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segunda-feira, maio 28, 2012

Reler Telefunken, de Luís Maffei



Luis Maffei afirma: o mundo existe. O poema começa já quando uma forma foi encontrada; não há nunca, pois, matéria simples, que não poderia ser dita por palavras. Há, logo, o acidente, a figura, a coisa de se estar vivo, que é existência mas não náusea, caos mas também perspectiva: “Assim: só o pequeno / barulho da cidade, longe / como se livre eu estivesse, / as gatas e / eu.”. Nunca a pura abstracção, mas imediatamente a cidade, o subúrbio, os animais, os números; e depois, só depois, a interrogação que faz tremer os contornos dessas formas. Leitor atentíssimo de Camões, Luis Maffei ouve também atentamente a lição de Herberto Helder: sim, “Transforma-se o amador na cousa amada / Por virtude do muito imaginar”, mas também: “O amador entra / por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate. / O amador é um martelo que esmaga. / Que transforma a coisa amada.” (Helder 1961: 13-14). A matéria busca a forma? Mas é a matéria que martela a matéria. Outro modo de se assemelhar, com paixão, iconoclastia. Pois a poesia de Luis Maffei é uma poesia de amor, e o amor é busca infrene da matéria. (…)

Com a Esquerda Mão – posfácio de Pedro Eiras a Telefunken

Luis Maffei (Brasília, 16 de fevereiro de 1974) é Professor de Literatura Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Doutorou-se em 2007 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a tese “Do mundo de Herberto Helder”. Como poeta, publicou A (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2006, e Telefunken (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2008. Como músico, lançou, em 2004, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. Coordena, para a editora Oficina Raquel, a série Portugal, 0, dedicada à novíssima literatura portuguesa, responsável pelas antologias brasileiras das obras de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Pedro Eiras. Tem textos publicados em diversos periódicos de literatura, como as revistas Gragoatá, Metamorfoses, Relâmpago e Telhados de vidro.



segunda-feira, setembro 27, 2010

APALAVRADO, textos de Luis Maffei e Pedro Eiras

 encenado por Renata Portas
com um texto de Luis Maffei, La Venturosa (por Mariana Schou)
 e um texto de Pedro Eiras, Bela Dona (por Isabel Fernandes Pinto).
Temporada de 28 de Setembro a 03 de Outubro, 21h 30, (com excepção do dia 01/10)
Actividades paralelas: Conversa com Pedro Eiras, após espectáculo, dia 02/10
Local de apresentação: Auditório do Grupo Musical de Miragaia: Rua Arménia 10/18.
Mais no Projecto Apalavrado.
 

domingo, janeiro 03, 2010

José Mário Silva elege Telefunken, de Luis Maffei, um dos livros de poesia de 2009

José Mário Silva, no seu Bibliotecário de Babel, elege Telefunken, de Luís Maffei, como um dos mais importantes livros de poesia de 2009.

terça-feira, julho 21, 2009

A crítica de José Mário Silva a Telefunken de Luis Maffei, na Actual do Expresso

O prometido é devido: aqui vai a crítica de José Mário Silva a Telefunken de Luis Maffei publicada na última Actual do Expresso.

sábado, julho 11, 2009

José Mário Silva escreve sobre Telefunken, de Luis Maffei, no Expresso

«Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas atraída pelo 'belo gesto do malogro' e capaz de se intrometer no 'cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura'.» É assim que inicia José Mário Silva a sua crítica no Expresso de hoje a Telefunken de Luis Maffei poeta brasileiro e professor de Literatura Portuguesa na Universidade Fluminense que a Deriva editou. Também neste artigo JMS destaca o diálogo subtil que este produz com a nossa tradição poética como Camões, Pessoa, Gastão Cruz ou Pires Cabral. JMS termina desta maneira: «É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera 'andresiano em mão segunda' e dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal.»

segunda-feira, junho 29, 2009

Luis Mourão escreve sobre Telefunken, de Luis Maffei, no seu blogue Manchas

Luís Mourão escreve, no seu blogue Manchas, sobre Luis Maffei e Telefunken. Um bom blogue muito agradável de seguir e ler e que, a partir de hoje, constará da nossa lista de amigos. Pode consultar o artigo aqui

domingo, junho 28, 2009

Uma Ideia Tênue de Mulher, Luis Maffei escreve sobre A Inexistência de Eva, de Filipa Leal


Filipa Leal e Luis Maffei


UMA IDEIA TÊNUE DE MULHER
(recensão em A Pequena Morte, nº 14, sobre a A inexistência de Eva, de Filipa Leal. Porto: Deriva, 2009)

Diz Miguel Ramalhete Gomes: “(…) em Filipa Leal, (…) a habitação poética é o que cria o lugar”. [1] Começa A inexistência de Eva: “Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca./ Ouviu: - Não fujas. Não esqueças./ Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer” (p. 9). [2] Uma evidente narratividade, um discurso ao fundo, a se ouvir em se ouvindo. E uma “casa”, uma “habitação poética” porque expressável apenas poeticamente, “muito branca” e, portanto, muito perto de não existir. Inexiste Eva, inexiste a casa, existem Eva e casa porque existe um lugar, habitável, habitado e pronto a se transformar em branco de papel e sabor: “à volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade e o remorso./ Ouviu: - Esquece o arrependimento. Fica” (p. 10). A trajetória da mulher terá de ser aprendizado. Um deles: ler Adília Lopes e perceber que “(…) o prazer é casto/ o que não é casto/ é o simulacro do prazer/ ou a renúncia ao prazer/ tanto o simulacro/ como a renúncia”. [3] Filipa Leal certamente já o aprendeu, pois Adília é um dos autores que comparecem a sua Dissertação de Mestrado. Mas, no livro, a mulher é outra.
Não bastam as maçãs, seria uma imagem previsível. São as maçãs “difusas”, o que tanto confunde como difunde a herança da mulher bíblica – Eva “desconhecia o texto bíblico” (p. 13), o que tira do jogo referencial qualquer óbvio esconde-esconde, por não ocultar o que estaria, de qualquer modo, cristalino. Desde o título eu gosto que Eva só exista também difusamente, mas que sua beleza seja expansiva, pois a beleza tem de poder ser uma invenção ao menos da leitura, pois não sei se pode ser, lucidamente, de Eva: “Não havia um único espelho na sala” (p. 12). É curioso que ela não se possa ver, nem ao contrário, o que torna difuso até mesmo o enfrentamento da pesadíssima memória que seu nome traz. “Ela (…) nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse, abriria a porta” (p. 12). Não “medira” “o terror”, mas teme. “Se desejasse”, mas já se encontra muito próxima do desejo. E quem fala? “Ouviu: - Assustar-te-á a existência/ de dia e de noite” (p. 12). De que existência, afinal, se trata? A de qualquer um e de todos, que assusta porque existem as relações e o mundo? Ou a do “dia” e da “noite”, o ciclo ininterrupto de cronos e de outros metafóricos (e não) tempos?
“Sabia o seu nome. Chamava-se Eva” (p. 13). Logo, sabe Eva de uma existência ao menos vindoura, na rua, no mundo, potencial nova “habitação poética”. E poderá ser outro o nome? “Nunca o questionara” (p. 13), mas talvez o venha a fazer em virtude do direito que têm Eva e Filipa ao batismo. O feminino é quem nomeia, quem inaugura: “Ouviu: - És a primeira mulher nesta sala por dentro do pomar. Não te mistures com os outros” (p. 14). Não era, no entanto, “a primeira de todas as mulheres, sublinhe-se, mas a primeira a habitar aquela brancura indefinida” (p. 15). Se é de uma “habitação poética” que se trata, tratar-se-á também de uma gestação, pois Eva é gerada em estado de inexistência (que posso ler como pré-existência e, ao mesmo tempo, existência futura) e “havia”, na sala, “uma arca cheia de animais de pedra, de barro, de madeira” (p. 15), uma anterioridade com que é possível brincar. Uma espécie de infância, uma possibilidade poética de co-regência do mundo, ao menos do mundo pessoal: “E desconhecia que, dentro da sua arca, eram assim os objectos porque eram assim os animais, fora dela” (p. 15): se existe uma lei externa a essa mulher, existe a mulher que sabe seu nome, e que, portanto, tem já uma flagrante hipótese de relação e autoconhecimento.
“Um dia, tirou da arca uma serpente de barro amolecido pela humidade. Juntou-lhe as duas pontas e foi dobrando e moldando o círculo. Quando a guardou, tinha já a forma de um coração” (p. 17). Eva não cria o mundo, ela [4], de algum modo, sofre as consequências de uma memória que lhe é anterior, mesmo no nome que tem e tem-na. Mas Eva lida com o mundo, e é capaz de manipular, numa dimensão criativa e transgressora, até mesmo a “serpente”, e benfazejo é seu desconhecimento, permissor da cardiomorfização de um símbolo: não o pecado, pois porventura virá a inexistir pecado para essa Eva, nem a oroboro. O símbolo é outro, e infantilmente moldado. Há, sim, futuro para o “coração”, há futuro: “As janelas da sala eram de uma brancura opaca, espessa. Havia momentos em que se perguntava para que serviriam. Ficava à janela branca, como a parede e a pele, desconhecendo que dali deveria poder ver o pomar, e algumas cópias dos animais com que brincava” (p. 18).
Algo, entre certo platonismo e o aprisionamento da brancura, prende Eva, o que me faz lembrar da coloração do único grande filme realizado por George Lucas, THX 1138. Não obstante, a sugestão uterina insiste em apontar para a existência de uma mulher que terá sua existência para além do que a cultura aprisiona em culpa e na prevalência do masculino – não sei se é masculina a voz que enceta as diversas ocorrências de “Ouviu” no livro, mas é voz, decerto, de que Eva pode desconfiar. E confiar no mundo, nesse livro, é poder dar-lhe uma origem, dar-se uma origem: “Trazia consigo a sensação da inexistência do mundo” (p. 19): há-de ser criado, assim, um lugar no mundo para Eva, por Eva, a que sabe artesanar uma serpente e escapar tanto do Éden como da oroboro: fiat lux, já que “não sabia de onde chegara, e talvez por isso lhe parecesse errado partir” (p. 19): a culpa, é claro, mas também a errância que lha espera. Assim, “errado” será sobretudo errático, e nenhum caminho é óbvio à partida.
“Ouviu: - Se partires, não regressarás/ a lugar algum. Nunca se regressa/ partindo” (p. 19). Há complexidade nessa voz, há orientação, tradicionalismo, sabedoria e certa carga opressora – mesmo porque existe a “culpa, o remorso” (p. 26). Mas “Eva tinha uma ideia ténue do mar. Guardava-a como quem guarda a certeza de uma cidade líquida” (p. 22). A cidade líquida e outras texturas é título dum livro anterior da poeta, editado em 2006. Em 2008, Filipa Leal edita O problema de ser norte, título que sugere identificação geográfica (é portuense a poeta, e o Porto é presença às vezes explícita em sua poesia), mas também o quão é crítico orientar-se, nortear-se, viver, enfim – e Eva à “cidade” (não necessariamente um Porto de rio, mar e chuva), à vida está projetada. Faz sentido citar apenas uma expressão do livro anterior: “Havia uma íntima surpresa na palavra/ do início”. [5] A Filipa interessa o “início”, mas feito palavra para ser feito início; faz sentido citar apenas dois títulos de A cidade líquida e outras texturas: “A primeira ave” e “O primeiro homem” [6], respectivamente às páginas 14 e 15. A Filipa interessa a origem, mas feita palavra para ser feita origem, não gênese, mas fonte.
A Eva fascinava “a incompreensão das coisas, como aos pensadores aterroriza a incompreensão do mundo” (p. 23); se assim, Eva não se encontra distante de um lugar de poesia, pois para os poetas, se a “incompreensão do mundo” é dado terrífico, o terror não difere, em diversos casos, da beleza: há beleza em Eva, repito, e é expansiva. Seu “medo” “era o de não conseguir esquecer a sua própria inexistência” (p. 23). No entanto, lida ela com a existência das coisas, inclusive da “maçã”, que “mastigava calmamente”, “prolongando o prazer daquilo que desconhecia ser uma refeição” (p. 28), mas de que conhecia o gozo; inclusive de uma “árvore”, que “começou a nascer” “no centro da sala” (p. 30) como fosse uma religiosa presença natural dentro da casa-ventre-cárcere, presença sem dogma, sem algemas.
“Eva abriu a arca. Dela retirou o pó e a serpente em forma de coração” (p. 35). Se líquida a cidade, que se possa pensar em uma aventura nada bíblica a partir da arca cheia de bichos em forma representada. Eva poderá ganhar um mundo aberto, a ela, pois seu mundo deixará de ser a “casa”: “Quando despertou, a árvore tinha desaparecido, bem como a arca, as maçãs, as janelas opacas. Nada” (p. 37): nasce, não “A primeira mulher”, pois Filipa Leal jamais escreveu poema assim intitulado; nasce alguém já nascido, mas tão reformado como a serpente cardiomorfizada. Eva “abriu a porta com a líquida sensação de que nenhuma fuga era possível” (p. 38), já que não se trata, com efeito, de uma “fuga”, existindo um destino inescapável a esperar por essa mulhar, humana e feita humana no mundo. Por outro lado, não se trata de uma fuga porque, quiçá, ela nunca esteve encarcerada, mas num outro espaço contentor: o de sua própria criação. Encerrar-se o livro, portanto, com outro som, não o da voz sempre apresentada por “Ouviu”, mas por um ruído também apresentado assim: “Ouviu o mar” (p. 39). Fosse música, seria das mais belas.
NOTAS
[1] GOMES, Miguel Ramalhete. Morar e rememorar. O lugar em Cidade líquida e outras texturas, de Filipa Leal. In EIRAS, Pedro (org.). Jovens ensaístas lêem jovem poetas. Porto: Deriva, 2008.
[2] É difícil decidir pela colocação ou não de barras entre os versos/ frases de cada um dos textos do livro, pois não sei como decidir se se tratam de versos ou frases. Algures não porei barras, e fica dita a indecedibilidade.
[3] LOPES, Adília. Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2000. p. 46.
[4] Noto, e apenas aponto, a semelhança fonética entre Eva, nome próprio, e ela, pronome feminino, pessoal e do feminino.
[5] LEAL, Filipa. O homem que existiu. In —– O problema de ser norte. Porto: Deriva, 2008. p. 18.
[6] _____. A cidade líquida e outras texturas. Porto: Deriva, 2006.

