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domingo, junho 18, 2023

«Confissões de uma Máscara», Yukio Mishima

 


Livros do Brasil, ed. de bolso. Tradução e apresentação de António Mega Ferreira

Tradução a partir do inglês, tal como Mishima exigia quando não era possível fazê-lo directamente do japonês, de António Mega Ferreira cuja apresentação, quanto a mim, seria dispensável. Aliás, cada vez mais penso que toda e qualquer apresentação de um clássico como é «Confissões de uma Máscara» ou é acompanhada por dados novos e análises baseadas em factos seriamente estudados ou é inócua. Isto para todas as apresentações ou introduções, não estou a pensar particularmente nesta.

É um clássico que é um poema de amor. Não o amor entre um homem e uma mulher, embora também o seja, mas amor no sentido mais abrangente do conceito quer ocidental ou oriental. Aqui, não há lugar para ambiguidades. Um amor em tempo de guerra total, em tempo de Hiroshima e bombardeamentos constantes às cidades japonesas que fazem pensar na morte possível e omnipresente, que é o mesmo, segundo Mishima, de pensar numa vida possível: «Foi nesta época que aprendi a fumar e a beber. Quero dizer que aprendi a fingir que sabia fumar e beber. A guerra suscitara em nós uma maturidade estranhamente sentimental. Esse sentimento vinha-nos da sensação de que a vida podia terminar aos vinte anos; e nem sequer admitíamos que pudesse haver qualquer coisa para lá destes poucos anos que nos restavam(...)» (pág.116).

O amor é portanto, além da identificação e do carinho pelo outro, a necessidade de confronto com a conquista, com o poder,  saber exactamente os passos a dar como um libertino, mas sabendo que há o limite do desejo que no caso de uma mulher, Sonoko ou as prostitutas de um bordel, o conduzirá a uma espécie de impotência por falta dessa líbido em torno do feminino. Mishima é um homossexual e tenta perceber desde jovem o que é, num crescimento natural de entusiasmo e de uma postura recatada, não totalmente fugidia por obrigação social de que está apartado. A atracção física pelos colegas de liceu é descrita em «Confissões de uma Máscara» com um misto reconhecível da vergonha imposta pela família e pelos outros, pela sociedade em geral, ainda por cima eivada pelo militarismo nipónico, e, igualmente, por uma beleza assumida pelo corpo masculino. Atracção essa que levará Mishima a um verdadeiro culto do seu próprio corpo que muscula nas artes marciais até à sua morte trágica em 1970. «Desde que estava obcecado pela imagem de S. Sebastião que eu tinha o hábito de cruzar as mãos acima da cabeça, quando estava nu. Tinha um corpo magricelas, sem o mínimo reflexo da beleza luxuriante de Sebastião. Naquele momento, pus-me uma vez mais em pose, e, como por acaso, o olhar dirigiu-se para as minhas axilas. Foi então que um misteriosos desejo sexual despertou em mim.» (Pág.90).

A parte final do livro, quando ele se encontra com Sonoko, já no final da guerra e entretanto já casada com um funcionário de um Ministério, é de tal modo arrebatadora e de tão grande beleza literária que me escuso de a transcrever aqui porque perderia todo o sentido. Proponho-vos essa leitura.

segunda-feira, junho 12, 2023

«Cavalos em Fuga», Yukio Mishima

 


Livros do Brasil, Outubro de 2022. Tradução de Tânia Ganho

No Japão entre as duas guerras existiam dois fortes movimentos: um, de cariz «moderno» vinda da Era Meiji do século XIX, tentava alinhar pelo Ocidente e não perder o comboio do desenvolvimento e do progresso capitalistas; outro, claramente conservador, fazia alinhar as forças comummente chamadas de direita e extrema-direita com os valores entretanto perdidos da era dos samurais e do xogunato que pretendiam revivificar o carácter divino do imperador. 

Isao é a personagem que Mishima dá vida neste romance brutal e de uma grande beleza literária, onde poderemos ver algum fio autobiográfico, principalmente na questão dos valores defendidos em vida por Mishima e que o levará a fazer seppuku ritual filmado pelas televisões em 1970, após a tentativa falhada de exigir um levantamento militar que repusesse a antiga ordem política nipónica. Tal como Mishima, Isao em «Cavalos em Fuga» faz seppuku após assassinar Kurahara, o patrão dos patrões japoneses, que tudo corrompe inclusive dando dinheiro, secretamente, à jovem e pura Associação de Patriotas de que Isao era membro destacado e praticante de Kendo uma arte marcial dos samurais. Isao e os seus vinte jovens companheiros criam, a par com a legalizada Associação de Patriotas, uma clandestina Liga do Vento Divino (Kamikazé significa literalmente «vento divino») que glosava uma associação secreta do século XVII que era formada por samurais cujo objectivo era manter e defender o imperador contra todas as influências externas e estranhas à tradição milenar do Japão, budismo incluído.

Não devemos, contudo, menorizar ou reduzir o romance de Mishima, um autor excepcional que, talvez não por acaso, conheci e entusiasmei-me nos meus vinte anos, com um libelo da extrema-direita ou tradicionalista. Mishima está fortemente imbuído de uma forte ética do corpo e da mente e não é por acaso que o seu objecto de ódio se concentra sobretudo no capitalismo e no que ele representa de corrupção. Muito antes do assassinato pelo punhal do já citado Kurahara, Isao/Mishima traçava-lhe o perfil: «Um dos seus comentários mais conhecidos, citado por um jornal, denotava uma displicência que parecia cuidadosamente forjada: ''É claro que o grande índice de desempregados é desagradável. Mas é uma falácia tomá-lo automaticamente como sinónimo de uma economia frágil. O senso comum diz-nos que o contrário é que é verdade. Para haver bem-estar no Japão não é necessário que haja alegria na cozinha de toda a gente.'' Essas palavras suscitaram raiva e rancor e ficaram gravadas na mente das pessoas. 

A maldade de Kurahara era a de um intelecto que não tinha laços com o sangue nem com a terra natal. De qualquer maneira, embora Isao não soubesse nada sobre Kurahara enquanto indivíduo, a maldade dele era-lhe absolutamente clara.

Havia os burocratas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ansiosos por agradar a Inglaterra e à América, transbordando charme, capazes só de jogar a cartada da coqueteria. Os empresários, que fediam a lucro e a ganância, farejando o solo em busca do seu jantar, como gigantescos papa-formigas. Os políticos autotransformados em montes de corrupção. As cliques militares, tão encouraçadas com o culto do carreirismo que pareciam escaravelhos imobilizados. Os académicos, de óculos,  quais larvas brancas inchadas. Os especuladores, desejosos de explorar a Manchúria, a sua amada filha bastarda. E o próprio céu reflectia um panorama de pobreza, como cores de sol-nascente espalhadas pela terra. Kurahara era uma cartola de seda fria e preta colocada no meio desta lamentável paisagem. Sem o dizer, Kurahara desejava muitas mortes, ansiava por elas.» (pág.241)

Torna-se evidente ao longo da leitura deste romance que Isao tem o seu fim traçado. Torna-se um chefe carismático  da jovem Liga do Vento Divino, mas sabe interiormente que só ele terá forças para levar a cabo a tentativa de chamar o Japão ao caminho dos seus ancestrais. É traído pelo próprio pai, afasta-se de Makiko que o ama e que mente em tribunal para o salvar, é traído igualmente por membros do exército, é preso e levado a tribunal, sendo-lhe dado uma leve pena suspensa, cuja condescendência ele desconfia por ser tomado por militante de direita. Tem por garantido que se fosse de esquerda a pena pesada ou perpétua e a tortura seria uma realidade. No início do livro, Isao Iiunuma chega a invejar os estudantes universitários de extrema-esquerda pela sua postura diante da polícia. Portanto, para Isao, no final de tudo, compreende que o seu acto será solitário. Violento, mas solitário e necessário para redimir os ancestrais e os deuses insultados pelo dinheiro e pela corrupção ocidental.

Quanto ao livro existem páginas inesquecíveis como esta: «Enquanto os conduzia [aos seus companheiros] ao longo do carreiro que atravessava os campos, Isao reparou nos vestígios carbonizados de um incêndio que não estavam ali na véspera. as cinzas finas de palha queimada tinham deixado um padrão cinzento no trilho, mas no sítio onde se concentravam num sulco eram pretas retintas. Esse negro misturava-se com o vermelho da argila de uma maneira que cativava Isao. Estranhamente, não foi a mistura de cinza e uns quantos restos de palha fresca que suscitaram pensamentos sobre o incêndio fulgurante no seu auge, mas sim o sulco negro esmagado por uma roda. O vermelho intenso e bárbaro das chamas, o preto forte do sulco: eis a expressão perfeita, o perfeito contraste. Ser ateado e, depois, extinto com os pés: ambos tinham o mesmo poder vívido. A associação que tudo isto provocou na mente de Isao foi, obviamente, o espectro da revolta.» (págs. 268,269)

quarta-feira, julho 17, 2019

Série, a morte fica-vos tão bem: 1. Yukio Mishima

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25 de Novembro de 1970: Yukio Mishima apela à insurreição militar
antes de pôr termo à vida através de seppuku

Li Mishima muito novo. Se eu vos dissesse demasiado novo seria o argumento que Mishima utilizou para explicar o monte de livros que leu na infância e que o levou à melancolia que por vezes assolava a sua vida. Para mim e para os que me rodeavam, nos anos 70, o autor aparecia-nos como uma espécie de herói maldito, incompreendido, solitário e encontrava-se no panteão dos melhores escritores. Defendíamo-lo do facto de ser de extrema-direita porque esse rótulo era demasiado redutor para um tipo da sua estirpe. Bastava ser um excelente escritor que reflectia igualmente as nossas preocupações, frustrações e caminhava connosco na recusa total ao capitalismo que tudo subtrai à autenticidade e soma em voragem de espíritos livres. Bastava-nos isso e o seu visível niilismo. 

