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sábado, janeiro 25, 2025

«Elon Musk», Darryl Cunningham

 

Editora Jean Vacquet, 2024
Este homem é uma fraude. Uma fraude cara e perigosa, mas ele anda aí com a certeza que o dinheiro quer dos americanos, quer dos múltiplos contratos da administração pública num mundo que deseja em ruínas e em permanente guerra, aumentará ainda mais a sua enorme conta bancária. O mais impressionante, nesta biografia de uma banda desenhada extremamente sóbria e plenamente informada, pela mão de Darryl Cunningham, é assistir a um percurso de vida em que o oportunismo, a inexistência de qualquer valor humano, a indecência e a falta de escrúpulos em doses industriais, foram a pedra de toque da vida deste senhor, cuja saudação nazi na tomada de posse de Trump, só surpreendeu os mais distraídos.

Nascido em Pretória, na África do Sul do apartheid, foi vítima de bullying em várias escolas por onde passou e assistiu a um pai escabroso que violentava a mãe física e psicologicamente, sendo obrigado a afastar-se da mulher por ordem judicial sem que antes lhe tivesse prometido uma morte a tiro. O avô, de quem Elon Musk se sentia próximo, era a sua referência máxima. Este, ironia das ironias, emigrava constantemente entre a África do Sul, Austrália, Canadá e EUA até se estabelecer neste último país como quiropata. No meio disto, funda um partido, antes da II Guerra Mundial, o «Partido Tecnocrata» que pretendia unir, sobre um liberalismo selvagem, sem políticos, o Canadá, os EUA, o México, toda a América Central e parte da América do Sul. A grande referência do jovem Musk assistiu à erradicação federal do partido por simpatias nazis em 1946! Depois da violenta separação dos pais, dir-se-ia que Elon e Kimbal, seu irmão, escolheriam viver com a sua mãe. Nada disso: optaram pelo pai violento, mas cheio de dinheiro que comercializava pedras preciosas da África do Sul. Ele e o irmão, na primeira viagem que fazem a Nova Iorque e depois de se terem apropriado de esmeraldas do pai, vendem-nas à Tiffany. Começou a Era Musk! 

Então na Universidade, o seu percurso estudantil não é isento de problemas de concentração e do sucesso que se propala, ainda hoje, como um génio então em formação. Depois, não vos canso mais: sabemos ao que veio e em que empresas ele esteve ligado e, até certa medida, fundado. Hesito na expressão porque não há uma só empresa dele que não tenha afastado quem com ele trabalhou, ou através da ameaça, da chantagem ou da justiça que lhe foi relativamente favorável. Esta Banda Desenhada é pródiga em demonstrar a fraude que é Elon Musk, não só como «empreendedor», mas igualmente como um «génio da tecnologia». Desde a Tesla até à SpaceX e agora no X, ex-Twitter, o homem soma contas astronómicas de fracassos e de mega prejuízos que só não deram em estrepitosas falências com a mão atenta e solidária de George W. Bush, Biden e Trump. Como? Com contratos multimilionários da NASA com a SpaceX através de somas de dinheiros públicos astronómicas, e com o apoio à Tesla de programas de especiais de descarbonização (por acaso, na sua maior parte, de estados democratas!). 

Sobre a SpaceX e a privatização do espaço estamos mais que conversados e assiste-se às explosões dos Falcon 9 a todo o vapor, tal como as mortes rodoviárias no modelo Tesla com o sistema de navegação autónoma Autosteer e que Musk teve de abandonar não sem antes culpar os engenheiros que o tinham avisado do risco. Mais preocupante, contudo, é o seu projecto Neuralink que quer ligar o cérebro humano a computadores, adivinhando antecipadamente o pensamento humano e respondendo aos seus desejos ou solicitações. Não que a internet não o faça já, mas (ainda) sem intervenção directa no cérebro, esse órgão ainda livre do capitalismo liberal (digo eu!). Todos os protestos de inúmeros cientistas caíram em saco roto, tal como o silêncio da CIA e do FBI, evidentemente. Outra: o Starlink, ligado à SpaceX, vai colocar 42 mil satélites em órbita terrestre. Problema: deixarmos de ver as estrelas com a enorme luminosidade no céu que obrigaria a um projecto destes. Solução de Musk: uns painéis de carbono negros que, no espaço, absorveriam, essa mesma luz! Comboios rápidos ou TGV's? Não, nem pensar. Ele propõe um Hiperloop: um tubo transatlântico, ou transoceânico (como os cabos submarinos), onde se metiam as pessoas em fila indiana atingindo a velocidade de 1200km/h. Ao ultrapassar a velocidade do som, azarito para os ouvidos. Fossem a pé! Nesta equação não se fala da possível compra da OpenAI e da colonização de Marte. Os impostos públicos pagarão tudo isso. 