Capa de A Inexistência de Eva

quinta-feira, junho 25, 2009

A Pequena Morte, nº17, inclui uma crítica de Luis Maffei ao último livro de Filipa Leal, A Inexistência de Eva

a edição #17 da revista pequena morte já está no ar. Podem clicar aqui

neste número:

- os traços e cores da gaúcha julia duarte.

- por entre imagens, história e livros, ricardo da costa analisa a morte, o além, o paraíso e o inferno na 'doutrina para crianças', de ramon llull.

- izabela leal traduz “le pèse-nerfs”, de antonin artaud.

- seis diferentes pesquisadores/leitores/escritores comentam a provocação de wilde: “um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. os livros são bem ou mal escritos. eis tudo.”

- cinco poemas de virginia boechat.

- ângela sarmento passeia pelo ''abécédaire' de gilles deleuze.

- adriano de paula rabelo visita lugares imaginados e gozos perpétuos.

e ainda, em nossas colunas fixas:

- luis maffei resenha 'a inexistência de eva', de filipa leal.

- ricardo pinto de souza nos traz burckhardt, o tempo e os clássicos.

segunda-feira, maio 18, 2009

A Pequena Morte que vem do Brasil


Desenho de Mariana Vilhena

Creio já ser incontornável o conhecimento da revista Pequena Morte dinamizada pela nossa amiga Raquel Menezes e Hugo Langone. A Raquel esteve cá em Portugal assistindo, em várias ocasiões, a sessões de poesia portuguesa e brasileira e acompanhando Luis Maffei na sua viagem a Portugal. Foi de uma dedicação muito grande a um novo intercâmbio tão necessário aos dois países.

Como o texto de apresentação da Pequena Morte é tão bonito, não resisito a transcrevê-lo na íntegra:

«…surge a pequena morte.; se faz presente o prazer, a produção e a criação. encontro de corpus. sentidos. leituras. escrita. pensamento e estilhas.
revista eletrônica bimestral no mais alto vôo, a aposta em experiências, conhecidas ou não, pois o que importa é “o amor quando chega”: a literatura quando penetra e se encerra em estado de renovação. viagens pela linguagem. releituras e desleituras. pequenas mortes para o nascimento da literatura; despreendimento de energia para nada e por tudo… erotismo presente como experiência e como nome.
pequena morte. é o trabalho daqueles que são os amantes e os amadores da literatura. reunião de idéias, de áreas, de pensamentos. linguagem. gozo literário:

Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce. (Eduardo Galeano)»

Hugo Langone e Raquel Menezes, editores.
Mariana Vilhena, arte da capa.

quinta-feira, abril 30, 2009

Pedro Eiras e Luis Maffei na Feira do Livro de Lisboa, hoje, dia 1 de Maio, pelas 17:00. Com Carlos Pessoa e Silvina Rodrigues Lopes

Pedro Eiras e Luis Maffei

É, hoje, dia 1 de Maio, pelas 17:00, no auditório da Feira do Livro de Lisboa que estarão presentes Pedro Eiras, com o seu Um Punhado de Terra e Luis Maffei com Telefunken. Serão apresentados respectivamente por Carlos Pessoa e Silvina Rodrigues Lopes.

Podem contudo adquirir os livros da Deriva no Pavilhão da Prodidactico, do Sr. Fernando Castro, cuja localização tiramos directamente do blogue Planeta Tangerina: «Se quiserem fazer-nos uma visita, sigam as indicações:De costas viradas para o Marquês, estamos no corredor mais à direita, na fila do meio, do lado esquerdo. Se começarem a contar pavilhões desde a rotunda, estamos, mais coisa menos coisa, na 9.ª fila de pavilhões.Para quem gosta de coordenadas mais concretas, disseram-me que a identificação do nosso pavilhão é a seguinte "E- I- 12". Não sei o que significam as letras nem o número, mas in loco este código deve ser bastante útil.»

sábado, abril 25, 2009

Índex, Hoje, 25 de Abril, pelas 18:30, Isabel Alves Costa e Rosa Maria Martelo apresentam Pedro Eiras e Luis Maffei

A minha proposta tem sentido: depois de passar a noite de 24 para 25 de Abril com amigos e com a sensação um pouco desconfortante de, este ano, o feriado ter coincidido com um sábado, rondar pelas festividades públicas ou privadas que há por todo o lado e lançar-se, pelas 18:30, para a Livraria Índex ali ao Palácio de Cristal. O programa é estar com a Isabel Alves Costa que apresentará Um Punhado de Terra de Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo que nos dará a conhecer a poesia de Luis Maffei e particularmente o seu último livro editado pela Deriva, Telefunken.


Já se sabe que há amigos que não se vêem há muito, dois dedos de conversa, um copo, um café e uma nata se faz favor, dois livros que se metem connosco... e ouvir palavras com todo o sentido. Às vezes faz bem.

sexta-feira, abril 24, 2009

Booktrailer de Telefunken de Luis Maffei

Luis Maffei sobre Telefunken: «...em certa medida, viver não deixa de ser infernal.»


Luis Maffei e a capa de Telefunken que saiu hoje para o público
Luis, o facto de ser professor de Literatura Portuguesa na Universidade Fluminense, ter uma tese de doutoramento sobre Herberto Helder e colaborar amiúde com revistas como a Relâmpago e Telhados de Vidro influenciam, de algum modo, a sua poesia?

Leio Literatura Portuguesa e lido com ela há bastante tempo. Em certo momento, passo a tê-la como objeto direto de trabalho, mais especificamente quando começo, no mestrado, a estudar Herberto Helder a sério. É inevitável, portanto, que a Literatura Portuguesa, que tanto participa de minha vida, participe também de meu modo de enxergar a literatura, e, em particular, a poesia. Não se trata, suponho, de uma angústia da influência, mas da percepção apaixonada e talvez íntima de um vasto universo a se ter em relação. É óbvio que, se eu crer em Borges (penso em “El escritor argentino y la tradición”), inapelavelmente terei de ser um poeta brasileiro, e gosto que seja assim: sou um poeta brasileiro, faço minha poesia no Brasil e dentro de uma, agora sim, angústia bastante brasileira, ou melhor, advinda de uma noção particular do que seja viver neste lugar, o Rio de Janeiro, neste momento e sob diversas variantes de uma cultura na qual me insiro. Isso tampouco terá que ver com influência no sentido consagrado por Bloom; talvez seja da ordem do combate. Por outro lado, diante dos olhos de todos nós há um campo mais vasto ainda, que é o da poesia de todos os tempos, todas as línguas e todos os lugares. Não lemos tudo, mas muita coisa ainda é legível.

