Mostrar mensagens com a etiqueta Charlotte Delbo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charlotte Delbo. Mostrar todas as mensagens

domingo, novembro 10, 2019

«Schneller! Schneller!» ou uma flor amarela para Charlotte Delbo

Charlotte Delbo. Resistente das Juventudes Comunistas,
foi das poucas mulheres não-judias presa em Auschwitz
Foto: Club Editor


Livro estranho este. Pode um livro sobre Auschwitz, ser mais um livro sobre Auschwitz? Daqueles que inundam as livrarias para oferta do Natal que se aproxima e serão best-sellers garantidos? «Auschwitz e depois» de Charlotte Delbo é um livro diferente sobre o horror do programa nazi. Mas não só. Vêm lá todas as descrições consistentes e inequívocas dos campos de concentração, entre eles Auschwitz, somando o de Birkenau, campo da morte de onde ela pensava não poder sair e de Ravensbrück, campo só para mulheres, onde a autora também esteve; aliás, o seu último, antes da sobrevivência para a liberdade. Charlotte conta-nos o que já todos pensamos saber. O «Schnell! Schnell!» repetido e gritado constantemente aos seus ouvidos, sentir  e tentar ignorar os espancamentos das kapos judias, as horas intermináveis na neve, para a «chamada» dos e das SS, as trocas de rações miseráveis, o esgotamento físico e psicológico, por fim a morte, nalguns casos, salvadora. As descrições são-nos transmitidas com um profundo amor pelas companheiras, as que pereceram e as que se salvaram com ela. A sua escrita é de uma doçura paradoxal. Nada acomete a uma eventual e legítima raiva. Compreenderíamos. Vê uma flor amarela e isso vale como um raio de enorme felicidade. Na trilogia da sua obra «Nenhuma de nós há-de voltar» (Livro I), nos seus primeiros apontamentos, não aflora nenhuma fúria. Simplesmente não vê. Olha para o lado quando vê um monte de cadáveres nus com a tatuagem de um número que ela também tem no braço. Não olha para a fila de mulheres «inúteis», escolhidas pelos SS, que esperam a sua vez no laboratório, antes do block 25, o dos gaseamentos. Ajuda como pode as vivas, sente-se culpada pelas mortes das mais frágeis que ela. A sua irmã morre no campo, ao seu lado e ela pergunta-se o que dirás aos pais, sendo que Charlotte não a impediu de morrer. Não a protegeu como devia. A culpa advem-lhe, arrasadora, talvez pior do que as torturas praticadas nos campos.

O Livro II, «Um conhecimento inútil» e o III «Medida dos nossos dias» são espantosos e talvez raros, neste tipo de literatura, na sua descrição desiludida. É o «depois» aposto no título da trilogia. Após ser libertada pela Cruz Vermelha e aceite como refugiada pelos suecos foi repatriada para Paris onde, outrora, tinha sido presa pela Gestapo, como resistente. Após três anos, não se habitua à vida «cá fora». Acorda às 3 da manhã para a chamada e não mais adormece. Repete-se o  schnell, schnell, papéis, papéis, contagens, burocracias infinitas para quem não tem já forças. A família que a afasta por estar «desequilibrada». A luta pela herança do pai e o ataque jurídico da madastra. Cansa-a como nunca. Cá fora é tudo schnell, schnell...é internada, casa-se, divorcia-se, tem uma filha, quer estudar, tem de fazer a estúpida contabilidade do pequeno hotel  herdado. Consegue, todavia, estudar e ainda juntar-se com as antigas companheiras de Auschwitz...nos funerais de alguma delas. Todas riem e contam histórias do campo. 

Nascida em 1913, sai de uma insuportável  França rendida aos fuzilamentos dos colaboracionistas e desconfianças para com alguns resistentes. Ajuda ainda um que consegue provar a sua inocência. Vai para a Suíça. Consegue trabalho na ONU e, passados muitos anos, volta para Paris onde foi assistente de Henri Lefevre. Morre em 1985. Nunca se habituou, creio, ao quotidiano.

Deixo-vos um extrato de um dos seus últimos poemas:

(...)
«Regressar não é tudo
É regressar para nos voltarmos a pôr a viver
A viver todos os dias
A trabalhar e a ter dívidas
A poupar para pagar as dívidas
A vender sabão
Porque não sabemos fazer outra coisa
A voltar para o escritório
Porque não sabemos fazer outra coisa
Na vida de todos os dias a procurar onde morar
Porque não se pode viver de outro modo
A estar a horas
Porque no trabalho é preciso estar a horas

De que vos queixáis?
A vida é a vida com que sonháveis lá?
(...)»

Creio que todos nós entendemos a analogia de Charlotte Delbo neste poema. Mas só uma leitura completa dará a verdadeira dimensão desta grande escritora, para muitos desconhecida. Os seus livros foram escritos em 1961 mas só publicados em 1970-71, porque entendia que a sua escrita não refletia completamente o terror passado nos campos.

A edição é da BCF Editores, apoiada pelo Centre National du Livre francês.

António Luís Catarino
Coimbra, 10 de novembro de 2019