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domingo, agosto 03, 2025

«Casa de Barcos», Jon Fosse

 

Cavalo de Ferro, 2025. Tradução do norueguês de Liliete Martins
Será que a prosa tem métrica? Parece que para os entendidos, não, não terá. Mas é inegável que Jon Fosse escreve como respira. Cada período parece ter em atenção a nossa velocidade de leitura em períodos pequenos, dialogantes, ritmados, com palavras escolhidas não por acaso e com ausência quase total de parágrafos que só existem nos poucos diálogos existentes. O nosso pensamento voa com a impressão das letras e das palavras por ele expostas, adivinhamos que profundamente reflectidas, rasuradas, novamente aduzidas. Reedificadas para nosso prazer de leitura. Se a iniciamos é impossível de parar, não só pelo estilo literário, mas pela trama aparentemente repetida, mas com algo de novo em cada situação que decorre.

Jon Fosse é norueguês, de Hausegund, nascido em 1959. Dele, já li com igual alegria a sua «Trilogia». Deram-lhe o Nobel em 2023 o que não o prejudicou em nada, diga-se em abono da verdade. «Casa de Barcos» é dos primeiros dele, de 1989 (!!) e não houve alma editorial que o descobrisse ou agente que o propusesse a esta santa terra lusitana! Adiante, que exemplos destes temos muitos. Pelo menos, Jon Fosse escrevia desde 1983, estreando-se com «Raudt, svart» (Vermelho, preto). Voltarei a ele, ameaça que cumprirei.

A narrativa passa-se numa pequena aldeia norueguesa, junto a um fiorde onde a personagem principal pouco faz além de pescar, tocar guitarra em bailes aos fins-de-semana e, embora trintão vive ainda com a mãe (atenção, que estamos em países nórdicos. Para eles trata-se de um escândalo!). Não trabalha e passa o tempo na Biblioteca a requisitar livros que lê de supetão no sótão da sua casa. A partir de um certo momento inquieta-se e deixa de ler, sai pouco de casa e escreve por necessidade quase física. A chegada de um amigo da sua adolescência, Knut (e não Kurt como vem na contracapa do livro!), vem agravar mais essa tensão interior. Recorda-lhe pequenas, muito pequenas coisas, factos quase irrelevantes, acontecimentos a que não daríamos muita importância, mas que o tempo resolve tornar vívidos. Isto também acontece connosco, e, com a idade, muito mais memória que achamos residual vem à tona, o que confere toda a verosimilhança ao romance. A atracção, o amor, a sedução, a incomodidade, são narradas magistralmente. Até ao final, que me abstenho de contar aqui, como me parece de bom senso. 

«Já não saio de casa, uma inquietação apoderou-se de mim e deixei de sair de casa. Foi no último Verão que esta inquietação se apoderou de mim. Voltei a encontrar o Knut, que já não via há uns dez anos certamente. O Knut e eu andávamos sempre juntos. Uma inquietação apoderou-se de mim. Não sei o que é, mas esta inquietação afecta-me o braço esquerdo, os dedos. Já não saio de casa. Não sei porquê, mas há já diversos meses que não ponho um pé fora de casa. E é só por causa desta inquietação. Foi por isso que decidi escrever, vou escrever um romance. Tenho de fazer qualquer coisa. esta inquietação é insuportável. se escrever talvez isso me ajude. (...)» (pág.7)

alc

segunda-feira, junho 03, 2024

«Trilogia», Jon Fosse

 

Cavalo de Ferro, 2021. Trad. do norueguês de Liliete Martins
Pouco importa se é Nobel e como ouvi dizer com alguma propriedade, há muito tempo, por um amigo, «Para Nobel até escreve bem!» É o caso. «Trilogia», de Jon Fosse, tem um sub-título esclarecedor: «Vigília. Os Sonhos de Olav. Fadiga.» O tempo e o espaço alternam-se segundo uma narrativa tão bem construída como bela. Com uma pontuação «saramaguiana», se assim se pode dizer, ou não a utilizando de todo. não deixa de ter uma cadência firme que leva o leitor a imaginar as falas muito dramatizadas, quase teatrais, e os espaços visualmente críveis, quer se trate de um barco ao largo do mar da Noruega ou na entrada por entre fiordes, ou, ainda, a atracagem de um barco à vela numa cidade costeira. As casas de madeira e os seu interior são descritas em poucas palavras, mas que se revestem igualmente de um grande rigor visual. Este livro, esta «Trilogia» cheira a mar e sentimos o vento nórdico gelado nas nossas caras, para além da rudeza da terra e do gado que alimenta uma população norueguesa, no século XIX, marcada pelo protestantismo e, concomitantemente, pela ética do trabalho duro e honesto, pela culpa e castigo.

E é nesse caldo que cultura que jovens como Asle e Alida cometem crimes terríveis de que não sentem a mínima noção do mal. É aqui que reside toda a liberdade do livro. Eles cometem crimes para se apoderarem de bens materiais que os levariam a uma paz exigida por e para si próprios. Não se julgam, nem julgam, nem pedem perdão. Agem somente na ânsia de serem felizes. Se cometem os crimes é para atingirem esse desejo de amor, fosse ele o roubo de um barco, o assassinato de uma mulher e de uma idosa, ou de um velho. Para isso, usam subterfúgios e mudam quer de nome, quer de origem ou família de modo a não serem encontrados; a fuga torna-se constante, o mar e a estrada a sua morada contínua. Por fim «Fadiga», e Alida desiste após o desaparecimento de Asle (não cometerei aqui a indelicadeza de dizer como) e entrega-se, por cansaço, a uma nova realidade que, simultaneamente, a ameaça e a recolhe.

Mesmo muito bom.