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quarta-feira, novembro 23, 2011

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL, de SANTIAGO LOPÉZ-PETIT Tradução de RUI PEREIRA

Nota ao leitor

Esta nota não é um prólogo. O texto que aqui se apresenta, na medida em que propõe um conceito de realidade absoluta — a realidade tornada una com o capitalismo já não tem afora e pretende-se, para além disso, atemporal — não comporta um texto prévio. Ou, se o tivesse, ele não seria mais do que um simples comentário exterior. A nota é, bem mais, uma advertência. A escrita aqui adoptada permite enquadrar os mais diversos fenómenos num discurso unitário e total. Esse discurso é uma ficção, mas toda a ficção produz efeitos de realidade e, se ainda tivesse sentido falar em termos de cientificidade, a operação filosófica e política aqui empreendida reclamaria para si a cientificidade que lhe pode ser conferida pela coerência interna. Em virtude dessa necessidade interna, e uma vez conquistada, à partida, uma legitimidade a partir da qual falar, a realidade apresenta-se na sua processualidade. Queremos acreditar que aquilo que se ganha é suficiente para que a aposta valha a pena. Este texto tem a aspiração de explicar tudo. Decerto, sabemos que no mais essencial existe sempre uma pobreza e um esquematismo que lhe são inerentes. Por essa razão tem tanto de verdade o dizer-se que este texto é um croquis para que nos orientemos na realidade e contra ela. Trata-se de um croquis que outros podem ampliar ou concretizar, ou simplesmente, apagar para inventar outro. Vivamente desejamos que isso aconteça." SANTIAGO LOPÉZ-PETIT

sábado, outubro 29, 2011

Há textos cada vez mais atuais... A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido de O ESTADO-GUERRA , Santiago López Petit

