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segunda-feira, abril 14, 2025

«O Triunfo da Morte», Gabriele D'Annunzio

 

Minotauro, 2018. Tradução de Celestino Gomes
Um decadentista romântico tardio como Gabriele D'Annunzio chamava-me, há muito, cada vez que eu ia a uma livraria. «Qualquer dia, leio-o» era um mantra constante quando eu via a lombada de «O Triunfo da Morte». Corto Maltese dizia, através do seu autor, Hugo Pratt, que qualquer dia acabaria de ler «A Utopia» de Thomas More e, que eu saiba, «morreu» sem o conseguir. Também podem pensar: «Mas este tipo só lê fascistas?», embora não haja a certeza que D'Annunzio o seja ou que o número de fascistas que li é ínfimo, mesmo contando com o actual Houellebecq. Portanto, entrar-se-ia numa polémica que não terá aqui lugar, se o autor era ou não um deles. Pouco interessa. O que vale num pequeno artigo sobre este livro é que este autor anunciou claramente o fascismo sem precisar de nomeá-lo, mas pensou-o, delimitou-o ideologicamente, romantizou-o. O livro foi escrito em 1894, quando a demo-liberalismo entrava em decadência absoluta e defende, contudo, a entrada na I Guerra ao lado dos Aliados e a Itália tergiversa: primeiro, ao lado dos alemães e austro-húngaros e depois ao lado dos Aliados durante a própria guerra. Mau augúrio político que vai pagar caro nas conferências de paz. D'Annunzio combateu nas fileiras do exército e em 1918 ataca e ocupa Fiume com um grupo de apaniguados que, mais tarde, Mussolini exalta. Os tratados ignoram as pretensões italianas e Fiume, agora novamente austríaca, cai. O fascismo italiano impõem-se em 1922. O que tem isto a ver com o livro? Tudo.

Nietzsche só é citado uma única vez no início do livro, embora isso nada prove. O filósofo, como sabemos, estava longe de qualquer pretensão política totalitária. No entanto, estranhamente, atribui o conceito de super-homem a Goethe! Giorgio e Ippolita são as personagens. Longe da moral vigente, poder-se-ia dizer que estamos na presença de uma obra que foge aos trâmites burgueses. É certo que sim, mas pelo lado de uma aristocracia que pode, deve, ter o poder total sobre as classes estando acima delas. Apresenta um desprezo total pelas massas, pelo dinheiro, pelo povo, pela religião cristã ou outra qualquer. Até pela racionalização filosófica: «Pensas demais!» dirá Ippolita, em fuga de um casamento falhado e amante de Giorgio que atinge paulatinamente a felicidade na ideia de morte, no pensamento da morte, no espectro da morte. Este odeia o seu pai, um burguês rico mas falido, não encontra paz na família, mas na sua própria individualidade e na violência do seu pensamento: «Era, na vida, como um navio que soltava todas as velas à tempestade». Ou então: «Este homem intelectual, sabe-se lá por que influxo da consciência atávica, não podia renunciar aos sonhos românticos de felicidade. Este homem sagaz, apesar de ter a certeza de que tudo é precário, não podia furtar-se à necessidade de buscar a felicidade na posse de outra criatura. Ele bem sabia que o amor é a maior das tristezas humanas...» 

É assim que ele vê, que sente as outras criaturas: como suas, pertencendo-lhes totalmente para as dispor consoante o seu desejo que está longe do carnal. A mulher é um objecto em nada virtuoso. Sagrado ao princípio, torna-se inútil quando ele se farta, vê-a «como o Inimigo» que o fragiliza na sua virilidade, na sua força intelectual, na possibilidade de vencer o mundo. O povo é visto como uma massa demente, suja, que se arrasta em volta dos ídolos do cristianismo e, ao mesmo tempo, paradoxalmente para ele, que festeja a força da natureza no arranque da primavera, nas festas paganizadas de uma ruralidade pura, que revivifica a natureza em ciclos dionisíacos. Tal como a guerra. Tal como a morte libertadora. Giorgio sofre agora com a ausência de um chefe condutor que para si foi um seu tio, Demétrio, que se suicida. Ele segue-lhe o rasto. Fá-lo, atirando-se de um precipício e assassinando nesse último voo, Ippolita.

Calha-me dizer que sim: D'Annunzio é um fascista antes do tempo e Mussolini abraçou-o sem que aquele alguma vez tenha aderido ao PNF. Para quê? «O Triunfo da Morte» é um clássico, incontornável e a literatura deu-lhe a possibilidade de evitar qualquer apresentação panfletária de um programa. Mas toda a ideologia fascista está contida em «O Triunfo da Morte». 

Por que razão o li? Por uma questão que me parece ser essencial nos dias que correm: o fascismo contemporâneo aparenta ser pobre ideologicamente e os intelectuais ainda resistem ao seu chamamento, mas os principais pressupostos estão nos seus ódios e que coincidem neste livro de 1894: o povo, essa entidade heterogénea que admite dentro de si uma luta de classes que não terminou, um ódio particular e explícito às mulheres, ao livre arbítrio individual, à liberdade e à paz. Não é Giorgio que diz pela mão de D'Annunzio que perante um povo amorfo, crente, pobre, rastejante é nas cristas das ondas que se vê o poder dos fortes, verdadeira metáfora fascista para o poder das elites? 

Estejamos certos que os tempos estão extremamente perigosos e que a caixa de Pandora da guerra e da arbitrariedade política está aí ao virar da esquina. 

terça-feira, fevereiro 04, 2025

A Esquerda e o woke

Ainda sobre «O Contrário de Nada» de Tess Gunty e o pensamento woke: é necessário alguma cautela na esquerda antes de criticarem a expressão, que aliás não me entusiasma por aí além. Prefiro «liberdade» ou, se quiserem «direitos», «novas subjectividades», «superação do Iluminismo», porque é disso mesmo que se trata. Arranjar, à pressa, desculpas para a condição mais que recuada da esquerda, principalmente na sua frente eleitoral, devido à adopção do chamado «wokismo» é dar à direita e à extrema-direita (estranhamente ou talvez não, aqui também estão juntas) a legitimidade para continuarem a sua demanda para o pior da Idade Média. Experimentem focar-se no «pensamento» anti-woke e deparar-se-ão com um cortejo de horrores que nem a Margaret Atwood era capaz de imaginar. Está lá tudo: a mulher como reprodutora sem quaisquer direitos, a proibição do aborto, o fim da igualdade de género e proibição dos movimentos LGBTI+, a culpabilização das revoluções passadas, a prisão para quem não segue o pensamento único e o aumento exponencial do tempo de prisão de penas por crimes até agora considerados menores, a proibição da divulgação de qualquer ideia comunista ou anarquista, a regulação de uma só moral social, a publicação e divulgação mediática das teses revisionistas da História, o liberalismo puro e duro à Milei e à Trump, a culpabilização da pobreza, o desrespeito total pelos mais elementares direitos das pessoas, o fim da natureza tal como a vemos hoje, o retorno ao extractivismo selvagem...querem que eu continue?

Porque falei no início em Tess Gunty? Porque ela seria considerada woke. Provavelmente, junto com milhões de jovens americanos que ainda se consideram livres (na Europa, o sentimento de perda ainda vai demorar um pouco mais). E escritoras e escritores, músicas e músicos, actores e actrizes, que pensam como ela e que viver a liberdade é como respirar. Se lermos esta gente jovem, percebem que ser woke não é forçado, é naturalmente o seu pensamento quotidiano, de todos os dias, a todas horas e minutos.
Se a esquerda não percebe isto, se tiver medo dos «extremismos», se se sentir mal ou envergonhada com alguns epítetos que a direita lhe dirige (sempre lhe dirigiu o pior dos nomes desde 1789!) e principalmente se tentar apagar o seu passado, então merece nada.