A sua morte deu-se a 25 de novembro de 1970 tentando um golpe de estado que fracassou num Japão já rendido ao esquecimento dos valores tradicionais samurais e da mística imperial. Agora pontificava o imperialismo americano. Asseguro-vos que tanto eu como os meus amigos pouco falámos então desse seppuku, ação que nos pareceu óbvia em Mishima, mas que contudo não a compreendíamos por completo. Li, na ocasião, O Marinheiro que perdeu as graças do mar e O Tumulto das ondas. Foi com alguma sensação de desconforto que vi as imagens de uma sessão de Yukio  Mishima na Universidade de Tóquio efervescente, em 1968, onde vários estudantes de capacete militar e em atitude agressiva o insultavam e não deixavam ouvi-lo. Recusou então protecção policial e clamava pelo que então, pensava, os unia: a sociedade moderna, o capitalismo, o consumo desenfreado e a tecnologia. Não suportava um exército japonês sem armas e o fim do culto ao imperador, factos que não podiam ser aceites pela esquerda. Nunca o poderiam ser.

Dois anos depois, faz outro discurso agora na parada de um quartel: sequestrou o ministro da defesa e ele mais seis seguidores com as tiras de kamikase na cabeça e fardados proclamam um novo Japão e apelam aos soldados que se revoltem e assumam o poder. Ridicularizaram-no e riram-se dele na parada do quartel enquanto as forças especiais entravam de rompante nas salas procurando o grupo de Mishima. Antes, porém, libertando quatro jovens seguidores pede ao seu braço direito que o ajude a fazer o seppuku. Ajoelhando-se com as pernas em cruz, usa um pequeno punhal para esventrar-se, enquanto o seu companheiro lhe corta a cabeça com um sabre. Depois, este último, mata-se.

Quando, nestes dias passei por uma livraria, vi um livro de Yukio Mishima que não sabia que existia. Vida à venda editado pela Livros do Brasil e com tradução de Hélder Moura Pereira. Levou 51 anos a chegar a Portugal. É evidente que não o li da mesma maneira que o lia quando tinha 16 ou 17 anos, mas a minha emoção foi a mesma. E relaciono-me, por vezes mal, comigo e com o mundo, porque sei no que ele se tornou e no pesadelo que poderá vir a tornar-se. O seu acto foi, até certo ponto, um mau presságio. Mishima era um soldado aristocrata adepto das artes marciais e obcecado pelo corpo. Escrevia dando asas à melancolia já citada e à raiva e mesmo ódio que sentia pelas baratas, ou picles avinagrados, que equiparava às pessoas com quem se cruzava na rua. Tentava extirpar a sua consciência provavelmente para se sentir num eterno vazio que só conquistou com a sua morte. Também via baratas a saírem das letras de jornal, metáfora para a manipulação das ideias e dos espíritos, através da conspiração universal que destruiria a heterogeneidade dos povos e particularmente a cultura japonesa.

Partilho convosco algumas dos trechos que sublinhei tentando entendê-lo melhor dois anos antes da sua morte, visto que este livro foi escrito em 1968:

«(…) – Sim – respondeu calmamente Hanio. – Porquê a surpresa? Já toda a gente percebeu que a vida humana não tem qualquer sentido e que as pessoas não passam de meras marionetas. Portanto, porquê tanta admiração?»

«(…) Agora, deve ser capaz de alcançar com os dedos o objeto duro e negro que está em cima da mesa. Segure-o bem. Isso mesmo. Mas não toque ainda no gatilho. Leve-o agora devagar até junto da cabeça. Tenha calma e relaxe os ombros. Sente-se melhor assim, de certeza. Pressione o cano contra a têmpora. Deve estar um pouco frio, mas agradável, não é? Transmite uma certa sensação de frescura, não acha? E também de alívio, como quando se tem febre e se aplica uma pacho de água fria na testa. Agora, com cuidado, ponha o indicador no gatilho…»

«(…) Pensando bem, é a primeira vez que olho de perto para um corpo sem vida. Nem os corpos da minha mãe e do meu pai cheguei a ver assim. Um corpo morto faz-me lembrar uma garrafa de uísque. Quando se pega nela e cai, o conteúdo derrama-se. Nada mais natural.»

«(…) Pensou em si como já tivesse morrido. A moral, as emoções, tudo o resto – nada fazia sentido. Estava completamente livre. E, no entanto, o amor que acabada de morrer sentira por ele continuava a pesar-lhe na consciência. Não chegara à conclusão de que outras pessoas não representavam para ele mais do que baratas?»

«(…) Há já muito tempo que Hanio não ia à cidade. Não se via qualquer indício de morte. As pessoas estavam metidas até ao pescoço na sua vida quotidiana. Pareciam caminhar como se fossem picles humanos.»

E é com estas expressões e outras bem mais violentas que um tipo como Mishima na voracidade de se eximir a qualquer emoção para sentir-se livre, cai. 

António Luís Catarino
17 de Julho de 2019