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terça-feira, maio 15, 2012

A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho


Recebi, hoje mesmo e pelo correio, o último livro de Henrique Fialho, desta vez em edição de autor. A capa é de Maria João Lopes Fernandes e a composição de Pedro Serpa. Devo dizer que ainda só folheei o livro mal o tive na mão e é com algum entusiasmo que desde já o revelo aqui. O autor de Estranhas Criaturas (o primeiro a ser editado pela Deriva) aí está de novo e, não me engano, com um belíssimo conjunto de poemas. Mas não escolhi um ao acaso. Foi o que, para já, gostei mais. Depois não se aproveitem e digam que o leram «na net». É bom que tenham a obra (o autor avisa que é de tiragem única e não repetível!). Todo o livro é assim belo como este poema:

IAN CURTIS A ANNIK HONORÉ

Colho um tufo de erva do teu corpo
Deito-me nele e como-o,
sinto-lhe a humidade que ficou da última noite
quando nos deitámos e rebolámos
e nos cruzámos com insectos
a medirem-nos a respiração das coisas.

Prostro-me sob a sombra do teu peito,
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve.

Andamos sempre à procura
de uma noite que não tem dias,
de uma noite sem sinais,
candeeiros que reflictam
a agitação dos mosquitos à queima-roupa.

Andamos como uma letra despovoada
nos silos da ternura, a encostar um sopro
a outro sopro. E nada, absolutamente nada,
nada nos cura desta traição consumada.

quarta-feira, março 21, 2012

PARA QUE SERVE A POESIA HOJE?, de Jean-Claude Pinson, por Henrique Fialho

A Deriva tem dado à estampa, numa colecção intitulada Pulsar, dirigida e coordenada por Ana Luísa Amaral, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo, alguns pequenos textos que visam reflectir o lugar e a função da palavra escrita no mundo actual. Assim, depois de Para que serve a Literatura? (Julho de 2010), de Antoine Compagnon (n. 1950), saiu Para que serve a Poesia Hoje? ( Junho de 2011), de Jean-Claude Pinson (n. 1947). Pinson nasceu em Nantes, estudou Letras na Sorbonne, acabando por formar-se em Filosofia sem nunca ter abandonado a inclinação literária, nomeadamente através da prática dos versos. O pequeno livro que agora nos chega com tradução de José Domingues de Almeida está dividido em duas partes. Uma primeira parte mais teórica, composta pelo texto de uma conferência proferida a 12 de Janeiro de 1999, e uma segunda parte mais dialogante, com uma síntese do debate suscitado pela dita conferência. As teses de Pinson, erigidas sobre o terreno fértil da obra de Henri Michaux, enfermam de um vício ao qual raramente escapam obras do género, o de começarem por reflectir um assunto pressupondo a necessidade dessa reflexão. À pergunta Para Que Serve a Poesia Hoje? Nós podemos, desde logo, juntar uma outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha já servido no passado? Estes problemas são tão mais urgentes quanto se torna necessário entender se, de facto, a poesia alguma vez serviu para alguma coisa ou se tem mesmo de servir para alguma coisa. Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade humana deverá ser pensada em função do paradoxo suscitado pela prática do impraticável. Na realidade, nada na vida pede sentido senão a própria perdição dos homens. Assim como a vida não tem que ter sentido algum, também a poesia não tem que servir para o que quer que seja. Não se trata de pretender fugir a uma questão entusiasmante de um ponto de vista meramente académico e teórico, até porque o texto de Pinson é assaz objectivo e procura sempre focar-se no essencial. No entanto, resvala com frequência nos tiques academistas com que estas questões são geralmente abordadas. Presume-se que a poesia não esteja na moda, algo que a realidade actual desmente ao constatarmos a proliferação de sítios dedicados ou atafulhados de poesia. Em certos circuitos de afirmação intelectual a poesia chega a dar cartas, até porque, como Pinson sugere, é uma arte aparentemente fácil e acessível. As limitações do público da poesia também já não são um dado adquirido. Convém esclarecer quem é esse dito público, até porque poesia há de vários tipos, modos e géneros, alguns tão populares e correntes que deixariam os académicos de gabinete estupefactos. Recentemente, em Portugal, um grande grupo editorial passou a distribuir uma das mais emblemáticas editoras de poesia portuguesas. Isto aconteceu pouco depois do principal responsável por esse grande grupo editorial ter decretado em entrevista pública a morte da edição de poesia. Ora, não me parece que um homem de negócios pretenda pegar num defunto só para ter o gozo de ser ele a enterrá-lo. Como é óbvio, a suposta utilidade de uma arte não se afirma pelo interesse que suscita nas massas. Há artes que nasceram para serem mediáticas, outras há que nunca almejaram senão aquilo a que hoje se chamam fidelíssimos nichos de mercado. É verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, mas tenho alguma dificuldade em lamentar essa realidade. A poesia terá uma dimensão terapêutica que não esgota as suas funções, mas que de algum modo sublinha o carácter utilitário da sua não-utilidade. Duvido que cure ou dê prazer, pelo menos não tanto quanto um bom vinho ou a masturbação. Muitos dos melhores poetas suicidaram-se, levaram vidas errantes, foram indigentes e execráveis, o que deixa dúvidas quanto às dimensões curativas e saudáveis da poesia. Sem dúvida que desincha poderes, alarga horizontes na exacta medida em que amplifica a linguagem, proporciona um mundo melhor ou pior a quem com ela conviva no desleixo de si próprio e do mundo. Não obstante, parece-me que ainda está para chegar o intelectual que diga, sem parangonas, que a grande utilidade da poesia não diverge, no essencial, da utilidade da Playstation, ou seja, ajuda a passar o tempo proporcionando bons fogachos de tempo. Que também Pinson insista na balela castradora e exclusivista da verdadeira poesia, como se a falsa pudesse sê-lo, só peca a favor de um texto estimulante que nos agrada, sobretudo, pela sua intrínseca inutilidade.
 
