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sexta-feira, janeiro 18, 2013

Henrique Fialho escreve sobre «Para que Serve a Poesia Hoje?», de Jean-Claude Pinson


A Deriva tem dado à estampa, numa colecção intitulada Pulsar, dirigida e coordenada por Ana Luísa Amaral, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo, alguns pequenos textos que visam reflectir o lugar e a função da palavra escrita no mundo actual. Assim, depois de Para que serve a Literatura? (Julho de 2010), de Antoine Compagnon (n. 1950), saiu Para que serve a Poesia Hoje? ( Junho de 2011), de Jean-Claude Pinson (n. 1947). Pinson nasceu em Nantes, estudou Letras na Sorbonne, acabando por formar-se em Filosofia sem nunca ter abandonado a inclinação literária, nomeadamente através da prática dos versos. O pequeno livro que agora nos chega com tradução de José Domingues de Almeida está dividido em duas partes. Uma primeira parte mais teórica, composta pelo texto de uma conferência proferida a 12 de Janeiro de 1999, e uma segunda parte mais dialogante, com uma síntese do debate suscitado pela dita conferência. As teses de Pinson, erigidas sobre o terreno fértil da obra de Henri Michaux, enfermam de um vício ao qual raramente escapam obras do género, o de começarem por reflectir um assunto pressupondo a necessidade dessa reflexão. À pergunta Para Que Serve a Poesia Hoje? Nós podemos, desde logo, juntar uma outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha já servido no passado? Estes problemas são tão mais urgentes quanto se torna necessário entender se, de facto, a poesia alguma vez serviu para alguma coisa ou se tem mesmo de servir para alguma coisa. Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade humana deverá ser pensada em função do paradoxo suscitado pela prática do impraticável. Na realidade, nada na vida pede sentido senão a própria perdição dos homens. Assim como a vida não tem que ter sentido algum, também a poesia não tem que servir para o que quer que seja. Não se trata de pretender fugir a uma questão entusiasmante de um ponto de vista meramente académico e teórico, até porque o texto de Pinson é assaz objectivo e procura sempre focar-se no essencial. No entanto, resvala com frequência nos tiques academistas com que estas questões são geralmente abordadas. Presume-se que a poesia não esteja na moda, algo que a realidade actual desmente ao constatarmos a proliferação de sítios dedicados ou atafulhados de poesia. Em certos circuitos de afirmação intelectual a poesia chega a dar cartas, até porque, como Pinson sugere, é uma arte aparentemente fácil e acessível. As limitações do público da poesia também já não são um dado adquirido. Convém esclarecer quem é esse dito público, até porque poesia há de vários tipos, modos e géneros, alguns tão populares e correntes que deixariam os académicos de gabinete estupefactos. Recentemente, em Portugal, um grande grupo editorial passou a distribuir uma das mais emblemáticas editoras de poesia portuguesas. Isto aconteceu pouco depois do principal responsável por esse grande grupo editorial ter decretado em entrevista pública a morte da edição de poesia. Ora, não me parece que um homem de negócios pretenda pegar num defunto só para ter o gozo de ser ele a enterrá-lo. Como é óbvio, a suposta utilidade de uma arte não se afirma pelo interesse que suscita nas massas. Há artes que nasceram para serem mediáticas, outras há que nunca almejaram senão aquilo a que hoje se chamam fidelíssimos nichos de mercado. É verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, mas tenho alguma dificuldade em lamentar essa realidade. A poesia terá uma dimensão terapêutica que não esgota as suas funções, mas que de algum modo sublinha o carácter utilitário da sua não-utilidade. Duvido que cure ou dê prazer, pelo menos não tanto quanto um bom vinho ou a masturbação. Muitos dos melhores poetas suicidaram-se, levaram vidas errantes, foram indigentes e execráveis, o que deixa dúvidas quanto às dimensões curativas e saudáveis da poesia. Sem dúvida que desincha poderes, alarga horizontes na exacta medida em que amplifica a linguagem, proporciona um mundo melhor ou pior a quem com ela conviva no desleixo de si próprio e do mundo. Não obstante, parece-me que ainda está para chegar o intelectual que diga, sem parangonas, que a grande utilidade da poesia não diverge, no essencial, da utilidade da Playstation, ou seja, ajuda a passar o tempo proporcionando bons fogachos de tempo. Que também Pinson insista na balela castradora e exclusivista da verdadeira poesia, como se a falsa pudesse sê-lo, só peca a favor de um texto estimulante que nos agrada, sobretudo, pela sua intrínseca inutilidade.
Henrique Fialho

terça-feira, maio 15, 2012

A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho


Recebi, hoje mesmo e pelo correio, o último livro de Henrique Fialho, desta vez em edição de autor. A capa é de Maria João Lopes Fernandes e a composição de Pedro Serpa. Devo dizer que ainda só folheei o livro mal o tive na mão e é com algum entusiasmo que desde já o revelo aqui. O autor de Estranhas Criaturas (o primeiro a ser editado pela Deriva) aí está de novo e, não me engano, com um belíssimo conjunto de poemas. Mas não escolhi um ao acaso. Foi o que, para já, gostei mais. Depois não se aproveitem e digam que o leram «na net». É bom que tenham a obra (o autor avisa que é de tiragem única e não repetível!). Todo o livro é assim belo como este poema:

IAN CURTIS A ANNIK HONORÉ

Colho um tufo de erva do teu corpo
Deito-me nele e como-o,
sinto-lhe a humidade que ficou da última noite
quando nos deitámos e rebolámos
e nos cruzámos com insectos
a medirem-nos a respiração das coisas.

