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quinta-feira, julho 20, 2006

Logo, no D.Tonho, pelas 21:30, com Vítor Pinto Basto



Caros amigos,
Um livro é como um filho, que a gente quer acarinhar. E é esse filho na forma de livro que gostaria que vissem nascer, logo, às 21.30 horas, no D. Tonho, na Ribeira.
Estejam connosco na apresentação deste meu primeiro romance.
Vítor Pinto Basto

segunda-feira, julho 17, 2006

Morto com Defeito, de Vítor Pinto Basto - O início - Cap.I

Vasily Pukirev - O casamento da Bela Jovem
1
Na Galeria Tretyakov, o olhar persegue-nos. Com Pukirev, Tropinin, Perov, Kiprensky e outros mestres russos que pintaram tantos olhares com vida dentro... Mikhail Vrubel, que não conseguiu fugir à tormentosa expressão humana, demasiado humana do seu “Demónio sentado”, um jovem sentado com o seu demónio dentro, se demónio é essa tristeza imensa de não conseguir ter o brilho que dá vida aos olhos. Olhar possuído pela incompreensão e pelo abandono, reconhecíveis sentimentos que davam a imagem do seu diabo. Outros surgem, como Repin, Bryullov, Vastenov, que nos deixaram quadros com o mesmo obscuro olhar pintado em humanos que pareciam teimar em possuir o absoluto.
No casamento da bela jovem, V. Pukirev eleva a subtileza do traço para reduzir a pintura a um jogo de olhares. O noivo, um velho com idade para colocar juízo na sua imprudência, não querendo perceber que na velhice o único elixir para ludibriar a juventude é a fama e a riqueza, segura uma vela acesa e olha, desconfiado, de soslaio, para a sua bela noiva, uma jovem que aceita o casamento por imposição dos pais.
Atrás da noiva, o jovem da sua paixão, seu amor impossível, assiste a tudo de braços cruzados, assim resistindo com a impotência silenciosa de quem não tem poder, mirando com forte intensidade assassina o velho que lhe rouba a mulher só porque é rico e teima em pensar que é capaz de poder substituir a sua grande fortuna pelo carácter dos jovens atraentes. Junto a eles, o padre ortodoxo, coberto por ricos paramentos, pede a mão da noiva para lhe passar o testemunho da aliança que quer religiosamente apadrinhar. Os olhos inquisidores do pai da noiva miram, como polícia corrompido e por isso vigilante, o jovem sem fortuna que vê a sua amada passar para as mãos de um velho que facilmente poderia espezinhar com a força dos seus braços.
Atrás do velho noivo desconfiado, um rosto vigia com raiva e inadequada dor. Um olhar gigante de uma mãe que mira a nuca careca do seu vetusto futuro genro, olhar tão grande que talvez olhe para lado nenhum ou para algum lugar em forma de trevas. Talvez por saber que ali se repete o desmesurado infortúnio da condição feminina. Mulher que também terá sido obrigada a calar o amor por outro e a seguir o desejo imperioso do pai, que noutros tempos tão iguais a casou com quem quis.
Nesse fabuloso quadro de olhares, V. Pukirev conta uma história do seu tempo. Comprova de forma sublime como a pintura também serve para descobrir ou realçar as imperfeições e os contrastes da vida. Dando-lhes rigor, harmonia e beleza, mesmo que a história que querem contar seja tão triste e infecunda. Fazendo com que o somatório dessas histórias com a forma de obras de arte liguem a História da Arte à História de um país.
Foi isso que Carlos Palhal viu mas não deu grande importância quando visitou, pela primeira vez, a galeria Tretyakov, com Irina. Foi isso que passou a ver, com mais importância, sempre que ia a Moscovo; umas vezes, à procura de Irina; noutras, para ter a memória mais perto dos lugares e dos momentos que passou com aquela bela eslava; e, noutras, simplesmente para saborear uma cidade com mil encantos. Irina que estava a seu lado quando olhou para o famoso retrato pintado por Vasily Perov. O Mundo desconhece-o mas imortalizou quem ele pintou.
(...)
Cap. I de Morto com Defeito, de Vítor Pinto Basto.

Apresentação de Morto com Defeito de Vítor Pinto Basto, dia 20 de Julho, às 21:30, no D. Tonho. Presença de M.J.Marmelo.


Saiu hoje da tipografia o Morto com Defeito, de Vítor Pinto Basto. Aqui está a versão última do Gémeo Luís que irá preencher os escaparates das livrarias, nos tempos mais próximos. Mas entretanto preparem-se que na próxima quinta-feira, dia 20 de Julho, haverá um lançamento com a presença do autor e de M. J. Marmelo que irão falar do livro, no D. Tonho, à Ribeira, lá para as 21:30h. Vão ser todos convidados.

Da Contracapa:

«Existe, neste livro de Vítor Pinto Basto, uma estranha deriva que nos leva facilmente do Porto, revisto nas nossas memórias, para a Rússia oligárquica dos dias de hoje. Só uma boa ficção pode ligar naturalmente Pusckin a Camões, faz sentar esse anti-herói de nome Carlos Palhal, a personagem principal, no Bar Surrealista de Moscovo, ou obriga a perscrutar o olhar de Irina pelas enormes telas de Vasily Perov ou tenta voar pela densidade psicológica das personagens de Dostoievski. Só uma ficção plenamente conseguida nos transporta do Portugal «moderno», esquecido de si, para a Rússia dos Czares, de um país que resistia como podia, para a União Soviética das grandes manifestações de massas, do Portugal bombista e revolucionário para a Rússia a preço de mercado.Uma obra resoluta, sem concessões, de leitura urgente para quem quer perceber de como são feitas as pessoas iguais a nós. De sentimentos caóticos e desencontrados, da solidão que pesa à alegria esfusiante, de raiva e de amor

quarta-feira, julho 05, 2006

Manuel Jorge Marmelo dez anos depois, por Vítor Pinto Basto

“Não percebem plenamente os homens, nem os deuses, o mistério da criação. Basta ver como a soma de dois pares de olhos azuis tem, muitas vezes, como resultado o brilho nocturno de um olhar pardo; ou como de dois feios nasce um terceiro belo - e vice-versa.”.
Estas palavras de real dimensão ontológica aparecem no capítulo “Oito” da segunda edição, revista, da novela “O homem que julgou morrer de amor” (com que a editora “Campo das Letras” abriu a sua colecção “Campo de Estreia”, em 1996), de um dos mais profícuos escritores portugueses que a escreveu aos 25 anos e agora a reedita, numa versão totalmente revista e aumentada.
O autor chama-se Manuel Jorge Marmelo (37 anos), assina como Jorge Marmelo no jornal “Público”, ao serviço do qual nos conhecemos e ao serviço do qual me fui apercebendo de como é de trato polido, educado e de arguta sobriedade.
De Marmelo se pode dizer que fez (quase) tudo cedo. Cedo arranjou a profissão de jornalista (aos 18 anos), cedo casou, cedo teve filhos, cedo escreveu um livro, cedo teve êxito (o seu “As mulheres deviam vir com livro de instruções” vai na nona edição), isto é: cedo teve apontados sobre si os holofotes do êxito - que arrasta quase sempre a maledicência de quem não compreende que sejam outros a tê-lo.
“Quando se publica um livro e não se tem ainda 25 anos, como me aconteceu, o mais comum é que a obra saia mal acabada e cheia de defeitos, repleta de arestas e incongruências a que um excessivo entusiasmo não permitiu dar a atenção devida”, conclui Manuel Jorge Marmelo na introdução desta segunda edição que encontrei, hoje, na minha secretária, à espera da redescoberta.
Lembro o dia em que Mário Cláudio apresentou “O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual”, na “Livraria Lello”. Recordo o entusiasmo que eu sentia por saber que, dias depois, o José Viale Moutinho iria ser apresentar o meu “O Segredo de Ana Caio”, o segundo volume da mesma colecção, “Campo de Estreia”.
Dez anos se passaram e dez anos depois de demasiados desencontros espero reencontrar Manuel Jorge Marmelo noutro momento tão importante como esses que jamais esqueceremos.

Vítor Pinto Basto

quinta-feira, junho 29, 2006

Morto com Defeito, de Vítor Pinto Basto - extracto I

«(...)Não te esqueças de falar com o John Garbage”, disse-lhe Simbra, duas horas antes.
O truculento norte-americano disparava palavras como os soldados da coligação anglo-americana estariam a despejar os seus canhões sobre Bagdade. Estava às portas da capital iraquiana, entusiasmado pela previsível conquista, avisou que o momento não era oportuno, por isso, tinha pouco tempo para falar ao telefone, mas foi falando, garantiu que estava a ser tudo very very crazy, estiveram 36 horas debaixo de fogo, yeah, e agora estão a tomar a ponte sobre o rio Tigre, yeah, uma visão incrível, esta guerra de artilharia é crazy, os americanos bateram forte e feio nos iraquianos, ia tudo a eito, yeah, devias ver, mas isso, yeah, não é para escrever, ok?, thanks, diz só que foi uma jornada heróica, yeah, debaixo de fogo, morteiros para lá morteiros para cá, nunca vi igual, yeah, as águas do rio Tigre, yeah, meu, coisa linda, parecia o céu a explodir e a lançar as chamas para o rio, yeah, meu, o rio como um espelho a reflectir as luzes das bombas que estoiravam por todo o lado, yeah, que coisa linda, não sei quantos iraquianos morreram, cem duzentos trezentos milhares, muitos, meu, não interessa, yeah, isso também não é para escrever, yeah, mas estou tired, há dois dias que não durmo, tudo isto é de malucos, Saddam maluco, Bush também e nós aqui a escrever e a filmar esta guerra de tolos, do lado de quem invade, claro, porque do outro não se sabe nada, mas isto também não é para escrever, diz só que amanhã os americanos estarão em Bagdade, yeah, e que foi uma jornada heróica dos marines.
Pousou o telefone com o metálico “yeah” de Garbage a ecoar nos ouvidos. “Aqueles marines devem estar cheios de “speed” para aguentar 36 horas sem dormir na frente de batalha”, disse para o camarada da secretária ao lado. “O tempo dirá se foram cobaias de alguma experiência química”, acrescentou.
Em casa, mãe e filha esperavam-no, tranquilas, às voltas com o puzzle de Mordillo. Montar mil e quinhentas peças minúsculas demorará horas de muitos dias, a vida também se faz assim como se fosse um divertido jogo de paciência, que as relaxa neste país em que paciência é o que mais se tem, longe da guerra iraquiana no gigantesco barril de pólvora chamado Médio Oriente, guerra que não se percebe como não se perceberão todas as guerras. (...)»
In Morto com Defeito, de Vítor Pinto Basto, a sair já em Julho.

segunda-feira, junho 26, 2006

Dostoyesky de Vasily Perov, 1872

O que liga um quadro de Vasily Perov, Feodor Dostoyevsky, de 1872, exposto na Galeria Tretyakov, em Moscovo, ao próximo livro editado pela Deriva? O que liga o olhar de Dostoyevsky à história de Morto com Defeito de Vítor Pinto Basto? O livro sai já em Julho e o Gémeo Luís fez-lhe a capa.

quinta-feira, junho 22, 2006

Obrigado, Rubem Fonseca, por Vítor Pinto Basto


Edição da Companhia das Letras (Brasil) e Campo das Letras

Há uns anos, no Rio de Janeiro, tentei falar com Ruben da Fonseca (antes de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões, em 2003). Não o encontrei porque a teimosia é algo que não tenho, e desisti de chegar a sua casa numa tarde de Junho, a meio caminho de Ipanema e do Leblon.
Desisti não só porque estava muito calor e o Rio de Janeiro me parecia gigante, com o mar a cobiçar-me o passo - e o mar tem artes para melhor me seduzir -, mas talvez porque sou dos que prefere a obra a quem a produz e...
Tenho esse defeito de estar sempre a meio caminho de.
Hoje, encontrei-o em cima da minha secretária. Abri o envelope que o cobria e vi mais uma obra sua, com que certamente me deliciarei. Chama-se “Mandrake - a Bíblia e a Bengala”. Tem o carimbo da “Campo das Letras”.
Obrigado, Rubem Fonseca por me ajudar a manter vivo com estas pequenas coisas.

Vítor Pinto Basto

terça-feira, maio 23, 2006

Notas de tradução e ruído afectivo em «Mundo sem Medo» de Baltazar Garzón, por Vítor Pinto Basto

Baltazar Garzón escreve em "O Mundo sem medo" o singular ajuste das suas contas, num mundo em que ele, e com toda a razão, nos alerta para a importância de não se ter medo. Não se ter medo de se estar vivo e de se defender um mundo melhor, de todos e para todos. É um livro com um título feliz. Lê-se com agrado, quer se concorde ou discorde de algumas das suas premissas.

Garzón escreve num estilo coloquial e tranquilo. Escreve como quem fala. E, em "O Mundo sem medo", fala como quem escreve uma longa carta, que ele assume ter um adequado destinatário familiar: os filhos.

Em poiso qualitativo diametralmente oposto ao razoável prazer com que se lê o que escreveu, estão algumas notas de tradução. Duas delas, completamente desnecessárias. Claramente subjectivas, por isso, ali estão prolixas e dispensáveis. Aliás, não se compreende como um editor experimentado como Nelson de Matos as tivesse deixado passar.

Na primeira dessas notas de tradutor, fiquei desconfiado e quase estive para abandonar a leitura.

Escreve Marcelo Correia Ribeiro (MCR) a propósito do Exército Guerrilheiro do Povo Galego Libre que "a ele esteve ligado uma jovem portuguesa detida por pertencer ao grupo ou pelo menos viver com um dos seus dirigentes". Mais adiante, remata: "um fait-divers".Estivesse MCR (que não sei quem é) atento e diria que não foi uma mas duas portuguesas que estiveram relacionadas com aquele grupo.

Estivesse realmente atento, nunca sintetizaria o que elas viveram e sofreram como sendo um vulgar "fait-divers". É uma grandiosa enormidade (para não lhe atribuir um epíteto pouco elogioso) resumir-se o sofrimento de alguém a um "fait-divers".

O que a Susana e a Alexandra viveram merece mais respeito do que ser sintetizado a uma convulsão semântica de alguém que, ao fazer notas de tradutor, deveria aplicar na totalidade a teoria cartesiana; ser claro, sintético e objectivo.

A segunda nota tem duas palavras risíveis, mais uma vez sem rigor ôntico, por isso, compulsivamente desnecessárias. Ao tentar esclarecer o que quer dizer o termo "peneuvista", ao querer dizer que o termo se refere a um membro do Partido Nacionalista Basco (PNV, em castelhano), vai mais adiante na observação e classifica a sua política como sendo "razoavelmente xenófoba".

Não sei onde foi MCR buscar que o PNV é xenófobo. Mas se sabe do que fala deveria ter dado exemplos, no livro. Assim, sem exemplo, parece que a qualificação "xenófobo" surge como uma vulgar punição dada pelo tradutor.

Conheci muitos bascos - do PNV e de outros partidos, de quase todos - e nunca lhes reconheci laivos de xenofobia.

Tanto num caso como no outro, dá a sensação que a análise feita por MRC tem, naquelas duas notas de tradutor, demasiado ruído afectivo. Desnecessário em "Um Mundo Sem Medo".

segunda-feira, maio 15, 2006

Cearense preso a sorriso minhoto, por Vítor Pinto Basto

A importância das coisas sem importância
Porto, 15 de Maio de 2006
Ontem, no Pavilhão do Coimbrões (em Gaia) assisti a uma manifestação desportiva fantástica. Dezenas de crianças divertiam-se a aprender a jogar basquetebol e mostravam aos pais e familiares, sentados nas bancadas, como sorrir é um fermento necessário para a vida ter interesse em ser vivida.
Ao ver aquela gente anónima que organizou o simpático evento desportivo, que não aparece nas primeiras páginas nem nas outras dos nossos jornais - e vivem pouco se preocupando com isso, mais interessados em ajudar a criar crianças para, através do desporto, serem melhores adultos -, lembrei-me de um texto que escrevi em tempos, e depois revi, e com que quis homenagear a real importância das pessoas sem aparente importância. Aqueles que, para mim, são verdadeiramente importantes.
É esse o texto:
O cearense preso a sorriso minhoto
O Hugo ainda venderá lagosta, com os seus 14 anos, na praia do Futuro, em Fortaleza. Caminhando pela praia como quem saltita sobre sorrisos. Assim assumindo a sua importância num importante mundo, com sol, praia, mulheres bonitas e tanta quentura na imensidão.
É apenas mais um naquela praga de vendedores que enfernizam a vida a quem pretende sossego.
Mas a ele, com o tempo, facilmente tudo se aceita. Mostra lagostas como se elas fossem a melhor coisa que há na vida, com um sorriso simpático que agrada; lagostas há muitas, sorriso como o do Hugo há só um, o dele.
George W. Bush nem sabe que ele existe, Saddam Husein também; mas haverá, no Iraque, nos EUA e noutros cantos do Mundo, crianças com a simpatia e o sorriso semelhante ao do Hugo. E outras crianças, certamente, com outros sorrisos e outras maneiras de mostrar a sua ternurenta maneira de aceitar o Mundo
Na praia, aquela criança chamada Hugo tem diariamente uma guerra para ganhar: arranjar dinheiro para entregar à mãe, que também anda no areal a garimpar reais para lutar contra a pobreza, que a mina.
Na praia do Futuro, com o areal sendo a sua fortaleza em Fortaleza, o sol e o mar o seu campo de batalha, a todos tenta conquistar com a sua simpatia.
Naquela Praia do Futuro, crescendo como vendedor de lagosta não é difícil imaginar que o Hugo dificilmente terá outro futuro.
Nos olhos, Hugo foi mostrando o que trazia escondido, o sonho que transmitiu mal a conversa foi para além da lagosta que queria vender. Tinha o sonho de abandonar as lagostas e trabalhar em Portugal. "Português é mais amigo que os outros", diz, atirando logo para a recordação e para o desejo (não quero acreditar que ele diga o mesmo dos outros estrangeiros): "Conheci uma rapariga de Braga, gostava de a voltar a ver, que sorriso lindo ela tinha. É cara, a viagem de avião?"
Naquela praia, os olhos de Hugo levantaram voo. Uma brisa quente convidava ao mergulho, num sol a que apetece regressar. O mar do Ceará é único porque revoltoso e brincalhão e quente. O paraíso também é ali, a uma hora do Equador. O tempo parece imenso e o deleite também.
Não sei se o Hugo já amealhou o dinheiro necessário para voar até ao sorriso da portuguesa de Braga, que só por luminoso acaso dos deuses poderá voltar a ver. Nem sei abandonou a lagosta para começar a estudar a sério um outro projecto de futuro. Sei que nos sentamos à mesa, naquele bar junto à praia, a comer três das lagostas que tinha no cesto para vender. E ali ficamos a conversar de tudo e de nada. Sem haver tempo para questões metafísicas:
"O que faz uma pessoa sem importância num mundo tão importante?"

quinta-feira, abril 27, 2006

A «Vaca Pessoana» de Agostinho Santos.

Durante dia e meio, Agostinho Santos* despiu a pele de jornalista, vestiu a de pintor e foi às oficinas do Metropolitano de Lisboa pintar uma vaca. Patrocinada pela Câmara Municipal de Lisboa, a vaca, de fibra de vidro e do tamanho das que estão vivas e andam por aí, chama-se “Vaca Pessoana” e vai ser exposta no próximo mês de Maio, quando Lisboa receber a singular vacaria pictórica denominada “CowParade”.

O Agostinho, que persegue Fernando Pessoa (e outros poetas e escritores) com os pincéis, resolveu, desta vez, homenagear assim o homem que encheu o seu baú de palavras que não foram lidas quando estava vivo. Mas não estou aqui para falar de Pessoa nem dos seus heterónimos. Estou aqui para falar de alguém, como Agostinho Santos, que tem a arte de caminhar de braço-dado com a sua profissão (jornalista), pintando. Talvez sonhando em viver à custa das suas pinturas. Talvez tentando decifrar o enigma essencial de quem ainda teima em escrever para situar o Mundo. Talvez.

* a Agostinho Santos regressarei em breve para falar da sua exposição em Matosinhos.
Vítor Pinto Basto

terça-feira, abril 25, 2006

O Nojo Anónimo, por Vítor Pinto Basto.

Utilizador recente dos singulares mecanismos da Internet, fui alertado por um amigo para um artigo de José Pacheco Pereira (JPP) sobre os piratas da blogosfera. Não o li, JPP não é das minhas leituras obrigatórias, mas disseram-me que ele escreveu certo sobre esse nojo anónimo.

Por mim, digo desde já que passo à frente sempre que encontro um ANÓNIMO. Por ele ser um produto da não-existência.

Sou daqueles que tentam sempre encontrar o rosto da palavra proferida, tenho esse democrático defeito. Respondo sempre com a palavra serena à bala e ao insulto.

Vem isto a propósito de, neste mês de Abril, - mês que em Portugal é sinónimo de Liberdade – eu ter sido alvo da atitude desengonçada de dois anónimos que, no frenesim da sua pena, tingiram de nojo esse delicioso espaço de Liberdade que é a Internet.

No primeiro, no espaço destinado aos “comentários” de uma notícia publicada num qualquer blogue, escreveram, esta enormidade:
“cuidado com o Vítor Pinto Basto, que esse gajo tem ligações com a ETA e ao seu braço armado dos “patas negras” de Salamanca”.
No segundo, comentando um texto com o título “Há demasiada gente a viver um conflito que dói”, chegou este pêlo cheio de sebo prolixo:
“A Comissão para o Apoio aos Blogues Chatos e Às-Moscas, subsidida pelo Ministério da Cultura e pela Embaixada da República da Moldávia, vem em apoio deste blogue emitir um comentário gratuito”.

No primeiro comunicado, o brincalhão deveria ter mais cuidado com o melindre da acusação. Penso ter ficado claro no livro que escrevi - “Gente que dói - conflito basco por quem o vive” que o Vítor Pinto Basto não tem nem nunca teve ligações com a ETA. No livro, não se fala nos “pata negra” (o presunto com esse nome é bom e caro) e muito menos de Salamanca (onde só fui duas vezes, uma em trabalho para cobrir a última Cimeira Ibero-americana).

No segundo blogue, o escrito faz-me lembrar o género de alguma prosa publicada recentemente e que, a espaços, considero divertida mas também cansativa por ser demasiado repetitiva e sem substância. Lamentável a ligação do Ministério da Cultura e da Moldávia ao desajeitado comentário. Essa instituição e esse país dão rosto ao que fazem e, também por isso, merecem-me todo o respeito.

Porém, em ambos os casos, irritou-me a prepotência de quem escreveu escondido. Anulando, assim, a existência da necessária e democrática interlocução. Falaram, somente escrevendo e escondendo quem assim escreve sem rosto. Ao esconderem-se, não falaram escrivivendo, que é como quem diz: mataram o autor daquelas palavras anónimas. Por consequência, por se terem suicidado assim, são o que é vulgar-se chamar-se de “nulidade autêntica”.

Dizem-me que a PIDE, que muita gente parece agora querer esquecer, alimentava-se desses anónimos, quais vampiros que produzem fascismos e agem como execráveis déspotas.

A vida não se compadece com esses estranhos fantasmas, insuportáveis pústulas da democracia que, em vez de falarem com a clarividência dos humanos, respiram com a náusea de quem já morreu e ainda não sabe.

A esses defuntos anónimos - a que prometo jamais responderei, a partir deste momento - transmito a minha esperança de que tenham a coragem de assinar com o seu nome o que escrevem em qualquer lugar deste planeta Terra, que eu quero cobrir de sonho e alegia.

Enquanto isso não acontece, não esqueçam que hoje é 25 de Abril.

Vítor Pinto Basto

NdoE: sobre este artigo quero que seja garantido a todos o conhecimento desta «pérola» que me foi mandada para aqui por este anónimo (que possivelmente já não o será tanto):

«Que se passa? Está a ficar mole? Sentido, soldado!! A luta contra estes tipo de liberdades de expressão deve ser quotidiana e implacável! Implacable...perdão, implacável! Em Buenos Aires, nos saudosos anos de 1977-78, tínhamos belas técnicas para travar estas veleidades... Ai Buenos Aires querida! Disponha para o que quiser. O futuro da civilização ocidental, cristã e branca está nos seus ombros, caro ALC. Nas imortais palavras desse querido amigo Augusto P.: sea implacable, carajo! RdlPvS General na reserva Jogador de bridge».
É evidente, que a partir de hoje, os comentários serão objecto de moderação.

quinta-feira, abril 20, 2006

Há demasiada gente a viver um conflito que dói, de Vítor Pinto Basto.

Em criança, à falta de possibilidades para viajar, conhecer outras terras outros mundos, viajava pelas Biografias de gente famosa e pelos Diários dos meus autores preferidos.

Entre os diários, não consigo fugir aos "Primeiros Cadernos" de Albert Camus, autor que me seduzia pela clareza e pela luminosidade dos seus raciocínios, e que frequentemente revisito (admiração que nunca quis ver inquinada pela polémica Camus-Sartre).
Parece um absurdo preferir a vida das pessoas à beleza das paisagens, mas assim cresci até ter tido a possibilidade de visitar alguns dos paraísos naturais deste Mundo. E neste aparente paradoxo existencial - viajar pelas vidas dos outros -, muitas vezes, vou tentando colorir os dias.
Vem isto a propósito de um trabalho que fiz e que me possibilitou reunir, de forma acrescentada, no livro "Gente que dói - o conflito basco por quem o vive".
Talvez porque cresci, na infância, na ausência das viagens concretas, das de quem parte fisicamente para um lugar e de quem dele regressa, sempre tentei compreender pressupostos que muitas vezes nos são dados como sendo únicos, autênticos e verdadeiros. Detesto que eles sejam apenas mera ilusão retórica da realidade e resultado da interesseira utilização de quem defende determinado estado de coisas.
Em 2004, ao fazer a viagem profissional para um mundo que eu, como quase toda a gente, conhecia, apenas, pelas notícias dos atentados da ETA - a maioria sangrentos e inumanos, e por isso sempre me pareceram inadmissíveis -, tentei também compreender o que leva a mão a realizar esses atentados. Tentei perceber as causas e as consequências de um conflito basco com séculos e que poderá - e deverá! - ser eliminado se a União Europeia assumir a sua verdadeira condição de espaço supra-estatal.
Nesse sentido, um dos meus objectivos nesse trabalho foi não ficar, apenas, pelo que me era dado somente-a-ler, no país em que cresci, e não resumir essas leituras a um conjunto de conversas com apenas uma das partes do conflito. Era curta essa dimensão profissional, que recusarei sempre realizar por não ver, nela, a verdadeira e abrangente condição do jornalista e do que é informar.
As vítimas da ETA merecem, claro, o sincero respeito deste ser humano que cresceu e vive tentando derrubar as injustiças que tolhem a vontade democrática. Mas não queria resumir o conflito basco à existência e à intervenção da ETA e às suas vítimas, apesar da força daquela organização lhe ter dado uma marca pessoal - tão pessoal como a do IRA na Irlanda do Norte.
O conflito basco está firmado naquilo que, hoje, me parece um curioso absurdo: o desejo basco de ter um território-nação-país num tempo em que a União Europeia se constrói eliminando fronteiras. Numa União Europeia que já aceita a nação basca - por definir nação como uma região e um povo que tenha a sua língua -, mas ainda não definiu como podem esse tipo de nações (e tantas há na União Europeia) ter, por exemplo, uma selecção nacional de futebol. Quer isto dizer que os nacionalismos já são assumidos pela UE; passo seguinte, será o de lhes dar sabor e conteúdo.
O mesmo é dizer: se aceitarmos a norma assumida pela União Europeia, deve dar-se a possibilidade de qualquer cidadão dessas regiões dizer o que quer para o seu presente-futuro.
Penso que isso é assumido por qualquer europeu que deseja viver em paz numa União Europeia que é um conjunto de nações, sem aquele conflito nefasto e paradoxal de ter que lutar - seja com ETA's ou sem elas - para se assumir como Nação.
Ao ir para o País Basco e dele regressar, e mesmo depois de muito ter lido sobre o assunto, mais fico a pensar que o Mundo, de facto, vai ter que dar muitos passos para superar aquele tipo de conflitos.
Nesse sentido, os homens-bons devem tentar aplicar algo que pode doer muito a quem vive demasiado preso ao passado: esquecer, tentar passar uma esponja sobre o que muito doeu. E, nesse sentido, claro, ao falarmos de vítimas do conflito basco temos de incluir não só as vítimas da ETA para incluir, também, as vítimas de quem quis calar à viva força quem lutou e pagou com a morte - por exemplo, como no tempo fascista de Franco -, o gesto de simplesmente falar euskera (língua basca) em liberdade.
Agora, que se fala em mais uma trégua da ETA, e se admite que desta vez algo de bom possa sair dela, deve tentar-se trabalhar para curar todas as feridas que ressaltam desse conflito.
Penso que é disso que fala, por exemplo, Francisco Letamendia, intelectual basco que uma vez entrevistei utilizando esse fascinante utensílio da Internet que se chama e-mail, quando diz ser necessário aplicar, no País Basco, o método que está a ser utilizado na Irlanda do Norte: colocar todos num "locos" (local, lugar) e falarem, em liberdade e em paz, do que os fez e faz sofrer.
Sem querer errar muito, faço a tradução literal do que pretende o professor universitário Letamendia, dizendo que os bascos devem - todos: nacionalistas espanhóis e nacionalistas bascos - falar com a disponibilidade de quem se senta no sofá do psicanalista. Falar para eliminar o ódio que corrói a fraterna disponibilidade para todos, em conjunto, construirem um futuro sem bombas. E, pelo que vi no País Basco, sei que eles são capazes de conseguir a paz e trabalhar para melhorar o seu futuro.
Eu tenho o sonho de viajar num País Basco sem o choro e a revolta das suas desencantadas vítimas.
P.S. de admiração e agradecimento. A reacção dos leitores ao "Gente que dói" surpreendeu-me positivamente. Encontrei muita gente a quem o tema "País Basco" muito interessa; muitos deles sabiam, inclusivamente, mais sobre ele do que eu. A todos, o meu sincero agradecimento pela leitura e, a alguns, o sincero agradecimento pela publicidade desinteressada que fizeram ao falar do livro nos seus blogues - esses modernos diários pelos quais viajo com prazer. Muitos desses leitores são jovens estudantes e, pelos seus comentários sou levado a admitir que mostram uma sabedoria tão imensa que me leva a considerar que há, em Portugal, uma geração que não é rasca mas com coragem para lutar por um país melhor e mais livre. A todos, muito obrigado por terem estado comigo nesta viagem, a de falar sobre um tema que para muitos só não é tabú quando se está do lado mais fácil.

Vítor Pinto Basto.

domingo, abril 02, 2006

Parabéns ao Pedro Correia, pelo VI Prémio de Fotojornalismo


Foto de Pedro Correia para o Gente que Dói.
Donostia/San Sebastian - 26/Fev/2004, Nikon D1X

Parabéns ao Pedro Correia pelo VI prémio de fotojornalismo da Visão/Bes. Para nós, aqui no Deriva das Palavras, vai um abraço cheio de sentido para quem colaborou nas excelentes fotos que acompanham o Gente que Dói de Vítor Pinto Basto, editado pela Deriva, no ano passado, e que fizeram parte de uma reportagem sobre o País Basco. Matéria que deve ser acompanhada nos tempos que que correm, onde muito se tem dito e, às vezes, mal dito. Conheça-se o País Basco, o Euskadi, entenda-se o desejo de liberdade e independência dos bascos, sem medos ou peias de alguma espécie. Desconfie-se dos que têm o direito nas mãos, o poder, a imprensa, o dinheiro e forme-se uma opinião independente e bem-formada sobre esta luta que tem de ter fim. Queira o estado espanhol manter a palavra. Um excelente prefácio de Rui Pereira.

De entre 204 fotógrafos, com 5.815 fotografias, Pedro Correia vence, também, na categoria «Reportagem», com oito imagens a preto e branco tiradas durante o cortejo fúnebre do agente Paulo Alves, 23 anos, um dos três polícias mortos em serviço na Amadora, a 20 de Março de 2005.
Gente que Dói - O conflito basco por quem o vive.
de Vítor Pinto Basto
Prefácio de Rui Pereira
Fotos de Pedro Correia
Deriva Editores, 2005