sexta-feira, junho 23, 2023
«Outono Alemão», Stig Dagerman
domingo, junho 18, 2023
«Confissões de uma Máscara», Yukio Mishima
Livros do Brasil, ed. de bolso. Tradução e apresentação de António Mega Ferreira
Tradução a partir do inglês, tal como Mishima exigia quando não era possível fazê-lo directamente do japonês, de António Mega Ferreira cuja apresentação, quanto a mim, seria dispensável. Aliás, cada vez mais penso que toda e qualquer apresentação de um clássico como é «Confissões de uma Máscara» ou é acompanhada por dados novos e análises baseadas em factos seriamente estudados ou é inócua. Isto para todas as apresentações ou introduções, não estou a pensar particularmente nesta.
É um clássico que é um poema de amor. Não o amor entre um homem e uma mulher, embora também o seja, mas amor no sentido mais abrangente do conceito quer ocidental ou oriental. Aqui, não há lugar para ambiguidades. Um amor em tempo de guerra total, em tempo de Hiroshima e bombardeamentos constantes às cidades japonesas que fazem pensar na morte possível e omnipresente, que é o mesmo, segundo Mishima, de pensar numa vida possível: «Foi nesta época que aprendi a fumar e a beber. Quero dizer que aprendi a fingir que sabia fumar e beber. A guerra suscitara em nós uma maturidade estranhamente sentimental. Esse sentimento vinha-nos da sensação de que a vida podia terminar aos vinte anos; e nem sequer admitíamos que pudesse haver qualquer coisa para lá destes poucos anos que nos restavam(...)» (pág.116).
O amor é portanto, além da identificação e do carinho pelo outro, a necessidade de confronto com a conquista, com o poder, saber exactamente os passos a dar como um libertino, mas sabendo que há o limite do desejo que no caso de uma mulher, Sonoko ou as prostitutas de um bordel, o conduzirá a uma espécie de impotência por falta dessa líbido em torno do feminino. Mishima é um homossexual e tenta perceber desde jovem o que é, num crescimento natural de entusiasmo e de uma postura recatada, não totalmente fugidia por obrigação social de que está apartado. A atracção física pelos colegas de liceu é descrita em «Confissões de uma Máscara» com um misto reconhecível da vergonha imposta pela família e pelos outros, pela sociedade em geral, ainda por cima eivada pelo militarismo nipónico, e, igualmente, por uma beleza assumida pelo corpo masculino. Atracção essa que levará Mishima a um verdadeiro culto do seu próprio corpo que muscula nas artes marciais até à sua morte trágica em 1970. «Desde que estava obcecado pela imagem de S. Sebastião que eu tinha o hábito de cruzar as mãos acima da cabeça, quando estava nu. Tinha um corpo magricelas, sem o mínimo reflexo da beleza luxuriante de Sebastião. Naquele momento, pus-me uma vez mais em pose, e, como por acaso, o olhar dirigiu-se para as minhas axilas. Foi então que um misteriosos desejo sexual despertou em mim.» (Pág.90).
A parte final do livro, quando ele se encontra com Sonoko, já no final da guerra e entretanto já casada com um funcionário de um Ministério, é de tal modo arrebatadora e de tão grande beleza literária que me escuso de a transcrever aqui porque perderia todo o sentido. Proponho-vos essa leitura.
segunda-feira, junho 12, 2023
«Cavalos em Fuga», Yukio Mishima
Livros do Brasil, Outubro de 2022. Tradução de Tânia Ganho
No Japão entre as duas guerras existiam dois fortes movimentos: um, de cariz «moderno» vinda da Era Meiji do século XIX, tentava alinhar pelo Ocidente e não perder o comboio do desenvolvimento e do progresso capitalistas; outro, claramente conservador, fazia alinhar as forças comummente chamadas de direita e extrema-direita com os valores entretanto perdidos da era dos samurais e do xogunato que pretendiam revivificar o carácter divino do imperador.
Isao é a personagem que Mishima dá vida neste romance brutal e de uma grande beleza literária, onde poderemos ver algum fio autobiográfico, principalmente na questão dos valores defendidos em vida por Mishima e que o levará a fazer seppuku ritual filmado pelas televisões em 1970, após a tentativa falhada de exigir um levantamento militar que repusesse a antiga ordem política nipónica. Tal como Mishima, Isao em «Cavalos em Fuga» faz seppuku após assassinar Kurahara, o patrão dos patrões japoneses, que tudo corrompe inclusive dando dinheiro, secretamente, à jovem e pura Associação de Patriotas de que Isao era membro destacado e praticante de Kendo uma arte marcial dos samurais. Isao e os seus vinte jovens companheiros criam, a par com a legalizada Associação de Patriotas, uma clandestina Liga do Vento Divino (Kamikazé significa literalmente «vento divino») que glosava uma associação secreta do século XVII que era formada por samurais cujo objectivo era manter e defender o imperador contra todas as influências externas e estranhas à tradição milenar do Japão, budismo incluído.
Não devemos, contudo, menorizar ou reduzir o romance de Mishima, um autor excepcional que, talvez não por acaso, conheci e entusiasmei-me nos meus vinte anos, com um libelo da extrema-direita ou tradicionalista. Mishima está fortemente imbuído de uma forte ética do corpo e da mente e não é por acaso que o seu objecto de ódio se concentra sobretudo no capitalismo e no que ele representa de corrupção. Muito antes do assassinato pelo punhal do já citado Kurahara, Isao/Mishima traçava-lhe o perfil: «Um dos seus comentários mais conhecidos, citado por um jornal, denotava uma displicência que parecia cuidadosamente forjada: ''É claro que o grande índice de desempregados é desagradável. Mas é uma falácia tomá-lo automaticamente como sinónimo de uma economia frágil. O senso comum diz-nos que o contrário é que é verdade. Para haver bem-estar no Japão não é necessário que haja alegria na cozinha de toda a gente.'' Essas palavras suscitaram raiva e rancor e ficaram gravadas na mente das pessoas.
A maldade de Kurahara era a de um intelecto que não tinha laços com o sangue nem com a terra natal. De qualquer maneira, embora Isao não soubesse nada sobre Kurahara enquanto indivíduo, a maldade dele era-lhe absolutamente clara.
Havia os burocratas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ansiosos por agradar a Inglaterra e à América, transbordando charme, capazes só de jogar a cartada da coqueteria. Os empresários, que fediam a lucro e a ganância, farejando o solo em busca do seu jantar, como gigantescos papa-formigas. Os políticos autotransformados em montes de corrupção. As cliques militares, tão encouraçadas com o culto do carreirismo que pareciam escaravelhos imobilizados. Os académicos, de óculos, quais larvas brancas inchadas. Os especuladores, desejosos de explorar a Manchúria, a sua amada filha bastarda. E o próprio céu reflectia um panorama de pobreza, como cores de sol-nascente espalhadas pela terra. Kurahara era uma cartola de seda fria e preta colocada no meio desta lamentável paisagem. Sem o dizer, Kurahara desejava muitas mortes, ansiava por elas.» (pág.241)
Torna-se evidente ao longo da leitura deste romance que Isao tem o seu fim traçado. Torna-se um chefe carismático da jovem Liga do Vento Divino, mas sabe interiormente que só ele terá forças para levar a cabo a tentativa de chamar o Japão ao caminho dos seus ancestrais. É traído pelo próprio pai, afasta-se de Makiko que o ama e que mente em tribunal para o salvar, é traído igualmente por membros do exército, é preso e levado a tribunal, sendo-lhe dado uma leve pena suspensa, cuja condescendência ele desconfia por ser tomado por militante de direita. Tem por garantido que se fosse de esquerda a pena pesada ou perpétua e a tortura seria uma realidade. No início do livro, Isao Iiunuma chega a invejar os estudantes universitários de extrema-esquerda pela sua postura diante da polícia. Portanto, para Isao, no final de tudo, compreende que o seu acto será solitário. Violento, mas solitário e necessário para redimir os ancestrais e os deuses insultados pelo dinheiro e pela corrupção ocidental.
