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sexta-feira, agosto 01, 2025

"O Medo do Céu", Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, 2025. Tradução de Ana Cláudia Santos 
A escrita de Fleur Jaeggy continua, e creio que continuará, a constituir uma surpresa sempre renovada. Extremamente contida nas palavras, usa-as como facas, como uma seta apontada aos nossos sentidos. A imprevisibilidade, o choque, a relação agressiva e distante para quem a lê são constantes na leitura de Jaeggy. Cumpre, portanto, o papel da Literatura. «A viagem de núpcias dos senhores Ruegg durou poucos dias. Otto Karl estava inquieto, queria ter regressado a casa após a primeira noite. Com a mulher ao lado da cama, considerava os abraços um sinal de preguiça. A mulher dormia agora, ele tinha a mão pousada sobre a nuca que pouco antes tinha mordido. Fazia projetos. Queria um matadouro.» (pág.25)

Li todos os livros de Jaeggy editados em português, através do trabalho da tradutora e escritora Ana Cláudia Santos e este é muito diferente de «Felizes Anos de Castigo» e de «Viagem no Proleterka». São sete contos dedicados à morte física ou mental ou muito perto dela e cuja presença se faz sentir de múltiplas formas: ou afastada de nós sem esperarmos nada dela, violentamente presente desde o início dos contos ou, até, insinuante. Mas sempre connosco. Daí, o medo do céu, porque nunca saberemos de que é feito, de que matéria química é sustentado e que gases edénicos envolverão os corpos para além dos vermes ou do fogo terreno. Assim é a escrita de Fleur Jaeggy. Cruel, desprovida de qualquer empatia para quem a lê, mas certeira pelo incómodo gerado, pelas verdades que perpassam as relações humanas e principalmente as familiares, sempre abertas aos piores ódios. Ela sabe escrevê-los como é raro encontrar na literatura contemporânea. 

Sei muito pouco sobre a vida de Fleur Jaeggy. Não será a nuvem digital que me vai revelar alguns aspectos que gostaria de saber mais desde que li «Felizes Anos de Castigo» sobre a vida de um colégio interno onde ela passou vários anos da sua adolescência e que, julgo, a marcaram para sempre. Mas há outro mistério que se adensa: tendo nascido em 1940, em Zurique, vive hoje quase reclusa em Milão e conviveu com Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Joseph Brodsky, Italo Calvino que se referiram a ela como uma escritora excepcional. Na minha opinião, é-o, e não se compreende que fosse traduzida tão tarde aqui. E, conhecendo pouco a pouco o estilo inconfundível de Fleur Jaeggy, percebemos por que razão ela estudou e escreveu sobre o enorme Robert Walser e também sobre o escritor maldito Thomas de Quincey. 

Deixo-vos com um extracto da sua escrita neste «O Medo do Céu»:

«Verena sentia-se jovem e calma. Só tinha curiosidade pela sua velhice, tornara-se vaidosa. Nunca o fora, então. Tinha sido modesta, na juventude. E tinha notado que também os outros velhos tinham ficado inchados de vaidade. É a idade, aquela idade teimosa, avessa à morte, em que nos sentimos vaidosos. Ela tem a certeza disso, a vaidade não pertence aos jovens. Não pertence às belas mulheres nem aos rapazes. Não, essa não é senão um subproduto da vaidade. Ela observara-os, aos jovens, quando saía de casa, fizera até uma comparação entre si e eles. Está decrépita, teriam dito aqueles jovens. Agora, andava sempre tão bem arranjada, não apenas por causa daquela ideia tola de a polícia dizer, se a encontrasse morta: ''Mas que limpa que está a sua casa.'' Isso era uma desculpa. Uma desculpa para a polícia. Só o céu podia saber quanto ela era realmente vaidosa. É uma coisa que vai além do físico, uma coisa profunda, terrivelmente profunda. Nem o desespero poderia ser tão profundo. Mas, pensando bem, Verena tem um sobressalto. Talvez seja desespero, a vaidade dos velhos. Os seus cabelos vaporosos vão de azul ao cinza, os seus olhos azuis são entre o cinza e o amarelo, os olhos que observam o marido com desafio e supremacia celestial.» (pág.111)

Provavelmente desenhá-la-ei.
alc

domingo, dezembro 01, 2024

«Viagem no Proleterka», Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, 2024. Tradução de Ana Cláudia Santos
Escrito em 2001 neste «Viagem no Proleterka», a suíça Fleur Jaeggy, que aqui já falámos longamente pela leitura do vigoroso «Felizes Anos de Castigo» (1989), mostra-se agora algo fatigada, não se saberá se fruto da sua quase reclusão em que vive ou, talvez, porque o tema do seu encontro com um pai ausente, estranho, doente, que a convida para uma viagem de catorze dias num cruzeiro «para se conhecerem melhor» terá sido um fiasco. Aliás, todos os temas que Fleur Jaeggy tenta abordar falham. Essa possível relação com o pai não é minimamente conseguida. Se ele se mostra inacessível, a autora, os sentimentos e as acções que leva a cabo durante a viagem não se mostram mais do que pequenos e demasiado fugidios pensamentos para o leitor. Assim como as suas relações fortuitas com membros da tripulação são tão despidas de emoção que chegamos a pensar se chegaram a existir. Tudo é elaborado à pressa, como se a viagem pudesse acabar logo ali, acelerada. As descrições apresentam-se sem grande entusiasmo, como escrever um livro fosse igual a que se bebesse um copo de água e continuasse a escrever no capítulo seguinte. Um leitor, e reivindico para mim esse papel, não é um crítico: para isso, finalmente, já existem cursos universitários em algumas, poucas, universidades portuguesas. Mas no processo de leitura sente-se imediatamente, o estado de espírito de quem escreve. Há uma identificação clara, uma honestidade nossa que reivindicamos igualmente ao escritor. O que move um crítico é outra coisa. O recurso estilístico da autora nada tem a ver com o último, e creio que único, livro editado em Portugal, «Felizes Anos de Castigo». Repito que ali há um cansaço observável e que não é necessário sequer uma lupa para o verificar. 

A tradução de Ana Cláudia Santos, e não é a primeira vez que o digo, evitou que se tornasse quase impossível a leitura de «Viagem no Proleterka». Reparem no que eu digo, neste extracto que vos apresento, que se repete em toda a leitura em períodos tão curtos que interrompem o fluído necessário a uma leitura ou, sequer, a uma identificação mínima com a autora e a uma possível densidade psicológica de todas as personagens:

«(...) Era bonita e robusta. Houve vezes em que quis sair com ela. Não conhecia ninguém da minha idade. Ela fazia-se rogada. Tinha percebido logo que eu estava sozinha. Teria de pagar para ter a companhia dela. É possível que tenha sido ela a sugerir ao pai, o diretor, que nos expulsasse. A nós, os da pensão mensal.» (pá.109)

e continua na mesma página, e em todo o livro, esta toada:

«Por vezes, Johannes levava-me ao restaurante da Corporação. A entrada é pelas arcadas. No primeiro piso, silêncio, as pessoas distintas falam baixinho. Os talheres movem-se com leveza, quase sem tocar no prato. Lá fora, o rio corre. Os cisnes deslizam. Passa o elétrico. Carros. Quando morre um membro da Corporação, costuma fazer-se um banquete fúnebre. Johannes sente-se sozinho. (...)»

De resto, não costumo escrever sobre os livros de que não gosto e foram alguns, não muitos, é certo. Este não está nesse rol, mas devo a Fleur Jaeggy um dos melhores livros que li e que citei aqui, o «Felizes Anos de Castigo» sobre o regime de internato para jovens. Verdadeiramente ímpar. Esperemos que o próximo editado em Portugal seja diferente deste «Viagem no Proleterka» em que, por vezes, cheguei a pensar tratar-se de um conjunto de apontamentos livres da autora para a construção, isso sim, de um verdadeiro romance.

alc

sexta-feira, janeiro 12, 2024

«Felizes anos de castigo», de Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Não é costume, mas inicio esta ficha de leitura com um comentário de Joseph Brodsky sobre «Felizes anos de castigo» da suíça Fleur Jaeggy, livro publicado na Itália, em 1989: «A caneta de Fleur Jaeggy é como a agulha de um entalhador a desenhar raízes, os galhos e os braços da árvore da loucura - uma prosa extraordinária. Tempo de leitura: quatro horas. Tempo de recordação: a vida inteira.»

Se concordo com este comentário de Brodsky, já não me reconheço noutros que a editora deu a conhecer nas badanas e contracapa. A narrativa centra-se na relação obsessiva de duas jovens (a própria Fleur e Frédérique) num colégio interno na Suíça, mas não me parece ser esse o seu principal fio condutor. Trata-se, antes, de uma descrição de um universo concentracionário, absurdo e paradoxalmente bem real, pesado, violento, de um colégio interno onde se passaram os melhores anos da vida de muitas jovens. No entanto, e reside aqui a singularidade do estilo literário de Fleur Jaeggy, este clima de quase pesadelo não perpassa totalmente para a escrita. A autora sabe ver através do vidro das janelas dos quartos fechados as estações do ano, a Primavera que desponta, a neve que cai, o Outono das folhas caídas e o calor do estio no Lago Constança. Também nos armários individuais os objectos, as cartas, os sinais que vêm de fora, da família ausente e dos comboios libertadores que as levam nos períodos de férias que, nem por isso, são melhores. A sua escrita é límpida.

Para além da prosa que nos prende completamente ao livro de uma escritora desconhecida para os portugueses, embora nascida em Zurique em 1940 e já com uma obra algo vasta, a sua leitura foi-me acompanhada por vários sobressaltos. Um deles começa logo na primeira página do livro: Escreve Fleur que tinha apenas 14 anos, quando teve conhecimento da morte próxima de um homem na floresta de Appenzell quando dava o seu passeio na neve. Esse homem era Robert Walser. Não era ainda reconhecido como escritor em 1956, ano da sua morte a 25 de Dezembro (aqui deve haver um engano de datas da escritora, visto que então teria 16 ou 15 anos e não 14 como refere), nem a sua professora de Literatura o conhecia. Talvez por isso se tenha debruçado, posteriormente, pela história trágica de Walser, também ele internado e durante trinta anos, no manicómio de Herisau a muito pouca distância do Bausler Institut, o colégio de Fleur. Mais tarde torna-se amiga de escritoras e escritores de que aqui dei nota: Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Italo Calvino ou o já citado Brodsky. Traduziu igualmente Marcel Schowb, entre outros.

O outro sobressalto estará relacionado com a vivência de Fleur Jaeggy no colégio interno. Só por quem lá passou, e na idade entre os 6 e os 15 anos vividos por ela, é que poderá compreender na sua totalidade os sentimentos contraditórios de amor e ódio, de revolta intensa, de vontade poderosa de fuga, de violência explosiva ou de impotência que guardam as paredes de um colégio. Sei do que falo, daí o sobressalto mais que justificado perante o título irónico de «Felizes anos de castigo». O espanto que cresce à medida que lemos Jaeggy é a triste certeza do que fala e do que viu transcrito para este livro admirável. Acreditem que, em colégios internos, o inferno está mais perto do que se pensa:

«Eu compreendia aquelas crianças que se atiravam do último andar de um colégio só para fazerem alguma coisa desregrada, e disse-lho [a Frédérique]. A ordem era como as ideias, uma posse, uma possessão. (...)» Pág.54. 

Num colégio interno ou, calculo, numa prisão, a necessidade de ordem chega a ser uma obsessão perante o caos da violência, dos castigos gratuitos ou dos afectos em ebulição, mesmo que não se manifestem durante uma eternidade. Porque o tempo, aí, torna-se uma eternidade. Tem-se de ter os armários fechados a cadeado, a roupa bem arrumada, a carteira da sala igualmente fechada, separada com os cadernos das disciplinas, os manuais, os estojos em que não falte nada para evitar não só os castigos, mas também que as ideias estejam em «ordem», naturalmente em ordem. Fleur descreve o seu armário e a carteira como o seu mundo. 

Depois vem o desejo, a necessidade de prazer que se confunde com a tristeza e a solidão. Não há escolha: «Mas perseverava no prazer de ir até às profundezas da tristeza, como se faz com uma humilhação. O prazer do desapontamento. Não me era novo. Apreciava-o desde que tinha oito anos e era aluna interna no primeiro colégio, religioso. E se calhar foram os melhores anos, pensava. Os anos de castigo. Há como uma exaltação, ligeira mas constante, nos anos de castigo, nos felizes anos de castigo.» Pág.80.

Este livro rasa ao de leve nos «educadores» e nas suas taras, incongruências, desejos escondidos, na sua crueldade. Tal como Fleur Jaeggy, também senti essa violência discricionária, gratuita, exercida por indivíduos que se diziam professores a alunos e que nem sequer se deviam aproximar de uma instituição educativa, quanto mais ensinar ou educar. O mesmo para os prefeitos aceitados para castigar e que não tinham hipóteses de ter um emprego normal, alguns deles criminosos da guerra colonial. Em Portugal, só conheço uma ou outra obra que trata esta violência (cito de cor): a de Vergílio Ferreira em «A Manhã Submersa», a de Nuno Bragança em «A Noite e o Riso» em que ele foge do colégio que frequentei, e ultimamente «A Gorda», de Isabela Figueiredo (presumo na parte feminina do mesmo colégio conhecido pela sua brutalidade). Mas foi um artigo de uma crónica de António Guerreiro, no Público, que chamou a atenção sobre este fenómeno mais que usual nos colégios portugueses: a crueldade exercida sobre alunos e alunas por professores que deveriam pedir desculpa a gerações inteiras dessa gratuitidade movida por autênticas taras. Talvez um dia a República a peça. Mas quando, hoje, ouço professores a defenderem a retoma de castigos físicos com o «argumento» de «a mim não me fizeram mal nenhum», duvido que, em vida, assista a tal acontecimento. 

Mas o que diz Fleury sobre esses educadores? «Rancor é coisa que os educadores parecem possuir, um rancor à superfície da pele e no tom de voz, um rancor, ousaríamos dizer, quase pela humanidade em geral. E é talvez graças a este rancor que eles, os educadores, são em substância bons educadores.» Pág.91. Talvez. Um educador é sempre um reactivo, um disciplinador.

Termino adiantando, espero que não abusivamente para quem ler este livro, que Frau Hofstetter, a directora do colégio, acabou por morrer num desastre de automóvel em pleno temporal no Appenzell, junto com o marido e com o filho. As mortes pouco significaram para Fleur. Já tinha outro colégio interno que frequentava e Frédérique, sempre tão racional durante a estadia na instituição como aluna, encontrava-se num manicómio, despojada de tudo, por tentar deitar fogo à casa, com a sua mãe lá dentro. Nunca mais se encontraram. Fiquemos então com as palavras de doce ironia e maldade criativa de Jaeggy:

«Éramos maleáveis, ela [Frau Hofstetter] modelou-nos. Mas como podiam os seus olhos vigiar um temporal, que se calhar queria pregar-lhe uma partida? Os educadores, pelo menos aqueles que conhecemos, não têm uma vida dupla. Durante o ano ensinam, depois descansam. Nunca vão à aventura. Não temos saudades dos nossos educadores. Talvez por vezes os tenhamos respeitado demasiado, mas isso fazia parte da educação que recebemos, e, se todas as noites beijei a mão à Mére Préfète, sem nunca me rebelar, foi porque, por vezes, além das regras, havia também a volúpia. A volúpia da obediência. Ordem e submissão, não se pode saber que resultados darão na idade adulta. Há quem se torne criminoso ou, por desgaste, bem-pensante. Mas ficámos marcadas, sobretudo aquelas raparigas que passaram sete a dez anos num internato. Não sei o que lhes aconteceu, já não sei nada delas. É como se estivessem mortas.» Páginas 92 e 93.

Em 1989, presumo, Fleur Jaeggy foi procurar o Bausler Institut. Já não existia e as pessoas, disseram-lhe que estava enganada. Ali nunca houve um colégio, agora o edifício era um instituto para cegos. Talvez fosse melhor procurar noutro local. A memória levou esse colégio como o vento. Tal como o meu colégio, hoje coberto de heras e de osgas, ratazanas e vidros partidos, de morcegos e de pombos que entram nas antigas salas de aulas. Quando também há pouco tempo passei por lá, não deixei de me sentir bem ao vê-lo assim. Mas ainda há memória dele.

Fleur Jaeggy está viva. Está em casa, em reclusão, há anos.

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos