que se tinha por comum. Hoje só um sonho suplanta todos os outros: o de um mundo partilhado cujo destino não é terminal, um mundo sem multimilionários, com um futuro que não o do barbarismo ou do pós-humano, e no qual a história possa assumir formas outras, para lá dos pesadelos reificados da catástrofe.(...)». Págs. 132 e 133.

sábado, maio 27, 2023

Estudos 8, Céline

 

Trabalho em progresso: Louis-Ferdinand Céline. Tinta-da-china e aguarela

"Viagem ao Fim da Noite", Louis-Ferdinand Céline


Edição da Ulisseia, Babel. Tradução de Aníbal Fernandes. Capa de Henrique Cayatte 2014. 6' edição 

Voltar sempre a Céline, pois.

« - Tens assim tanto medo?
- Mais do que isso, Lola. Tanto medo, vê bem, que se eu morrer mais tarde de morte natural, o que acima de tudo não quero é que me queimem! Gostaria que me deixassem na terra, a apodrecer no cemitério tranquilamente e pronto a reviver talvez. nunca se sabe! Ao passo que queimado até às cinzas, Lola, tudo está acabado e bem acabado, compreendes?... Apesar de tudo um esqueleto ainda se parece alguma coisa com um homem...Está sempre mais apto a reviver do que as cinzas...As cinzas...acabou-se O que dizes tu?...E nesse caso a guerra...
- Oh! És de facto um grande cobarde, Ferdinand! Tão repugnante como um rato...
- Sim, de facto um grande cobarde, Lola, recuso a guerra e tudo o que tem dentro...Não a lamento...Não me resigno...Não choramingo por minha causa...Recuso-a por inteiro, com todos os homens que ela contém, não quero nada com eles nem com ela. Fossem novecentos e noventa e cinco milhões de um lado e eu do outro, não teriam razão, Lola, quem tem razão sou eu porque só eu sei o que quero: não quero morrer.
- Mas é impossível recusar a guerra, Ferdinand! Só os loucos e os cobardes recusam a guerra quando a sua Pátria está em perigo...
- Então vivam os loucos e os cobardes! Ou antes, sobrevivam os loucos e os cobardes! Recordas um só nome, Lola, de um dos soldados mortos durante a Guerra dos Cem Anos?...Alguma vez tentaste conhecer um só desses nomes?...Não, por certo...Nunca tentaste? Para ti também são anónimos, indiferentes e mais desconhecidos do que o último átomo deste pisa-papéis aqui à nossa frente, ou a tua torrada matinal...Vê lá tu como morreram para nada, Lola! Para absolutamente nada, esses cretinos! Afirmo-o! A prova está tirada! Só a vida conta. Aposto que esta guerra, tão importante como nos parece, daqui a dez mil anos estará completamente esquecida...Haverá uma dúzia de eruditos, quando muito, a brigarem aqui e além por causa dela e a propósito das datas das principais hecatombes que a ilustraram...E é tudo o que os homens até este momento conseguiram encontrar de memorável a respeito dos outros, a alguns séculos, a alguns anos e até a algumas horas de distância...Não acredito no futuro, Lola...»
Págs. 72 e 73

«Eu tinha o hábito e até mesmo o gosto destas íntimas e meticulosas observações. Por exemplo, quando nos detemos no modo como são formadas ou proferidas as palavras, as nossas frases não resistem lá muito ao desastre do seu cenário baboso. Mais complicado e aflitivo do que a defecação é o esforço mecânico da conversa. A corola de carne entumecida, a boca que se convulsiona a soprar aspira e debate-se expele toda a espécie de sons viscosos através da barragem pestilenta da cárie dentária, que castigo! No entanto, aí está o que nos exortam a transpor em ideal. É difícil. Como não passamos de recintos com tripas mornas e quase apodrecidas, havemos sempre de ter dificuldades com o sentimento. Estarmos apaixonados não é nada, mantermo-nos os dois juntos é que é difícil. A imundície, essa, não procura resistir nem desenvolver-se. Aqui, neste ponto, somos bem mais infelizes do que a merda; no nosso estado, a fúria de preservação constitui uma tortura incrível.
Decididamente, não adoramos nada mais divino do que o nosso cheiro. Toda a nossa infelicidade resulta de termos de continuar a ser Jean, Pierre ou Gaston, custe o que custar e durante um ror de anos. Este corpo, fantasia carnavalesca de moléculas excitadas e banais, a todo o instante se revolta contra a farsa atroz da sobrevivência. As nossas moléculas, essas queridas, querem dispersar-se o mais possível pelo universo! Sofrem por só terem de ser «nós», cornos de infinito. Explodiríamos se tivéssemos coragem, apenas falhamos, dia após dia. Atómica, a nossa adorada tortura encerra-se com o orgulho ali, na nossa própria pele.»
Págs. 311 e 312


terça-feira, maio 23, 2023

Helena

 


Helena Topa deu-me a conhecer a austríaca Elfriede Jelinek e, por sua sugestão e de Bruno Monteiro, vim a editar pela Deriva, em 2014, «Manual de Sabotagem», hoje esgotado. Foi uma edição bilingue e revista aqui e ali por si, visto que era uma extraordinária tradutora da língua alemã. Faleceu ontem, de doença não tão prolongada assim, visto que surpreendeu muita gente que a conhecia e que de algum modo contactou com ela. Ficou a sua vasta obra em inúmeras traduções tais como de Thomas Mann, Peter Handke, Giorg Simmel, Stephan Zweig, Anne Weber, Günther Grass, Herta Müller, Ingeborg Bachmann e a já citada Elfriede Jelinek, entre muitos outros. Ainda mal refeito da morte de uma autora maior, esta notícia pairou sobre mim como um choque difícil de ultrapassar. Fará muita falta o seu rigor profissional e o seu empenho nas lutas cívicas LGBT que protagonizava. As sementes ficaram.

Eduarda

 

A Eduarda empreendeu a viagem que nunca esperamos. No caso dela, sinto a sua morte como um choque tremendo que noutros casos de amigos não senti, assim, tão violento. Acho injusto. Quase inverosímil e, provavelmente é-o, para pessoas que deixaram o rasto que ela deixou nas lutas que empreendeu e no que escreveu ou pintou. Prometi não fazer epitáfios, mas exige-o neste momento de dor, incompreensão pela finitude, mesmo que saibamos todos ser inevitável e por uma questão de ser impossível a sua substituição. A Diana, a menina reguila que conheci como criança vai levar adiante o trabalho da mãe, tal como o do avô. É gente de fibra.

A Eduarda tinha tanto de afável como de mau feitio e isto é sempre um elogio para as fortes convicções que ela apresentava. Este último, nos anos 90, quando tentávamos no PSR organizar a luta por um sindicalismo docente renovado, fora da modorra política, que os burocratas lhe imprimiam na Fenprof, era o que mais se fazia sentir. Acredito que lhe faltava a paciência para a negociação de listas de oposição sindical ou participar em jogos palacianos. Interessava-lhe muito mais a base, as decisões de base, legitimadas por assembleias livres. Aconteceu isso em 93 no encontro alternativo de Buarcos mas com êxito relativo, por falta de constituição de uma corrente revolucionária na classe docente. Quanto à literatura e pintura, a  Eduarda transformava-se e entusiasmo transbordava nela e quantos a rodeavam. Não concebia qualquer elitismo literário ou artístico, tão comum nos meios da cultura. Ela era assim. Só uma única vez a vi irritada quando lhe dissemos que os seus livros, que líamos sempre, retratavam de facto uma geração e que necessariamente influenciariam outras que viessem. Na ocasião, rebateu ponto por ponto os elogios (não eram somente elogios) falando do comércio livreiro e editorial como um empecilho que estava, já no final dos anos 80 e, depois, nos 90, a vender-se à cultura anglo-saxónica, em detrimento da nossa. A normalização ocidental, europeia, em marcha, pois. Que ela não deixou de registar e denunciar. A Revolução em ponto morto até fazer marcha atrás com o cavaquismo. Aprendi muito com a Eduarda.

Nestas ocasiões uma pessoa não deve falar de si. Mas, subitamente, a morte de Eduarda Dionísio veio calar fundo. Com força. Lembrei-me da Rua da Palma, do PSR e da força da esquerda alternativa em crescimento no início dos anos 90. A luta contra os skinheads que assassinaram cobardemente José Carvalho. A importância crescente do jornal Combate onde a Eduarda Dionísio participou activamente. E cada vez que, por motivos políticos e partidários, eu chegava a Lisboa, lá se juntava um grupo inteiramente informal onde pontificava o Carlos Prazeres Ferreira, a Guida, o Juba, o Zuzarte, a Eduarda e o Maçarico, seu companheiro. As noites, então, prolongavam-se. Nas férias grandes, em Melides, lá íamos à casa do Prazeres Ferreira ou do Zuzarte e repetiam-se as longas conversas, o desfilar de memórias, os projetos individuais e colectivos, os almoços magníficos e intermináveis. 

Penso, com esta viagem inesperada da Eduarda, que nenhum destes amigos que referi neste grupo se encontra já entre nós. Por isso, hoje, sinto-me bastante sozinho. A Eduarda Dionísio tornar-se-á uma referência para qualquer inconformista que ainda pense que a transformação social e cultural se fará sempre por revoluções cada vez mais prementes. Ela deixou um caminho válido e isso é que importa.

Até breve, Eduarda Dionísio.

sexta-feira, maio 12, 2023

«Guerra», Louis-Ferdinand Céline

 

Livros do Brasil, 2023. Tradução de Diogo Paiva
Obra póstuma sob a responsabilidade de Pascal Fouché e prefaciada por François Gibault, saiu em 2022 pela Gallimard não sem algumas peripécias. Este manuscrito foi encontrado entre os papéis perdidos, ou melhor, confiscados pelas autoridades francesas no pós-libertação de 1945 e, ao que parece, seria a continuação do «Três em Pipa» que narra o ferimento grave que assolou o primeiro-sargento Louis Destouches (o nome verdadeiro de Céline) na frente de guerra de 1914-18 e posterior internamento no hospital militar de Hazebrouck. O manuscrito encontrava-se entre os papéis de Lucette Almansor, a segunda mulher de Céline, e bastante incompleto. Aliás, segundo aquela, o escritor tentou reaver a obra sem sucesso até desistir de o conseguir. Como sabemos, morre em 1961, sob o opróbrio geral sem que alguma vez tenha conseguido completá-lo. Não me cabe a mim afirmar o mérito ou demérito desta edição, ou mesmo da sua legitimidade, mas consegue-se vislumbrar um registo límpido do argot tão característico de Céline, a que se junta não só a ironia como a violência perante o horror da guerra e da ideia assassina de nação. Para além de tudo, o prefácio de Gibaut é, no mínimo, polémico quando parte do princípio que «Guerra» seria uma biografia e não um romance ou a continuação de um outro romance. Ou seja, se neste livro há elementos claros de um registo biográfico caro ao escritor, também é verdade que Céline utiliza as personagens que ele conheceu realmente para construir uma narrativa terrível onde o odor pestilento da guerra que transforma tudo e todos e que as levam a comportamentos bizarros e de algum modo decadentes. Daí, a afirmar que Céline mentiu, ou que foi injurioso para com elas, ou é má fé ou ignorância. Ainda não vi melhor prefácio sobre o autor do que aquele que foi escrito por Aníbal Fernandes para a 6ª edição portuguesa de «Viagem ao Fim da Noite», da Ulisseia, em 2014. Tirando estes factos, alguns burlescos, sobre a quem pertenceriam os direitos de herança dos manuscritos roubados a Céline e de que ele fez uma lista (este manuscrito estava listado por ele) quando da sua prisão numa fortaleza na Dinamarca entre 1945 e 1951, sabe-se que haverá mais talvez nas mãos de Lucette Almansor ou filhos e que isso o perturbava muito. Mas que poderia ele fazer quando se encontrava em pleno ostracismo numa espécie de prisão domiciliária na vila de Meuton a tratar dos seus cães e de um papagaio, sem sequer ter acesso aos seus netos e filha? «Rien...»

«Há que admitir que a partir desse momento [a atribuição de uma medalha por bravura em combate pelo General Joffre] as coisas ficaram bem porreiras e fantásticas. Em torno de nós soprou uma grande aragem imaginativa. Tive mesmo uma coragem suprema, deixei-me levar, posso dizê-lo. Não cedi à surpresa que me teria mantido tão imbecil como antes a mamar desgraças e apenas desgraças porque era só o que conhecia desde que fui educado pelos meus bons pais, e aliás desgraças bem penosas, bem estafantes, bem transpiradas. Não conseguia acreditar na feira inventiva na qual me pediam que montasse num cavalinho de madeira, todo equipado de mentiras e veludos. podia ter recusado. Não recusei.
Alto!, disse eu para mim, o vento sopra, Ferdinand, emparelha a tua galé, deixa os idiotas na merda, deixa-te levar, não acredites em mais nada. Estás todo partido em mais que dois terços, mas com o bocadinho que te sobra ainda vais espairecer, deixa que o aquilão favorável sopre sobre ti. Durmas ou não durmas, cambaleia, fornica, vacila, vomita, espuma-te, cobre-te de pústulas, põe-te febril, esmaga, trai, não te preocupes, é tudo uma questão de vento que sopra, nunca serás tão cruel e aldrabão como o resto do mundo. Em frente, é tudo o que te é pedido, tens medalha, és belo. Na batalha dos paspalhos estás finalmente a ganhar com grande avanço, tens a tua fanfarra particular na cabeça, tens a gangrena a meio, é claro que estás podre, mas viste o campo de batalha onde não se condecoram os cadáveres e tu, sim, foste condecorado, não o esqueças ou não passarás de um ingrato, o vomitado desnorteado, a escumalha de cu baboso, vales mais do que o papel com que te limpas.» (pág.78)

segunda-feira, maio 08, 2023

«Escritos Africanos», de Annemarie Schwarzenbach e «Revisitar Annemarie Schwarzenbach» de Gonçalo Vilas-Boas

 

Relógio D'Água, 2023. Selecção e prefácio de Gonçalo Vilas-Boas e tradução (do alemão) de Maria Antónia Amarante

Deriva Editores e Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (FLUP), 2015. Gonçalo Vilas-Boas. Ilustrações e capa de Rita Roque

«Conheci» Annemarie Schwarzenbach através de Gonçalo Vilas-Boas quando existia a parceria Deriva Editores/Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, de que este era um dos responsáveis. Hoje, e antes de falar de uma autora que me prendeu, estão disponíveis na Relógio D'Água alguns livros dela traduzidos em grande parte por aquele professor. São eles: «Todos os Caminhos Estão Abertos» com tradução de Miguel Serras Pereira, «Inverno no Próximo Oriente», «Com Esta Chuva», «Ver Uma Mulher» e agora o interessantíssimo «Escritos Africanos», uma súmula de escritos que ela fez no Congo e com passagem por Portugal. Entretanto a Granito tinha editado «Novela Lírica» com prefácio de Vilas-Boas, tradução de Lídia Barros e revisão de Ana Luísa Amaral, isto em 2002; a Tinta-da-China editou-lhe, em 2008, «Morte na Pérsia», com tradução de Isabel Castro Silva. Esperemos outros que estejam a ser trabalhados para publicação.

Annemarie Schwarzenbach não é aquilo que chamamos vulgarmente como uma escritora fácil. Por vezes contraditória, introspectiva, algo frágil, violentamente teimosa para o que considerava essencial para a sua consciência, morfinómana, bissexual, «ovelha negra» de uma família suíça com simpatias nazis e muito rica, expulsa de casa pela mãe que quase a renegou, e, além disso, antifascista. Foi jornalista e fotógrafa tendo um espólio de perto de oitocentas fotografias que registou nas suas inúmeras viagens por todo o mundo.

Estes «Escritos Africanos» não vivem só de África, embora centrados no Congo ex-Belga, hoje Zaire. Para lá chegar em 1941, em plena II Guerra Mundial, teve de passar em Lisboa vinda dos EUA onde foi internada num hospital psiquiátrico e expulsa devido a uns chamados então «escândalos» com a não menos escandalosa menina von Opel. Vê-se, então, numa capital portuguesa que ela acha, nada menos, como idílica. Dê-se-lhe o devido desconto ao estarmos em plena guerra pois a cidade estava literalmente ocupada por espiões, oportunistas, milhares de refugiados em trânsito e em busca de um simples visto de saída, o que dava a Lisboa um ar de cosmopolitismo que de todo não tinha, se não fosse a situação política mundial. Além disso, também mal vista no seu país pela família e impedida de lá permanecer muito tempo, escolheu a «neutralidade» fictícia de Portugal. Teve tudo para ser bem recebida aqui. António Ferro conheceu-a e congratulou-se com a sua estadia por Lisboa, escrevendo então ao embaixador suíço (as nossas exportações para lá, quase decuplicaram em período de guerra, transformando igualmente os portos de Lisboa e Leixões como portos abertos suíços para todo o mundo) que o governo português veria com bons olhos que ela fosse a correspondente de jornais suíços por cá. Talvez seja essa a razão ao ver, com alguma surpresa para o comum dos portugueses, em alguns dos seus escritos jornalísticos, uma toada laudatória para com Salazar (que o não considera fascista, embora tenha referido a existência de violência por parte da polícia política ou a enorme pobreza das pessoas) ou para com o Mocidade Portuguesa, nomeadamente a feminina. No entanto, quando se debruça sobre a política do burgo, este registo literário não é o habitual nela. É pura propaganda política dir-se-ia saído directamente do gabinete de António Ferro. Teria sido propositado por parte da escritora? O que sabemos é que em viagem para o Congo era necessário um visto dado em Portugal e em conexão com a Bélgica entretanto ocupada pelos alemães, para além de uma escala obrigatória em Luanda para voltar num barco português.

Em 1941, Annemarie Schwarzenbach vê-se a partir de Lisboa rumo ao Congo fazendo escala na Madeira, nas Canárias e em S. Tomé num navio português: O Colonial. Chega ao Congo, na então Leopoldville e choca-se não só com o clima, mas com a população branca que lá está para extrair o máximo de lucro à custa de «dar» ao povo congolês uma miséria endémica e uma repressão brutal. Tem aqui em «Escritos Africanos» um libelo claro e violento para com o colonialismo. As autoridades fazem-lhe a folha: caluniam-na em privado e em público quer com a sua vida privada, quer com a sua vida pública (perdoe-se a repetição), dando a entender que seria uma espia ao serviço dos nazis devido ao seu estranho casamento com um diplomata francês de Vichy e de que ela se encontrava separada. Além disso, fala e escreve fluentemente alemão. O seu manuscrito de Das Wunder des Baums, ainda não editado em português, está nesta língua e em tempo de guerra, para mais com administração colonial de De Gaulle por parte da «França Livre», tudo serve para eclodir a desconfiança para com Schwarzenbach e, por fim, é convidada a sair do país levando o manuscrito considerado ainda assim injurioso para com os resistentes. Parte então, subindo o rio Congo (o principal livro de Conrad estará presente nesta aventura), para as montanhas e escreve isolada durante algum tempo. Tem apoio de poucos amigos e os que sempre estiveram com ela, como Klaus Mann, afastam-se devido à sua adição à morfina. No entanto, Ella Maillart continua sua amiga até ao fim escrevendo sobre ela (terá o nome de Christine) em «A Vida Cruel».

Annemarie Schwarzenbach tem uma vida extraordinária embora inconstante e errática e é isso que nos aproxima dela e das sua longas viagens. Em pleno estado de guerra, com perigos iminentes, vai juntamente com Ella Maillart a Cabul (ela encontra-se lá quando o conflito estala), passando por Teerão, Damasco e a Síria, Bagdade e Iraque, o Próximo Oriente, incluindo o Líbano e conhece a Turquia. Conheceu Moscovo em 1934 no Congresso de Escritores e criticou duramente aspectos sociais e o racismo nos EUA. Escreve pouco sobre a sua terra natal (aborda-a em O Vale Feliz) e muito sobre si e a sua relação com os outros e com o mundo. Quando se preparava para voltar a Portugal para assumir o cargo de correspondente de jornais suíços, e numa ida fugaz a Zurique, morre num acidente de bicicleta. Estávamos em 1942 e ainda faltavam alguns anos para ver as «forças do mal» serem derrotadas pelos Aliados que, provavelmente, nunca confiaram nela.

Depois de ter percorrido alguns passos de Annemarie Schwarzenbach, arrisco-me a apresentar-vos um extracto de um conto estranhíssimo (movido pela morfina e pelo isolamento nas montanhas do Congo?). Chama-se «A Cratera dos Animais»:

«Pensas, talvez, que o esqueci, pois dentro em breve terão passado quatro meses desde que me falaste do assunto e eu prometi trazer-te um casal dos teus animais favoritos. Acho que era uma espécie de pequenos leões-marinhos ou porcos-do-mar, e claro que se tratava apenas de uma brincadeira e de uma forma de me aligeirar a despedida. Mas já antes ouvira falar de porcos-do-mar, foi alguém que se queria deitar ao lado deles em bancos de areia, numa ilha com um sol de verão e um vento salgado, vindo do mar. Quando relembro isto, oiço sempre o sussurrar da palha e vejo a sua cabeleira amarela e um céu alto, magnífico. Aí a noite demorava a cair, mesmo depois de o sol se pôr e de uma leve neblina se espalhar sobre os prados; porém, o ar era azul-claro e límpido e a cor azul expandia-se para todo o lado. Ainda sei como era fácil respirar fundo, como se estivéssemos cheios de esperanças, e regressávamos ao luar pela larga estrada entre os recintos relvados, cada vez mais pequenos, e as casas brancas nos jardins cheios de roseiras bravas, e ficávamos ainda durante muito tempo sentados em redor da fogueira.
Aqui, em África, nunca se fala em estações do ano e, no entanto, também é verão, os dias despontam e desvanecem-se e é preciso sobreviver-lhes como em toda a parte do mundo. Mas só raramente se recorre à língua e se eu fizesse uma pergunta, por exemplo sobre a cratera dos animais, ninguém me entenderia. Às vezes, julgo que eu própria me modifiquei. Esqueci-me de muita coisa, perdi palavras e nomes, ou digo-os em voz alta e soam a oco. É como se no Congo se falasse de inverno e deverão em vez de chuva e seca. É como se se tivesse perdido o ouvido, como se se andasse cegamente às voltas de olhos abertos, como se já nada se soubesse de outras atmosferas e se lutasse apenas pelo próximo palmo de vida num círculo de sombras. (...)» Págs. 109,110.

domingo, abril 30, 2023

«A Conspiração dos Iguais», de Ilya Ehrenburg. Sobre a morte de Babeuf

 


Edições Dinossauro, 2004. Tradução e Introdução de Francisco Martins Rodrigues

Como nos lembra Francisco Martins Rodrigues na Introdução esta edição de Ilya Ehrenburg baseia-se na de Philippe Buonarroti que, em 1828, publica em Bruxelas «La Conspiration pour L'Égalité, dite de Babeuf». 

Nessa Introdução é lembrado que Babeuf será provavelmente exemplo único de um comunismo libertário ou anarquista (eu não lhe chamaria «primitivo») que durante a Revolução Francesa teve o apoio incondicional das vastas camadas populares de Paris e que nunca se reviu no Directório que mandou matar Babeuf e Darthé, enviar para o exílio em Caiena quer Buonarroti, quer Germain e Goujon, Duroy, Soubrani, Javogues entre muitos outros. A sua referência era sem dúvida a Constituição de 1793 que praticamente nunca foi posta em prática devido ao seu carácter «comunista», alguns montanheses e as comunas dos 12 departamentos de Paris organizadas pelos sans-culottes e pelas mulheres dos Bairros de Antoine e Marceau, vanguardas do povo de que a burguesia sempre desconfiou e tentou derrotar.

Sobre Ilya Ehrenburg, Francisco Martins Rodrigues dá-nos uma ideia clara. Escritor soviético, falecido em 1967, assistiu aos processos de Moscovo teleguiados por Estaline «(...) não é difícil encontrar nesta Conspiração dos Iguais, a propósito do Terror da Revolução Francesa, alusões transparentes ao Terror ditatorial dos anos 30 na União Soviética.» Não estou aqui para uma análise da qualidade literária de Ehrenburg (nunca o fiz nestas fichas de leitura, nem tenho pretensões a crítico seja do que for), mas creio que o registo do autor se aproxima mais do jornalismo do que literatura. Mas é um estilo que se lê com soltura perante uma tragédia anunciada que foi a conspiração dos Iguais de Babeuf e Buonarroti em 1796 já no fim da Revolução Francesa de 1789. Pode dizer-se com certeza que a História confere que foi com esta conspiração que terminou, de facto, toda a qualquer tentativa de a transformar em algo mais do que uma República burguesa, realista, a que Napoleão deu forma logo a seguir.

Babeuf morre guilhotinado, através de uma traição de um tal Grisel teleguiada por Barras (um dos 5 membros do Directório) que se infiltra na insurreição preparada pelos Iguais. Será pago, mais tarde com umas míseras 30 libras (doce ironia bíblica)! O Tribuno do Povo (como era conhecido devido ao título do seu Jornal), Gracchus Babeuf, morre, portanto, a 8 de Pradial do ano V, ou, pelo antigo calendário gregoriano, a 27 de Maio de 1797, com 37 anos de idade. Antes, em pleno tribunal, ao conhecer a sentença da guilhotina e depois do Directório ter influenciado um dos jurados que quase absolviam os Iguais, tenta o suicídio juntamente com Darthés, embora mal-sucedidos. Mantêm-nos vivos até à guilhotina. Paris pobre chorou-o, admirou a sua coragem e a sua coerência, não acreditou nas calúnias que lhe lançaram, mas não se moveu para o libertar. Cansaço da revolução? É possível. Há 7 anos que se seguiam insurreições, revoluções dentro da Revolução, prisões, torturas, massacres e guilhotinas a mais tal como afirmava Babeuf que lutava por uma Sociedade de Felicidade. Marat e Robespierre, Anarchasis Cloots, tal como Danton já não faziam parte do desejo revolucionário. Tinham sido devorados pelo frémito da mudança violenta de um estado para outro. Nada que Babeuf, os Iguais e igualmente o povo de França não soubessem. Entretanto morria-se literalmente à fome, o desemprego tornava-se endémico e a miséria instalava-se. O cair de braços dos mais fracos e dos subalternos também. Talvez por isso os bairros pobres de Paris não reagiram à prisão de Babeuf ou tivessem pressentido o fim próximo. Acabaram por morrer com eles, ou seja, com Babeuf e os Iguais.

A preparação da conspiração:

«Babeuf e os amigos não confiavam nos montagnards (montanheses, deputados de esquerda da Convenção): não são verdadeiros democratas! Enquanto os Iguais reverenciavam a memória de Robespierre, entre os antigos deputados não havia um só que não tivesse ultrajado, depois do Termidor, o ''tirano derrubado''. Em política, contudo, não há lugar para sentimentos, e os Iguais encetaram conversações com os montagnards.
(...) Os montagnards ouviam sem pestanejar as declarações dos Iguais; deixem-nos divertir-se! Outra coisa os preocupava: quem entrará no novo governo? Os Iguais reclamavam a autoridade para os pobres diabos, jornaleiros, operários, artesãos, mas nesse ponto os montagnards eram irredutíveis. Queriam o poder para si. A sua única palavra de ordem era: ''Viva a antiga Convenção!''.
Isto indignava Babeuf:
- Não podemos fazer concessões. faz algum sentido tanta luta para a França voltar a ser governada por essa Convenção a que Robespierre chamou com razão ''Assembleia de Assassinos''? Não, esta gente já tomou o gosto do poder, já molharam os lábios na taça, estão envenenados! Do que precisamos realmente é de forças novas. Precisamos de sans-culottes, gente do povo, não de políticos.» (págs. 134/135)

A defesa em tribunal de Babeuf:

«O processo durou muito tempo. Começara em Ventoso, no tempo dos grandes frios, e já estava no alegre Floreal. Faltava o ar na sala sombria. Fazendo apelo a toda a sua energia, Babeuf leu a defesa. Leu durante dez horas, sem um minuto de descanso. Por fim, falta-lhe a voz. Expõe as suas ideias aos juízes: a lei agrária não é um remédio, só a comunidade dos bens garante a igualdade. Bailly (um dos juízes) desata a rir. (...)
Ele fala agora do perigo que ameaça a República, mas Veillart (outro juiz) interrompe-o:
- Vós quisestes arruinar a República!
- Não! Quisemos salvá-la! A Revolução não deu nada ao povo e o povo começa a odiar a República. Olhai à vossa volta. Que vedes? Indiferença. Os patriotas, ainda ontem intrépidos e ardentes, agora calam-se. Perderam a coragem... Mas a igualdade deve triunfar, triunfará. A Revolução Francesa é apenas a precursora de uma outra revolução, bem maior e mais solena, que será a última; então desaparecerão os limites das propriedades, as vedações, os muros, as prisões, os roubos, os crimes, os enforcamentos, a inveja, a avidez, a traição, a hipocrisia, e esse verme que tudo rói, a cobiça universal...» (págs. 172/173)

sexta-feira, abril 28, 2023

«O Senhor Walser e a Floresta», de Gonçalo M. Tavares

 

Relógio D'Água, 2018. Desenhos de Rachel Caiano
Gonçalo M. Tavares já nos habituou quer ao seu registo, quer às extraordinárias obras que escreve. Provavelmente caso único entre os chamados «novos» autores contemporâneos, tem-se afirmado desde há anos como um dos mais sólidos e coerentes escritores, caso só possível cá no burgo por apresentar uma escrita que tem tanto de pessoal como de honesta. Gonçalo M. Tavares vive no seu mundo, abraça-o, entra por ele adentro e um leitor atento sabe perfeitamente que o que escreve e sente é genuíno. Vive lá e leva-nos, com uma escrita tão precisa como depurada, para o seu mundo. Nós agradecemos, não sabendo bem como retribuir. Mas talvez lendo (antes ou depois, eu prefiro como leitor, ler antes) os seus escritores - e aqui limito-me somente à série do seu Bairro! - seja uma forma tão legítima como outra qualquer de uma relação entre quem tem um livro para com o seu escritor.

Foi o que me aconteceu, a tal ligação entre Robert Walser e Gonçalo M. Tavares, com a leitura de «O Senhor Walser e a Floresta». É evidente que antes li «As Caminhadas com Robert Walser» do Seelig, «Cinza, Agulha Lápis e Fosforozitos», «A Rosa» e «O Ajudante» para ter uma ideia mais geral do que iria encontrar em «O Senhor Walser...» e foi extremamente bonito com o que me deparei. 

Walser tem finalmente uma casa. Ainda assim longe do Bairro imaginado por Gonçalo M. Tavares e com desenhos belíssimos de Rachel Caiano onde «moram» Musil (nunca negou a influência de Walser), Brecht, Eliot, Calvino (que o referiu), Kafka (que o elogiou), Breton, Wittegenstein (que o analisou) e muitos outros que fazem parte do sonho vivíssimo do escritor e também partilhado por nós. Mas, dizia eu, Walser na sua vida real só conheceu praticamente a casa da sua família até aos 19 ou 20 anos, ou até menos, se não estou enganado. Trabalhou em várias casas como secretário, em quartos, e depois viveu em hospícios (perto de 27 anos), sendo o último em Herisau no cantão alemão da Suíça. Nota-se em toda a vida de Walser a nostalgia de um lar que provavelmente nunca teve, ou se o teve, acabou depressa. Ora, Gonçalo M. Tavares arranja-lhe uma casa longe do eventual bulício do Bairro de escritores, poetas, filósofos e dramaturgos, na orla da floresta onde ele se sentiria bem, visto que era um entusiasta das grandes caminhadas. Encantava-se com as cores, o vento a água, os cheiros e as estações da Natureza que ele amava e se sentia seguro. Era um escritor, um poeta das pequenas coisas e são exactamente as «pequenas coisas» que vêm pôr em causa a bonomia da sua existência numa casa que ele experimentou por um dia. Sejam estas «pequenas coisas» uma torneira, uma tábua, um buraco no telhado... e fico-me por aqui porque não quero contar o resto. Como se faz no cinema ou no teatro quando aconselhamos um amigo a ir ver. Aliás, o livro tem igualmente muito de cinematográfico ou dramático. Uma maravilha lê-lo. O próximo será Kraus ou Breton? Não sei. Só sei que vai acontecer.

quinta-feira, abril 27, 2023

2 livros de Walser - «O Ajudante» e «A Rosa»

 

Relógio D'Água, 2006 e 2004 respectivamente.
Tradução de Isabel Castro Silva para «O Ajudante»
e Leopoldina Almeida para «A Rosa»
Após ler estes dois livros de Robert Walser (eu dizia anteriormente que tomar conhecimento da vida deste autor suíço me iria obrigar a conhecer melhor a sua produção literária) fiquei com a sensação nítida que temos diante de nós um escritor de excepção. Mesmo que ele recuse o epíteto e gostasse de ser esquecido, absorvido pelo tempo e pela morte, a percepção que ele tinha do que deveria ser a literatura e a poesia veio confirmá-lo como insubstituível, incomparável. Foi percursor do estilo de Kafka, Musil e até de Wittgenstein e «descoberto» por Agamben, Susan Sontag, Sebald entre outros, mas é único na procura do entendimento das pequenas coisas da vida, das palavras com sentido preciso, sem qualquer adjectivo a mais ou a menos, apresentando uma ironia desarmante e um olhar para si próprio que se reflecte nos outros nos seus dramas, nas suas alegrias, ou no seu desespero com as várias faces que se lhes apresentam na vida.

A leitura destes dois livros, os primeiros que li de Robert Walser (outros seguir-se-ão obrigatoriamente) apresentam-me duas hipóteses que passo a expôr: em primeiro lugar a sua ligação que pende entre o erotismo, o galanteio inofensivo ou a admiração longínqua para com as mulheres de todas as condições sociais; em segundo lugar, a sua ligação, talvez efémera às teses socialistas do seu tempo, embora a tenha apresentado mais tarde com algumas reticências «Viviam-se então tempos extraordinários num mundo extraordinário. Uma ideia a um tempo misteriosa e familiar, a que chamavam ''socialismo'', lançara-se como uma frondosa planta trepadeira para dentro das cabeças e em torno do corpo de todos, mesmo dos mais velhos e experientes, de tal modo que tudo o que era poeta ou escritor, tudo o que era novo e precipitado a agir e decidir se ocupava desta ideia.» (pág.104 de «O Ajudante»); em terceiro, a chamada compaixão pelo outro, pela solidão ou fraquezas adictas, sejam o álcool ou o jogo, pelo desemprego e pela miséria que também ele experimentou; por último a necessidade de um lar que lhe faltou e que vem bem expresso em «O Ajudante» onde experimenta em casa dos Tobler uma verdadeira família que se esvai paulatinamente numa força centrípeta e implacável da ruína económica e pessoal. 

A sua ligação à Natureza, bem transcrita nos seus livros, e onde encontra a paz que procura acontece quer em «O Ajudante», quer em «A Rosa», mas também com uma força evidente nas «Caminhadas com Robert Walser» de Carl Seelig, seu tutor, quando Walser se encontrava no hospício de Herisau. 

Sobre este último, refiro-me a Carl Seelig, creio ter percebido a falta de referência em «Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos» editado este ano (2023) pela Assírio & Alvim e sob o rigor e responsabilidade de Ricardo Gil Soeiro que o antologiou, comentou e traduziu. De facto, já em «Caminhadas com Robert Walser», tinha reparado numa transcrição - quase são actas desses mesmos registos! - que Seelig faz de um sarcasmo de Walser quando este lhe pergunta como se sente, como tutor, a gerir os seus direitos de autor! Olá... essa ironia não me passou despercebida e creio que houve ali uma certa amargura (de não ter casa ou dinheiro seu), tal como a sua recusa em escrever ou em teimar na realização continuada de pequenos trabalhos motivacionais no hospício (dobrar envelopes, por exemplo), sendo até rude quanto aos elogios que Seelig lhe faz, como a uma «carreira» literária ou referindo a admiração e crítica elogiosa registada em jornais pela sua obra. Soube, pela leitura de «O Ajudante» que Seelig após a morte de Robert Walser em 1956 mandou destruir uma enorme quantidade de pequenas anotações quase cifradas que ele escrevia em folhas de jornais, simples papéis rasgados, recibos, etc. Ainda bem que a sua ordem não foi levada a cabo e essas impressões foram, de facto, salvas. Ao contrário de outros, cujos poemas, notas, mesmos novelas ou romances ficaram destruídos para sempre. Não consigo esquecer o que aconteceu ao espólio de António Maria Lisboa, por exemplo, cujo pai e irmã queimaram o que encontraram escrito por esse poeta solar. Mas repito que só a leitura do trabalho de Robert Walser pode dar-nos uma visão global da importância universal deste escritor suíço.

quinta-feira, abril 20, 2023

«Caminhadas com Robert Walser», de Carl Seelig

BCF Editores, 2019. Trad. Bernardo Ferro. Prefácio à edição portuguesa por Hans Ulrich Obrist

Em 1957, um ano após a morte por ataque cardíaco de Robert Walser, numa dessa inúmeras e longas caminhadas que realizava de um modo quase obcecado pelas montanhas do cantão alemão da Suíça, o seu tutor e amigo Carl Seelig edita as suas memórias dessas mesmas caminhadas a que se juntaram conversas, ideias e pensamentos daquele autor entretanto internado no sanatório de Herisau. Esse internamento durou vinte anos, sem que Walser tenha escrito alguma coisa. Com um espírito tão particular e entremeado com alguns episódios esquizofrénicos conseguiu um registo literário único em que recorre várias vezes à observação minuciosa da cor, da natureza, dos objectos, das pequeníssimas coisas da vida, recusando toda e qualquer vontade de atingir epítetos literários ou atingir o grau de «grandeza literária» que ele abominava. Quanto mais se conhece este autor, mais queremos saber sobre ele. Deparamos, então, com esse pensamento através da contribuição de Carl Seelig que juntou apontamentos (alguns mais antigos perderam-se, infelizmente)  e registos dessas mesmas caminhadas. 

As opiniões versam sobretudo sobre si próprio e na vida, algo agitada para um jovem de 20 anos, que esteve em Berna e Zurique e nas suas relações com a família que ele não gostava de invocar, principalmente a relação que manteve com o irmão mais velho Karl Walser, que foi um pintor importante e que faleceu antes dele, e com a sua irmã Lisa que ele «culpava» do internamento compulsivo em Herisau. Mas tinha por ela um amor particular, realçando o seu carácter católico como a causa dessa decisão. Fala a Seelig por várias vezes da condição de poeta e escritor o que não deixa grandes encómios e elogios aos seus contemporâneos, fossem eles alemães, americanos, suíços, russos, franceses ou ingleses. Não lhes perdoa a subserviência para os poderosos e a arrogância para com os leitores. Refere-se igualmente a Hölderlin e a os poetas e escritores que foram dados como loucos. Durante a II Guerra Mundial, enquanto caminha com Seelig desenvolve as suas teorias para com Hitler que detesta com a sua vulgaridade e violência inane e Estaline que tem tanto de génio militar, como de sanguinário.

Sobre si próprio: «Houve sempre conspirações à minha volta para repelir vermes como eu. Aquilo que não cabe no mundo de cada um é sempre nobre e orgulhosamente repelido. Pela minha parte nunca ousei forçar a entrada nesse mundo. Não teria sequer coragem para espreitar para o seu interior. Foi por isso que vivi a minha vida à margem das existências burguesas. E não foi melhor assim? Não terá o meu mundo também direito a existir, ainda que se trate, aparentemente, de um mundo mais pobre e impotente?» (pág.50)

Robert Walser para Carl Seelig: «Sabe porque não me tornei um escritor de sucesso? Quero dizer-lhe: é que não possuía um instinto social suficientemente desenvolvido. Não representei o suficiente para a agradar à sociedade. (...) A minha estreia literária gerou logo a impressão de que os bons burgueses me aborreciam, de que não os achava bons o suficiente. E eles nunca o esqueceram. Consideraram-me sempre um zero à esquerda, um inútil. Deveria ter misturado nos meus livros um pouco de amor e tristeza, de solenidade e de aprovação (...)» (pág.59)

