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quinta-feira, dezembro 07, 2023

«Fechada para o Inverno», Jorn Lier Horst


D. Quixote, 2016, Tradução: João Reis
Bom, o que vale é que Horst foi polícia na Divisão de Oslo o que dá um carácter de veracidade a tudo o que lemos dele. Não só a questão administrativa a que são obrigados os detectives (creio que ainda bem!), mas a sua relação com os procuradores e juízes e igualmente com os métodos de investigação, embora mais que ajudados pelos capitalismo de vigilância. Já aqui se disse que a dedução, a memória, a inteligência de um detective do século XX já nada tem a ver com os quilómetros de imagens, mails, contas bancárias, telemóveis e discos duros dos computadores a que hoje começa e acaba toda uma investigação criminal no século XXI. Os crimes hoje são essencialmente económicos e deixa-se para trás o tráfico de droga ou outros equivalentes, como os humanos. Não há mãos para tudo, caramba! O Estado assim o obriga e tudo corre às mil maravilhas.

A história do livro em si não é má de todo. Mas os liberais deviam seguir a narrativa de Horst quando este vai à Lituânia numa investigação criminal. Longe de ser um autor que aborde a política, não deixa, contudo, de exercer a sua visão sobre a sociedade lituana há poucos anos saída da União Soviética. Como disse, os liberais, depois de um dia de trabalho árduo no Parlamento ou nas suas empresas e nos seus unicórnios, depois de passarem no ginásio ou no spa, ou mesmo durante os mesmos, sei lá, deviam ler o que ele conta da Lituânia neste livro. O liberalismo selvagem produziu pobres a esmo, 25% de desemprego, riquezas fabulosas, crime mais organizado que o Estado, mercados negros tão grandes como os maiores bairros de Oslo onde tudo se consome e vende sem que se possa criar riqueza para o Estado, porque a exercer o fisco nesses mercados era pior do que as suas consequências sociais. Fixe, não é? Claro que quem paga isso, em parte, são os países ricos como a Noruega, a Suécia, a Finlândia e a Dinamarca, por exemplo. Mas nem tudo é mau: produz uma literatura policial profícua e lucrativa nestes países, em troca de umas casas assaltadas (geralmente as segundas ou terceiras casas de férias de famílias viquingues), uns televisores LCD a menos e uns carros desviados dos seus donos. Nada que preocupe a social-democracia em descida inclinada para a extrema-direita, igualmente favorecida para o seu discurso político. Todo um programa liberal em poucas centenas de páginas. 

quinta-feira, dezembro 22, 2022

«Cães de Caça», de Jorn Lier Horst


É evidente que um livro, uma história policial, que é contada com alguma competência por um ex-polícia ao serviço da instituição norueguesa durante 20 anos tem de dar resultado, sabendo igualmente que os policiais nórdicos têm uma aceitação pública que se tem mantido estável fruto de uma política de marketing bem sucedida e vendendo-se com regularidade séries de TV relativamente em conta até para a nossa televisão. Neste caso, a série em causa foi «Wisting» (nome da personagem principal) que deu na cadeia de cabo AMC. 
Mas no caso de «cães de caça» de Jorn Lier Horst a coisa torna-se verosímil pela experiência profissional do autor o que lhe dá credibilidade. Só não percebo a teimosia vikingue, quase uma caso de estudo, por que razão existem sempre pessoas, geralmente mulheres, a desaparecerem e a surgirem em caves, presas e acorrentadas. Ou é uma coisa que Freud terá explicado em detalhe, ou é uma mania local que veio desde Stieg Larsson, esse sim, um jornalista que conhecia os meandros da polícia e da política sueca e um escritor fora de série. Horst encontra-se a meio caminho, mas ainda lhe falta alguma coisa para atingir a mestria daquele.