Henrique Fialho, 26 de setembro de 2011

terça-feira, maio 11, 2010

Chega de Fado de Paulo Kellerman, por Henrique Fialho



[Recensão a Chega de Fado de Paulo Kellerman, no Rascunho.net, por Henrique Fialho ]
O percurso que marca a afirmação de Paulo Kellerman (n. 1974) como um dos mais consistentes contistas portugueses começou com várias publicações caseiras que coligiam estórias mais ou menos absurdas, grotescas, irónicas. A primeira colectânea que a Deriva lhe publicou  Gastar Palavras (2005, Grande Prémio de Conto “Camilo Castelo Branco” C.M. de Vila Nova de Famalicão/ APE em 2006)  revelou-nos um autor com suficiente agilidade para, dentro de um mesmo registo narrativo, produzir inflexões nas temáticas predilectas e experimentar novos caminhos. Se é verdade que algumas das publicações caseiras já vinham anunciando um autor especialmente focalizado nas rotinas da vida a dois, menos verdade não será que essas rotinas foram sendo aprofundadas do ponto de vista reflexivo nos livros subsequentes: Os Mundos Separados que Partilhamos (2007) e Silêncios Entre Nós (2008). Nesses livros, erguidos a partir de diálogos informais com pinturas de diversos artistas, a vida a dois aparece retratada sob uma perspectiva existencial, refém da melancolia e da monotonia que o objecto observado imprime no observador. Não se nota em nenhuma dessas compilações um esforço de distanciamento que permitisse pensar as relações humanas neste mundo contemporâneo, que só dizemos civilizado por distracção, para lá da previsibilidade dos comportamentos mais facilmente detectáveis. O que se nota é uma revelação perspicaz da fractura que a encenação da vida conjugal civilizada estabelece entre a intimidade e a partilha. [continue a ler aqui]

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Filipa Leal e Henrique Fialho na antologia luso-brasileira «Um Rio de Contos»


Acaba de sair a Antologia Luso-brasileira «Um Rio de Contos» (Editorial Tágide com o apoio da CPLP), onde se publica um texto de Filipa Leal. Também lá está um conto de Henrique Fialho que será editado pela Deriva ainda em 2010.

UM RIO DE CONTOS
Antologia Luso-Brasileira

organização: CELINA VEIGA DE OLIVEIRA E VICTOR OLIVEIRA MATEUS.

Contos de: TEOLINDA GERSÃO, MARIA TERESA HORTA, MOACYR SCLIAR, URBANO TAVARES RODRIGUES, JANE TUTIKIAN, MARIA AUGUSTA SILVA, TERESA RITA LOPES, JOÃO AGUIAR, HENRIQUE LEVY, CARLOS NEJAR, TERESA ALVES, OLGA SAVARY, DIMITER ANGUELOV, MIGUEL REAL, ROSA LOBATO DE FARIA, FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, SÉRGIO FARACO, RITA TABORDA DUARTE, INÊS VINAGRE, ANA CRISTINA ALVES, HUGO SANTOS, JOÃO LUÍS NABO, LUIZ RUFFATO, ANA COSTA RIBEIRO, ALDYR GARCIA SCHLEE, RUI ZINK, FERNANDO DACOSTA, FILIPA LEAL, ANA ZANATTI, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, GUILHERME TRINDADE, MARIA LUCÍLIA MELEIRO, CATARINA FONSECA, ALEXANDRE BONAFIM, MARCELO PUGLIA, JORGE REIS-SÁ, PEDRO SENA-LINO, MARIANA IANELLI e VICTOR OLIVEIRA MATEUS, entre outros...