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segunda-feira, maio 27, 2024

Um post de Diogo Vaz Pinto sobre a biografia de Manuel de Castro

Às vezes, entre as centenas de livros que se editam, o mais estranho é que, do meio da indiferença que nos gela e que é o maior dos abismos desta época, surge um leitor, um abelhão todo coberto do pólen que se reservou nalgumas páginas, nalgum desses livros feitos quase secretamente e só em nome dessa hipótese de haver mais alguém vivo nesta língua que quase se deixou de falar, e que está, para os efeitos de perturbação profunda e de mudança, praticamente morta. Daí o espanto quando afinal ainda nos surge um leitor pela frente, alguém vindo do outro lado, abrindo uma esperança de não sentirmos o desconhecido como um vazio, mas ainda como um território que nos desafie. Curiosamente, este leitor calha ser um antigo editor, desses que deu tudo e acabou atirado para a berma, muitas vezes também por esse género de autores tomados pela sanha de saltar para algo com um ascendente publicitário maior. Porque a chamada cultura literária entre nós ainda não fez mais que um punhado de escritores com verdadeira vontade de criar tudo outra vez, e por isso vão perfumando os cadáveres de ontem enquanto se queixam por não haver margem para fundar uma razão que diga respeito ao amanhã.

Diogo Vaz Pinto, sobre um artigo referente à edição da biografia de Manuel de Castro, no perfil da editora Língua Morta. Maio de 2024. 

quinta-feira, maio 23, 2024

«O Poeta passeia-se pelo seu túmulo», uma biografia de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa

Língua Morta, Novembro de 2023
É muito possível que quem não se emocionar com esta biografia de Manuel de Castro em jeito de cumplicidade e diálogo com o autor, desaparecido em 1971, guiada por Nuno dos Santos Sousa, tenha, nas suas veias, Água das Pedras, caldeadas por Frizes de morango para as colorir, ao menos.

Ninguém pode ficar indiferente a esta biografia, o que é simplista de se dizer. Aliás, o sub-título já explica por si: «Subsídios, Esmolas, Aforismos e umas Rodadas para a Biografia Teratológica de Manuel de Castro». Portanto, é mais que isso. Nuno dos Santos Sousa não é meigo com a linguagem utilizada, pelos que convoca para aqui, pelo que é escolhido das cartas do poeta ou pelos poemas que sabemos de «Zona», «Estrela Rutilante», «Paralelo W» e «Escorpião» (este desapareceu ou está em mãos desconhecidas, como se pode aventar) e «Bonsoir Madame». Esta biografia não é como as outras, não é um tijolo pessoano ou camoniano, de vastas posses, é uma obra bonita, que respeita o biografado literário e o homem, o que em Manuel de Castro é uma e a mesma coisa. O editor da Língua Morta soube-lhe dar casa e isto não se esquece. Não me retenho sequer a fazer qualquer consideração sobre a sua poesia. Não posso, não tenho estofo e vai daí também a emoção de o ter lido e de o ter desenhado em ex-voto (ver em baixo) não me deixa escrever porque adivinho o desprezo de quem é «interpretado», ou o caraças! Só direi que Manuel de Castro é inesquecível pela raiva, pelo amor, pela ruptura surrealista e abjeccionista, embora não se fique só por estes ismos. Morreu com 37 anos, depois de uma doença prolongada de que não quis tratar-se completamente. Morreu devagar, num suicídio lento num país que está longe de o merecer, sequer. Ele di-lo com clareza, não quer ficar por cá e parte para Paris e Alemanha, estacionando por lá 5 anos. E os seus amigos, Herberto Helder, Helder Macedo, João Rodrigues, Carlos Loures, José Manuel Simões, Pedro Oom, António Barahona (o único que está vivo desse grupo do Gelo, que não era bem um grupo, antes pelo contrário), Fernando Madureira, António José Forte, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco e mais, muitos mais... Cesariny e Mário-Henrique constam aqui e ali. 

Nuno dos Santos Sousa dialoga com Manuel de Castro. Com um carinho límpido, que um leitor atento sabe atentar, sim senhor. «Menos na política, Manel», menos na política, que dá merda! Chama igualmente por quem o convocou como «poeta sonegado» no dizer de Luiz Pacheco. Não fosse a «A Ideia» e António Cândido Franco ou António Barahona, e editoras que o vão lembrando e ainda estaríamos em maré de nada. E até hoje foram alguns, se bem que persista o esquecimento que já nada tem de involuntário. É voluntaríssimo e infame, porque é impossível imitar Manuel de Castro sem se dar conta. É único. E os poetíssimos e poetíssimas contemporâneos não o querem perto, porque pode haver desmascaramento e o Herberto Helder ainda dá para se arrevesarem e dar uns ares da sua graça, treslendo-o ou coincidindo, sem se saber, claro. Escreveu para revistas, para jornais, para editoras. Bebeu demasiado, e dava-se à noite lisboeta e aos bordéis. Estava pronto para a porrada, sempre que fosse necessário e também com os amigos, porque era uma nobre prova de amor (chamava aos amigos de «rosas brancas»). Era um incontrolável, o que lhe daria combustível para as melhores páginas escritas no Gelo, no Royal, ou nos cafés que já não existem hoje.

Companheiros do programa biográfico de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa chamou à obra, Cioran, Jünger, Raúl Brandão, Drieu La Rochelle, Ingeborg Bachmann com um belíssimo texto e, além de outros, Jean Cocteau. 

Não porei aqui nenhum poema de Manuel de Castro. Pela simples razão que toda a poesia (como afirmou, «nem todo o poema é poesia!») é nele, um continuum, é muito difícil separá-la em extractos. Compre-se os livros e manuseie-se devagar ou com raiva, cheios de pressa. É convosco. Mas leiam este livro que é igualmente poesia.

António Luís Catarino, Abjectos Surreais, Manuel de Castro, 2022