terça-feira, abril 07, 2009
Deepest Vocation de Janet Kuypers
Janet Kuypers, Ohio, 10/03/2008
segunda-feira, abril 06, 2009
Capas que nos incomodam?
Acham possível ser incomodados com estas capas da Penguin Books? Podem ler melhor os comentários aqui , mas a bem da verdade também nunca aderimos ao formato de bolso. Estava a imaginar ler este The Vivisector, de Patrick White, no metro com a capa bem aberta para o meu vizinho da frente ou, em alternativa, num qualquer consultório de oftalmologia.sexta-feira, abril 03, 2009
Livros mutantes de Brian Dettmer
Brian Dettmer - Livros Mutantes
Através de José Afonso Furtado tivemos acesso a estes livros mutantes de Brian Dettmer. Podem ser consultados aqui
Desembarque: 14 piratas no Gato Vadio
Foram catorze os piratas que desembarcaram, ontem, no Gato Vadio, entre livros, algumas bebidas simpáticas e boa disposição suficiente para um debate sobre pirataria, sufismo, corsários, renegados, propriedade, islamismo, etc., etc. moderado por Miguel Mendonça e António Alves da Silva.
Deva-se registar um espaço extremamente agradável que é o Gato Vadio, com bons livros criteriosamente escolhidos à venda e uma gestão impecável do Júlio. A ir sem falta a permanecer lá por uns tempos.
quarta-feira, abril 01, 2009
Gato Vadio: pirataria à solta quinta, dia 2, pelas 22h
A pirataria vai atracar no Porto (não, não estamos a falar do BPN e outros negócios igualmente lucrativos) durante perto de duas horas ali para a Rua do Rosário, que é sempre uma boa toponímia para o tema.
As Utopias Piratas de Peter Lamborn Wilson vão ser assunto de conversa pela noite dentro com uma bebida a condizer (uma cuba libre ou um rum forte vinha a calhar!) e se possível com o espírito tão aberto que possibilite a deriva para as «novas» piratarias dos dias de hoje.
A República de Salé, no século XVII, foi uma república livre como a tão livre Veneza. Os negócios de rapina de uma e de outra encontrar-se-iam amiúde pelos tempos fora. As diferenças, sendo muitas, foram-no igualmente na morte. Uma deixou o capitalismo a fermentar no mundo, a outra, a de Salé, deixou-nos sem nenhum registo ou menção escrita. No entanto, ainda hoje nos sentimos impreterivelmente atraídos por esta República pirata de Salé. Assim como múltiplos renegados voluntários que nunca chegaram a regressar...
Barba Negra e Utopias Piratas
terça-feira, março 31, 2009
O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa. A sair
Eis a capa de O Mundo Sólido de João Paulo Sousa. Com arranjo gráfico de Gémeo Luís e foto de Pedro Ferreira. Dentro de pouco tempo nas livrarias. Apresentações em Lisboa e no Porto.
sábado, março 28, 2009
Utopias Piratas. Apresentação na Gato Vadio dia 2 de Abril, quinta às 22h, com António Alves da Silva e Miguel Mendonça

É já na quinta-feira, na Livraria Gato Vadio, na Rua do Rosário, 281 (ver aqui), uma conversa com Miguel Mendonça, que traduziu e propôs à Deriva a publicação de Utopias Piratas de Peter Lamborn Wilson, e António Alves da Silva. Pretende-se um debate informal sobre a pirataria moura do século XVII e o papel muito particular da República de Salé que, diga-se, está muito pouco estudada pela historiografia oficial. Se a troca de opiniões que esperamos seja aberta e sincera abrir caminhos de futura exploração do tema já nos damos por muito satisfeitos.
Não se esqueçam: quinta-feira, pelas 22h, na Gato Vadio.

sexta-feira, março 27, 2009
Telefunken de Luis Maffei e Um Punhado de Terra de Pedro Eiras. Na tipografia
Ana Hatherly, Labirinto de LetrasDois livros mais na tipografia e uma faca nos dentes. Do Brasil, chega-nos Luis Maffei com Telefunken a sair muito em breve pela Deriva. Um livro de poesia belíssimo que irá ser apresentado por Rosa Maria Martelo e Silvina Lopes Rodrigues, no Porto e em Lisboa, respectivamente.
Pedro Eiras surpreende-nos sempre. E agora foi com Um Punhado de Terra, um monólogo que nos entra pelo corpo dentro, sobre os chamados descobrimentos portugueses. Violento e grandioso. A seguir estes dois livros, com atenção.
segunda-feira, março 23, 2009
Havemos de ir a Viana, sessão das Quintas de Leitura com Filipa Leal, já dia 26 de Março
Havemos de ir a Viana, sessão com Filipa Leal nas Quintas de Leitura no Teatro de Campo Alegre, dia 26 de Março, pelas 21:30. A não perder. Para saber mais aquiVersos Olímpicos de José Ricardo Nunes e O Mundo Sólido de João Paulo Sousa na tipografia

Ana Hatherly
É uma notícia interna, daquelas a que quase ninguém dá o devido valor. Notícia que passa rapidamente sob o nosso olhar e que se duvida que se fixe por muito tempo, até vermos os livros nas nossas mãos. É assim com estes, com todos eles. Um abraço aos seus autores, ao João Paulo Sousa, com O Mundo Sólido, e ao José Ricardo Nunes, com Versos Olímpicos, um romancista e um poeta que escolheram a Deriva para os lermos. Iremos falar com eles aqui no blog e dar a conhecer as capas, os livros, os lançamentos, os convidados, os amigos. Em breve. Para já, os dados estão lançados. A tipografia espera-os.
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sexta-feira, março 20, 2009
Filipa Leal e Bando dos Gambozinos, dia 21 de Março, no CCB
Dia 21 de Março Filipa Leal e o Bando dos Gambozinos vão estar presentes no CCB.Ver o programa aqui
Utopias Piratas de Peter Lamborn Wilson
«O islamismo, no fim de contas, é o mais recente dos três monoteísmos ocidentais, e contém por isso a sua dose de crítica revolucionária do judaísmo e do cristianismo. A apostasia de um autoproclamado Messias ou de um pobre e anónimo marinheiro seria invariavelmente vista, nesta perspectiva, como um acto de revolta. O islão, em certa medida, foi a Internacional do século XVII – e Salé talvez o seu único e verdadeiro “Soviete”. À primeira vista, Salé aparenta ser um lugar ímpio, um ninho de piratas ateístas e violentos – mas assim que observamos e escutamos com mais atenção, quase podemos ouvir o eco das suas vozes distantes, recortadas em apaixonados debates e exaltadas oratórias. Os textos perderam-se ou talvez nunca tenham existido; era uma cultura oral, uma cultura auditiva… é difícil discernir os seus últimos murmúrios… mas não totalmente impossível!»
Peter Lamborn Wilson
Peter Lamborn Wilson
Peter Lamborn Wilson
O autor, neste seu recente trabalho, foca a acção corsária da independente República pirata de Salé, durante o século XVII. Corsários, sufis, pederastas, mulheres mouras «irresistíveis», escravos, aventureiros, rebeldes irlandeses, judeus hereges, espiões britânicos, heróis populares da classe trabalhadora e até um pirata mouro em Nova Iorque, emprestam a este livro um ambiente livre constituído por comunidades insurrectas nunca verdadeiramente dominadas e portadoras de uma praxis de resistência social que abalou seriamente os estados europeus.
Peter Lamborn Wilson, nascido em 1945 e investigador e poeta norte-americano com vasta obra editada, escreveu «Sacred Drift: Essays on The Margins of Islam», na City Lights e «Scandal: in Islamic Heresy», Autonomedia.
Peter Lamborn Wilson, nascido em 1945 e investigador e poeta norte-americano com vasta obra editada, escreveu «Sacred Drift: Essays on The Margins of Islam», na City Lights e «Scandal: in Islamic Heresy», Autonomedia.
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Teatro para a Infância e Juventude, novo livro de Ana Margarida Ramos, Blanca-Ana Rechou e José António Gomes, já à venda

É o novo livro da Deriva já disponível no site.