Sobre a velhice: «Só uma percentagem extraordinariamente pequena de pessoas sabe apreciar a velhice. E, contudo, ela pode oferecer grandes alegrias. É sabido que o mundo tende a regressar, sempre de novo, às coisas simples, elementares. Um instinto saudável leva-o a opor-se que a excepção ou a estranheza se tornem dominantes. A voracidade inquieta com que se deseja o sexo oposto extingue-se e passa-se a desejar apenas o conforto da natureza e a beleza das coisas concretas, que estão ao alcance de quem as procura. Livres, enfim, de toda a vaidade, abandonamo-nos à grande quietude da idade, semelhante a um reflexo suave da luz do sol.» (pág.80)

segunda-feira, abril 17, 2023

«A Economia Moral da Multidão na Inglaterra do século XVIII», de E.P.Thompson


 Antígona, 2008. Trad. de Frederico Ágoas e José Neves
Quem pensa que a chamada «multidão» em pleno século XVIII , e antes, por todo o século XVII, era uma turba desorganizada e ao sabor de emoções primitivas terá uma surpresa neste livro de E.P.Thompson. O historiador inglês apresenta-nos factos e fontes fidedignas que a economia moral dos subalternos tentou lutar, muitas vezes de armas rudimentares nas mãos, contra o capitalismo agrícola e industrial que começava a nascer com o liberalismo baseado na acumulação de terras nas enclosures e na acumulação de capital financeiro e industrial, de mãos dadas, que veio a sair vencedor no século XIX e XX. A luta foi renhida e mais organizada do que se pode pensar numa primeira observação. Assim o atesta em várias fontes coevas, muitas delas anónimas, que Thompson nos apresenta. Sobre o preço do pão e a necessidade de repartição igualitária das terras, levadas a cabo quer pelos Levellers (niveladores), quer pelos Diggers (cavadores) ou, mais tarde pelos Luddistas. Embora o milenarismo não esteja completamente arredado destas lutas o que sobressai é a emergência de uma nova sociedade, baseada não na diferenciação do nascimento, mas sim pelo trabalho. Não por acaso, a repressão brutal abateu-se sobre todos eles, fazendo com que estes movimentos libertadores tivessem desaparecido da crosta da Terra. Não sem que o imaginário popular as tivesse recordado até hoje. E o trabalho do historiador reflecte bem que o liberalismo defendido por Adam Smith nunca funcionou, no que à distribuição de alimentos do campo se refere. A necessidade da existência de intermediários foi sempre uma aposta do liberalismo, originando muitas vezes uma desregulação de preços e açambarcamento que as populações lutaram de modo violento de modo a evitar períodos de fome. O sentimento anti-intermediários foi um dos vectores da «economia moral» que pretendia fixar os preços dos alimentos e principalmente dos cereais. Adam Smith equiparou-a a uma espécie de «bruxaria».

Vejamos alguns exemplos de panfletos anónimos:

Sobre a liberdade (1768):
«Não se pode dizer que se trate de liberdade de um cidadão, ou de alguém que vive sobre a protecção de qualquer comunidade; trata-se antes da liberdade de um selvagem; e assim sendo, aquele que disso se aproveita não merece a protecção concedida pelo poder da Sociedade.» (pág.36).

Título de um ensaísta anónimo (só por si este título é todo um programa):
«Um Ensaio para Provar que Revendedores, Monopolistas, Açambarcadores, Bufarinheiros e Intermediários do cereal, Gado e Outros Bens Comercializáveis...São Destruidores de Comércio, Opressores dos Pobres e Uma Praga Comum para o Reino em Geral.» (pág.49)

Carta anónima dirigida a J.S.Girdler, juiz de paz em Middlessex (1796-1800):
«Sabemos que és inimigo de agricultores, moleiros, farinheiros e padeiros do nosso Comércio - se não tivesse sido graças a mim e a outro, tu, meu filho da puta, terias sido assassinado há já muito tempo por ofereceres as tuas malditas recompensas e perseguires o nosso Comércio. Que Deus te amaldiçoe e demonize, tu não viverás para ver outra colheita (...)» (pág.51/52)

Motim de mineiros em Padstow em Shropshire (1773):
«Algumas pessoas levaram longe demais a exportação de cereal (...). Setecentos ou oitocentos mineiros de estanho foram até lá, oferecendo de início aos negociantes de cereal 17 xelins por 24 galões de trigo; todavia, sendo-lhes dito que nada obteriam, de imediato arrmbaram as portas do armazém e levaram tudo o que aí havia, sem dinheiro ou preço.» (pág.56)

Outro aviso em Northiam (Sussex) aos agricultores que aceiram as novas medidas de alqueire do parlamento (1793):
«Cavalheiros, tudo o que esperamos é que tomem isto como aviso a todos os que deixem de lado os pequenos alqueires e retomem a antiga medida, pois, caso não o façam, um grande agrupamento incendiará as pequenas medidas quando vocês estiverem na cama e a dormir e, com elas, as vossas medas, os vossos celeiros e vocês mesmos (...)» (pág.62)

Escreve E.P.Thompson em jeito de conclusão sobre a eficácia destas lutas baseadas nesta «economia moral» da multidão na Inglaterra do século XVIII:
«Na verdade, o motim de subsistência não requeria um elevado grau de organização. Requeria, sim, um apoio consensual junto da comunidade e um padrão de acção herdado, com restrições e objectivos que lhe eram próprios. E a persistência desta forma de acção levanta uma questão interessante: até que ponto seria ela, fosse de que forma fosse, bem-sucedida? Teria ela persistido durante tantos anos - centenas de anos, na verdade - se os seus objectivos fracassassem constantemente e deles resultassem senão uns quantos moinhos destruídos e algumas vítimas na forca?» (pág.90) Mais à frente, o historiador refere como um factor de regulamentação do mercado a própria «expectativa do motim» como dissuasor de açambarcamento ou de aumento generalizado de preços à maneira liberal.

Carta de Witney, um dos mais destacados dos Levellers, em 1767, sob a forma de rima popular (págs.104/105):
 
«(...) Um pequeno Exército de mais três mil, prontos para a luta final,
E maldito eu seja se não fizermos em merda a Tropa Real,
Se o Rei e o Parlamento continuarem a mandar à sua maneira,
faremos de Inglaterra uma lixeira.
E se não baixam os preços dos mantimentos,
Maldito eu seja se não resolver o problema incendiando o Parlamento (...)

De qualquer modo, os movimentos populares e violentos dos trabalhadores do campo e pequenos agricultores, no início do século XIX, foram ultrapassados pelos luddistas devido quer à sangrenta repressão militar, quer à pressão sobre os salários nas indústrias com uma incipiente organização sindical clandestina, com juramentos: os United Englihsmen.