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terça-feira, julho 30, 2024

«A Guerra dos Pobres», Éric Vuillard

 

D. Quixote, 2020. Tradução de João Carlos Alvim. De acordo com o AO90.
Em 72 páginas, o escritor francês Éric Vuillard, também autor de «Ordem do Dia», levou a cabo um exercício de síntese extremamente difícil em literatura. Em pouquíssimas palavras, todas elas tão contidas quanto certas, num jeito confessional para com o leitor, dá-nos uma perspectiva entusiástica da vida de Thomas Müntzer que levou a cabo nos anos vinte do século XVI uma revolta milenarista, de carácter religioso e social contra a igreja e a nobreza alemã.

A acção, muito complexa de analisar ainda hoje e alvo de vários estudos históricos, de Thomas Müntzer e da revolta camponesa e operária, acantonada nos núcleos urbanos juntamente com os artesãos, tem, contudo, antecedentes na Europa Central. Estamos a falar do checo Jan Huss (no livro a grafia que aparece é Hus), do inglês John Wyclif e dos seus lollardos que puseram a Inglaterra a ferro e fogo, de John Ball e de Wat Tyler seus continuadores nas revoltas onde decapitaram nobres e funcionários do rei, incendiaram castelos, propagandearam as suas teorias de uma era de ouro, mel e igualdade, usando a palavra de Cristo através dos evangelhos entretanto traduzidos para a língua comum. Não obedeciam às regras do clero, não pagavam os dízimos, assassinavam padres e nobres, saqueavam castelos como já se disse e não pagavam os arrendamentos das terras. Almejava-se uma igualdade social, baseado nas metáforas e palavras mais ou menos claras de Cristo contra a riqueza e o luxo. Acresce-se, em jeito de final de história (ironia minha, porque a vontade de igualdade social esteve e estará sempre presente nas lutas sociais) que todos foram mortos com extrema violência seja através do enforcamento, esquartejamento, decapitação, queima, tortura, etc, tudo o que a imaginação tétrica dos possidentes pode atingir. Embora a violência das massas populares  entregues a si próprias não fosse propriamente de anjinhos, fossem eles católicos ou protestantes. Aliás, Lutero, opôs-se violentamente contra a ordem revolucionária camponesa nos territórios ocupados pelos sediciosos. Não fosse a «sua» igreja ficar sem benesses...

Müntzer, diz-nos Éric Vuillard, assistiu à execução do pai, seu homónimo. O escritor define-o como colérico, iroso. Tem a palavra de deus e isso basta-lhe como programa que sintetiza no seu «Manifesto de Praga», embora recusando qualquer discussão estéril com o clero. O termo utilizado para esta recusa é «repugnância». A partir daqui é com um grande entusiasmo que continuamos a leitura querendo sempre chegar ao clímax da história, sabendo de antemão que o final de Thomas Müntzer estará traçado desde início. Pouco importa. Quando se escreve bem, vale sempre a pena continuar até porque somos brindados com alguns pormenores impossíveis de saber em livros académicos. É curiosos que a proximidade do Verão, abre quase sempre as portas às revoltas e revoluções. Claro que há excepções (Novembro de 1917, por exemplo), mas não sei se foi por esse facto que Vuillard nos apresenta o capítulo «O Verão Bate às Nossas Portas»:

«''Mund é a boca de Zerstörung, a destruição''. De forma que é possível detectar, em Thomas Müntzer, uma afinidade prodigiosa entre a palavra e a negação. Decerto, pode ver-se em Müntzer um desses idealistas apaixonados de que a medicina troça, podem colocar-se no divã Rousseau, Tolstoi, Lenine, e forçá-los a dizer o que quer que seja. Pode ver-se em todas as revoltas e em todos os fervores uma dor pessoal transfigurada; e então? (...)
Sim, Müntzer é violento, sim, Müntzer delira. Convoca o Reino de Deus aqui e agora, há nele um excesso de impaciência. Os exasperados são assim, irrompem um belo dia da cabeça dos povos, como fantasmas saem das paredes.» (pags. 45, 46)

A história de Thomas Müntzer termina na Batalha de Frankenhausen, se «batalha» se pode chamar a um massacre de dezenas de milhares de desvalidos miseráveis e cuja repressão brutal posterior do exército do rei e dos nobres levou dois meses a acabar. É assim que Éric Vuillard inicia o capítulo correspondente:
«E assim, dos quatros cantos do Império, surgiram hordas de miseráveis. Müntzer cantava, a multidão acorria. O landgrave de Hesse nem queria acreditar nos seus olhos. Em seguida, foram os operários das cidades, os loucos, toda a massa camponesa que bruscamente se sublevou. Houve um grande pavor entre os nobres e os burgueses. As mulheres deixavam as suas casas, as crianças caminhavam através dos campos, na esteira do Espírito Santo. As raparigas, os vagabundos, a atroz populaça, até os animais! Viu-se assim todo o género de gente, em grupos de dois ou de três, sozinha também, sem bagagem, sem nada. Não se sabia o que pretendia. Os senhores e os seus bandos armados já não ousavam fazer o que quer que fosse; viam-na passar aterrados. Um vago temor começava a nascer. Que deveria decidir-se? Nunca se tinha visto uma coisa assim. Todos largavam casas e casebres e se juntavam à errante multidão. E para onde ia toda essa gente? Ignorava-se. Temia-se até dispersá-la. Dormia nos bosques, na palha, entre sonhos.» (pág. 66)