No seguimento da publicação, em 2007, do volume Grandes Autores para Pequenos Leitores – Literatura para a Infância e a Juventude: elementos para a construção de um cânone, também na Deriva Editores, decidiram os autores voltar a reunir as suas produções ensaísticas, desta vez em torno do universo do texto dramático.
Assim, compilam-se neste livro quatro ensaios onde se abordam, em diferentes línguas, as produções literárias de destinatário preferencial infantil, no âmbito do texto dramático, relativas a Portugal, à Galiza, a Inglaterra e à Alemanha. Cada um dos textos é publicado na língua materna dos investigadores que o assinam, o que resulta numa publicação bilingue que, contudo, pelas afinidades existentes entre o português e o galego, não põe em causa a leitura deste monográfico, pelo contrário, enriquece-o com contributos desconhecidos da grande maioria do público português (nos casos dos ensaios sobre as produções galega, inglesa e alemã) e do público galego (no tocante às criações em português) que, por esta via, são aqui disponibilizados.À semelhança do que já ocorrera com a publicação anterior, os textos sobre a situação portuguesa e galega correspondem a versões desenvolvidas e alargadas de uma reflexão que se iniciou por altura da realização dos XIII Encontros Luso-Galaico-Franceses do Livro Infantil e Juvenil, na Biblioteca Municipal de Almeida Garrett, em Novembro de 2007. Subordinado ao tema «Do Livro à Cena», este encontro pretendia promover a interacção entre autores, encenadores, investigadores e mediadores de leituras em torno das relações entre texto dramático e teatro para a infância, chamando a atenção para um modo literário que se encontra na base de uma arte complexa e rica e que não tem conhecido a atenção merecida por parte do público e da crítica. Como sempre ocorre neste tipo de iniciativas, os diálogos prolongam-se para lá das sessões formais e das discussões suscitadas, fomentando o interesse pelo desenvolvimento das análises entretanto apresentadas.
Título mais uma vez proposto pelo escritor e crítico Miguel Vázquez Freire, um dos elementos da Direcção de GÁLIX (Asociación Galega do Libro Infantil e Xuvenil – Sección galega da OEPLI) que participa na organização dos Encontros do Porto. Deste modo, e apesar da edição das actas dos encontros, mantinha-se o interesse pela divulgação de trabalhos mais alargados e de maior fôlego, permitindo estabelecer panorâmicas das diferentes línguas envolvidas, capazes de dar a perceber a evolução e as tendências dos textos dramáticos para a infância e juventude.
Além disso, o teatro para a infância tinha sido também o centro dos estudos desenvolvidos, entre Setembro de 2006 e Setembro de 2007, pelos investigadores agrupados na LIJMI – Rede Temática de Literaturas Infantis e Juvenis do Marco Ibérico que, além de apoiarem a realização dos Encontros Luso-Galaico-Franceses, publicaram, na Galiza, o volume monográfico que tem a seguinte referência bibliográfica: ROIG RECHOU, Blanca-Ana, LUCAS DOMÍNGUEZ, Pedro e SOTO LÓPEZ, Isabel (coord.), Teatro Infantil. Do Texto á Representación, Vigo: Edicións Xerais de Galicia (ISBN 978-84-9782-616-7), permitindo o enquadramento mais alargado da reflexão entretanto levada a cabo relativamente aos casos português, galego, inglês e alemão. Agrupando investigadores e docentes de várias universidades portuguesas e espanholas, sob a coordenação de Blanca-Ana Roig Rechou, este grupo de investigação interdisciplinar dedica-se, principal mas não exclusivamente, ao estudo da produção, recepção e mediação das produções literárias destinadas ao público infanto-juvenil.
Também à semelhança do volume anterior, e com vista a manter uma certa uniformidade, manteve-se a colaboração das investigadoras galegas que se dedicam ao contexto anglo-germanístico, disponibilizando referências relevantes que permitirão situar o caso português num contexto mais alargado das literaturas infantis europeias. Trata-se, no fundo, de perseguir uma linha de investigação já iniciada anteriormente, procurando sistematizar e contextualizar diferentes produções literárias de potencial recepção infantil, reconhecendo-lhes um lugar relevante nos estudos literários contemporâneos e contribuindo, com estes pequenos passos, na realização de uma história europeia comparada da Literatura para a Infância e Juventude.
Assim, compilam-se neste livro quatro ensaios onde se abordam, em diferentes línguas, as produções literárias de destinatário preferencial infantil, no âmbito do texto dramático, relativas a Portugal, à Galiza, a Inglaterra e à Alemanha. Cada um dos textos é publicado na língua materna dos investigadores que o assinam, o que resulta numa publicação bilingue que, contudo, pelas afinidades existentes entre o português e o galego, não põe em causa a leitura deste monográfico, pelo contrário, enriquece-o com contributos desconhecidos da grande maioria do público português (nos casos dos ensaios sobre as produções galega, inglesa e alemã) e do público galego (no tocante às criações em português) que, por esta via, são aqui disponibilizados.À semelhança do que já ocorrera com a publicação anterior, os textos sobre a situação portuguesa e galega correspondem a versões desenvolvidas e alargadas de uma reflexão que se iniciou por altura da realização dos XIII Encontros Luso-Galaico-Franceses do Livro Infantil e Juvenil, na Biblioteca Municipal de Almeida Garrett, em Novembro de 2007. Subordinado ao tema «Do Livro à Cena», este encontro pretendia promover a interacção entre autores, encenadores, investigadores e mediadores de leituras em torno das relações entre texto dramático e teatro para a infância, chamando a atenção para um modo literário que se encontra na base de uma arte complexa e rica e que não tem conhecido a atenção merecida por parte do público e da crítica. Como sempre ocorre neste tipo de iniciativas, os diálogos prolongam-se para lá das sessões formais e das discussões suscitadas, fomentando o interesse pelo desenvolvimento das análises entretanto apresentadas.
Título mais uma vez proposto pelo escritor e crítico Miguel Vázquez Freire, um dos elementos da Direcção de GÁLIX (Asociación Galega do Libro Infantil e Xuvenil – Sección galega da OEPLI) que participa na organização dos Encontros do Porto. Deste modo, e apesar da edição das actas dos encontros, mantinha-se o interesse pela divulgação de trabalhos mais alargados e de maior fôlego, permitindo estabelecer panorâmicas das diferentes línguas envolvidas, capazes de dar a perceber a evolução e as tendências dos textos dramáticos para a infância e juventude.
Além disso, o teatro para a infância tinha sido também o centro dos estudos desenvolvidos, entre Setembro de 2006 e Setembro de 2007, pelos investigadores agrupados na LIJMI – Rede Temática de Literaturas Infantis e Juvenis do Marco Ibérico que, além de apoiarem a realização dos Encontros Luso-Galaico-Franceses, publicaram, na Galiza, o volume monográfico que tem a seguinte referência bibliográfica: ROIG RECHOU, Blanca-Ana, LUCAS DOMÍNGUEZ, Pedro e SOTO LÓPEZ, Isabel (coord.), Teatro Infantil. Do Texto á Representación, Vigo: Edicións Xerais de Galicia (ISBN 978-84-9782-616-7), permitindo o enquadramento mais alargado da reflexão entretanto levada a cabo relativamente aos casos português, galego, inglês e alemão. Agrupando investigadores e docentes de várias universidades portuguesas e espanholas, sob a coordenação de Blanca-Ana Roig Rechou, este grupo de investigação interdisciplinar dedica-se, principal mas não exclusivamente, ao estudo da produção, recepção e mediação das produções literárias destinadas ao público infanto-juvenil.
Também à semelhança do volume anterior, e com vista a manter uma certa uniformidade, manteve-se a colaboração das investigadoras galegas que se dedicam ao contexto anglo-germanístico, disponibilizando referências relevantes que permitirão situar o caso português num contexto mais alargado das literaturas infantis europeias. Trata-se, no fundo, de perseguir uma linha de investigação já iniciada anteriormente, procurando sistematizar e contextualizar diferentes produções literárias de potencial recepção infantil, reconhecendo-lhes um lugar relevante nos estudos literários contemporâneos e contribuindo, com estes pequenos passos, na realização de uma história europeia comparada da Literatura para a Infância e Juventude.
Da Apresentação.
Coordenação de Ana Margarida Ramos, Blanca-Ana Roig Rechou e José António Gomes
quinta-feira, março 19, 2009
Problema de Expressão, por Paula Cruz
“I should not dare to be so sad”Emily Dickinson
“e que por isso, por ser triste, porsermos todos tristes, não mo deviam dizer.Digo-te por isso que não era minha intenção dizer-te mais uns versos tristes e sem luz, e por isso, só por isso,não era minha intenção dizer-te nada.”
(Leal, 2008: 17)
“e que por isso, por ser triste, porsermos todos tristes, não mo deviam dizer.Digo-te por isso que não era minha intenção dizer-te mais uns versos tristes e sem luz, e por isso, só por isso,não era minha intenção dizer-te nada.”
(Leal, 2008: 17)
Ninguém está triste, digo: ninguém é triste. Agora, ninguém entristece, todos deprimem. A tristeza é sentimento; a depressão é doença. O sentimento esconde-se, a doença trata-se. O desconcerto desta tristeza anunciada vem, exactamente, pelo despudor de se afirmar a tristeza. Ser triste não é um estado, é a condição de ser norte. Norte nos sentidos, norte na distância, norte como a Madame de Stäel que, ao distinguir a poesia do Norte e do Sul, opta pela poesia do Norte, pois a considera mais em consonância com o pensar filosófico: a tristeza permite conhecer melhor o carácter do Homem. A tristeza é obsessiva, é minuciosa, é exacta como estes versos.
Em “Digo-te por isso” (idem, ibidem) regressamos a uma palavra-chave do cancioneiro literário português: triste. O mais provável é que este uso tenha sido meramente acidental, contudo vale a pena reler o texto com esta memória, com o peso, que o adjectivo “triste” tem no nosso imaginário literário . Não deve existir cantiga mais triste que a célebre cantiga “Partindo-se”: “Partem tão tristes, os tristes, / tão fora de esperar bem / que nunca tão tristes vistes / outros nenhuns por ninguém.” Ainda que em sentidos diferentes, do que na cantiga de João Ruiz Castelo Branco, a repetição da palavra triste, neste poema de Filipa Leal: trilha-nos. É uma tristeza que pré-existe e que não tem e que não precisa e que não quer ter explicação: não é triste “porque” ou “apesar de”, é-o.
“Digo-te por isso” apresenta-se como uma resposta a quem quer um “fiat lux” forçado, a quem quer mascarar a tristeza, não entendendo que a tristeza é uma condição, não uma escolha. O eu que se esconde (ou se mostra) é bem mais contido que o Campos que recusa o rebanho:
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ou que o Régio:
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
Enquanto que estes dois poetas estridentes ocupam o espaço com o grito da revolta e da rebeldia, a voz de “Digo-te por isso” é firme, mas não se afirma pelo grito, não precisa de o fazer, sabe que não lhe adianta fazê-lo. Não diz o que não quer, diz antes o queria não ter feito: “que não era [sua] intenção dizer-te mais uns versos tristes” . Não há agressão ao “tu”, há uma distância provocada por um problema de incomunicabilidade. Talvez, o “eu” que se esconde (ou se mostra no texto) não quisesse dizer nada disto, porém há sempre falhas na comunicação, esse é o problema de ser norte. Quando se endereça uma carta, à partida, não estaremos, depois, presentes para nos explicarmos.
O primeiro poema do livro é o selo de um cêntimo . Se calhar a poeta que empresta voz ao remetente destes versos não concorda. Muito provavelmente, para ela o primeiro poema é a Arte Poética (idem, ibidem:9) ou a provocação que a antecede: “É isto que acontece quando se escreve sobre o resto” (idem, ibidem:8) e por “isto”, entenda-se, poesia no sentido mais preciso (e precioso). Mas isso não interessa, agora que os textos lhe fugiram do domínio, cada um dos destinatários/leitores criará novos sentidos, novos nortes. E aquele selo faz todo o sentido. E mesmo que o selo seja uma falsa pista para a exegese destes versos, certo é que, como numa carta longamente pensada, também nos versos deste livro há uma preocupação com a precisão da palavra, com o destino de cada sílaba, com o norte de cada sentido. De facto: “escrever não é fácil / que viver não é fácil” (idem, ibidem:17) , ainda mais quando a vida e a escrita se amalgamam, quando se procura escrever a vida e não descrevê-la como os tais “poetas de supermercado” (idem, ibidem: 24).
Nota: Não era minha intenção escrever este texto. Pensei escrever sobre as Artes Poéticas de Filipa Leal e de Nuno Júdice, mas um verso de Adrienne Rich , -The length of daylight /this far north”, em Integrity, torceu-me a atenção. E em redor desse verso, sem árvores à volta, cresceu o texto. Não falei do todo que é O Problema de Ser Norte porque o silêncio e a luz não se dizem, porque é preciso primeiro chegar ao “fim do pensamento.” (idem, ibidem:43)
(2008) Leal, Filipa O problema de ser norte, Deriva, Porto.
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ou que o Régio:
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
Enquanto que estes dois poetas estridentes ocupam o espaço com o grito da revolta e da rebeldia, a voz de “Digo-te por isso” é firme, mas não se afirma pelo grito, não precisa de o fazer, sabe que não lhe adianta fazê-lo. Não diz o que não quer, diz antes o queria não ter feito: “que não era [sua] intenção dizer-te mais uns versos tristes” . Não há agressão ao “tu”, há uma distância provocada por um problema de incomunicabilidade. Talvez, o “eu” que se esconde (ou se mostra no texto) não quisesse dizer nada disto, porém há sempre falhas na comunicação, esse é o problema de ser norte. Quando se endereça uma carta, à partida, não estaremos, depois, presentes para nos explicarmos.
O primeiro poema do livro é o selo de um cêntimo . Se calhar a poeta que empresta voz ao remetente destes versos não concorda. Muito provavelmente, para ela o primeiro poema é a Arte Poética (idem, ibidem:9) ou a provocação que a antecede: “É isto que acontece quando se escreve sobre o resto” (idem, ibidem:8) e por “isto”, entenda-se, poesia no sentido mais preciso (e precioso). Mas isso não interessa, agora que os textos lhe fugiram do domínio, cada um dos destinatários/leitores criará novos sentidos, novos nortes. E aquele selo faz todo o sentido. E mesmo que o selo seja uma falsa pista para a exegese destes versos, certo é que, como numa carta longamente pensada, também nos versos deste livro há uma preocupação com a precisão da palavra, com o destino de cada sílaba, com o norte de cada sentido. De facto: “escrever não é fácil / que viver não é fácil” (idem, ibidem:17) , ainda mais quando a vida e a escrita se amalgamam, quando se procura escrever a vida e não descrevê-la como os tais “poetas de supermercado” (idem, ibidem: 24).
Nota: Não era minha intenção escrever este texto. Pensei escrever sobre as Artes Poéticas de Filipa Leal e de Nuno Júdice, mas um verso de Adrienne Rich , -The length of daylight /this far north”, em Integrity, torceu-me a atenção. E em redor desse verso, sem árvores à volta, cresceu o texto. Não falei do todo que é O Problema de Ser Norte porque o silêncio e a luz não se dizem, porque é preciso primeiro chegar ao “fim do pensamento.” (idem, ibidem:43)
(2008) Leal, Filipa O problema de ser norte, Deriva, Porto.
sábado, março 14, 2009
Teatro Nacional de São João promove ciclo de debates O Teatro Na Escola, 27 e 28 de Março
O Teatro na Escola
Espectáculo, Debates, Oficina
Espectáculo, Debates, Oficina
27 e 28 de Março
Numa altura em que o ensino artístico faz parte do currículo escolar do ensino básico e a oferta de ensino profissional artístico tem vindo a aumentar, propomo-nos falar da situação do teatro na escola enquanto actividade curricular e extracurricular. Das dificuldades que os seus agentes encontram. Quem são estes agentes? O teatro na escola. Casos de boas práticas. O programa inclui também uma oficina em que, a partir do texto de Tchékhov, As Três Irmãs, os participantes experimentam algumas das práticas utilizadas em contextos formativos e artísticos. Por último, assistiremos a 3irmãs, um exemplo de criação teatral em contexto escolar.
Espectáculo
[27 + 28 Março] sexta-feira e sábado 21:30
3irmãs
de Anton Tchékhov
encenação Pedro Manana, Joana Félix
pelo contra-regra (grupo de teatro da Escola Secundária Inês de Castro)
Bilhetes à venda para a récita do dia 28 de Março na bilheteira do TNSJ Preço único: € 5,00 Informações e reservas 800-10-8675
Debates
O Teatro na Escola
[27 Março] sexta-feira 18:00
O papel das artes, e especificamente do teatro, na contemporaneidade e a sua importância na formação do indivíduo. A “alfabetização” estética. A diferença metodológica entre a experimentação real de expressões artísticas e as disciplinas convencionais. As parcerias entre a escola e entidades externas (autarquias, companhias, teatros…).
Participantes Nuno Carinhas (Encenador); Júlia Correia (Actriz, professora de Teatro e Expressão Dramática na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto); Marcelo Lafontana (Encenador, actor e director artístico do TFA – Teatro de Formas Animadas de Vila do Conde) Moderador Domingos Morais (Docente da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa)
[28 Março] sábado 16:00
Teatro na escola – Prática universal ou disciplina de opção? Dimensão curricular ou extracurricular? Perfil do docente. A presença dos artistas nas escolas. O estatuto das disciplinas artísticas e dos respectivos professores. A presença das expressões artísticas na formação de educadores e professores.
Participantes Joana Félix (Professora de Teatro da Escola Secundária Inês de Castro, Porto); Marcelo Lafontana (Encenador, actor e Director Artístico do TFA – Teatro de Formas Animadas de Vila do Conde); Né Barros (Coreógrafa, co-directora do Balleteatro). Moderador Domingos Morais (Docente da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa)
Oficina
A Expressão Dramática Aplicada à Pedagogia
[28 Março] sábado 10:00-13:00
Oficina orientada por Joana Félix, dirigida a docentes de todas as áreas disciplinares.
Debates e Oficina Inscrições gratuitas junto do departamento de Relações Públicas do TNSJ T 22 340 19 50 email: rp@tnsj.pt
Espectáculo
[27 + 28 Março] sexta-feira e sábado 21:30
3irmãs
de Anton Tchékhov
encenação Pedro Manana, Joana Félix
pelo contra-regra (grupo de teatro da Escola Secundária Inês de Castro)
Bilhetes à venda para a récita do dia 28 de Março na bilheteira do TNSJ Preço único: € 5,00 Informações e reservas 800-10-8675
Debates
O Teatro na Escola
[27 Março] sexta-feira 18:00
O papel das artes, e especificamente do teatro, na contemporaneidade e a sua importância na formação do indivíduo. A “alfabetização” estética. A diferença metodológica entre a experimentação real de expressões artísticas e as disciplinas convencionais. As parcerias entre a escola e entidades externas (autarquias, companhias, teatros…).
Participantes Nuno Carinhas (Encenador); Júlia Correia (Actriz, professora de Teatro e Expressão Dramática na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto); Marcelo Lafontana (Encenador, actor e director artístico do TFA – Teatro de Formas Animadas de Vila do Conde) Moderador Domingos Morais (Docente da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa)
[28 Março] sábado 16:00
Teatro na escola – Prática universal ou disciplina de opção? Dimensão curricular ou extracurricular? Perfil do docente. A presença dos artistas nas escolas. O estatuto das disciplinas artísticas e dos respectivos professores. A presença das expressões artísticas na formação de educadores e professores.
Participantes Joana Félix (Professora de Teatro da Escola Secundária Inês de Castro, Porto); Marcelo Lafontana (Encenador, actor e Director Artístico do TFA – Teatro de Formas Animadas de Vila do Conde); Né Barros (Coreógrafa, co-directora do Balleteatro). Moderador Domingos Morais (Docente da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa)
Oficina
A Expressão Dramática Aplicada à Pedagogia
[28 Março] sábado 10:00-13:00
Oficina orientada por Joana Félix, dirigida a docentes de todas as áreas disciplinares.
Debates e Oficina Inscrições gratuitas junto do departamento de Relações Públicas do TNSJ T 22 340 19 50 email: rp@tnsj.pt
Espectáculo
Tambores na Noite
[20 Março 26 Abril] terça-feira a sábado 21:30 domingo 16:00
de Bertolt Brecht
encenação e cenografia Nuno Carinhas
colaboração musical António Sérgio
segunda-feira, março 09, 2009
O Oriente na Literatura Portuguesa: um encontro em Itália organizado por Catarina Nunes de Almeida

No dia 27 de Fevereiro, foi organizado por Catarina Nunes de Almeida o encontro «O Oriente na Literatura Portuguesa». Teve lugar na Universidade de Pisa, em Itália, onde a Catarina lecciona e se encontra a finalizar o mestrado. Os participantes foram Gustavo Rubim, Ana Paula Laborinho, Paulo Borges, Serafina Martins, Esperança Cardeira, Luís Filipe Thomaz, Arlindo Nicau Castanho, Renata Pisu, António Graça de Abreu.
domingo, março 08, 2009
E lá se vai o Intercéltico
No Porto, já nos habituámos ao costume nefando: quando uma acção cultural de prestígio se mobiliza para uma nova aventura, quase sempre anual, os representantes autárquicos do burgo insultam e desprezam os promotores. Aconteceu, agora, com o Intercéltico cujo responsável foi apodado de «caçador de subsídios», ou lá o que foi dito, quando, de uma maneira completamente legítima se dirigiu à vereação para pedir os apoios do costume. Pelo que conheci, nem eram nada de mais. Estamos conversados sobre a má-educação do tal representante político. Mas estamos (ainda mais) esclarecidos sobre o programa cultural da CMP. Tudo o que não meta automóveis de corrida e o insuportável La Feria, mais os prejuízos aos bolsos dos contribuintes que essa popular opção implica, não tem lugar no Porto. Entretanto, perdemos o Intercéltico num ano em que se ia comemorar a Irlanda.sábado, março 07, 2009
Utopias Piratas de Peter Lamborn Wilson e com tradução de Miguel Mendonça, em breve nas livrarias

Já se encontra na tipografia «Utopias Piratas - Corsários Mouros e Renegados Europeus» de Peter Lamborn Wilson. Em breve, este último livro da colecção de Ensaio da Deriva irá ser apresentado nas livrarias. Para já, um extracto do I Capítulo da obra:
Um Cristão “Tornado Turco”
“Os cristãos são tornados turcos e os turcos são filhos dos demónios.”
Novas do Mar, de Ward o Pirata (1609)
Novas do Mar, de Ward o Pirata (1609)
«Desde cerca de finais de 1500 até ao século XVIII, muitos milhares de europeus – homens e mulheres – converteram-se ao islão. Na sua grande parte viveram e trabalharam em Argel, Tunes, Tripoli, e na área de Rabat-Salé em Marrocos - os chamados Estados da Costa da Berberia. A maioria das mulheres tornava-se muçulmana ao casar com muçulmanos. Esta grande adesão é facilmente compreensível, ainda que seria fascinante se pudéssemos traçar as vidas de algumas delas em busca de uma Isabelle Eberhardt do século XVII. Mas e então os homens? O que os impelia, a eles, à conversão?
Os cristãos europeus tinham um termo especial para os designar: Renegados – ou seja, os apóstatas, os vira-casacas, os traidores. Havia uma certa razão em se pensar dessa forma, uma vez que a Europa cristã ainda estava em guerra com o islão. As cruzadas não tinham tido verdadeiramente um fim. O último reino mourisco em Espanha, Granada, não sucumbiu à Reconquista senão em 1492, e a última sublevação moura em Espanha teve lugar em 1610. O Império Otomano, vigoroso, brilhante, e armado até aos dentes (tal como a sua contemporânea Inglaterra isabelina/jacobina), orientou a sua ofensiva contra a Europa em duas frentes, por terra em direcção a Viena, e por mar em direcção ao Ocidente através do Mediterrâneo.
Nas línguas vernaculares europeias, ‘turco’ significava todo e qualquer muçulmano, incluindo os mouros do Norte de África. Dos renegados dizia-se que se tinham “tornado turcos” (do título de uma peça teatral, A christian turn’d turke de Robert Daborne, representada em Londres em 1612). O Turco Lascivo e o Soldado Cruel povoavam a literatura popular, e “muçulmano!” é ainda um insulto grave em Veneza. Se pensarmos na posição da imprensa americana durante a recente Guerra do Golfo, contra o Iraque, podemos compreender a ignorância e o preconceito europeus da época. A atitude da Europa face ao islão, desde o século XIX, tem vindo a complexificar-se cada vez mais, porque de facto a Europa do século XIX conquistou e colonizou uma boa parte do Dar al-Islam. Mas no século XVII não existia esse ponto de interpenetração de culturas, mesmo sendo de sentido único. Essencialmente, a Europa odiava e não compreendia o islão. E quanto a este, a palavra jihad, guerra santa, resume bem a sua atitude face ao cristianismo. A tolerância e a compreensão eram praticamente inexistentes em ambas as margens do fosso cultural.
Aos olhos da maioria dos europeus, os renegados assemelhavam-se a criaturas impregnadas de um mistério demoníaco. Não só tinham estas “traído Nosso Senhor”, como se tinham mesmo juntado à jihad. Quase todos os renegados se tinham tornado “Corsários da Berberia”. Dedicavam-se ao ataque e ao saque de navios europeus e capturavam os seus tripulantes cristãos, que depois de transportados até à Berberia eram libertados sob o pagamento de um resgate, ou vendidos como escravos. Claro que os “corsários” cristãos, incluindo os Cavaleiros de Malta, faziam exactamente o mesmo aos navios e equipagens muçulmanas. Mas eram muito poucos os cativos mouros que se “tornavam cristãos”. O fluxo de renegados transitava largamente num só sentido.
Os europeus assumiam que os apóstatas eram escumalha humana, e acreditavam que os motivos da sua conversão eram os piores imagináveis: ganância, ressentimento, vingança. Mas muitos deles já eram “piratas” antes de se converterem – e esses é óbvio que só procuravam uma desculpa para a continuação da sua vida de pirata. Seguramente que a outros, que eram capturados, lhes era oferecida a escolha entre a conversão ou escravatura, e que numa atitude cobarde escolhiam a apostasia e o crime. Os renegados eram assassinados em público em todos os países europeus, e queimados vivos em Espanha (pelo menos em teoria), mesmo que desejassem a reconversão. Neste sentido, o islão era entendido mais como uma espécie de praga moral, do que propriamente como uma simples ideologia inimiga.
No seio do mundo islâmico a atitude relativa à conversão pode ser descrita como sendo mais aberta. Os espanhóis forçavam os judeus e os muçulmanos a converter-se, mas mesmo assim expulsavam-nos. O islamismo, no entanto, conservava ainda uma visão de si mesmo enquanto nova religião, procurando expandir-se por todos os meios possíveis e sobretudo através da conversão. Os “Novos Muçulmanos” são ainda hoje considerados abençoados e mesmo “afortunados”, especialmente nas fronteiras do islão. Esta divergência de atitudes face ao acto da conversão ajuda a entender a vantagem no índice de cristãos convertidos ao islamismo em relação ao sentido inverso – mas a questão do “porquê” continua por responder. Talvez devamos começar por assumir que nenhuma interpretação dos renegados, ‘turca’ ou cristã, nos pode satisfazer a curiosidade. Podemos duvidar, por um lado, que estes homens fossem simplesmente a figura do demónio, e, por outro, que fossem anjinhos da jihad. Vamos assumir que as nossas respostas – se alguma se provar possível – se apresentarão bem mais complexas do que qualquer destas teorias do século XVII.
Curiosamente, são poucos os historiadores modernos que têm realmente tentado compreender os renegados. Por entre os historiadores europeus pesa ainda o estigma da “teoria demoníaca”, ainda que tenha sido racionalizada e elaborada e até mesmo invertida em hipóteses que soam plausíveis. As considerações frequentes rondam as seguintes: Como é que foi possível à grande e poderosa Europa não ter conseguido erradicar os corsários da Berberia durante três séculos inteiros? É sabido que a tecnologia naval e militar do islão era inferior à europeia. Os árabes, como todos sabemos, são maus marinheiros. Como explicar então este aparente enigma? A resposta é óbvia – os renegados. Foram eles, como europeus, que introduziram a tecnologia europeia aos muçulmanos, e que também lutaram por eles. Parece portanto, que a pirataria berberesca não passou de “une affaire des étrangers”, e que sem os renegados jamais poderia ter existido. [Coindreau, 1948] Eram traidores da pior espécie – mas brilhantes à sua própria maneira, na sua rudeza. A pirataria é desprezível – mas, apesar de tudo, tão romântica!
Quanto aos historiadores islâmicos, é natural que se ressintam com qualquer sugestão de inferioridade islâmica. As histórias locais de Rabat-Salé do século XIX, princípios do século XX, por exemplo, indicam claramente que os mouros, os berberes e os árabes do país, contribuíram bem mais, a longo prazo, para a história da “guerra sagrada sobre o mar” do que alguns milhares de convertidos. E quanto a estes, os seus descendentes continuam a viver em Rabat-Salé – tornaram-se marroquinos, independentemente das suas origens. A história dos corsários não é “um affaire de estrangeiros” mas parte da história do Magrebe, o FarWest do islão, e da então emergente nação marroquina. [Hesperis, 1971]
Nenhuma destas “explicações” sobre os renegados nos aproxima das motivações que os teriam levado a abraçar o islão, e a adoptar a vida de piratas berberescos. Traidores brilhantes ou heróis assimilados – nenhum dos dois estereótipos possui qualquer profundidade real. Ambos contêm elementos de verdade. Os piratas introduziram algumas técnicas e novidades estratégicas na Berberia, como iremos ver. E participaram no mundo islâmico em formas mais complexas do que como simples criminosos a soldo – ou como experts – como também veremos. Mas ainda não temos indícios do porquê do fenómeno em todo o seu conjunto. Devemos ter em conta que, apesar de alguns dos renegados terem sido letrados em numerosas línguas, nenhum deles era realmente literati. Não temos registos em primeira-mão, nenhum texto escrito pelos próprios. As suas origens sociais não lhes proporcionaram o hábito por uma escrita auto-analítica; um luxo que era ainda monopólio da aristocracia e de uma classe média emergente. A pluma da História está nas mãos dos seus inimigos. Os renegados, eles próprios, mantêm-se em silêncio.
É possível que nunca cheguemos realmente a descobrir as suas motivações. E talvez não nos seja possível fazer muito mais do que sugerir uma série de impressões e especulações complexas, e mesmo contraditórias. Mas mesmo assim, ainda podemos fazer melhor do que os historiadores neocolonialistas europeus, ou do que os nacionalistas marroquinos que, uns e outros, não conseguem observar o renegado sem deixar de o relacionar com os seus próprios preconceitos ideológicos.
(...)
Os cristãos europeus tinham um termo especial para os designar: Renegados – ou seja, os apóstatas, os vira-casacas, os traidores. Havia uma certa razão em se pensar dessa forma, uma vez que a Europa cristã ainda estava em guerra com o islão. As cruzadas não tinham tido verdadeiramente um fim. O último reino mourisco em Espanha, Granada, não sucumbiu à Reconquista senão em 1492, e a última sublevação moura em Espanha teve lugar em 1610. O Império Otomano, vigoroso, brilhante, e armado até aos dentes (tal como a sua contemporânea Inglaterra isabelina/jacobina), orientou a sua ofensiva contra a Europa em duas frentes, por terra em direcção a Viena, e por mar em direcção ao Ocidente através do Mediterrâneo.
Nas línguas vernaculares europeias, ‘turco’ significava todo e qualquer muçulmano, incluindo os mouros do Norte de África. Dos renegados dizia-se que se tinham “tornado turcos” (do título de uma peça teatral, A christian turn’d turke de Robert Daborne, representada em Londres em 1612). O Turco Lascivo e o Soldado Cruel povoavam a literatura popular, e “muçulmano!” é ainda um insulto grave em Veneza. Se pensarmos na posição da imprensa americana durante a recente Guerra do Golfo, contra o Iraque, podemos compreender a ignorância e o preconceito europeus da época. A atitude da Europa face ao islão, desde o século XIX, tem vindo a complexificar-se cada vez mais, porque de facto a Europa do século XIX conquistou e colonizou uma boa parte do Dar al-Islam. Mas no século XVII não existia esse ponto de interpenetração de culturas, mesmo sendo de sentido único. Essencialmente, a Europa odiava e não compreendia o islão. E quanto a este, a palavra jihad, guerra santa, resume bem a sua atitude face ao cristianismo. A tolerância e a compreensão eram praticamente inexistentes em ambas as margens do fosso cultural.
Aos olhos da maioria dos europeus, os renegados assemelhavam-se a criaturas impregnadas de um mistério demoníaco. Não só tinham estas “traído Nosso Senhor”, como se tinham mesmo juntado à jihad. Quase todos os renegados se tinham tornado “Corsários da Berberia”. Dedicavam-se ao ataque e ao saque de navios europeus e capturavam os seus tripulantes cristãos, que depois de transportados até à Berberia eram libertados sob o pagamento de um resgate, ou vendidos como escravos. Claro que os “corsários” cristãos, incluindo os Cavaleiros de Malta, faziam exactamente o mesmo aos navios e equipagens muçulmanas. Mas eram muito poucos os cativos mouros que se “tornavam cristãos”. O fluxo de renegados transitava largamente num só sentido.
Os europeus assumiam que os apóstatas eram escumalha humana, e acreditavam que os motivos da sua conversão eram os piores imagináveis: ganância, ressentimento, vingança. Mas muitos deles já eram “piratas” antes de se converterem – e esses é óbvio que só procuravam uma desculpa para a continuação da sua vida de pirata. Seguramente que a outros, que eram capturados, lhes era oferecida a escolha entre a conversão ou escravatura, e que numa atitude cobarde escolhiam a apostasia e o crime. Os renegados eram assassinados em público em todos os países europeus, e queimados vivos em Espanha (pelo menos em teoria), mesmo que desejassem a reconversão. Neste sentido, o islão era entendido mais como uma espécie de praga moral, do que propriamente como uma simples ideologia inimiga.
No seio do mundo islâmico a atitude relativa à conversão pode ser descrita como sendo mais aberta. Os espanhóis forçavam os judeus e os muçulmanos a converter-se, mas mesmo assim expulsavam-nos. O islamismo, no entanto, conservava ainda uma visão de si mesmo enquanto nova religião, procurando expandir-se por todos os meios possíveis e sobretudo através da conversão. Os “Novos Muçulmanos” são ainda hoje considerados abençoados e mesmo “afortunados”, especialmente nas fronteiras do islão. Esta divergência de atitudes face ao acto da conversão ajuda a entender a vantagem no índice de cristãos convertidos ao islamismo em relação ao sentido inverso – mas a questão do “porquê” continua por responder. Talvez devamos começar por assumir que nenhuma interpretação dos renegados, ‘turca’ ou cristã, nos pode satisfazer a curiosidade. Podemos duvidar, por um lado, que estes homens fossem simplesmente a figura do demónio, e, por outro, que fossem anjinhos da jihad. Vamos assumir que as nossas respostas – se alguma se provar possível – se apresentarão bem mais complexas do que qualquer destas teorias do século XVII.
Curiosamente, são poucos os historiadores modernos que têm realmente tentado compreender os renegados. Por entre os historiadores europeus pesa ainda o estigma da “teoria demoníaca”, ainda que tenha sido racionalizada e elaborada e até mesmo invertida em hipóteses que soam plausíveis. As considerações frequentes rondam as seguintes: Como é que foi possível à grande e poderosa Europa não ter conseguido erradicar os corsários da Berberia durante três séculos inteiros? É sabido que a tecnologia naval e militar do islão era inferior à europeia. Os árabes, como todos sabemos, são maus marinheiros. Como explicar então este aparente enigma? A resposta é óbvia – os renegados. Foram eles, como europeus, que introduziram a tecnologia europeia aos muçulmanos, e que também lutaram por eles. Parece portanto, que a pirataria berberesca não passou de “une affaire des étrangers”, e que sem os renegados jamais poderia ter existido. [Coindreau, 1948] Eram traidores da pior espécie – mas brilhantes à sua própria maneira, na sua rudeza. A pirataria é desprezível – mas, apesar de tudo, tão romântica!
Quanto aos historiadores islâmicos, é natural que se ressintam com qualquer sugestão de inferioridade islâmica. As histórias locais de Rabat-Salé do século XIX, princípios do século XX, por exemplo, indicam claramente que os mouros, os berberes e os árabes do país, contribuíram bem mais, a longo prazo, para a história da “guerra sagrada sobre o mar” do que alguns milhares de convertidos. E quanto a estes, os seus descendentes continuam a viver em Rabat-Salé – tornaram-se marroquinos, independentemente das suas origens. A história dos corsários não é “um affaire de estrangeiros” mas parte da história do Magrebe, o FarWest do islão, e da então emergente nação marroquina. [Hesperis, 1971]
Nenhuma destas “explicações” sobre os renegados nos aproxima das motivações que os teriam levado a abraçar o islão, e a adoptar a vida de piratas berberescos. Traidores brilhantes ou heróis assimilados – nenhum dos dois estereótipos possui qualquer profundidade real. Ambos contêm elementos de verdade. Os piratas introduziram algumas técnicas e novidades estratégicas na Berberia, como iremos ver. E participaram no mundo islâmico em formas mais complexas do que como simples criminosos a soldo – ou como experts – como também veremos. Mas ainda não temos indícios do porquê do fenómeno em todo o seu conjunto. Devemos ter em conta que, apesar de alguns dos renegados terem sido letrados em numerosas línguas, nenhum deles era realmente literati. Não temos registos em primeira-mão, nenhum texto escrito pelos próprios. As suas origens sociais não lhes proporcionaram o hábito por uma escrita auto-analítica; um luxo que era ainda monopólio da aristocracia e de uma classe média emergente. A pluma da História está nas mãos dos seus inimigos. Os renegados, eles próprios, mantêm-se em silêncio.
É possível que nunca cheguemos realmente a descobrir as suas motivações. E talvez não nos seja possível fazer muito mais do que sugerir uma série de impressões e especulações complexas, e mesmo contraditórias. Mas mesmo assim, ainda podemos fazer melhor do que os historiadores neocolonialistas europeus, ou do que os nacionalistas marroquinos que, uns e outros, não conseguem observar o renegado sem deixar de o relacionar com os seus próprios preconceitos ideológicos.
(...)
Tradução de Miguel Mendonça
Lançamento de A Inexistência de Eva, de Filipa Leal na Casa do Livro
Paula Cruz e Filipa Leal na Casa do Livro com Boticelli ao fundo
Ao fim da tarde de sábado, acabados de sair das Derivas de Fevereiro rumámos para a Casa do Livro, ali para os Clérigos, na Galerias de Paris. Casa cheia, amigos por todo o lado, uma bebida à mão, dois dedos de conversa, livros sempre.
A apresentação esteve a cargo da Paula Cruz que, para além de analisar A Inexistência de Eva, também o interligou com os livros anteriores da Filipa Leal: Talvez os Lírios Compreendam, A Cidade Líquida e outras Texturas e O Problema de Ser Norte. As palavras da autora foram à volta da poesia e do sentido da poesia, ou seja, do valor das palavras como parte integrante da sua vida. No fundo, da vida de todos nós.
Derivas de Fevereiro: foi bom um encontro assim
A mesa inicial: Isabel Sousa, Ana Maria Pinto e Paula Cruz
A última mesa: Américo Lindeza Diogo, Pedro Eiras, José António Gomes e Rui Pereira
Talvez ainda seja cedo para qualquer balanço e, além disso, não tenho grande jeito para o fazer. As intervenções foram unanimemente consideradas muito boas e, algumas delas, mesmo brilhantes, o que para nós é sempre um motivo de orgulho.
O objectivo inicial foi atingido: criar um espaço informal de debate que levasse os participantes a pensar como superar o divórcio óbvio das expressões artísticas na escola, longe da sua tensão interna e desorganização. Nesse aspecto em particular, as pessoas gostaram de lá ir, de participar, de reparar que ainda há possibilidade de mudar radicalmente esta escola em profunda crise.
Em breve editaremos as intervenções, aqui, no Deriva das Palavras.Até para o ano.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Derivas de Fevereiro, 27 e 28 de Fevereiro no Auditório da Almeida Garrett no Porto. O programa
Desde há muito, senão desde sempre, a Escola resiste às novas expressões artísticas, venerando e valorizando um cânone, enquanto que, paradoxalmente, remete os clássicos para o ostracismo. Da modernidade, a escola filtra apenas o que lhe interessa criando unicamente o homo-automatus capaz, com dificuldade, de escrever um contrato, um requerimento ou um verbete. Os media cumprem o seu papel normalizador e reduzem a Escola a um mapa de fait-divers. A poesia, as expressões plásticas, a música, o teatro tornaram-se corpos estranhos à Escola. Coisas meramente decorativas e ao serviço de actividades de circunstância. Falta-lhe, à escola, fôlego e coerência, irreverência e criatividade. Contra o carácter redutor dos programas, propõe-se, agora mais que nunca, uma acção que vise a criação e uma deriva de liberdade que tenha em conta as capacidades e interesses humanos na Escola. Cidadãos autómatos ou autónomos? A literatura deve ou não fazer-se na escola? As bibliotecas escolares são um depósito de livros, professores e outros computadores? Os media como instância de socialização a par da Escola ou contra a Escola? Há lugar para novos criadores?Sexta-feira, 27 de Fevereiro
9:45 – Entrega de documentação
10:00 – Abertura
10:30 – José António Gomes - Os Clássicos não são coisa do passado
11:00 – Paula Cruz – O desalinho na poesia que se dá a ler: o lugar dos poetas do séc. XX/XXI na escola
11:30 – Isabel Sousa – Bibliotecas Públicas e a Língua Portuguesa - Para quê?
Debate
12:30 – Intervalo para almoço
14:30 – Luísa Portal – Teatro Nacional de São João: 12 anos de experiência(s) com a(s) escola(s)
15:00 – António Tavares Lopes – Formas e formatações da expressão individual na Web
15:30 – Suzana Ralha – Música, Poesia e Escola
16:00 – Emílio Remelhe – Entre o Modelo e o Novelo. A Escola como palimpsesto
Debate
Sábado, 28 de Fevereiro
10:30 – Rui Pereira – (N)a Escola face aos Media
11:00 – Pedro Eiras – Para que serve a Literatura?
11:30 – Américo Lindeza Diogo – Configuração Arte-Escola-Humanismo. Relações entre Literacia e Arte. Usos da Literatura. Artes e Media
Debate
12:00 – Encerramento
12:30 – Distribuição dos Certificados de Presença
Apresentação de A Inexistência de Eva, de Filipa Leal. Porto, Casa do Livro às 18:30, Rua das Galerias de Paris, 85.
Na última apresentação de um livro da Filipa, «O Problema de Ser Norte», este acabou num microondas entre morangos e chantily, muito por culpa do João Gesta e da CGD. Comemos, igualmente, um bolo com a capa do livro. Sinceramente, não me atrevo a perguntar como esta apresentação de «A Inexistência de Eva» irá acabar, mas também sabemos que a Filipa faz anos por esta data, o que adensará ainda mais o eventual mistério.Não há que enganar em relação ao espaço magnífico da Casa do Livro que é ali para os Clérigos. Não se esqueçam: às 18:30h. http://www.casadolivro.pt/index2.php . (A carta de vinhos é um pouco cara, mas dividindo até sai baratinho).
A apresentação caberá a Paula Cruz.
Fotografia da capa de Mafalda Capela
Gato Vadio: Contra as Correntes - As Principais correntes do Pensamento Contemporâneo, moderado por António Alves da Silva

Da Livraria Gato Vadio, recebemos informação desta iniciativa que não queremos deixar de divulgar. Atenção, que recebem inscrições.
Contra as Correntes
“As principais correntes do pensamento contemporâneo”
“As principais correntes do pensamento contemporâneo”
Não pensem que passámos a ser uma sala de estudo. A livraria Gato Vadio continua a dedicar-se sobretudo à vadiagem do pensamento e às suas formas de expressão. Propomos realizar um fórum livre dedicado às principais correntes do pensamento contemporâneo. Longe de ser exaustivo, a sua finalidade será fundamentalmente estimular e promover a pesquisa e a reflexão partilhada sobre as múltiplas perspectivas teóricas que contrariam o reducionismo empobrecedor do pensamento único (e dos vários fundamentalismos doutrinários), da monocultura massificada (induzida pela chamada cultura de massas que esvazia e anula a diversidade cultural das culturas populares), e do pretenso fim da história celebrado pelos arautos do neo-conservadorismo dominante.
Os encontros-sessões terão uma duração aproximada de 3 horas e realizar-se-ão aos Domingos (entre as 17h e as 20h), com excepção da 1ª sessão marcada para o último sábado de Fevereiro, dia 28.
«As principais correntes do pensamento contemporâneo»
Dinamizador: António Alves da Silva
1ª fase – 6 sessões mensais ( de Fevereiro a Julho de 2009)
Participação livre e gratuita mediante inscrição prévia
(Os interessados devem, preferencialmente, enviar um Email de confirmação com o nome e contacto electrónico para gatovadio.livraria@gmail.com ).
Mínimo de participantes: 10 pessoas
1ª sessão (dia 28 de Fevereiro, 17h) - Pensamento político – Fascismo, Liberalismo, Marxismo, Anarquismo, Feminismo e Ecologismo.
2ª sessão (Março) - Pensamento sociológico – do Funcionalismo à Etnometodologia, passando por Bourdieu, Max Weber, Ulrich Beck e Boaventura Sousa Santos
3ª sessão (Abril) - Pensamento económico – da Escola clássica à Neuro-economia, passando por Marx, teoria marginalista , Keynes e o institucionalismo
4ª sessão (Maio) - Pensamento jurídico e criminológico – da Teoria Pura do Direito ao Pluralismo jurídico, passando pela conceptualização dos direitos humanos e as problemáticas criminológicas
5ª sessão (Junho) – Pensamento literário – do cânone literário às literaturas de vanguarda, passando pela teoria e crítica literária, e pelas várias concepções de poética
6ª sessão (Julho) – Foucault – pensamento foucaultiano desde a filosofia e a concepção de poder, até à educação, e o uso recorrente das ferramentas conceptuais de um dos pensadores mais importantes do mundo contemporâneo.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
A Inexistência de Eva, último livro de Filipa Leal já disponível.
A Inexistência de Eva é o último livro de poemas de Filipa Leal, editado pela Deriva. Dentro em pouco disponível nas livrarias, mas poder-se-á, desde já, encomendar pelo site.
Na sexta-feira, dia 13 de Fevereiro, a autora estará presente nas Correntes d' Escritas, Póvoa de Varzim, onde fará o lançamento do livro. Depois, será o Porto e Lisboa. Como sempre e com a qualidade de escrita e simpatia a que esta autora já nos habituou. Um abraço para ela, agora lá longe, em Lisboa.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Vírus nº5, Janeiro/Fevereiro de 2009

http://www.esquerda.net/virus/media/virus5.pdf
Nesta edição da Vírus nº5, «a revista que só se apanha na net!»:
um conto de Pedro Eiras: «Concurso»
João Teixeira Lopes
Hugo Dias
Mariana Aiveca
Fernando Rosas
Luís Fazenda
José Soeiro (a ler, a ler...)
...entre outros.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Derivas de Fevereiro - inscrições abertas
Já nos encontramos a aceitar inscrições. Vamos fazer destas derivas uma operação higiénica contra a dita avaliação - ou seja, nem vamos falar dela... mas por que não falarmos de programas, de criatividade e de motivação para o ensino?Vamos conversar todos, na Almeida Garrett e a 27 e 28 de Fev., com José António Gomes, Paula Cruz, Isabel Sousa, Luísa Portal, António Tavares Lopes, Emílio Remelhe, Rui Pereira, Suzana Ralha, Pedro Eiras e Américo Lindeza Diogo.
Discurso de Capitulação (um tanto romanceado), por Inês Silva

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos a ratos
Alexandre O'Neill
Pois, assim é, lamentavelmente chegou a minha vez de chegar «a rato»: entreguei os OI simplex. Sonhei, como o extraordinário Vicente de Torga, poder recusar a degradação da barca da obediência envergonhada a um poder superior que humilha os seus "servos", e como ele «Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção.». Por isso, esperava tranquilamente as consequências previstas: ficar mais dois anos sem subir na carreira, ver colegas do mesmo grupo que tivessem obtido o Muito Bom ou Excelente passar à minha frente nos concursos; não seriam de miséria as minhas finanças, não seriam assim tantos os colegas que me ultrapassariam. O que mudou:Ontem, uma colega contou-me que a presidente da escola andava a ameaçar com procedimentos disciplinares, mostrando-lhe o seguinte, sublinhado:
Lei n.º 58/2008, de 9 de Setembro
Estatuto Disciplinar dos Trabalhadores Que Exercem Funções Públicas
Artigo 17.ºSuspensão
A pena de suspensão é aplicável aos trabalhadores que actuem com grave negligência ou com grave desinteresse pelo cumprimento dos deveres funcionais e àqueles cujos comportamentos atentem gravemente contra a dignidade e o prestígio da função, nomeadamente quando:....
g) Desobedeçam escandalosamente, ou perante o público e em lugar aberto ao mesmo, às ordens superiores;
i) Violem os procedimentos da avaliação do desempenho, incluindo a aposição de datas sem correspondência.....
Depois li no Expresso que o presidente do CE tinha comunicado a uma colega que os dois anos não só não lhe seriam contados para efeitos de progressão (entenda-se, subida de escalão) como não contariam para tudo o mais, ou seja, perderia dois anos de serviço, com consequências devastadoras na graduação, arriscando-se a ver passar à frente centenas de colegas, ou mesmo milhares, num grupo como o meu, e a ficar numa posição muito delicada.Entretanto, o meu algo surdo pai, com tanta conversa telefónica sobre as consequências e os cenários mais dramáticos, assim como a vontade de manter a coluna vertebral erguida, apercebeu-se finalmente do que eu estava a pensar fazer, olhou para mim, com a sua respeitável cara de 82 anos, perguntando-me silenciosamente: «Vais arriscar a casa que foi construída pelas minhas mãos, onde nasceste, que te dei para que a recuperasses e mantivesses na família, por orgulho?». Não creio que fosse para tanto, mesmo com a suspensão, sempre me aguentaria uns tempos. Mas senti que não tinha o direito de pôr, nem que fosse numa hipótese muito remota, em causa o seu bem estar, o tecto a que tem direito, porque, na verdade, a casa financeiramente é do banco, moralmente é dele, eu só tenho uma dívida de cem mil euros. Afinal também tenho laços que me prendem a responsabilidades. E eu queria ser radicalmente livre como Vicente, sem amarras. Ao contrário do impressionante conto de Torga, em que a tenacidade de Vicente venceu a vontade de Deus - «Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.» -, as últimas notícias do meu "Deus" eram cada vez mais preocupantes. Fui eu, portanto, a ceder e a juntar-me a vós nessa barca do desalento. Entreguei hoje os OI individuais ao Carlos, que a bem da verdade já me tinha tentado alertar para as consequências e, generosamente, os aceitou. É mais um espírito que se verga «Neste país do pouco» (Manuel Alegre). E eu que queria ser o "tu" da Sophia («Porque os outros têm medo mas tu não», lembram-se?), que queria gritar:
Que não é possível suportar tanta mentira
tanta gente de esquerda a viver à direita
tanta apagada e vil baixeza tanta reza
tanto cochicho onde é preciso falar alto.
Neste país a salto. Neste país a salto.
(...)
Pois falta aqui o verbo ser. E sobra o ter.
Falta a sobra e sobra a falta. Ó proletários da tristeza
falta a ciência mais exacta: a poesia.
E há muito já que um poeta disse : É a Hora.
Neste país de aqui. Neste país de agora.
Manuel Alegre, «PAÍS EM inho»
Deu-me o destino a culpa de ter uma memória literária cheia de ética e de valores lá dentro. O meu index da vergonha vai ser enorme: tantas palavras literariamente impressivas e eticamente elevadas me vão fazer sentir a última das criaturas se ousar lê-las com os alunos. Só escamoteando drasticamente o meu cânone do gosto e escolar é que poderia fugir à confrontação. Não mais Camões, não mais Eça, não mais Pessoa, não mais Saramago, não mais Cesariny, não mais Maria Velho da Costa, não mais Ruy Belo, não mais José Cardoso Pires, não mais Herberto, não mais Ruben A, não mais Nuno Bragança, não mais... Não mais tanta da "gente lá de casa"... E nem assim, as palavras silenciadas estarão sempre na minha memória. Que país é este que nos obriga à cobardia? Que homens somos que não encontramos nenhum 25 de Abril por dentro de nós quando é preciso resistir? Eu sei que:
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Ana Hatherly
Não fui capaz. Desculpem por me trair, por, de alguma forma, vos trair. Em anexo mando-vos a declaração que entreguei juntamente com os OI, para que fosse entregue à Tutela. Eu sei que não serve para nada. Mas pelo menos aquilo tinha de dizer, um pouco como o balbucio de Galileu quando abjurou («Et por se muove»), apenas como reafirmação das convicções, vazias já porque se capitulou. E não se preocupem, tenho Olcadil para dormir. Desta vez preveni-me. Até para a semana.
Inês Silva
quinta-feira, janeiro 29, 2009
João Pedro Mésseder no X Salón do Libro Infantil e Xuvenil de Pontevedra
João Pedro Mésseder é o autor convidado que pronunciará uma conferência no dia 3, às 19.30 h. O tema do salão, este ano, é o Amor. Também haverá um atelier de ilustração da Planeta Tangerina e a presença da Delegação Regional do Norte do Ministério da Cultura com a colecção «Pintar o Verde com Letras» que publicaram o ano passado. Aqui vai o programa:terça-feira, janeiro 13, 2009
Pedro Eiras e Pedro Teixeira Neves juntam-se a Filipa Leal e Xavier Queipo nas Correntes d'Escritas



Será mais uma dica para confirmação: Pedro Eiras e Pedro Teixeira Neves juntar-se-ão, nas Correntes d'Escritas, a Filipa Leal e Xavier Queipo, autores que a Deriva editou. Relembrando:
Pedro Eiras - «Arrastar Tinta», com Nuno Barros e Coordenação de «Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas»
Filipa Leal - «A Cidade Líquida e Outras Texturas», «O Problema de Ser Norte» e irá apresentar «A Inexistência de Eva».
Pedro Teixeira Neves - «O Sorriso de Mona Lisa»
Xavier Queipo - «Bebendo o Mar», «Os Ciclos do Bambu» e apresentará «Dragona».
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Henrique Fialho escreve sobre O Espírito Nómada de Kenneth White

Dei por isso hoje mesmo. Henrique Fialho escreve em Volumen sobre O Espírito Nómada de Kenneth White com o rigor que todos (pelos menos os não distraídos) conhecemos. Realça a importância deste livro, do movimento geopoético e relembra-nos que devemos estar mais atentos à revisão. Seja. HF termina a sua análise desta maneira: «Kenneth White cita imensos autores, cruza-os, procura abrir o espaço para uma geopoética marcada pela força do pensamento, integrando mais do que recusando, apagando as linhas que eventualmente possam ainda separar, como preconceitos difíceis de superar, a poesia da filosofia. Caminhando, dançando, nadando com o universo, o autor de O Espírito Nómada esboça uma teoria da geopoética – esboçar uma teoria não é o mesmo que fixá-la - acabando por desembocar numa intuitiva conclusão: um novo fôlego para o pensamento ocidental. Este livro é um excelente contributo para esse novo fôlego.»
Para ler todo o artigo ver aqui
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