quarta-feira, abril 26, 2006

Páginas de um Diário Alemão - I, de João Pedro Mésseder

Hamburgo, 12 de Agosto

Chegados a Colónia, pelo meio da tarde de ontem, o dia alindara-se para nós. O sol rompeu as nuvens por umas horas, permitindo a esta pobre gente, assedegada de luz e calor, vir a passeio para a cidade velha e preguiçar pelas margens do Reno.

Vagueamos então pela cidade de Heinrich Böll que de antigo apenas conserva algumas zonas reconstruídas após a Segunda Guerra. A catedral porém impressiona (polémica a reconstrução) e um ou outro edifício escaparam total ou parcialmente às bombas e sofreram restauro. Na rua é a festa, tipicamente alemã, de uma tarde de sábado visitada pelo sol: skates e patins-em-linha, músicos, pequenos espectáculos de boina estendida. No rio, dragas, barcos de recreio e de turistas.

O centro, nas imediações da catedral, abre-se em praças com esplanadas onde se toma café ou cerveja depois do jantar. Aproxima-se a hora dos concertos e alguns músicos encaminham-se já para a Filarmónica de Colónia, situada perto do rio, onde há grandes extensões de relva. Pais com carrinhos de bebé, casais, idosos e crianças loiras-loiras colhem as últimas oferendas do dia.

Eram oito e meia da manhã quando hoje começámos a subir para nordeste, com paragem em Bremen. A chuva não era pouca. Descemos a pé a Böttcherstraße, um conjunto urbanístico onde Arte Nova e Art Deco se cruzam com um estilo tradicional, formando uma ruinha estreita mas muito acolhedora de olhares. A cor de tijolo predomina e certos pormenores da arquitectura surpreendem. Lojinhas, ateliers, restaurantes e a casa-museu da pintora Paula Modersohn-Becker — que não chegamos a visitar, embora nos demoremos nas reproduções expostas nas vitrinas. Quase no fim da rua, à direita, uma casa dedicada ao pai de Robinson Crusoe. Diz o romance — o que só lembra aos de cá — que o progenitor do velho náufrago industrioso era natural da cidade. Pelo princípio da tarde, despedimo-nos do cão, do burro, do galo e do gato — os músicos de Bremen evocados numa escultura perto da catedral e num teatro de rua: encenação do velho conto dos Grimm, para gáudio de meninos loiros, de olhos em alvo e bocas abertas.
Entramos em Hamburgo pelo meio da tarde. A um primeiro olhar turvado pela chuva, a cidade é de uma beleza singular, feita de sólidas casas de tijolo e outros edifícios de arquitectura cuidada e germânica dignidade. Atravessamos o Elba. Estamos perto, mas não vislumbramos ainda o Alster, ligado ao rio por canais. Torres e pináculos golpeiam o céu pesado. Depois do jantar, atravessamos os muitos canais, percorremos o porto, as ruas do comércio rico e as outras, onde os corpos se vendem por um punhado de euros. A noite termina em água: num parque, debaixo de chuva, um concerto de fontes, luzes e cores, ao som de Dvorak e Smetana.

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Domingo em Hamburgo, fim de tarde de Agosto

Impotentes agulhas negras contra um tecto de cinza. Ao longe, galopam comboios para o reino de Hamlet ou para a cruel Polónia. Rompendo a cortina de chuva, os sinos de Hamburgo. Aquosa alma da terra.
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