O fascismo pós-moderno como (auto)mobilização total
Ainda que seja difícil aceitá-lo: dizer o que hoje sucede é dizer aquilo que nos sucede. As antigas análises de conjuntura já não nos falam porque nos afundámos na realidade. Ao invés, uma descrição da neve é-nos bem mais útil para sabermos onde estamos. A neve não é branca, mas antes de uma sujidade pegajosa. Os pés que nela se arrastam, por exemplo, não conseguem livrar-se dela. A neve está sempre meia submersa. Desde quando é verdade que a verdade do mundo se nos impõe como a nossa única verdade? A resposta é simples. Desde que a realidade se unificou com o capitalismo. Antes não era assim. Dantes, quando as análises de conjuntura contavam — ou pelo menos quando acreditávamos que sim — a realidade podia transformar-se. Agora também: «Outro mundo é possível». É isso o que as Organizações Não-Governamentais (ONG) afirmam. Foi isso que meio milhão de pessoas afi rmou no dia 16 de Março de 2002, saindo à rua em manifestação contra a Cimeira da União Europeia (UE) reunida em Barcelona. A manifestação foi um êxito. Graças aos numerosos serviços de ordem, perfeitamente coordenados com a polícia através dos telemóveis, correu tudo muito bem. Todos concordaram com isso. Desde o Senhor Ministro do Interior até aos anizadores, passando pelos diversos tipos de polícias.
Com efeito, a manifestação foi um êxito. Mas a manifestação pareceu-se com um funeral. Todos juntos, a avançar, sem conseguirem que a neve derretesse, sequer, um pouco mais. Cada qual sozinho — com a sua história pessoal, os seus desejos, as suas pequenas esperanças — juntamente com todos os outros. Esta manifestação, para muitos, histórica, é o fascismo pós-moderno. Vou à manifestação porque quero ir. Gritarei: «Outro mundo é possível». Voltarei para casa e continuarei a minha vida de sempre. É evidente que ninguém me obriga a participar. Só faltava isso. Eu sou livre. Eis o fascismo pós-moderno. E, ainda assim, os partidos políticos e os sindicatos de classe foram os últimos a desfilar. E, cansados de esperar, já que não estão acostumados a esperar… decidiram ir para casa. O fascismo pós-moderno é uma mobilização total da vida1 que (re)produz a realidade que se nos impõe como óbvia. Não tem nada a ver com a «auto-implicação no trabalho», «com o pôr a trabalhar» dos afectos… Essa ainda é uma análise economicista. Aquilo que agora se passa é que o capital, enquanto selbstzweckmaschine (máquina que tem a sua finalidade em si mesma) cortou a circularidade da vida. É apenas por vivermos, mais exactamente por levarmos a vida que é a nossa, que (re)produzimos esta realidade que se nos apresenta como pura obviedade. Nos Estados Unidos tornou-se moda, especialmente depois de 11 de Setembro, implantar sob a pele um chip que diz quem se é. Desta forma, em qualquer circunstância, pode-se sempre ser perfeitamente identifi cado. É divertido. É como um piercing, mas mais moderno. É o fascismo pós-moderno. Não é necessário insistir muito para justifi car o porquê desta designação.
Estamos para além do panóptico e das suas múltiplas instituições disciplinares. Tampouco se trata somente de uma sociedade de controlo. O fascismo pós-moderno é a conjunção do (auto)controlo com a produção de diferença. Esta conjunção pode funcionar de modos diferentes, consoante se oriente para «projecto autónomo» ou bem como «imposição heterónoma». É daqui que decorre que a mobilização total da vida possua duas faces, ainda que complementares: a auto-mobilização (o Amor com maiúscula, a busca de si mesmo…) e a mobilização forçada (Estado penal, prisão…). Ficarmo-nos pela aproximação acima é totalmente insuficiente. O fascismo pós-moderno não é unicamente a descrição da modalidade actual de exercício do poder. No fascismo pós-moderno, para além disso, o capitalismo identifi ca-se com a realidade. Esta identificação implica o seu próprio rebentamento. Hoje, a realidade é única, mas diz-se de muitas maneiras. Estes modos de se dizer são as diversas formas históricas (neo-esclavagismo, fordismo, pós-fordismo), todas elas presentes na sua simultaneidade.
Na medida, em que o fascismo pós-moderno as contém a todas constitui a suaprópria culminação. Vejamos mais de perto o que quer dizer o termo culminação. Usualmente, conhece-se por pós-fordismo a etapa actual em que o capitalismo se dispersa e fl exibiliza. Para uma melhor descrição, é conveniente fazer referência à política da relação que o estrutura. A política da relação vigente neste período pode centrar-se no princípio da identidade. Quando o princípio da identidade funciona para dentro, gera uma cultura da empresa. Ao contrário, quando funciona para fora, gera uma cultura da emergência. Ainda que muito diversifi cada, a cultura da empresa tem no toyotismo a sua expressão mais acabada. O toyotismo, como é sabido, organiza a produção a partir de equipas de trabalho e funciona pela incorporação da linguagem da competição desportiva (equipas, passagens do testemunho…). O que nos interessa sublinhar é que esta organização aspira à criação de um nós, no local de trabalho. Um nós ou neo-corporativismo de pequena escala tal que, ainda assim, precisa de uma cultura da emergência e da excepcionalidade penal para controlar o de fora, o Outro. A cultura da emergência recorre à prisão como seu dispositivo fundamental. Existe uma legislação amplíssima, com todos os seus aparelhos que complementam e estendem esse controlo normalizador. Com razão se discute se o pós-fordismo é uma nova estabilização do fordismo, ou uma crise mais avançada. Utilizando a terminologia introduzida, poderíamos afirmar que essa ambiguidade deriva da não existência de um isomorfismo entre a cultura da empresa e a cultura da emergência. Por isso, o pós-fordismo tem obrigatoriamente que tender para a sociedade em rede. Na sociedade em rede o princípio de identidade funciona no interior do princípio da razão suficiente, o que permite uma reformulação das duas culturas que facilita a sua máxima convergência. A sociedade rede conectará entre si os segmentos mais dinâmicos da sociedade, ao mesmo tempo que os desconectará e  marginalizará. A sociedade-rede oferece um modo novo de resolver o afundamento da tríade democracia — Estado — capitalismo. Este novo modo que implica um verdadeiro salto por comparação com a mera convergência entre cultura da empresa e cultura da emergência, plasmar-se-á naquilo que anteriormente designámos por mobilização total (autónoma e heterónoma) da vida pelo óbvio. Pois bem, porque essa é a verdade da sociedade-rede, a esta etapa para que a sociedade tende chamámos fascismo pós-moderno. Neste sentido, o fascismo pós-moderno é, ao mesmo tempo, uma totalidade e a sua culminação.
            A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido deO ESTADO-GUERRA , Santiago López-Petit

sexta-feira, junho 03, 2011

Sugestões para o dia de reflexão...





Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho. [Rui Pereira]





Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade." Santiago López-Petit 

sábado, outubro 16, 2010

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)



Cada vez A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, de Santiago López-Peti, faz mais sentido. Rui Pereira, tradutor do livro, deixa-nos comentários finais  e marginais algumas pistas para pensar.