Há referências que nos são óbvias, para além da grande originalidade da poesia que faz, como o já referido Herberto Helder, mas também O’Neill, Camões ou Bocage, não é? Chega a fazer sonetos de uma musicalidade fantástica como em Pano de Corte e Vocativa.

Obrigado. O notável Alexandre O’Neill aparece em Telefunken por causa de seu poema “Gato”, com que converso no meu “Prioritárias 1”. Quanto ao soneto, é presença muito forte na tradição ocidental, especificamente na tradição da poesia em português. Sinto-me à vontade nessa forma fixa, e “Vocativa” é uma pequena homenagem a Bocage, poeta que reputo merecedor de novas e renovadas leituras, sobretudo no que toca a seus poemas que levam o erotismo a uma pornográfica alcova. “Vocativa” é baseado em “[Amar dentro do peito uma donzela]”, e devo ao Bocage a fluidez que meu soneto tem, pois peguei a métrica, por assim dizer, pronta. Já Camões me parece uma grande razão para que se escrevam poemas em português até hoje e até sempre, e também uma grande razão para que não se escreva nada. Isso porque é preciso voltar constantemente, como homenagem, conflito, dúvida e humanidade, ao mais vivo artista que nossa língua possui e que possui nossa língua, e tal gesto (metaforizável, penso agora, pela ideia de “porta giratória” que encontro em Luiza Neto Jorge) foi praticado por multidões de poetas desde que Camões passou a ser lido. Por outro lado, não tanto em virtude das trapaças que Camões sofreu ao longo do tempo (penso no Sena de “Camões dirige-se a seus contemporâneos”, na Sophia de “Camões e a tença”, no Gastão de Outro nome, etc., como, além de muito mais, denúncias dessas trapaças), mas da inesgotável contemporaneidade do que esse poeta está escrevendo, talvez conversar com ele seja um tanto perigoso, já que corremos o risco de apenas, maravilhados, ouvir.

Este é o seu segundo livro de poesia (o primeiro, A, foi editado no Brasil, em 2006). Não se pode dizer que é um poeta muito prolixo ou dará «…todo o meu tempo a verso alheio…»?

A reúne bastante coisa do que eu escrevi até 2006, ano em que foi lançado. É um livro talvez com demasiados poemas, não sei. O seguinte, este Telefunken, veio dois anos depois.Não há, tem razão, prolixidade, nem na internalidade dos meus poemas nem na frequência da minha escrita, mas isso não tem que ver com dedicar muito “tempo ao verso alheio”, mas sim com um ritmo de produção sobre o qual não tenho muito poder deliberativo. Na pergunta anterior, fala generosamente numa “originalidade” do que faço. Não a procuro. Mas procuro fazer com que meus poemas não se bastem em redizer o já dito, ou em estabelecer uma mera leitura de poemas alheios que meu cânone pessoal tenha elegido. O poema que cita termina do seguinte modo: “Não dou todo o meu tempo ao verso alheio/ mas/ ao meu/ prefiro a prosa/ não da vida e sim/ de pêlos sem metáfora ou/ mentira”. Longe de querer desconfiar muito da poesia, seja ela minha ou alheia, penso que temos todo o direito (talvez ético...) de dizer daquilo que esteja fora das bibliotecas, fora do imenso e restrito universo da literatura, mesmo porque o mundo nos exige atenção e escuta para que os livros façam sentido e possam mudar alguma coisa no próprio mundo extralivros – e existe, por mais que nos possa parecer estranho, um mundo extralivros.

Qual o papel da música na sua poesia? Editou um disco com Marcelo Gargaglione.

Sim, há esse disco, na mesma situação de blake, lançado em 2005. O título foi retirado de um poema de Fiama Hasse Pais Brandão, “A minha vida, a mais hermética”. Não sei dizer se há um papel da música em minha poesia. Talvez me fosse mais fácil dizer de um papel da literatura na música que Marcelo Gargaglione e eu fazemos: lá está Fiama, também um poema de Jorge de Sena, uma adaptação de Ésquilo, uma transgressão a um poema de Eugenio Montale, etc. Não obstante, nossa música não persegue poemas ou textos literários, pois quer ser efetivamente música, tanto que boa parte da força (talvez a mais nuclear) de na mesma situação de blake advém da própria música – o canto, os longos instrumentais, certo desafio à lógica consagrada do sistema tonal. No caso da música em minha poesia, talvez eu preferisse falar de ritmo e quebra, mas há quem diga de efetivos traços musicais. Deixo essa consideração aos bons leitores.

Explique-nos um pouco melhor a série coordenada por si na Editora Oficina Raquel com um nome tão singular como Portugal, 0.

A série é dedicada à literatura recente feita em Portugal, sobretudo a poesia. Até agora foram lançadas antologias de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Pedro Eiras. Por ser a novíssima literatura a que interessa à série, Portugal, 0: ponto zero, princípio, hoje. As antologias vêm com estudos (prefácio ou posfácio) feitos por pesquisadores brasileiros de poesia portuguesa (Maria Lucia Dal Farra, no caso de Rui Pires Cabral, e Ida Ferreira Alves, no caso de Luís Quintais, por exemplo, além de mim próprio), já que: por aqui, pelo Brasil, alguns estudiosos andam dando inteligente atenção à nova literatura portuguesa; os estudos de literatura portuguesa no Brasil, nos dias de hoje, possuem uma inegável força; o que Portugal, 0 quer, sendo uma coleção brasileira, é apresentar esses autores ao público brasileiro (nada vasto, em verdade bastante pouco, mas...) e permitir uma leitura “à brasileira” (devo a expressão a um gigante dos estudos portugueses no Brasil, Jorge Fernandes da Silveira, sem o qual eu não saberia ler direito) desses poetas. Torço para que a coleção tenha vida longa, pois o fôlego que a nova poesia portuguesa possui e o generoso número de bons autores são dignos de nota.


Pedro Eiras, no posfácio a Telefunken afirma, referindo-se a Ikeda’s Morning que o seu poema obriga à igualdade do rei na medida do homem. Homem esse, aliás, que deve ter a atitude de um rei. Assim é?

Daisaku Ikeda é o líder da Soka Gakkai, organização leiga que se dedica a promover paz, cultura e educação com base no Budismo de Nitiren Daishonin. Tenho orgulho de ser membro da Gakkai e, portanto, “singelamente/ atento” ao que diz Ikeda, humanista mais lúcido de que tenho notícia. “O homem deve ter a atitude/ de um rei” são versos escritos por Ikeda, para quem o ser humano atinge algum reinado (no mais generoso sentido) na medida mesma de sua humanidade (no mais corajoso sentido), não de sua aristocracia (no mais segregacional sentido). Estou de pleno acordo com o que escreveu Pedro Eiras em seu magnífico posfácio a meu livro, e poderia dizer mais: estar “singelamente/ atento” ao que diz e escreve Daisaku Ikeda é meu modo de acessar uma rara esperança na construção de algo distinto do que nosso mundo nos tem mostrado.


Que inferno é esse criado por «…boa vontade dum / filho da puta que não existe chamado / Deus…»?

O subúrbio do Rio de Janeiro, este “inferno sem beira ou piscina de nome/
subúrbio”. Em verdade, o Rio de Janeiro, já que o poema se chama “Rio, subúrbio”. Ou melhor, nada disso, mas certa impressão que toca minha vivência carioca, terceiro-mundista em muitos aspectos, bastante credora do que Pedro Eiras, no posfácio a Telefunken, chama de “Deus, mercadoria”: um pouco as Igrejas Evangélicas e Neo-Evangélicas, febre na maioria dos casos nociva, corrupta, corruptora e torpe, que transforma a poderosa simbologia de Deus no “mais escrito nome duns/ cartazes de publicidade”. Também a insistente pobreza que vitima muitos habitantes de minha cidade, que é, a propósito, muitas vezes “imbecilmente quente”, pois por aqui uma temperatura acima dos 35º é comum. Mas, em certa medida, viver não deixa de ser infernal, tanto pela necessidade de lidar com o outro como pela eventual maravilha da diferença e do desvio. Não é à-toa que Pedro Eiras escolheu como título de seu posfácio um sintagma de “Hélice”, “com esquerda mão”. Isso, sim, me interessa imensamente. Interessa-me também certo comentário de Sebastião Edson Macedo, poeta e amigo que comparece a dois poemas de Telefunken e que me deu o prazer de apresentar o livro no Rio de Janeiro. Ele percebe certo não-inferno em minha poesia, algo como um paraíso em construção ou a construir.

Há mais projectos no ar? Que expectativas na sua viagem a Portugal em duas datas de referência: o 25 de Abril, no Porto e a 1 de Maio, na Feira do Livro de Lisboa?

As datas das apresentações de meu livro em Portugal são inegavelmente significativas, sobretudo a primeira, já que vivo às voltas com a Literatura Portuguesa e 25 de abril é uma das datas a que mais vezes me referi em sala de aula. Além disso, o ano de 1974 é o de meu nascimento, a 16 de fevereiro, o que torna tudo ainda mais propício. Estar bem perto da Literatura Portuguesa faz-me estar bem perto de Portugal, de modo interessado, por vezes crítico mas sempre na esfera da paixão. Desde que comecei a pesquisar Literatura Portuguesa, venho construindo relações muito afetuosas com diversos portugueses que muito me ensinam, e com quem partilho afinidades, interesses e inquietudes. Um pormenor: desde sempre estive com Portugal por perto, em virtude de algo muito forte e pré-literário: a mais antiga de minhas paixões tem por nome Vasco da Gama, e é um Clube de futebol. Portanto, sou “adepto” de um nome português desde sempre.
Projetos? Vários. A Universidade por si só leva seus Professores a constantemente projetar coisas, desde as atividades cotidianas (muitas vezes mais surpreendentes que cotidianas, pois lecionar é de fato uma aventura) até as pesquisas de vulto um bocado mais ambicioso. Não penso que meu terceiro livro de poemas surja em 2009, pois os inéditos ainda não são muitos; isso fica, provavelmente, para 2010. Para este ano, é provável que seja lançado o quinto volume de Portugal, 0 e, talvez, um livro que reúna minhas reflexões sobre música, pois escrevo desde 2000 sobre o tema para uma revista ítalo-brasileira de nome Forum Democratico. Além disso, ensaios, as recensões periódicas para a revista pequena morte, e o que mais possa vir.