In Facebook, 3 de Fevereiro de 2025

domingo, janeiro 19, 2025

«O Fim do Império», Ribeiro Cardoso

 

Por vezes, estas leituras deviam ser-nos apresentadas como obrigatórias para necessária catarse individual, já que a colectiva tarda e cá para mim nunca será feita convenientemente por um povo (essa entidade de conceito trôpego) que acredita piamente numa coisa chamada luso-tropicalismo. Não se espere uma narrativa literária, mas antes uma peça jornalística bem fundamentada por um então alferes, Ribeiro Cardoso, que na ocasião estava em comissão em Moçambique. O autor era igualmente jornalista do malogrado Diário de Lisboa que eu comprava diariamente à tarde. Os factos são descritos, em depoimentos, pelos protagonistas do 7 de Setembro de 1974 na então Lourenço Marques, em que a extrema-direita tenta evitar os Acordos de Lusaka que deram à Frelimo o poder em Junho de 1975. O jornalista sabe distanciar-se convenientemente de algumas posições políticas tão alucinadas, quanto perigosas. E que o foram verdadeiramente, contando-se aos milhares as vítimas desse fim anunciado do Império que ainda incha o peito de tanta gente.

O desespero é tramado, mas antes de descrevermos muito brevemente o que aconteceu e se seguiu à data de 7 de Setembro de 74, vale a pena dizer que a curiosidade histórica me levou a ler um diário de um soldado que esteve em Mueda, no norte de Moçambique, nos anos de 1966 e 67, sob fogo cerrado dos independentistas moçambicanos da Frelimo. Publicado, em 2024, por uma Biblioteca Municipal, alguns episódios descritos são terríveis e perante a morte de camaradas seus, em que se incluía igualmente o seu alferes da Companhia de que fazia parte, ele chega a suspender a sua escrita diarístíca. Parecia que este soldado não queria viver mais uma realidade que o transcendia, que lhe levava os amigos, os camaradas, que o impedia de estar com a família, a namorada da terra lá longe, num país que o obrigou a matar a troco de um pré miserável e de uma eventual medalha por serviços prestados à Pátria. Pagaria também um caixão que o trouxesse para o país, dito metrópole. Provavelmente, ao suspender a escrita do seu diário seria uma forma de tentar salvar-se. O que conseguiu. Já na idade dos setentas e muitos lá acabou as páginas finais do tal diário que li e que contrasta visivelmente com a narrativa oficial das instituições militares. Daí ser importante ler estes testemunhos para se perceber a chamada «moral» das tropas e o que os soldados sentiam antes das chamadas «missões» no interior em que eram mortos inocentes, queimadas aldeias, feitos prisioneiros sujeitos à tortura e a «interrogatórios». Para ver a dimensão da violência que grassava, entre 1966 e 1974, morreram, na prisão de Machava, 857 prisioneiros independentistas, como nos conta Ribeiro Cardoso em «O Fim do Império». Não estão nestes números, as dezenas de milhares que morreram em combate de um lado e de outro.

Quando se culpa a descolonização de crimes «atrozes» para a população branca de Lourenço Marques, era bom que lêssemos esta peça jornalística de Ribeiro Cardoso que foi testemunha presente nos acontecimentos que levaram ao 7 de Setembro de 1974 com a ocupação do Rádio Clube de Moçambique, do aeroporto e de outros locais públicos que são essenciais na lógica de um golpe de estado civil e militar. Os brancos de Lourenço Marques não aceitavam os Acordos que davam à Frelimo a possibilidade de independência efectiva da ex-colónia. O tão propalado e propagandeado luso-tropicalismo «suave» de miscigenação feito, deu lugar, demasiado depressa, ao violento ódio racista que levou ao massacre de milhares de negros nos bairros do caniço que delimitavam a cidade de cimento onde a população branca estava habituada a viver com os seus privilégios intactos. A tal «suave miscigenação» deu lugar, dizia, ao apelo branco à Rodésia e à África do Sul, países do apartheid, que lhes virou as costas, abandonando pides (200 foram libertados da Machava nesses dias), gente ex-ANP do antigo regime, mercenários, organizações fascistas paramilitares de «defesa civil» que ainda operavam livremente, os comandos estacionados em Montepuez, a PSP, os «Dragões da Morte» e por aí fora. É evidente que a resposta africana não se fez esperar e agora os massacres foram de cariz contrário. Até dia 12 de Setembro, e por interferência de Machel, de Chissano e dos guerrilheiros da Frelimo, foi posto fim à retaliação massiva. A fuga da extrema-direita branca e negra para a Rodésia e África do Sul seguiu-se em revoadas. Foi esta gente que, vinda mais tarde para Portugal, anunciava os «crimes da descolonização» e do «comunismo» e que foi fértil em estar ao lado dos spinolistas do ELP e MDLP. Spínola, aliás, cuja posição política contra o programa do MFA e hesitação criminosa perante a independência total das colónias, preferindo uma solução governativa «branca» e federalista, foi um dos factores determinantes no eclodir da violência que se instalou na descolonização e posteriores guerras civis. O 28 de Setembro de 1974 em Portugal está profundamente ligado a estes factos. Mas isso é outra história. O que é contado neste livro é essencial para perceber a irrealidade de um Império com pés de barro, que provavelmente nunca o foi verdadeiramente, mas sim um arremedo de experiências baseadas em conceitos vazios. Infelizmente, as inúmeras vítimas que o Império provocou não se encontram entre nós. Salve-se a memória que este trabalho nos apresenta.

quinta-feira, julho 18, 2024

«Révolution», Enzo Traverso

 

La Découverte, 2022. Edição francesa. Traduzida do inglês por Damien Tissot.
Capa de Ferdinand Cazalis
Numa época de triste recuo histórico das esquerdas mundiais, nunca é demais um exercício de memória sobre as revoluções passadas. Não se pense, contudo, que este livro se baseia numa melancolia revolucionária de quem pensa que a revolução é letra morta, que numa sociedade de capitalismo de vigilância e nas tecnologias avançadas, as experiências insurreccionais (sejam elas revoltas ou motins e revoluções) estarão necessariamente votadas ao fracasso. É exactamente o contrário. Ler este livro é uma lufada de esperança para quem acredita que a vida, a verdadeira vida, residirá numa saída única da catástrofe anunciada a que o sistema de exploração sistemática dos recursos do planeta e do trabalho alienado humano nos votou. Ler este livro de Enzo Traverso é tão-só analisar, pelas suas 450 páginas que se lêem num ápice de entusiasmo, as grandes derrotas históricas, as vitórias «dos assaltos aos céus», o «tempo das cerejas» ou dos «enragés» e sans-culottes que só exigiam governar-se a si próprios. É revisitar a vitória libertária de 1917, também sob o prisma tanto dos derrotados de Cronstadt como, ironicamente, a de Trostsky. É conhecer melhor Marx e Engels, Blanqui e Fourier, Bakunine e Proudhon, Walter Benjamim, Fanon e Constant, Lenine, Estaline e Mao e tantos outros; foi com muita atenção que o historiador referiu a grande massa de revolucionários anónimos e que pereceram numa aura de heroísmo e de «santidade» nas barricadas de 1830 e 1848, já em desuso e criticadas em 1871, mas nem por isso menos simbólicas no Maio de 68 francês, na Alemanha e Hungria de 19 ou na Espanha em 1936. Ou revisitarmos igualmente os vitoriosos de Sierra Maestra, o Vietname, o Laos e o Camboja, a China da grande marcha ou Tiananmen de 90. O século XX foi farto em dar-nos essas experiências, muitas delas afundadas em sangue e em experiências que melhor fora não terem tido lugar. O que não retira uma vírgula, à vontade de mudança radical que é aposta numa revolução e à sua carga utópica. 
Por isso há uma impossibilidade clara de haver um compromisso entre revolução e contra-revolução seja ela legitimista, conservadora ou fascista. Esses perigosos compromissos dar-se-ão, como demonstra Enzo Traverso, na social-democracia e no socialismo democrático. Mesmo que, entre as duas guerras, se tentasse fazer essa síntese, foram todas votadas ou ao esquecimento, muitas delas junto com esses autores, ou ao fracasso. Essa força, a força revolucionária, nada tinha a ver com a autoridade legitimada das classes subalternas no poder, e a vontade ilegítima (porque pessoal) de um qualquer duce ou führer. A revolução, as revoluções, são sempre a consequência de causas de injustiças e de exploração insuportáveis para os seres humanos. Que elas sejam mais ou menos violentas ou que as instituições mudem de mãos sem um único tiro (lá vem o caso português de 74 e a Checoslováquia de 89!) as revoluções mostram sempre as suas particularidades e igualmente as suas idiossincrasias. Criticadas e temidas por muitos, até por aqueles que delas beneficiariam, retiram-lhes quase sempre as suas causalidades e as conjunturas históricas em que explodem. 