O momento em que banqueiros, financeiros e políticos deles afins se interrogam na tertúlia televisiva sobre se o capitalismo terá «ruído» ou não…. O momento em que vozes das mais insuspeitadamente elevadas da Igreja católica exortam os seus fiéis a uma rebelião, pelo menos, do grau da protagonizada pelos apóstolos há dois mil anos: “Face aos pretensos senhores destes tempos […] o mínimo que podemos fazer é rebelar-nos com a mesma audácia dos Apóstolos», na formulação exacta que lhe deu o secretário  de Estado do Vaticano, monsenhor Tarcísio Bertone, discursando em Fátima, em Outubro de 2007.
[...]
O momento bizarro em que os neoliberais reclamam a “intervenção do Estado”. O momento em que os adeptos da “intervenção do Estado”, criticam os neoliberais reclamando a “intervenção do Estado”. O momento em que o espanto astrológico da constelação que uniu alta finança e baixa política, quando não desaparece sob o manto do falatório incessante nas televisões e nos jornais, aparece à sombra das grades carcerárias para alguns — escassos — bodes expiatórios aos quais, na aventura, tocou a sorte de pagarem por todos...
Podemos, neste momento, estar ou não estar de acordo com López-Petit. O que dificilmente poderemos é discordar da importância, da relevância crucial, da sua escrita para quantos, nas suas mil e uma formas, por vezes despercebidas, declinam a clássica questão da filosofi  a e da ontologia, tal como no-la entrega, a grande economia de Jean Lefranc: O que é o Homem?, para lhe encontrarem, como resposta,não mais do que o seu tudo e o seu nada, ou seja, o Homem é aquele ser que se coloca uma questão sobre si mesmo: O que é o Homem?
Consciência de si e consciência de si na História, o homem, diz-se, é ele e a sua circunstância. Mas é, também, ele na sua contingência. Da circunstância à contingência vai a qualidade de um grau diferente de si. O grau reflexivo do ser Homem enquanto ser dotado de historicidade. Quer dizer, percepção de si mesmo perante a encruzilhada. A História dá-se à consciência sob a forma de um campo de possíveis. Isto é, irrupção da escolha e imperativo de acção.
[...]
Porém, o que López-Petit, em toda a sua generosa crueza, vem dizer-nos, é que há momentos em que a auto-comiseração e as tácticas e desvios condescendentes da boa consciência não bastam. Esse é o tempo em que a História nos demanda. Tempo sumamente difícil, portanto. Em que temos de mastigar a comida, ao contrário do velho hábito de a deglutirmos já mastigada: — pelo rei, pelo presidente, pelo revolucionário, pelo juiz, pelo sábio, pela telenovela e pelo filósofo, pelo cura ou pelo ideólogo, pelo polícia, pelo plural mal simulado da televisão e do jornal, pelas fitas de série B e pelos futebolistas, pelos vídeo-jogos  tanto quanto pelas imagens da morte rotineira no mundo pobre  ou pelas suas homólogas do trivial fait-divers onanista do jet-set no mundo rico, mundo, este, felizmente, aquele a que pertencemos, bem seja pelos laços iridescentes do sangue legítimo, mal seja pelos elos deserdados da bastardia.
in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira) (pg. 210 e ss.)

quarta-feira, junho 23, 2010

Mobilização Global e El Taxista Ful no Gato Vadio, dia 26




Debate sobre A Mobilização Global de Santiago Lopéz-Petit, no Gato Vadio, seguido da projecção de El Taxista Ful,  dia 26 de Junho, pelas 21:30.  Com o António Alves da Silva (Pimenta Negra) e com o Rui Pereira (responsável pela tradução e notas de A Mobilização Global )
 

quarta-feira, maio 12, 2010

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL, de SANTIAGO LOPÉZ-PETIT Tradução de RUI PEREIRA

Nota ao leitor
Esta nota não é um prólogo. O texto que aqui se apresenta, na medida em que propõe um conceito de realidade absoluta — a realidade tornada una com o capitalismo já não tem afora e pretende-se, para além disso, atemporal — não comporta um texto prévio. Ou, se o tivesse, ele não seria mais do que um simples comentário exterior. A nota é, bem mais, uma advertência. A escrita aqui adoptada permite enquadrar os mais diversos fenómenos num discurso unitário e total. Esse discurso é uma ficção, mas toda a ficção produz efeitos de realidade e, se ainda tivesse sentido falar em termos de cientificidade, a operação filosófica e política aqui empreendida reclamaria para si a cientificidade que lhe pode ser conferida pela coerência interna. Em virtude dessa necessidade interna, e uma vez conquistada, à partida, uma legitimidade a partir da qual falar, a realidade apresenta-se na sua processualidade. Queremos acreditar que aquilo que se ganha é suficiente para que a aposta valha a pena. Este texto tem a aspiração de explicar tudo. Decerto, sabemos que no mais essencial existe sempre uma pobreza e um esquematismo que lhe são inerentes. Por essa razão tem tanto de verdade o dizer-se que este texto é um croquis para que nos orientemos na realidade e contra ela. Trata-se de um croquis que outros podem ampliar ou concretizar, ou simplesmente, apagar para inventar outro. Vivamente desejamos que isso aconteça." SANTIAGO LOPÉZ-PETIT