quarta-feira, abril 15, 2009

Colóquio Internacional e Interdisciplinar Artes da Perversão, 23 e 24 de Abril, Faculdade de Letras da Universidade do Porto


Clicar na imagem para ver o programa

Nos próximos dias 23 e 24 de Abril realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade do Porto o Colóquio Internacional e Interdisciplinar Artes da Perversão, que será acompanhado, ao longo da semana, por um Ciclo de Cinema com quatro sessões (20-23 de Abril), a decorrer na Leitura Books & Living e nos Cinemas Medeia do Shopping Cidade do Porto. O Colóquio encerrará com um encontro de criadores, no espaço Trintaeum, que contará com a presença de Ana Luísa Amaral, de José Emílio-Nelson e de valter hugo mãe. Junto envio os programas do Colóquio e do Ciclo de Cinema.
Eu não perderia isto por nada... vamos dando notícias.

sexta-feira, março 27, 2009

Telefunken de Luis Maffei e Um Punhado de Terra de Pedro Eiras. Na tipografia

Ana Hatherly, Labirinto de Letras

Dois livros mais na tipografia e uma faca nos dentes. Do Brasil, chega-nos Luis Maffei com Telefunken a sair muito em breve pela Deriva. Um livro de poesia belíssimo que irá ser apresentado por Rosa Maria Martelo e Silvina Lopes Rodrigues, no Porto e em Lisboa, respectivamente.
Pedro Eiras surpreende-nos sempre. E agora foi com Um Punhado de Terra, um monólogo que nos entra pelo corpo dentro, sobre os chamados descobrimentos portugueses. Violento e grandioso. A seguir estes dois livros, com atenção.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Uma Boca muito Aberta, de Luís Maffei, sobre A Metamorfose das Plantas dos Pés de Catarina Nunes de Almeida. artigo editado na revista A Pequena Morte



Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense e screveu este arigo na revista A Pequena Morte.

(recensão a A metamorfose das plantas dos pés, de Catarina Nunes de Almeida. Porto: Deriva, 2008):
A metamorfose das plantas dos pés exige a quem sobre ele escreve estar “dentro dentro dentro” [1], assim, muitas vezes por intensidade, como leio na tradução/ mudança de Herberto Helder a “Sobre tradução de poesia”, poema do polonês Zbigniew Herbert. Portanto, deixa de ser uma escrita sobre para ser uma escrita em, e o livro é provocativo desde o estranho poema-dedicatória que o abre: “Ao Vesúvio/ que me engoliu” (p. 6). O vulcão é um lugar de estar, e vejo-me, pois, diante da necessidade de também ser metido nele, engolido, exposto a sua boca muito aberta, ainda mais se leio, já pelo fim do livro, que “A neve no cume do vulcão concede ao fogo/ o rosto das amendoeiras” (p. 46). Existe uma iniciação a ser cumprida, pelo mundo, no mundo.
Cria-se, imediatamente, uma estória, uma trilha, um caminho, uma epígrafe de parceria: “Guarda-te melhor/ guarda-te caminhante/ do caminho que também caminha” (p. 7), Rilke. Se assim, abro da mesma forma a minha boca, abro os olhos à minha própria estória, faço minha a escrita dessa obra que, como uma senda, possui capítulos: o I tem título idêntico ao do livro; o II se chama “Corpo floresta” e o III, “A descoberta do fogo”. Desconfio que exista uma tarefa para o leitor: a de tornar-se capaz de III porque terá sido capaz de II, e o ato metamórfico da transformação do “corpo” em outro terá que respeitar o mesmo: agregação, não substituição. E “fogo” nas mãos, enfim, “fogo” na “floresta”, incêndio, amor ainda é um fogo, a “neve” vive no “vulcão”, caldeia-se, queima as plantas dos pés.
“Reconheces esta água para onde cais?” (p. 11), primeiro verso do primeiro poema de “A metamorfose das plantas dos pés”: amor ainda é um fogo, amor ainda é capaz de um “rendilhado de luas maternas”, de “todas as conchas”, de “todas as coxas celebradas” (p. 11). Caminhar com Catarina é caminhar de mãos dadas, pois a boca que fala convida a um dueto que se manifesta no assombroso, por complexo, erotismo dos poemas. “O álbum abriu a boca enorme”, numa modificação extrema do mundo, “e repara no perfume dos ossos/ como se as fotos continuassem lá longe/ debaixo da terra (…)” (p. 12): algum luto nessa memória um tanto familiar. Mas “coxas” são lugar de passagem e paisagem, “as unhas que outros cravaram pelas coxas” (p. 47), “e as vozes recolhiam-se sempre mais até serem/ um fio de prado um horto de lutos cristalizados: da marcha líquida dos soldados/ bebem as aves e as aveleiras” (p. 48).
É flagrante a fusão entre corpo e paisagem, corpo e mundo, lugares de tangência e encontro, encontros, fusão. Insisto na boca do canto, muito aberta: “Avistei a boca ao entardecer” (p. 14), e insisto na fusão: “Plantei o primeiro seio/ a que chamámos macieira/ e abandonei o ventre/ à generosidade vegetal./ Nessa noite dormimos por dentro e por fora/ do mundo.” (p. 14). Sim, exposta está uma relação, uma mistura: maternidade, eu, outro, nós, corpo, mundo. A natureza, aqui, é lugar de “generosidade”, mas a natureza reside nos corpos que, generosamente, fazem do mundo uma convidativa cama.
Se o corpo é natural, capaz de ser “Corpo floresta”, ele não deixa de ser da cultura, e culturaliza, de modo agudamente pessoal, a sorte de “Vesúvio/ que” o “engoliu”: “Tantas vezes se falou de origens vulcânicas/ e no entanto era nosso destino adiar o fogo/ compor hinos às árvores decepadas” (p. 15). Um gesto de feminização do mundo, ainda mais notável no último poema do livro: “Os homens desaguaram dentro dos homens/ bailarinas alinhadas para o primeiro acto de amor./ Só o amor cheira a sangue só as cigarras/ o perfume das espadas na ossatura dos campos/ completam a primavera na vala comum.” (p. 48). Homens “desaguaram” noutros “bailarinas”, e delas imitaram o gesto e o viço. E “na vala comum” a “primavera”, uma tensão entre certa ecologia política e certa ecografia, cultura a naturalizar o discurso da boca muito aberta de Catarina Nunes de Almeida, que compõe “hinos”, faz poemas.
E uma terceira pessoa é romanceada nesse livro de poemas, metamórfico como as tranformantes “plantas dos pés” que passeiam por seu título: “Deixou-se ficar ao sol – a língua iluminada/ polida pelo vento e as ruínas da folha onde foram/ um joelho um braço rasgando as nuvens.” (p. 26): é na escrita que se dá o erotismo nesses poemas, o que me faz pensar imediatamente em Luiza Neto Jorge, amante da “folha” como lugar de texto e corpo, dona de “língua iluminada” para atos eróticos em cantos e recantos. Claro, é possível detectar muita poesia portuguesa (e não só: atenção ao Rilke da epígrafe) em A metamorfose das plantas dos pés; Fiama, por exemplo, na lida com o que seja natural, na concisão e na “Ave severa esta árvore que embala a morte.” (p. 26): se “Água” ainda “significa ave” [2], vejo-me diante não apenas dum modo de reinventar a metáfora, mas dum tipo de significação a que interessa o encontro do diverso. Pela diferença, a tangência, e, na tangência, ainda uma grande novidade.
Novidade no corpo, do corpo, “Corpo floresta” capaz d’ “A descoberta do fogo”, da prática de um amor aprendiz que tem no poema seu lugar de iniciação: “Vieste para a floresta carregado de dedos/ como quem vem abraçar por dentro/ uma árvore o bicho que cai/ entre sílabas e âncoras minúsculas./ Estás pousado na terra/ mas são as ervas que se deitam no teu dorso constelado/ e aguardam o correr das nuvens/ a respiração de algum astro mais brando.” (p. 38). Deliro nas preposições: “de dedos”, não por dedos; talvez, portanto, como dedos, extremidade, sim, do corpo, tangência, tangência sempre. Se “por dentro/ uma árvore”, entra-se nela e por ela é-se entrado, e os “homens desaguaram dentro dos homens” pois se trata, enfim, do humano. E aqui suspeito (invento? Caso sim, peço desculpas, mas, como vou de mãos dadas a Catarina, é efeito de leitura, é coisa, antes de mais, dela) duma nova metamorfose, espantosa: é estelar e cósmico “algum astro mais brando”, com manifestação direta na “respiração” de homens e mulheres, sobretudo se amantes. Mas, sendo do uso da língua referir-se a grandes nomes com o vocábulo “astro”, e se “brando” é o nome de um grande nome, penso no estadunidense milagre humano que atende pelo nome de Marlon Brando, “astro”, em algum nível, cujo corpo se pode acessar pelo símbolo, pelo drama, pelo fingimento.
Pessoa, pois: num poema celebração do incêndio, celebra-se Nero – “Bendito sejas tu, Nero, entre os pássaros”. Celebra-se também Ricardo Reis, não pelo que foi, mas pelo que poderia ter sido: “desenlacemos as mãos, Lídia,/ lancemos estas mãos ao mar –/ alguém cumprirá por nós/ as promessas.” (p. 39). Serão “promessas” não cumpridas de amor vívido e vivido? Catarina leitora também de Adília Lopes – “casa-te com Lídia/ tem bebés/ passa a lua-de-mel/ na Grécia” [3] –? Talvez eu possa pensar nos “bebés”, nos filhos como cumpridores da fogosa promessa que une o Ricardo Reis de Catarina a essa nova Lídia, pois uma figura forte de A metamorfose das plantas dos pés é a mãe: “e tu tremias quando te chamava/ mãe.” (p. 17). Encerro a citar um poema que se encontra longe do fim da obra, e percebo que o caminho inventado por esse livro com capítulos não é de direção única: como uma boca muito aberta, as trilhas dessas falas têm diversos sentidos, cá e lá, para frente e para trás, sem que jamais alguma paralisia ouse mostrar-se.
NOTAS
[1] HELDER, Herberto. Oulof. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997. p, 10.[2] BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Morfismos. In. BRANDÃO, Fiama Hasse Pais et. alli. Poesia 61. Lisboa, Edição de autor, 1961. p. 1.[3] LOPES, Adília. Obra. Lisboa: Mariposa Azul, 2000. p. 387.