E assim entre sonhos, a mole humana miserável que seguia Thomas Müntzer viu esfumar-se a igualdade que ansiava. Derrotada? É possível, mas ainda hoje está aí para a sua história ser contada. O milenarismo, o assalto à utopia da idade de ouro vindoura, aí está para ser lida e pensada nos dias de hoje pela mão de Éric Vuillard e de outros que não desistiram de nos lembrar, como Norman Cohn o fez no seu trabalho excepcional, de 1957, «Na Senda do Milénio - Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média» que tomo a liberdade de vos apresentar como dos poucos livros de grande fôlego, talvez não ultrapassado até hoje, sobre o tema. Foi neste livro que Éric Vuillard encontrou pormenores da vida e pensamento de Thomas Müntzer que veio a ser essencial para a construção da sua pequena obra.

alc

quinta-feira, agosto 19, 2021

Cosmos, chaos et le monde qui vient, Norman Cohn

 

Este livro estava há muito à minha espera. Respeito muito Norman Cohn, autor inglês e historiador empenhado no estudo do milenarismo através dos tempos. Pelo que percebo não é benquisto na universidade conimbricense, porque quando propus, nos anos 80, o conhecimento e debate da sua obra maior (de que falarei mais tarde) sobre o milenarismo na Idade Média, o professor meu interlocutor, olhou para o tecto e assobiou para o lado, despachando-me em três tempos, coisa que nas Letras é mato fazer-se. Talvez seja por o autor ser libertário e marxista, nunca o saberemos:

Este livro, cujo título "Cosmos, Caos e o Mundo que há-de vir", traduzo livremente, é de 1993 e não foi traduzido em Portugal. Li-o na versão francesa das Éditions Allia e trata de temas tão interessantes como polémicos o que lhe confere um gosto absoluto em lê-lo.

O Cosmos contra o Caos. O bem contra o mal. Deuses contra diabos maléficos. Concretamente, é mais objectivamente: deuses maléficos contra diabos maléficos porque, estranhamente, a humanidade teve sempre um pendor para adorar quem lhe batia, torturava ou matava em sofrimentos atrozes. No fundo, como os pais castigadores que diziam "levaste um enxurro de porrada mas para teu bem!"

A cosmologia de há 7 ou 8 mil anos atrás era simples (isto é relativo porque as oferendas aos sacerdotes obrigavam à matemática pura!). Os deuses egípcios, mesopotâmios, sírio palestinianos, védicos indianos ou os iranianos tratavam de ordenar o mundo dando aos homens boas colheitas, água abundante e enormes proles ao mesmo tempo que derrotam copiosamente os anjos do mal. Por vezes, estes últimos conseguiam a vitória por algum tempo. Estavam pois explicados os cataclismos, como as secas, terramotos, inundações, etc. A vida para além da morte, má ou boa, não estava dependente da acção do homem. Eram os deuses na sua omnipotência que resolviam os destinos.

A partir do zoroatrismo e das profecias de Zaratustra há uma inflexão total. Haveria um Deus mais poderoso do panteão que lutava contra os demónios do Caos. E mais importante ainda, lá para o ano de 1200 a.C.: começou-se a acreditar que praticar o bem poderia ser recompensador. A alma e o corpo de um justo poderia viver eternamente num paraíso, ao contrário dos desonestos e iníquos que viveriam nas profundezas da terra e no fogo eterno alimentado por dragões manipulados pelas forças do mal.

Segundo Cohn, o zoroatrismo teve uma influência determinante no judaísmo sírio palestiniano, apontando, como é óbvio no Antigo Testamento, um único Deus castigador e implacável que arrolava os pecados do homem como sendo as causas da vitória perene do mal. O judaísmo e o Levítico, com a Tora, aí estavam controlando ao mínimo passo a vida humana.

A seita judaica do cristianismo vem ainda trazer um dado novo: o do filho de Deus tornado o Messias, ou o ungido. A análise de Norman Cohn traduz uma certa inquietação com as paráfrases de Jesus e de Paulo traçando um paralelo entre o Antigo e Novo Testamento. Lendo este último com atenção e alguma distanciação teológica reparamos que quer num, quer noutro, a violência é igual se não maior neste último. O Reino dos Céus não está ao alcance de todos: é só para aqueles que não viraram costas a Cristo. Um balde de água fria para quem, mesmo depois das adaptações e reformulações oportunísticas da teologia das igrejas cristãs, ainda acredita na bondade do Novo Testamento através da mensagem de Cristo. 

A coincidência da representação dos deuses é deusas entre as diversas religiões desde que elas apareceram nas sociedades agrícolas e extremamente hierarquizada, até aos dias de hoje são apresentadas por Cohn com grande clareza. Recapitulando, é provável que já o soubéssemos a linearidade e convergência das religiões (até por autores anteriores como Mircea Eliade), mas constituiu um verdadeiro prazer quando tomamos dele conhecimento tão pormenorizado.