Quanto ao livro existem páginas inesquecíveis como esta: «Enquanto os conduzia [aos seus companheiros] ao longo do carreiro que atravessava os campos, Isao reparou nos vestígios carbonizados de um incêndio que não estavam ali na véspera. as cinzas finas de palha queimada tinham deixado um padrão cinzento no trilho, mas no sítio onde se concentravam num sulco eram pretas retintas. Esse negro misturava-se com o vermelho da argila de uma maneira que cativava Isao. Estranhamente, não foi a mistura de cinza e uns quantos restos de palha fresca que suscitaram pensamentos sobre o incêndio fulgurante no seu auge, mas sim o sulco negro esmagado por uma roda. O vermelho intenso e bárbaro das chamas, o preto forte do sulco: eis a expressão perfeita, o perfeito contraste. Ser ateado e, depois, extinto com os pés: ambos tinham o mesmo poder vívido. A associação que tudo isto provocou na mente de Isao foi, obviamente, o espectro da revolta.» (págs. 268,269)
domingo, junho 04, 2023
Estudos 9. Robert Walser
«Petite Prose», Robert Walser
sábado, junho 03, 2023
«Morte a Crédito», Louis-Ferdinand Céline
domingo, maio 28, 2023
«24/7», de Jonathan Crary
sábado, maio 27, 2023
"Viagem ao Fim da Noite", Louis-Ferdinand Céline
terça-feira, maio 23, 2023
Helena
Eduarda
A Eduarda empreendeu a viagem que nunca esperamos. No caso dela, sinto a sua morte como um choque tremendo que noutros casos de amigos não senti, assim, tão violento. Acho injusto. Quase inverosímil e, provavelmente é-o, para pessoas que deixaram o rasto que ela deixou nas lutas que empreendeu e no que escreveu ou pintou. Prometi não fazer epitáfios, mas exige-o neste momento de dor, incompreensão pela finitude, mesmo que saibamos todos ser inevitável e por uma questão de ser impossível a sua substituição. A Diana, a menina reguila que conheci como criança vai levar adiante o trabalho da mãe, tal como o do avô. É gente de fibra.
A Eduarda tinha tanto de afável como de mau feitio e isto é sempre um elogio para as fortes convicções que ela apresentava. Este último, nos anos 90, quando tentávamos no PSR organizar a luta por um sindicalismo docente renovado, fora da modorra política, que os burocratas lhe imprimiam na Fenprof, era o que mais se fazia sentir. Acredito que lhe faltava a paciência para a negociação de listas de oposição sindical ou participar em jogos palacianos. Interessava-lhe muito mais a base, as decisões de base, legitimadas por assembleias livres. Aconteceu isso em 93 no encontro alternativo de Buarcos mas com êxito relativo, por falta de constituição de uma corrente revolucionária na classe docente. Quanto à literatura e pintura, a Eduarda transformava-se e entusiasmo transbordava nela e quantos a rodeavam. Não concebia qualquer elitismo literário ou artístico, tão comum nos meios da cultura. Ela era assim. Só uma única vez a vi irritada quando lhe dissemos que os seus livros, que líamos sempre, retratavam de facto uma geração e que necessariamente influenciariam outras que viessem. Na ocasião, rebateu ponto por ponto os elogios (não eram somente elogios) falando do comércio livreiro e editorial como um empecilho que estava, já no final dos anos 80 e, depois, nos 90, a vender-se à cultura anglo-saxónica, em detrimento da nossa. A normalização ocidental, europeia, em marcha, pois. Que ela não deixou de registar e denunciar. A Revolução em ponto morto até fazer marcha atrás com o cavaquismo. Aprendi muito com a Eduarda.
Nestas ocasiões uma pessoa não deve falar de si. Mas, subitamente, a morte de Eduarda Dionísio veio calar fundo. Com força. Lembrei-me da Rua da Palma, do PSR e da força da esquerda alternativa em crescimento no início dos anos 90. A luta contra os skinheads que assassinaram cobardemente José Carvalho. A importância crescente do jornal Combate onde a Eduarda Dionísio participou activamente. E cada vez que, por motivos políticos e partidários, eu chegava a Lisboa, lá se juntava um grupo inteiramente informal onde pontificava o Carlos Prazeres Ferreira, a Guida, o Juba, o Zuzarte, a Eduarda e o Maçarico, seu companheiro. As noites, então, prolongavam-se. Nas férias grandes, em Melides, lá íamos à casa do Prazeres Ferreira ou do Zuzarte e repetiam-se as longas conversas, o desfilar de memórias, os projetos individuais e colectivos, os almoços magníficos e intermináveis.
Penso, com esta viagem inesperada da Eduarda, que nenhum destes amigos que referi neste grupo se encontra já entre nós. Por isso, hoje, sinto-me bastante sozinho. A Eduarda Dionísio tornar-se-á uma referência para qualquer inconformista que ainda pense que a transformação social e cultural se fará sempre por revoluções cada vez mais prementes. Ela deixou um caminho válido e isso é que importa.
Até breve, Eduarda Dionísio.
segunda-feira, maio 15, 2023
Ano Zero sob a égide de Ragnar Kjartansson
domingo, maio 14, 2023
Estudos 7
"Ay, Carmela!" Trincheira Teatro
sexta-feira, maio 12, 2023
«Guerra», Louis-Ferdinand Céline
segunda-feira, maio 08, 2023
«Escritos Africanos», de Annemarie Schwarzenbach e «Revisitar Annemarie Schwarzenbach» de Gonçalo Vilas-Boas
domingo, abril 30, 2023
«A Conspiração dos Iguais», de Ilya Ehrenburg. Sobre a morte de Babeuf
sexta-feira, abril 28, 2023
«O Senhor Walser e a Floresta», de Gonçalo M. Tavares
quinta-feira, abril 27, 2023
2 livros de Walser - «O Ajudante» e «A Rosa»
quinta-feira, abril 20, 2023
«Caminhadas com Robert Walser», de Carl Seelig
BCF Editores, 2019. Trad. Bernardo Ferro. Prefácio à edição portuguesa por Hans Ulrich Obrist
Em 1957, um ano após a morte por ataque cardíaco de Robert Walser, numa dessa inúmeras e longas caminhadas que realizava de um modo quase obcecado pelas montanhas do cantão alemão da Suíça, o seu tutor e amigo Carl Seelig edita as suas memórias dessas mesmas caminhadas a que se juntaram conversas, ideias e pensamentos daquele autor entretanto internado no sanatório de Herisau. Esse internamento durou vinte anos, sem que Walser tenha escrito alguma coisa. Com um espírito tão particular e entremeado com alguns episódios esquizofrénicos conseguiu um registo literário único em que recorre várias vezes à observação minuciosa da cor, da natureza, dos objectos, das pequeníssimas coisas da vida, recusando toda e qualquer vontade de atingir epítetos literários ou atingir o grau de «grandeza literária» que ele abominava. Quanto mais se conhece este autor, mais queremos saber sobre ele. Deparamos, então, com esse pensamento através da contribuição de Carl Seelig que juntou apontamentos (alguns mais antigos perderam-se, infelizmente) e registos dessas mesmas caminhadas.
As opiniões versam sobretudo sobre si próprio e na vida, algo agitada para um jovem de 20 anos, que esteve em Berna e Zurique e nas suas relações com a família que ele não gostava de invocar, principalmente a relação que manteve com o irmão mais velho Karl Walser, que foi um pintor importante e que faleceu antes dele, e com a sua irmã Lisa que ele «culpava» do internamento compulsivo em Herisau. Mas tinha por ela um amor particular, realçando o seu carácter católico como a causa dessa decisão. Fala a Seelig por várias vezes da condição de poeta e escritor o que não deixa grandes encómios e elogios aos seus contemporâneos, fossem eles alemães, americanos, suíços, russos, franceses ou ingleses. Não lhes perdoa a subserviência para os poderosos e a arrogância para com os leitores. Refere-se igualmente a Hölderlin e a os poetas e escritores que foram dados como loucos. Durante a II Guerra Mundial, enquanto caminha com Seelig desenvolve as suas teorias para com Hitler que detesta com a sua vulgaridade e violência inane e Estaline que tem tanto de génio militar, como de sanguinário.
Sobre si próprio: «Houve sempre conspirações à minha volta para repelir vermes como eu. Aquilo que não cabe no mundo de cada um é sempre nobre e orgulhosamente repelido. Pela minha parte nunca ousei forçar a entrada nesse mundo. Não teria sequer coragem para espreitar para o seu interior. Foi por isso que vivi a minha vida à margem das existências burguesas. E não foi melhor assim? Não terá o meu mundo também direito a existir, ainda que se trate, aparentemente, de um mundo mais pobre e impotente?» (pág.50)
Robert Walser para Carl Seelig: «Sabe porque não me tornei um escritor de sucesso? Quero dizer-lhe: é que não possuía um instinto social suficientemente desenvolvido. Não representei o suficiente para a agradar à sociedade. (...) A minha estreia literária gerou logo a impressão de que os bons burgueses me aborreciam, de que não os achava bons o suficiente. E eles nunca o esqueceram. Consideraram-me sempre um zero à esquerda, um inútil. Deveria ter misturado nos meus livros um pouco de amor e tristeza, de solenidade e de aprovação (...)» (pág.59)
Sobre a velhice: «Só uma percentagem extraordinariamente pequena de pessoas sabe apreciar a velhice. E, contudo, ela pode oferecer grandes alegrias. É sabido que o mundo tende a regressar, sempre de novo, às coisas simples, elementares. Um instinto saudável leva-o a opor-se que a excepção ou a estranheza se tornem dominantes. A voracidade inquieta com que se deseja o sexo oposto extingue-se e passa-se a desejar apenas o conforto da natureza e a beleza das coisas concretas, que estão ao alcance de quem as procura. Livres, enfim, de toda a vaidade, abandonamo-nos à grande quietude da idade, semelhante a um reflexo suave da luz do sol.» (pág.80)













