quinta-feira, dezembro 25, 2025

"Ódio à Civilização Moderna", William Morris

Cornuda Radiante, 2025. Tradução, selecção e notas de Júlio do Carmo Gomes
Não se pense que estamos unicamente perante um livro histórico, datado no tempo. «Ódio à Civilização Moderna» é uma edição recente da Cornuda Radiante, que nos remete para um autor singular no que à ideia de socialismo diz respeito. Trata-se de uma selecção de escritos, quase todos dos finais do século XIX, que se debruça sobre a construção de uma sociedade comunista e que bebe os seus pressupostos nas ideias de Marx, do socialismo e do anarquismo. O que é singular em Morris é o facto de encontrarmos nele um profundo amor pela Natureza e pela solidariedade comum dos homens que só se libertariam do capitalismo e do trabalho assalariado através da construção de uma ideia e prática comuns baseadas no trabalho livre e nas relações de entreajuda em comunidades verdadeiramente cooperativas. A síntese comunista é uma evidência em William Morris, mesmo que Engels o tenha desconsiderado, em correspondência privada, chamando-lhe um «burguês acomodado». Morris desanca a sociedade vitoriana e o capitalismo adivinhando-se já que este se desenvolveria de crise em crise, colocando em causa as relações humanas baseadas no domínio e subjugação dos mais fracos, os trabalhadores, e pelo extractivismo que anunciava uma Natureza exaurida. A fealdade das cidades e dos seus edifícios, o desarrumo dos campos, o fim do artesanato que criava coisas úteis e belas, foram a pedra de toque da denúncia de Morris de uma sociedade que criticou severamente. Perante o reformismo dos socialistas, preconizava a abstenção e a preparação de uma revolução que os ingleses teimavam em negar. Defendia um proselitismo activo das ideias socialistas na classe trabalhadora e invectivava as classes médias a afastarem-se das práticas capitalistas que apontavam à ruína e ao fim de uma humanidade em vias de deixar de ser pela existência de guerras permanentes a que se obrigava pela lógica dos lucros sem fim, da maquinaria industrial que exigia o fim do trabalho livre pela existência de um trabalho escravizado e do estertor da Natureza que se consumia pelo extractivismo. Talvez as melhores páginas desta selecção levada a cabo por Júlio do Carmo Gomes sejam as que se referem à construção pormenorizada de uma sociedade comunista: algumas delas claramente influenciadas pelo socialismo de Proudhon e pelo falanstério, mas igualmente pelas teses de Marx. William Morris não esconde o seu profundo conhecimento pela sociedade e economia feudais e colabora em clubes românticos, pré-rafaelitas, o que não deixa de ser sintomático sabendo nós a simpatia que Marx tinha para com poetas e pintores românticos muito pouco alinhados com a sociedade burguesa dessa época. 

Reside nessa síntese teórica a possibilidade de um caminho das ideias da Esquerda e do Socialismo nos miseráveis dias de hoje. Numa época em que a realidade já foi ultrapassada pelo espectáculo e em que a mentira é o artifício da tecnologia e de quem a dirige, este «Ódio à Civilização Moderna» não nos deixa de invectivar, de nos obrigar ao questionamento permanente de como outra sociedade é possível. É por isso que este livro é tão importante.

«É uma sociedade que não conhece o significado das palavras rico e pobre, nem o direito de propriedade, nem a lei e a legalidade, nem a nacionalidade: uma sociedade que não tem de viver com a assunção de ser governada; uma sociedade na qual a igualdade de condições é uma questão natural e na qual nenhum homem é recompensado por prestar serviços à comunidade pelo mero facto de dispor do poder de causar-lhe dano.
É uma sociedade ciente do desejo de preservar uma vida simples e de renunciar a uma parte do poder de domínio sobre a natureza, adquirido ao longo de eras passadas, com a finalidade de ser mais humana e menos mecânica, e disposta a fazer algum sacrifício para atingir esse fim. Estaria dividida em pequenas comunidades, muito diversas entre si dentro dos limites consentidos pela ética social respectiva, mas sem rivalidades e olhando com aversão para a ideia de um povo eleito.» (pág.156)

alc