Lindo, não é? Só lendo. Mas em banda desenhada que dá mais realismo, em comparação com o Flash Gordon, por exemplo. Esse, ao menos, era lido em papel, aos quadradinhos; este, tem um presidente do EUA por trás. Faz toda a diferença.

alc

segunda-feira, janeiro 06, 2025

«Viva L' Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth e Corentin Loth

 

«Viva L'Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth (argumento e desenho) e Corentin Loth (côr)
Subtítulo: «O Encontro entre Makhno e Durruti. La Boîte à Bulles, 2020

Um regresso feliz à BD com este «Viva L'Anarchie!» pelo argumento e desenho de Bruno e Corentin Loth. Revivo, com esta forma popular que adquiriu o nome pomposo de «novela gráfica» nos dias de hoje, uma relação íntima com esta forma de arte. Claro que a BD pode ser lida em conjunto, mas não é de modo nenhum uma forma muito agradável de o fazer. Tal como a leitura de um livro, quando é feita a dois é já uma multidão, o que, como sabemos, não acontece com a pintura, o cinema, a música, a performance, ou o teatro. Daí, considerar a Banda Desenhada uma arte (a nona?) com um carácter muito particular. 

«Viva L' Anarchie!» é História. Os factos, documentados e cujas personagens são biografadas, relatam a luta travada por Nestor Makhno e Buenaventura Durruti, nos anos 20 e 30 do século passado, respectivamente na Ucrânia e na Catalunha para a construção de uma terra verdadeiramente livre e partilhada por todos. Mas as geografias utópicas não ficam só nessas regiões, não fosse o projecto anarquista ser assumidamente internacionalista. O mundo era um lugar sem fronteiras, tal como o dinheiro e o capitalismo não as têm, igualmente. A clarividência e a exigência do impossível foram sempre atributos anarquistas. Principalmente, quando acompanhados por milhões de camponeses e operários sem nada, explorados até ao tutano, morrendo de fome, reprimidos e humilhados em todos os continentes como foi presenciado também na América do Sul por Durruti e Ascaso. Esta história pode e deve ser contada, mas infelizmente não há editores portugueses que o façam. Na França, na Grã-Bretanha, na Bélgica, nos Países Baixos e em Espanha, não há receio de assumir uma história de luta que está entranhada no adn do país ou da região. Aqui em Portugal, que temos uma enorme história de construção do anarco-sindicalismo e no comunismo libertário, temos parece que uma amnésia, um véu, que desce sobre as lutas dos operários e camponeses por vidas mais dignas. 

Pouco antes da Guerra Civil de Espanha de 1936-39, Durruti encontra-se em Paris com Makhno (este já «derrotado» e a trabalhar, com várias doenças entre as quais a tuberculose que o vai matar, na Renault) e com a sua mulher Galina e Yelena, a filha. Durruti faz-se acompanhar por Ascaso, Louis Lecoin e Yakov, entre outros e outras companheiras. É essa conversa de recordações e de projecções de futuros que a história se desenvolve com um ritmo argumentativo de assinalar. Nessas recordações vimos a violência extraordinária de Guerra Civil de 1918 a 21 na Rússia e, principalmente, na Ucrânia, visto que foi lá que a força da Makhnovchtchina (expressão que Makhno não aceitava, aliás) se fez sentir derrotando os nacionalistas ucranianos aliados dos austro-húngaros e alemães ocupantes após Brest-Litovsk, esmagando igualmente os Brancos de Denikine e, depois, de Wangrel. Contudo, o mais importante, o que levou ao ao apoio entusiástico das populações ucranianas em torno de Makhno, foi o projecto igualitário e colectivista levado a cabo pelos comunistas libertários no campo e na cidade. Reconhecemos demasiado bem, hoje, diria que infelizmente, o mapa da Ucrânia e lá vem as zonas libertadas, o rio Dniepre, o Donbass, a Crimeia sempre fonte de conflito e de acesso ao Mar Negro. As vitórias de Makhno só se poderiam dar com o apoio da população, visto que o número e as forças em presença eram gritantes tal a sua diferença. De vitória em vitória, até à derrota da Makhnovchtchina pelos bolcheviques de Trotsky, já quando desgastados depois da campanha da Crimeia e este não considerando sequer a sua antiga inclusão no Exército vermelho. Quase todos foram presos, alguns desaparecidos e muitos eliminados, executados por ordem de Estaline, como aconteceu com Galina e Yelena, presas mais tarde em Berlim Oriental após a II Guerra Mundial. 

Quanto a Durruti, morreu, como sabemos, em plena Guerra de Espanha em circunstâncias estranhas em que não há certezas de onde vieram os tiros. Aliás, como Ascaso e tantos outros e outras da CNT-FAI que morreram, não só metaforicamente, com tiros nas costas. Uma história verdadeira onde se misturam traições, ódios, amores e principalmente a enorme vontade de edificar algo que ainda não temos. Talvez um dia. Para já, em plena regressão humana, é sempre bom ter estes livros bem perto.

alc