segunda-feira, julho 13, 2026

«Ora Esguardae», Olga Gonçalves

 

Olga Gonçalves (1929-2004)
Leio «Ora Esguardae», livro que gostei bastante de ler quando foi publicado em 1982. Hoje, releio-o não já com o entusiasmo da altura, quando ainda se acreditava vagamente que a democracia parlamentar se teria consolidado numa revolução social então em regressão e a que se chamou, mal, de «prec». Nunca aderi a este acrónimo meio tacanho, aceitando-o contudo por facilitação: aqueles dois anos e meio foram, antes de tudo, uma reposição violenta das condições sociais baseadas na justiça e na liberdade, contra aqueles que durante décadas foram os plenipotenciários disto tudo. Foi uma revolta dos de baixo. Foi a reposição possível do comum da vida. Da dignidade, também. 

O que isto, assim dito, terá a ver com «Ora Esguardae» que quer dizer no antigo galaico-português «olhai e vede»? Tudo. Porque ler esta obra insere-se numa forma de escrita pouco estudada ainda: a de uma literatura social pós-revolução. Hoje achamo-la extremamente ingénua, perguntando-nos como foi possível esta torrente de palavras, grande parte delas quase de improviso, plena de tentativas de inovação literária, rechaçando a página e partindo-a em colunas, propondo-nos poesia a meio da prosa, diálogos infindáveis. A forma e conteúdo em sério confronto. No final, admiramo-nos com as preocupações pedagógicas de Olga Gonçalves (e de muitos outros e outras autores e autoras dos anos 70 e 80) sobre a construção de um país novo, mesmo que corra a risco óbvio de se tornar uma literatura assente em casos conjunturais, muito delimitados. Quem sabe hoje quem foi Mota Pinto ou Nobre da Costa? Mas não é isso o principal dos temas apresentados: a guerra colonial, a repressão da Pide e do Estado Novo, a censura, cujo texto sobre ela foi das coisas mais bem conseguidas de «Ora Esguardae», a reforma agrária e os partidos políticos, as proclamações da liberdade e por aí fora. Este livro foi escrito em 1981, por ironia com uma bolsa literária dada pela Tinker Foundation de Nova Iorque e escolhida por Urbano Tavares Rodrigues, o Tio Urbano, para uma colecção intitulada de «Grandes Escritores Portugueses Actuais» da... Planeta Agostini! No início da década de 80, as coisas já estavam assim, como que a formar um limbo político-comercial em que tudo seria possível. A ingenuidade aparece, consolida-se, quando se não estabelece um padrão de liberdade em que o dinheiro possa ter uma papel neutral. Não tem, nunca teve.

alc