quarta-feira, maio 03, 2006

Páginas de um Diário Alemão (II) de João Pedro Mésseder

Hamburgo, 13 de Agosto

Tão burguesa, a capital do grande comércio hanseático. Por detrás de veleiros e cargueiros gigantes, emergem gruas tentaculares. É a difícil beleza das paisagens portuárias, a «Ode Marítima» de Álvaro de Campos, o ferro, o tijolo, a água e um túnel sob o Elba que incute respeito pela nobre arte da engenharia (ou antes, pelo engenho humano). Porto que o cinema tornou mítico (a memória de Sam Fuller e Dennis Hopper n’«O Amigo Americano» de Wenders). Os armazéns cor de ferrugem intimidam: chá, café, amêndoas, especiarias. Com seus jardins junto ao Alster, as mansões elegantes convidam ao devaneio. A influência inglesa é visível.
Bem instalada, senhora de si e da sua sólida beleza, Hamburgo é a cidade do dinheiro. Mas, surpreendentemente ou talvez não, também dessa luminosa brancura e espiritualidade que envolvem o visitante ao entrar na Igreja barroca de S. Miguel, em cuja cripta repousa Carl Philipp Emanuel Bach que aqui tocou, tal como Telemann. E na urbe endinheirada onde todos os dias desembarcam marinheiros ansiosos por saciar o corpo, o órgão que se eleva no silêncio da igreja, a curva elegância da arquitectura interior representam a outra face deste mundo. Cá fora, as feições pétreas de Lutero velam para que assim seja.


Berlim, 14 de Agosto, 01:00 h

Não é fácil regressar à velha e nova capital da Alemanha, sete ou oito anos depois, mas a emoção é a mesma. Porque esta é a cidade onde tudo se passa e onde tudo se passou. A História projecta as suas sombras em cada praça, em cada rua, em cada parque, ponte ou monumento. A poesia e o teatro de Brecht, a música de Kurt Weil e o cabaret berlinense a cada minuto do relógio da memória. O Reichstag ainda é uma imagem de chamas, mas também do soldado com a bandeira, lá no alto, quando o Exército Vermelho libertou Berlim.
Saímos da velha Alexanderplatz de Alfred Döblin — que, depois dos bombardeamentos, se converteu num outro lugar — e caminhamos pelas largas avenidas imperiais. Por trás da torre da televisão, do lado oposto à mítica praça, o parque conserva restos de um mundo que se desmoronou: as enormes estátuas de Marx e Engels (onde um casal de alemães do leste se faz fotografar), o monumento — em alumínio? — com imagens do movimento operário e do combate comunista, os rostos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Depois descemos Unter den Linden e o passeio termina junto às escavações arqueológicas de Schloßplatz, após nos abeirarmos do Spree, onde aqui e acolá ainda se vêem cisnes, como em Hamburgo.
À noite, atravessamos a cidade de leste para oeste, passando pela Staatsoper — onde há anos assisti a’«O Rapto do Serralho» — e pela porta de Brandeburgo, que os anjos de Wenders ainda sobrevoam. Mais tarde, é o regresso à zona oriental, à sua arquitectura monumental e ousada, a de ontem como a de hoje. Edifícios de grandes empresas, como a Mercedes Benz, tocam as nuvens; e a «nova» Berlim, nascida dos escombros do socialismo, é a do Centro Sony, sonho de arquitectos de olhos perdidos na América e nos filmes de ficção científica. Sonho que esmaga e suspende a respiração.
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