Prostro-me sob a sombra do teu peito,
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve.

Andamos sempre à procura
de uma noite que não tem dias,
de uma noite sem sinais,
candeeiros que reflictam
a agitação dos mosquitos à queima-roupa.

Andamos como uma letra despovoada
nos silos da ternura, a encostar um sopro
a outro sopro. E nada, absolutamente nada,
nada nos cura desta traição consumada.

domingo, setembro 26, 2010

Estranhas Criaturas, Henrique Manuel Bento Fialho

Estranhas Criaturas apresenta-se sob a epígrafe de Calvino:
Relegada durante longas eras em esconderijos longínquos, desde que fora apeada do sistema das espécies agora extintas, a outra fauna voltava à luz vinda das caves da biblioteca onde se guardam os incunábulos, lançava-se em grandes saltos dos capitéis e dos algerozes, empoleirava-se nas cabeceiras dos dormentes. As esfinges, os grifos, as quimeras, os dragões, os hircocervos, as harpias, as hidras, os unicórnios, os basiliscos retomavam a posse da sua cidade. | Italo Calvino

Depois é um desfilar de Estranhas Criaturas.... como esta:


HIRCOCERVOS

   As estantes estão cheias, a cabeça cheia de pó, o chão desarrumado. Não admira que os pés tropecem, que a cinza ameace o céu limpo. Todo o azul celeste mete medo, todo o mar. Caminham por dentro dos músculos as notícias, o futuro antecipado, as previsões metrológicas.
   Ao carpir das sirenes, os homens chegam-se às varandas. Abrem os estores, dilatam as pálpebras, olham por cima dos pijamas os lençóis da cama onde pernoitam arrumados. Costas com costas, pobres cães vadios, esperam a hora de ir para os empregos. Perfumados. Trabalham o cansaço, uma dor na coluna vertebral, aquele ouvi dizer que sabia como quem traz prendas para casa. Uma consola para o menino, um adereço para a Barbie.
   Fazem flexões, alongam os músculos, esticam os ossos como quem estica os cordões à bolsa, o estendal de pendurar a alma todos os dias, à mesma hora, até que o coração diga basta. A um canto, o grito incita a fome: gostamos dos aranhiços, das pulgas, das infiltrações. Única distracção no caminho das horas.

Encomende Estranhas Criaturas aqui. 

terça-feira, julho 27, 2010

"LOBISOMEM " - Estranhas Criaturas de Henrique Manuel Bento Fialho

LOBISOMEM 
Não preciso de luas cheias para que os uivos se soltem da garganta e sigam disparados contra as estrelas. Basta-me o quarto minguante das iniquidades, a lua gibosa dos hipócritas, a mediocridade dos cretinos aleitados pela sagrada vaca da pesporrência.
...Na verdade, não careço de dia treze para que o azar me bata à porta e entre sem sequer eu ter oportunidade de perguntar quem bate. Queixar-me não posso, mas dói quando o pêlo irrompe dos poros, as unhas saltam afiadas para fora dos dedos, os dentes procuram a carne que satisfaça o apetite.
...Quem pensar que não dói, desengane-se. Pago a raiva com uma incomensurável solidão. Mais ainda quando dizem estar comigo todos os crápulas de latido dissimulado. Debaixo do meu uivo, mal podem imaginar sua ínfima condição de cachorros domésticos.
Henrique Manuel Bento Fialho, in Estranhas Criaturas


O seu livro aqui.

quinta-feira, julho 08, 2010

Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho




Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho

   "Querido poeta que te queixas das contas por pagar: rescinde os contratos. Nas aldeias abandonadas do interior há casas com poços e terrenos por cultivar. Cria galinhas, poemas que ponham ovos, um ou dois porcos, uma pocilga de poemas. Ainda há peixe para pescar, passarinhos por carpir. Levaram-te as asas? Borda asas de ferro nos ossos, deixa que lhes chova para cima até ficarem ferrugem, ri da pobreza. Não esperes pelos cossacos. Mete um STOP no queixume enquanto aqueces a sopinha instantânea ao microondas. Afinal, para que queres um telefone se a solidão não te lamenta? Queres telefonar à solidão ou esperas que ela te ligue?
   Querido poeta, não vês que para escutares o teu Bach no iPod é fundamental haver quem invente o iPod, é preciso Bach e quem o distribua pelos ouvidos dos surdos, são precisos balcões abertos e caixas registadoras. Afinal de que te queixas? Segue o exemplo de tantos dos teus pares e mata-te, abdica, dedica-te à mendicidade. Ou será que tens medo dos becos escuros da cidade? Afinal o que resta em ti de poeta?
   És já só a vergonha de um sonho por cumprir, um sonho de vida literária, um amigo das cavernas discursivas, tens a lábia de quem mete conversa e atira contra o espelho o cuspo venenoso da vaidade, queres-te encapado, esterilizado na lombada, consolado no autógrafo, sonhas com mulheres lindas levantando-se a teus pés, és a contraprova da poesia, nada do que resta em ti é já poesia porque tudo o que em ti resta é, afinal, uma ausência confrangedora de coragem, as franjas duma dor sem nervo, o tremor da desconfiança, um palanque, recitais, um queixume do que afinal pretendias sem vontade para tanto.
   Sai de casa, faz-te à estrada, segue o exemplo. Mata-te. Querido poeta que te queixas da sociedade, por que te ligas à sociedade através de uma rede sem fios? "
Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho