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sexta-feira, janeiro 12, 2024

«Felizes anos de castigo», de Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Não é costume, mas inicio esta ficha de leitura com um comentário de Joseph Brodsky sobre «Felizes anos de castigo» da suíça Fleur Jaeggy, livro publicado na Itália, em 1989: «A caneta de Fleur Jaeggy é como a agulha de um entalhador a desenhar raízes, os galhos e os braços da árvore da loucura - uma prosa extraordinária. Tempo de leitura: quatro horas. Tempo de recordação: a vida inteira.»

Se concordo com este comentário de Brodsky, já não me reconheço noutros que a editora deu a conhecer nas badanas e contracapa. A narrativa centra-se na relação obsessiva de duas jovens (a própria Fleur e Frédérique) num colégio interno na Suíça, mas não me parece ser esse o seu principal fio condutor. Trata-se, antes, de uma descrição de um universo concentracionário, absurdo e paradoxalmente bem real, pesado, violento, de um colégio interno onde se passaram os melhores anos da vida de muitas jovens. No entanto, e reside aqui a singularidade do estilo literário de Fleur Jaeggy, este clima de quase pesadelo não perpassa totalmente para a escrita. A autora sabe ver através do vidro das janelas dos quartos fechados as estações do ano, a Primavera que desponta, a neve que cai, o Outono das folhas caídas e o calor do estio no Lago Constança. Também nos armários individuais os objectos, as cartas, os sinais que vêm de fora, da família ausente e dos comboios libertadores que as levam nos períodos de férias que, nem por isso, são melhores. A sua escrita é límpida.

Para além da prosa que nos prende completamente ao livro de uma escritora desconhecida para os portugueses, embora nascida em Zurique em 1940 e já com uma obra algo vasta, a sua leitura foi-me acompanhada por vários sobressaltos. Um deles começa logo na primeira página do livro: Escreve Fleur que tinha apenas 14 anos, quando teve conhecimento da morte próxima de um homem na floresta de Appenzell quando dava o seu passeio na neve. Esse homem era Robert Walser. Não era ainda reconhecido como escritor em 1956, ano da sua morte a 25 de Dezembro (aqui deve haver um engano de datas da escritora, visto que então teria 16 ou 15 anos e não 14 como refere), nem a sua professora de Literatura o conhecia. Talvez por isso se tenha debruçado, posteriormente, pela história trágica de Walser, também ele internado e durante trinta anos, no manicómio de Herisau a muito pouca distância do Bausler Institut, o colégio de Fleur. Mais tarde torna-se amiga de escritoras e escritores de que aqui dei nota: Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Italo Calvino ou o já citado Brodsky. Traduziu igualmente Marcel Schowb, entre outros.

O outro sobressalto estará relacionado com a vivência de Fleur Jaeggy no colégio interno. Só por quem lá passou, e na idade entre os 6 e os 15 anos vividos por ela, é que poderá compreender na sua totalidade os sentimentos contraditórios de amor e ódio, de revolta intensa, de vontade poderosa de fuga, de violência explosiva ou de impotência que guardam as paredes de um colégio. Sei do que falo, daí o sobressalto mais que justificado perante o título irónico de «Felizes anos de castigo». O espanto que cresce à medida que lemos Jaeggy é a triste certeza do que fala e do que viu transcrito para este livro admirável. Acreditem que, em colégios internos, o inferno está mais perto do que se pensa:

«Eu compreendia aquelas crianças que se atiravam do último andar de um colégio só para fazerem alguma coisa desregrada, e disse-lho [a Frédérique]. A ordem era como as ideias, uma posse, uma possessão. (...)» Pág.54. 

Num colégio interno ou, calculo, numa prisão, a necessidade de ordem chega a ser uma obsessão perante o caos da violência, dos castigos gratuitos ou dos afectos em ebulição, mesmo que não se manifestem durante uma eternidade. Porque o tempo, aí, torna-se uma eternidade. Tem-se de ter os armários fechados a cadeado, a roupa bem arrumada, a carteira da sala igualmente fechada, separada com os cadernos das disciplinas, os manuais, os estojos em que não falte nada para evitar não só os castigos, mas também que as ideias estejam em «ordem», naturalmente em ordem. Fleur descreve o seu armário e a carteira como o seu mundo. 

Depois vem o desejo, a necessidade de prazer que se confunde com a tristeza e a solidão. Não há escolha: «Mas perseverava no prazer de ir até às profundezas da tristeza, como se faz com uma humilhação. O prazer do desapontamento. Não me era novo. Apreciava-o desde que tinha oito anos e era aluna interna no primeiro colégio, religioso. E se calhar foram os melhores anos, pensava. Os anos de castigo. Há como uma exaltação, ligeira mas constante, nos anos de castigo, nos felizes anos de castigo.» Pág.80.

Este livro rasa ao de leve nos «educadores» e nas suas taras, incongruências, desejos escondidos, na sua crueldade. Tal como Fleur Jaeggy, também senti essa violência discricionária, gratuita, exercida por indivíduos que se diziam professores a alunos e que nem sequer se deviam aproximar de uma instituição educativa, quanto mais ensinar ou educar. O mesmo para os prefeitos aceitados para castigar e que não tinham hipóteses de ter um emprego normal, alguns deles criminosos da guerra colonial. Em Portugal, só conheço uma ou outra obra que trata esta violência (cito de cor): a de Vergílio Ferreira em «A Manhã Submersa», a de Nuno Bragança em «A Noite e o Riso» em que ele foge do colégio que frequentei, e ultimamente «A Gorda», de Isabela Figueiredo (presumo na parte feminina do mesmo colégio conhecido pela sua brutalidade). Mas foi um artigo de uma crónica de António Guerreiro, no Público, que chamou a atenção sobre este fenómeno mais que usual nos colégios portugueses: a crueldade exercida sobre alunos e alunas por professores que deveriam pedir desculpa a gerações inteiras dessa gratuitidade movida por autênticas taras. Talvez um dia a República a peça. Mas quando, hoje, ouço professores a defenderem a retoma de castigos físicos com o «argumento» de «a mim não me fizeram mal nenhum», duvido que, em vida, assista a tal acontecimento. 

Mas o que diz Fleury sobre esses educadores? «Rancor é coisa que os educadores parecem possuir, um rancor à superfície da pele e no tom de voz, um rancor, ousaríamos dizer, quase pela humanidade em geral. E é talvez graças a este rancor que eles, os educadores, são em substância bons educadores.» Pág.91. Talvez. Um educador é sempre um reactivo, um disciplinador.

Termino adiantando, espero que não abusivamente para quem ler este livro, que Frau Hofstetter, a directora do colégio, acabou por morrer num desastre de automóvel em pleno temporal no Appenzell, junto com o marido e com o filho. As mortes pouco significaram para Fleur. Já tinha outro colégio interno que frequentava e Frédérique, sempre tão racional durante a estadia na instituição como aluna, encontrava-se num manicómio, despojada de tudo, por tentar deitar fogo à casa, com a sua mãe lá dentro. Nunca mais se encontraram. Fiquemos então com as palavras de doce ironia e maldade criativa de Jaeggy:

«Éramos maleáveis, ela [Frau Hofstetter] modelou-nos. Mas como podiam os seus olhos vigiar um temporal, que se calhar queria pregar-lhe uma partida? Os educadores, pelo menos aqueles que conhecemos, não têm uma vida dupla. Durante o ano ensinam, depois descansam. Nunca vão à aventura. Não temos saudades dos nossos educadores. Talvez por vezes os tenhamos respeitado demasiado, mas isso fazia parte da educação que recebemos, e, se todas as noites beijei a mão à Mére Préfète, sem nunca me rebelar, foi porque, por vezes, além das regras, havia também a volúpia. A volúpia da obediência. Ordem e submissão, não se pode saber que resultados darão na idade adulta. Há quem se torne criminoso ou, por desgaste, bem-pensante. Mas ficámos marcadas, sobretudo aquelas raparigas que passaram sete a dez anos num internato. Não sei o que lhes aconteceu, já não sei nada delas. É como se estivessem mortas.» Páginas 92 e 93.

Em 1989, presumo, Fleur Jaeggy foi procurar o Bausler Institut. Já não existia e as pessoas, disseram-lhe que estava enganada. Ali nunca houve um colégio, agora o edifício era um instituto para cegos. Talvez fosse melhor procurar noutro local. A memória levou esse colégio como o vento. Tal como o meu colégio, hoje coberto de heras e de osgas, ratazanas e vidros partidos, de morcegos e de pombos que entram nas antigas salas de aulas. Quando também há pouco tempo passei por lá, não deixei de me sentir bem ao vê-lo assim. Mas ainda há memória dele.

Fleur Jaeggy está viva. Está em casa, em reclusão, há anos.

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos


quinta-feira, dezembro 14, 2023

«Pensar a Imagem, Olhar o Texto», Estela Rodrigues

 

Afrontamento, Março de 2019, 270pp.
Pode a poesia experimental e visual ser um instrumento de aprendizagem para as crianças? Pode. E a prova, mais que evidente, reside nas propostas descritas neste livro tão interessante, como imprescindível para quem tem contactos com crianças. A autora, Estela Rodrigues, terminou em 1978 o curso em Educação de Infância e em 1986 licencia-se em Estudos Portugueses pela FLUP. Em 2009 faz o mestrado com a dissertação «A Emergência da Literacia em contexto de Jardim de Infância», na área de Psicologia, na FPCEUP. Foi, durante 27 anos educadora, «intermediados por treze anos na formação de educadores de infância na Escola de Magistério Primário, na Escola Superior de Educação do Porto, nas Universidades do Minho e de Aveiro.» Envolveu-se desde 1983 na APEI, no Movimento Escola Moderna e no Instituto de Comunidades Educativas. Feita a apresentação passemos aos objectivos que podem ser bem resumidos nas suas palavras: 

«Os objetos de conhecimento/sentido estético e o carácter subversivo das Poéticas Experimentais são estranhos e, em certa medida, desconstrutores de estereótipos das culturas de pertença contagiadas por padrões veiculados por determinados estilos de vida e pelas indústrias de entretenimento. Assumo essa desconstrução como educadora que se demarca da tarefa de reprodução massificadora.»

Maria Assunção Folque, na apresentação do trabalho de Estela Rodrigues, esclarece que estamos perante uma obra que «é um dos textos mais inspiradores e desafiantes que tenho lido sobre o conhecimento profissional de uma educadora de infância.» Partilho totalmente esta opinião e a minha leitura de «Pensar a Imagem, Olhar o Texto» com o subtítulo «Experimentos poéticos na educação de Infância» constituiu de facto uma rajada de ar fresco na secura do que para aí anda de obras de carácter pedagógico, seja para a infância ou para outras idades. Aliás, a proposta da autora é clara quanto a isso: se a partir de Bruner podemos garantir que toda a complexidade poética pode ser trabalhada honestamente com idades infantis (a experiência de Estela Rodrigues foi realizada com 25 alunas e alunos entre os 4 e os 6 anos, num Jardim Infantil Público do Porto), nada impedirá que o seja igualmente para todas as idades e ciclos de aprendizagens e de todos os níveis de ensino. Queiram os professores e os mestres, porque nas opiniões registadas por poetas experimentalistas da PO.EX ou brasileiros referidos por Estela Rodrigues e alvos do trabalho com as crianças, estas foram ganhas de imediato, sem que isso signifique não afastar alguma complexidade e dificuldade na construção - desconstrução - construção dos poemas visuais, experimentais, espaciais ou concretos apresentados às crianças. O livro em si é uma pesquisa constante. Obriga-nos à consulta e à marcação de páginas, principalmente ao Capítulo I, «Aproximação às Poéticas Experimentais», para mergulharmos em alguns autores incontornáveis desta forma poética como Melo e Castro (Pêndulo, de 1962), António Aragão com o seu provocador (Telegramando, de 1965), Salette Tavares (Aranha, de 1964 e com mais poemas neste livro cuja ideia subjacente ao Brincar está sempre presente nas suas propostas), António Barros (com o seu icónico Escravos, de 1977), Ana Hatherly (O Mar que se Quebra, 1998) e muitos outros, como Emerenciano, Eurico Gomes, Manuel Portela ou César Figueiredo. Não conseguindo, aqui nesta ficha de leitura, dar conta de todas as expressões que foram (ou que poderão vir a ser) trabalhadas por alunos e analisadas por Estela Rodrigues não deixarei de prestar a atenção devida à referência da «Land Poetry», principalmente de Fernando Aguiar, cujos recursos, utilidade e emergência poderão via a dar frutos nas nossas escolas sujeitas a programas completamente desajustados, ultrapassados e enfadonhos. Este livro não deixa de ser, igualmente, um interessantíssimo e útil trabalho enciclopédico.

Rui Torres, coordenador do arquivo digital da PO.EX., e também ele poeta, assina o prefácio a «Pensar a Imagem, Olhar o Texto». Vale a pena assinalar o que escreve sobre a já referida Salette Tavares : «(...) Aliás, Salette Tavares terá sido quem mais insistiu nesta pedagogia do olhar da poesia e da infância como a tomada de consciência em relação à componente lúdica da linguagem. Brincar, dizia, ''é um estado natural e permanente. (...) [e] com poucos brinquedos, tudo era brinquedo, folhas, frutos, gafanhotos, terra, lata e até nada. E este nada é importantíssimo. [carta a Ana Hatherly]''. Como mãe e educadora, transmitia aos seus filhos esta relação entre palavras e coisas, derivando dessa educação grande parte da sua ''produção poética'' que esteve, aliás, presente na exposição ''Brincar'': objectos que fizeram juntos na descoberta da linguagem. Ao recriar o mundo no convívio dos objectos, Salette Tavares testemunhava uma aprendizagem pelos sentidos. O seu aviso foi muito claro: ''É preciso que não separemos as crianças dos jardins e não as deixemos morrer atrofiadas pelas lojas de brinquedos que, como todas as lojas da civilização de agora, com as suas mon(s)tras, comem as infâncias das crianças, dos papás e dos avós''» Este «brincar» é igualmente teorizado por Maria Assunção Folque na apresentação: «Quero realçar que o lúdico, o brincar, não devem ser vistos apenas como processos naturais de quem ainda é criança mas antes, como capacidade humana sofisticada, em que este processo de construção-desconstrução-construção implica conhecer as regras para as poder perverter». Todo um programa para as sociedades que se exigem mais felizes ou que ainda ligadas intimamente à Natureza, onde ainda se sente «o riso que vem das entranhas da terra» como registou o antropólogo Tobias Schneebaum em «Onde os Espíritos Vivem» (Antígona, 1991) quando esteve na Nova Guiné. Estela Rodrigues, talvez por isso, não se limitou a um livro de pedagogia em sentido estrito, mas acrescentou-lhe uma aura poética e de intervenção  político-social que lhe está indissociável e que beneficia claramente a obra. 

Para além de tudo (e do pouco foi aqui dito), não percam o Capítulo 8 «Experimentos Poéticos e saberes partilhados» que se apresenta com guiões de exploração pedagógica, experiências, pormenores textuais, ilustrações e fotografias do trabalho no terreno que Estela Rodrigues desenvolveu com as crianças a partir dos poemas visuais. As recriações que vemos são autênticas maravilhas feitas por crianças entre, repete-se, os 4 e os 6 anos e os diálogos que se estabelecem entre a educadora e aluno/criador, ou recriador, são uma lição para o leitor, que sendo complexa está bem longe de ser majestática. Sei porque faço esta afirmação. Na mesma carta de Salette Tavares a Ana Hatherly já referida atrás e evidenciada por Rui Torres. Numa vivita de estudo a uma exposição de Alberto Carneiro na Galeria Quadrum, em 1979, Salette Tavares lembrou: 

«(...) Aconteceu mostrar eu episodicamente uma exposição a crianças com cerca de seis anos. Fui várias vezes interrompida pelas duas professoras que as acompanhavam. Achavam tudo difícil para crianças daquela idade. Eu disse: - Isto é uma espiral e uma espiral é... Não me deixaram acabar de dizer, só acabei o gesto. Ora espiral é uma palavra linda, uma criança ainda mais pequenina do que aquelas pode saber o que é uma espiral porque já deve saber o que é um caracol. As crianças percebem muito bem a exposição de Alberto Carneiro. Quem não percebeu mesmo nada foram as professoras, era ri al mente muito difícil.»

«Pensar a Imagem, Olhar o Texto», de Estela Rodrigues, não se conforma com o estabelecido, antes questiona, subverte, ensina. Pela imagem, pelo texto, por anagramas que convocam a inteligência, a dedução, a comparação ou a indução. Até mesmo o nada. Seja. Mas creio que nenhum educador pode prescindir deste livro.

domingo, agosto 29, 2021

O Chega faz o abraço de urso aos professores

Capa do Expresso após as legislativas. A recusa em ver
resolvidos os problemas dos professores dá votos à extrema-direita.
E esta já o compreendeu para as autárquicas.

Isto já não é pesca à linha que o Chega faz aos professores: é uma verdadeira pesca de arrasto que, como sabemos devassa não só os peixes, como o fundo do oceano base de toda a alimentação. Metáfora, é certo, mas que serve para compreendermos a estratégia da extrema-direita.

No argumentário utilizado pelo Chega para levar a bom termo as campanhas autárquicas aconselha os seus candidatos a não hostilizarem os professores, visto que num dos sete pilares da campanha o candidato chegano é levado a:

Considerar os educadores e os professores a chave do bom desempenho eleitoral (…). Aproximando-se dos educadores e dos professores do seu concelho, estratégia política e eleitoral fundamental para a inserção e afirmação do Chega no mundo autárquico e a nível nacional, no imediato e a prazo”. 

E entre todos os considerandos do partido de extrema-direita que são claramente entendidos por todos nós como óbvios devido à degradação do ensino levada a cabo pelos sucessivos governos acrescenta-se ainda:

Nenhum autarca da actualidade (…) é inocente na grave degradação do ensino e, por isso, deve ser clara e objectivamente criticado. Por todo o país, nenhum autarca tem desculpas para não ter visto, por exemplo, crescer a indisciplina nas salas de aula, as depressões e frustrações entre educadores e professores ou a consequente má preparação escolar que se tem agravado, prejudicando o futuro das crianças e jovens das famílias que não podem pagar o ensino privado, ou nem sequer têm acesso ao mesmo''.

Por hoje, os autarcas serão os culpados, amanhã... Ora isto é escrito e assinado por Gabriel Mithá Ribeiro, um chegano que antes de o ser já o era, mesmo quando militante do PSD publicando um triste livro sobre as «mentiras» históricas que os manuais do ensino público andavam a propagandear, principalmente no que respeita à «gloriosa» expansão e posterior colonialismo português. Hoje, diz que o racismo acabou com o apartheid sul-africano. Não existe, ponto! Também se destacou pela invectivas contra a indisciplina nas escolas e a coisa colhe pela demagogia: nada melhor que a prática escolar do regime salazarista para pôr as coisas em ordem.

Mas a autêntica volta de 180 graus vem com o programa do Chega: defendendo acerrimamente o fim do SNS e da Escola Pública, no que a esta última diz respeito inflecte o discurso: afinal a escola pública é para existir. O que se deve é dar aos professores mais autonomia para acabar com a bandalheira da indisciplina e apontar os culpados visto que e mais uma vez não há um só autarca que não seja culpado ao que isto chegou nas escolas'.

É com alguma apreensão que vejo este namoro descarado aos professores com um discurso populista e demagogo em toda a linha. Mais apreensão tenho quando noto que está tudo silencioso. Temo que este discurso cole em muito dos docentes. Não é necessário estar numa sala de professores diariamente para ouvir que ''levei umas chapadas no meu tempo e não me fizeram mal nenhum'', ''sabia-se mais na 4ª classe do que em mestrados actuais'', ''venham os exames! Reprove-se quem não sabe. Há uns anos só tínhamos de justificar se houvesse mais de 50% de chumbos e nunca fui impedido(a)!'', ''isto do rendimento mínimo dá para tudo. Retirassem-no quando chumbavam e isto acabava logo'', já para não falar de atoardas contra ciganos, chineses, russos e contra os alunos LGBTI. Cada vez mais cresce a agressividade dos professores, à falta de verem resolvidos os seus verdadeiros problemas e de o Poder os tratar como trata (então este último ministro é autêntica gasolina nesta fogueira). É verdade que o cansaço dos professores é bem visível e nota-se isso quando são os reprodutores do discurso das notícias das redes sociais, ou dos noticiários oficiais. É possível que a crítica, o gosto pelo debate e a investigação docente tenha decrescido na proporção inversa ao descrédito dos ministérios da educação. Mas que os professores são terreno fértil para os votos da extrema-direita é uma realidade que o futuro vai mostrar mais cedo do que esperamos.

António Luís Catarino