Vejamos ao que vem Enzo Traverso logo no início do livro na página 25: 

«O objecto deste livro é a revolução, para o melhor e para o pior. Ele não opera nenhuma selecção entre as boas e as más revoluções, distinção tão difícil quanto estéril visto que as revoluções não pedem para serem idealizadas ou diabolizadas: elas são experiências vivas que se transformam em permanência e cuja dinâmica é imprevisível. Mais do que um julgamento moral, uma idealização ingénua ou uma condenação intransigente, merecem uma compreensão crítica. É ainda a melhor maneira de compreender o seu significado histórico e transmitir a sua herança. Numa passagem célebre, Marx escreveu que as revoluções modernas ''não retiram a sua poesia do passado'', enquanto que Benjamin vê o seu motor escondido num desejo de redenção dos vencidos que não é mais do que ''o compromisso tácito entre as gerações passadas e a nossa''. É muito provável que as revoluções oscilem entre estas duas temporalidades: elas salvam o passado inventando o futuro, mas podem incluir os dois.»

Mais à frente:

«Contrariamente à maior parte dos trabalhos sobre as revoluções, este ensaio não consagra um capítulo específico à questão controversa da violência. Há várias razões para esta ausência, que não resulta de maneira nenhuma de uma estratégia de fuga. A mais importante prende-se com o facto de a violência revolucionária atravessar esta obra, de maneira explícita ou subterrânea, duma ponta à outra. Com algumas excepções as revoluções são erupções, pontos de viragem traumáticos. A violência pertence à sua estrutura ontológica. As revoluções pacíficas são excepções, não a regra e, em muitos casos, elas não não mais do que arautos de explosões do futuro. Em 1974, a «revolução dos cravos» em Portugal foi pacífica porque foi desencadeada por uma parte do próprio exército e se, quinze anos mais tarde, as «revoluções de veludo» na Europa central se desenvolveram sem efusão de sangue, é porque as forças repressivas foram provavelmente neutralizadas na URSS. (...) 
A segunda razão pela qual esta obra não conta com um capítulo sobre a violência é mais especificamente historiográfica. Os historiadores conservadores escrevem à maneira de promotores, que estigmatizam as revoluções não como uma, mas mais especificamente, a fonte do totalitarismo moderno. Eles repartem-se em geral em duas categorias: de um lado os apologistas astutos do fascismo, do outro, os pregadores de uma sabedoria política solidamente amarrada aos postulados do liberalismo clássico. (...)» 

«Assim, esta obra junta fragmentos intelectuais e materiais dum passado revolucionário impulsivo e bastante esquecido, com o fim de re-articular uma composição com sentido, elaborada por imagens dialécticas: locomotivas, corpos, estátuas, colunas, barricadas, bandeiras, sítios, pinturas, pósteres, datas, ruas singulares, etc. De uma certa maneira, os conceitos, eles próprios, são tratados como imagens dialécticas, na medida em que emergem nos seus contextos próprios, como as cristalizações intelectuais de necessidades políticas e do consciente (ou do inconsciente) colectivo. (pág.31).

Um livro que devemos ter sempre em conta e nunca desfazê-lo num alfarrabista, até pelas imprevisibilidades várias que podem vir a existir no futuro. Sabe-se lá.

alc

sábado, março 26, 2022

Princípios básicos da «literatura» chegana





É um princípio meu desde que escrevo aqui e faço as minhas fichas de leitura que divulgo posteriormente no facebook não referir os livros de que não gosto. Adoptei esse critério e sinceramente tenho-me dado bem com ele. Mas há limites. E um deles foi um determinado livro que me veio parar às mãos. Não digo o nome da autora, nem o título da «obra». A editora é a BookBuilders que qualquer um pode editar, deduzindo que o «autor» paga antecipadamente a edição (o que não deve ser pouco). Imitando claramente as capas de outras editoras, o livro tem o mesmo estatuto, pelo menos nas estantes, de outras editoras ditas sérias ou, pelo menos, que procuram critérios mínimos de qualidade.

Não consegui ler o livro até ao fim. Deixo-vos alguns trechos. Isto pode levar-vos à acusação de descontextualização, mas acreditem que a contextualização é uma experiência muito pior, visto a qualidade é mais que sofrível. Partilhem comigo estes nacos:

A c*** da Aninhas:
«O Machado do primeiro direito sonhava muitas vezes com a c*** da Aninhas. De todas as c**** que conhecera na vida, a da Aninhas, talvez pela cor, um vermelho alanrajado a fazer lembrar as coralinas que cresciam no quintal dos seus avós galegos, e também pela extraordinária capacidade de se expandir, era a que recordava com mais saudades (...)». Não conto mais. Havia um colega meu no liceu, completamente tarado sexual, que descreveria melhor a genitália feminina do que a sua comparação com uma couve!

Os ciganos:
«Os ciganos são pontuais e exibem uma sofisticação vaidosa, camisas de cores florais, calças justas, mocassins de pele falsa, cabelos penteados com gel. Compram cigarros, batatas fritas, as tabletes de chocolate mais caras. Nunca respeitam a fila que se forma para pagamento dos produtos da loja. Olham com superioridade os restantes clientes da bomba de gasolina, ninguém se atreve a chamá-los à atenção.» Não se compreende o facto de comprarem as tabletes de chocolate mais caras. Isso é que não!

Os deficientes:
«Há também o casal que tem o filho deficiente. Não é maluquinho como o maluquinho das rotundas, é apenas um pouco atrasado. Habitualmente sentam-se na mesa junto do escaparate com os livrinhos da fundação. (...) [o rapaz] bate palmas [diante de um pastel de nata], saboreia com gosto, fica à espera de mais. Como um cão que aguarda os restos da refeição do dono.»

O racismo:
«O primeiro [amante da Aninhas] chamava-se Augusto. Pintava paisagens marítimas e plantava chalotas, favas e ervilhas numa horta comunitária na colina de Chelas. Era um preto grande, descendente de Gungunhana, mas tinha uma pila muito pequena. Aninhas mal dava por ela.»

A Zona J:
«Quando estava em baixo, quando, no trabalho, não aguentava as lágrimas, quando só queria morrer e vocês já eram nascidos [os 3 filhos da «autora»], metia-me no carro e vinha até aqui, fazia o caminho num choro que me libertava. Depois observava as crianças do bairro, os velhos desdentados, as mulheres feias, e, sentindo a minha própria maldade, sossegava.» Eu diria como um cão que recebe a comida do dono!

O ódio aos subordinados:
«Ao princípio Aninhas [todas as personagens se chamam Aninhas o que é uma inovação literária de truz!] sentiu-se embaraçada por ter quem trabalhasse sob a sua supervisão. Nunca mandara em quem quer que fosse. Descendia de uma linha de antepassados assalariados, a pobreza vinha de longe, uma genealogia de trabalho mal pago. como podia quebrar essa linhagem de servilismo? Que autoridade tinha para se fazer obedecer? A estranheza foi passageira. Quando a empregada tocou à campainha pela manhã, Aninhas sentiu uma alegria semelhante à de uma criança que se prepara para brincar ao faz de conta. (...) Preparava-se pela primeira vez na vida de mandar!» Ah! Lá se foi a genealogia do servilismo!

O passeio pela Almirante Reis contra a ralé do piorio:
«Depois, confesso, há outta coisa que me conforta. O João Pedro é completamente normal. Eu também. Quando passamos pela avenida toda a gente nos olha. Somos um par insólito. Roubamos o protagonismo das putas, dos bêbados, dos chulos, dos travestis e dos heroinómanos. E isso enche-me de orgulho.» Continua normal, Aninhas, tu e o João Pedro. Fazem um belo par de anormais completamente normais!

O amor pelas crianças loiras:
«Quando nasceu o primeiro filho houve logo quem duvidasse da sua fidelidade ao marido. É que o marido era ainda mais feio do que ela. Como podia aquela mulher dar à luz uma criança de cachos loiros, com a pele pálida, acetinada, macia, os olhos claros, a fazer lembrar a abóbada celeste nas tardes de Verão? O filho não podia ser seu marido.» 

Não consegui ler mais que as primeiras 55 páginas de 200 que são o que são por este breve passeio do que se faz de melhor na «literatura» chegana. A «autora» diz-se jurista. 


segunda-feira, setembro 06, 2021

A necessária autodefesa antifascista

Qualquer «autodefesa», qualquer «antifascismo» são conceitos recuados porque nos fazem desviar-nos de objectivos essenciais, daqueles que verdadeiramente transformam o mundo. No entanto, hoje, e também no espaço europeu, seja lá o que isso for, o fascismo mostra os dentes e alarga-se a todas as esferas. Não que seja uma novidade: o fascismo que é um estádio de um capitalismo em crise estrutural (os conjunturais até lhe dão jeito) serve-se deste sistema para ocupar o lugar dos regimes úteis como a social-democracia, o socialismo «democrático», a democracia-cristã, o liberalismo e por aí fora... ou seja, quando o capitalismo entra em sérias convulsões não só de representação, mas como de legitimidade e eficácia o fascismo torna-se uma arma do capitalismo: ameaça, ataca, morde, tortura e mata.

Daí, a autodefesa antifascista ser uma hipótese séria também de ataque aos fascistas. Não lhes dar tréguas, criando redes de solidariedade e afinidade entre antifascistas que os combatem. A autodefesa servirá para que haja avisos sérios para os fascistas terem conhecimento e sentirem na pele, que todo o ataque a um  revolucionário, a um comunista, a um antifascista, ou por «critérios» racistas e de género serão castigados e terão a resposta adequada.

É importante a constituição de redes de afinidade e de autodefesa que tenham por objetivo a construção de linhas de atuação com base na atividade física, festas, caminhadas, reuniões, edições de boletins de informação, aulas de contacto e autodefesa, etc... a não ser assim, o conceito de autodefesa pode ser uma proposta vã. Saudável, mas vã.

quinta-feira, maio 20, 2021

«Mulheres da Clandestinidade», de Vanessa Almeida

 

Um dia, quando «Mulheres da Clandestinidade» deu à estampa, comentei-o com uma turma do 12º ano de uma Escola do Porto que por acaso era bastante interventiva e curiosa (mais elas) sobre a História contemporânea. Como estudavam para o exame e este se aproximava calculando que quase sempre sai uma questão sobre o Estado Novo o interesse era normal que acontecesse. No entanto, passados alguns dias e já com o sufoco da aproximação do exame em que a «matéria» se condensava, como sempre estupidamente, vi um grupo de alunas com este livro da Vanessa Almeida nas mãos e que me diziam que o gostariam de comentar na aula. Como tinha sido eu a emprestá-lo acedi não sem alguma preocupação ligada ao «cumprimento do currículo». Contudo, foi das aulas mais profícuas que tive e que me deu para pensar bastante sobre o papel de um professor no sistema de ensino que nos enforma e, porque não dizê-lo, nos deforma. Quantos manuais escolares que se debruçam sobre a ditadura salazarista e marcelista são insonsos, embasbacadamente neutros sem o conseguirem ser de todo e repetitivos (mesmo tendo eu participado em alguns deles e tentando sempre mudar isso, não sei se com algum sucesso). 

A aula de duas horas, repetiu-se mais tarde sobre o mesmo tema. Estas alunas e alguns alunos tinham a ideia de uma ditadura morna, alguns confusos sobre os conceitos interiorizados por alguns professores entre «conservadorismo autoritário» versus «fascismo», não sabiam de todo as condições da clandestinidade e da luta das mulheres que Vanessa Almeida retratava ali. Comunistas, vindas de estatutos socioeconómicos variados, a maior parte pobres, camponesas, mas igualmente intelectuais que deram a sua vida a uma causa em torno da liberdade, de uma vida mais digna e pelo ideal comunista. O conjunto de alunas que leram os depoimentos de uma Maria Machado, de uma Margarida Tengarrinha, de uma Sofia Ferreira, de uma Teodósia Gregório ou de uma Fernanda Alves Rodrigues, entre outras, ficaram atónitas em relação a esta resistência à ditadura. O ser e estar clandestino era entrar numa outra dimensão, num outro mundo que julgavam acontecer só em filmes ou na literatura. O que me levou na ocasião a pensar, e hoje estou mais convicto disso, que o melhor manual escolar é o conjunto de livros como «Mulheres da Clandestinidade» será um exemplo em interligação com outros. Está lá tudo. Mesmo as circulares da PIDE foram escalpelizadas, o que deu pano para mangas sobre possíveis infiltrações e como seria isso possível. A tortura de Conceição Matos foi especialmente dolorosa para estas jovens alunas, assim como foi a separação dos filhos das clandestinas, muitos com destino a Ivanovo na URSS. Mas também mulheres que aprenderam a ler e a escrever através da imprensa do PCP, elas próprias clandestinas e que rodearam a impossibilidade de frequentar a escola «cá fora», ou seja, no ensino salazarista. Todo um manancial de depoimentos que ilustram bem a relação entre o amor, a luta, a firmeza no que se acredita, a utopia e a imaginação. O que os jovens de hoje dão importância, mesmo contando-lhes o passado próximo.

Se há alguma conclusão, ou conclusões, que se possam extrair desta descrição, e acredito que será mais comum do que se pensa, é que «Mulheres da Clandestinidade» devia fazer parte do Plano Nacional de Leitura. Não só porque se trata de um trabalho aturado, honesto, não sectário, sociologicamente sustentado com nomes e referências que reconhecemos, mas também por acreditar que o PNL deve ser multidisciplinar e não deve ficar refém da disciplina dedicada à prática de língua portuguesa. Em cada professor, deveria existir um pesquisador. Ou provavelmente adormeceremos a ler manuais escolares o que nos colocaria na prateleira dos preguiçosos.

Um livro a ler sempre. Cá ficará. 

António Luís Catarino

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Carta entreaberta aos jovens antifa

Porto, na Gato Vadio
À malta mais nova antifa: tenho 64 anos e já vi o suficiente para dar-vos um conselho sem qualquer paternalismo já que devem estar fartos dessas elucubrações de tipos obesos de tanto «achismo». A direita, junto com o PS, entendeu desmantelar, em décadas, o SNS, a educação pública, a habitação social, degradar salários e carreiras, impedir o acesso à justiça (claramente parcial), favorecer e fortalecer até ao inacreditável as multinacionais. Aceitou o Tratado de Lisboa e foi o melhor aluno da Europa no desmantelamento do tecido produtivo do país; apostou em dar cabo dos agricultores e dos pescadores com grande violência para o seu património; encolheu os ombros à floresta a arder; recebeu a troika. contente, radiante e humilhou-vos, mais a nós e aos reformados. Obrigou-vos à emigração. Escarneceu da cultura e do pensamento. Abocanhou a comunicação social. Riu-se da Constituição não a cumprindo nos seus valores mais solidários e sociais. Privatizou à bruta, retirando do interior do país os correios, as escolas, os centros de saúde, os bancos, os comboios e reduziu a circulação dos habitantes do interior até às cidades. Entretanto, o PS, o PSD e o CDS, há décadas no poder, aceitaram, ou na melhor das hipóteses, esconderam a corrupção larvar, a boçalidade política de quem tem lugares assegurados e o compadrio político das jotas e do centrão. Percebem de onde vem a revolta?

Isto não tem nada a ver convosco, nem connosco, nem com os mais velhos e muito menos com as crianças deste país. A esquerda, que agora se apoda na comunicação social, de «extrema», sempre defendeu outras políticas. Sempre resistiu e esteve ao lado dos desfavorecidos, culpados por esta gente de direita de serem pobres. E já passámos bem pior, por muito pior no plano político. Os resultados, são resultados eleitorais. De nada valem se não tiverem continuidade na análise atenta do aproveitamento que o fascismo faz deste lindo trabalho de anos seguidos. A luta far-se-á por todo o lado e principalmente onde estudamos, onde aprendemos sempre, onde trabalhamos e na rua, associando-nos fortemente e levando mais a sério uma coisa que os gregos, avisados, inventaram: a política. E, já agora, o ostracismo para quem atentava contra a democracia. Abraço forte, mas a política não se faz aqui no facebook. Dá-nos, propositadamente e com um forte controlo das nossas vidas,, uma perspectiva completamente errada da realidade. Isso também se aprende depressa.

António Luís Catarino
25 de janeiro de 2021 (um dia após as eleições presidenciais que deu o 3º lugar a André Ventura, atrás de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa e publicada no facebook)