sexta-feira, abril 14, 2006

Divagar pelas Palavras, por Paulo Kellerman.


Paulo Kellerman inicia, hoje, uma colaboração que desejamos contínua no Deriva das Palavras. Escritor contido e profícuo (também no seu A Gaveta do Paulo) foi editado pela Deriva em Dezembro de 2005 com o Gastar Palavras. Esperemos que outras iniciativas e apresentações deste novo autor tenham lugar. Será bom sinal, embora o tempo teime em andar devagar, gastando e mastigando as palavras, até darem por ele. Necessariamente.

Estou a contar-lhe que me pediram um texto sobre um assunto complicado: a deriva das palavras. Ela sorri mas não diz nada. Alimento o diálogo à força de mais um pedaço de monólogo: e vou divagando sobre as minhas intenções de falar de um universo fantástico – o nosso: este – em que as palavras divagam monotonamente de boca em boca, de livro em livro, usadas como simples veículo, expressando sentimentos alheios, incapazes de se fazerem aceites apenas pelo seu valor intrínseco, impedidas de existirem por si, para si.
Depois, calo-me: não me apetece gastar mais palavras. Mas ela agita-se, inesperadamente. Olha-me, sorri. Diz: não concordo. Sorrio, agradado. Continuamos a sorrir intercaladamente, dividindo o silêncio.
Lá fora começa a chover. Farrapos cinzentos caem do céu, deslizam pelo vidro da janela. O tempo avança devagarinho, como se não tivesse para onde ir; ou talvez esteja simplesmente cansado, sei lá. E nós aqui: à espera.
Repete: não concordo. E o sorriso extingue-se.
Diz: não me parece que seja assim; as palavras não derivam pelo universo, em busca de quem as use, de quem lhes dê um sentido. Acho que não. Sabes o que são as palavras, para mim? Somas de letras. Nada mais, apenas amontoados de letras.
Penso um pouco no que acabei de ouvir. Espreito a curva do seu joelho e quase me levanto para lhe tocar, para o acariciar. Ouço a chuva.
Diz: sabes o que efectivamente deriva pelo mundo, em busca de um sentido, de uma concretização, de uma fuga? As ideias. Derivam, empíricas e abstractas, inexistentes: à espera. Pairam. O universo está repleto de conceitos, de vazios: à deriva. E um dia alguém pega numa destas ideias e concretiza-a em pensamentos, transforma-a em palavras.
Sorri.
Percebes? As palavras são fundamentais porque formalizam a ideia, concretizam-na. Mas não deixam de ser um instrumento, uma forma de expressão, uma explicação. Não achas?
Intensifica o sorriso.
E conclui: quando digo amo-te, que te comove mais? A palavra em si, as cinco letrinhas unidas - separadas pelo tracinho, ou o conceito de amor, de entrega e partilha, de complementaridade, que as letrinhas representam?
Não respondo, não é necessário.
Porque não te levantas e me acaricias o joelho? Sei que te apetece fazê-lo, sabes que gosto que o faças. E é uma outra forma de dizeres que me amas, sem que tenhas de gastar uma das tuas preciosas palavras.
Sorrimos. Em simultâneo.

Paulo Kellerman, Abril de 2006
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