quinta-feira, outubro 31, 2013

Um poema de Hugo Neto, em Segmento. Lançamento no sábado em Lisboa

Hugo Neto com o Sado ao fundo. 2013

Vista sobre a cidade

durante as obras de restauro da igreja

Subo à torre da igreja para ver a vista com as gárgulas,
sobre Lisboa.

Adolescente, várias vezes me fascinou a imagem de uma vaga
que afogasse outra vez este país.
Via corpos anónimos e destroços levados na corrente,
e enchia-se o espírito de um alívio amoral,
como se aquilo fosse o mar da pacificação.

Mas escolher a raiva contra o mundo seria a derrota,
seria alimentar-se do ódio até ao fim.
Deixa-se depois de culpar o exterior. Acata-se a evidência:
jamais confiar ao mundo a paz que nos couber.

Mas o adulto conservará o direito à amoralidade
na ferida íntima; sempre capaz da intolerância. Capaz de fugir
ou de morder a mão que lhe ensombra a comida,
ou de morder a mão que dá a comida, capaz de odiar
 e por um rasgo obscuro, por vingança, merecimento de paz,
vislumbrar a morte a quem lhe é querido.

– Num milhão de anos pouco restará da cidade de Lisboa.
De, Segmento, Deriva 2013 a editar no sábado às 19 horas. Bar Primeiro Andar, Rua da Porta de Santo Antão, 110, 1º andar, Lisboa

terça-feira, outubro 29, 2013

Ler Que se Lixe a Troika, de João Camargo. 2ª edição

2ª edição

João Camargo na última manifestação do QSLT, Lisboa, 26 de Outubro de 2013
Foto Paulete Matos

Um livro com em excelente levantamento das principais manifestações dos últimos três anos em Portugal e que marcam indelevelmente a política portuguesa. A contestação ao sistema partidário actual, de modo a aprofundar a democracia, é uma constante do livro de João Camargo, assim como o levantamento das principais causas da chamada «crise» austeritária que nos (des)governa. Fundamental ler. Já na 2ª edição.

domingo, outubro 27, 2013

Apresentação de Segmento, de Hugo Neto

Eis a primeiríssima obra de Hugo Neto que a Deriva vai publicar já a 2 de Novembro. Setubalense, Hugo Neto é um jovem estudante de Letras de Lisboa e que trabalha em restauro de obras de arte. Esta semana iremos dar notícias e propor às pessoas irem conhecê-lo no Bar Primeiro Andar, junto ao Coliseu (nas Portas de Santo Antão, 110, 1º andar, claro!), em Lisboa. A apresentação ficará a cargo de Filipa Leal.

sábado, outubro 26, 2013

Fotos da apresentação de Dos Espaços Confinados, Coimbra


A Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho soube criar um espaço agradável numa verdadeira homenagem ao livro. Foi um prazer conhecê-la e conversar com as dezenas de amigos e indefectíveis da poesia de Catarina Costa. O ambiente era, portanto, óptimo e foi assim até ao fim da conversa que se manteve com a Catarina. A Sandra leu alguns textos do livro e as pessoas ficaram a saber da nítida diferença entre o seu último livro e este. Ouviram atentas (até emocionadas, como foi dito) as palavras construídas com o cuidado e rigor que a autora imprime à sua escrita. Uma certeza: Catarina Costa foi convidada in loco para estar presente no próximo Mal Dito, Festival de Poesia em Coimbra, e em Novembro, Aurelino Costa disponibilizou-se para apresentar Dos Espaços Confinados, na Póvoa de Varzim, no Diana Bar.
Esperemos agora que a Fnac e a Bertrand se apercebam da novidade que constitui esta poesia e sejam pródigos na distribuição. O público de poesia só terá a ganhar. 

Sobre Dos Espaços Confinados, de Catarina Costa


«Nessa época fui trabalhar para longe, um sítio urbano, mas agreste. Não respirava nem ar de cidade nem de campo, a atmosfera era em mim um peso abafado, de exalações entorpecidas a corroerem por dentro as divisões da hospedaria, o meu quarto.» É a poética muito própria de Catarina Costa que assim se exprime, sendo criada por estranhas linhas que se interceptam e cruzam em cidades imaginadas, estruturas urbanas constituídas por centros e arrabaldes, campos que sugerem proximidades contraditórias, que se relacionam com vultos que agem e se movem num aparente caos, metáfora da modernidade.
Não deixa de ser notável que a autora consiga de um modo tão eficaz ligar ruas, espaços, escadas, janelas,  soleiras, vultos esquivos que se movem à noite, envoltos em halos de luz, mas com o aviso do tempo sempre presente, fustigado em cada criação poética. Tempo e luz, acção e claridade apresentam-se quase sempre, na poesia de Catarina Costa, como uma dialéctica necessária ao poema. Será por isso que diz: «Os espaços, os objectos, o próprio horizonte estão dentro da nebulosidade própria de uma época e só os reconhecemos pelo hábito de darmos forma ao que nos rodeia.»
É com esse desassombro poético que as palavras de Catarina Costa assumem, no papel, uma identidade tão própria, quase ao ponto da emoção, quando, numa escultura formada de palavras se deixa envolver por possíveis nostalgias: «Escrevia-te para que chegássemos a um acordo sobre o nada. E sem que me respondesses eu continuava a escrever-te cartas e mais cartas porque, tal como tu, também eu queria perceber o porquê de uma tão grande percentagem de matéria negra.»

Cidade, tempo, linhas, palavras, luz, noite, gente, seriam as chaves óbvias para acalmar o caos criado por Catarina Costa, mas que ninguém certamente terá a ousadia de usar, porque esse contraponto seria a ordem, o fim da poesia.
António Luís Catarino
Coimbra, 25 de Outubro de 2013

sexta-feira, outubro 11, 2013

Apresentação de Dos Espaços Confinados, de Catarina Costa com nova data e local

Confirma-se: dia 25 de outubro, sexta-feira, pelas 21:30 horas terá lugar a apresentação de Dos Espaços Confinados, de Catarina Costa. Será na Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho, em Coimbra. Seguirá convite para todos. 


Lembramos que o lançamento deste livro esteve agendado para este fim de semana, mas problemas técnicos levaram aos seu adiamento.

Neofascismos e apatias


Não sei se, hoje, Portugal não simpatizaria com uma solução parecida com a de Marine Le Pen que entretanto atinge já os 24% de votos em França. Não digo isto para provocar o que quer que seja. Não tenho grande vontade de provocar alguém, muito menos essa entidade cada vez mais abstracta que é o «povo». 
Digo-o porque me incomoda verdadeiramente a extrema-direita e tudo o que ela representa como o regresso a valores que julgava já ultrapassados: a submissão da mulher, a estupidez do racismo, as hierarquias infalíveis, a força como finalidade última da acção humana, o preconceito e a homofobia, a eliminação dos fracos, o ódio à paz e à cultura, a valorização da guerra. Basta isto para me pôr a penantes para resistir. Com qualquer forma de resistência, diga-se. E sei de muita gente que o fará com alegria, até. O que me incomoda verdadeiramente (repito) é a aliança que o fascismo actual faz com a tecnologia e o capitalismo banqueiro e de tipo «asiático». Isto sim, faz um caldo que pode levar a vitórias eleitorais com o símbolo último da austeridade como argumento fundador. 
Entretanto, sairei hoje para ir ver Hanna Arendt. E pensar que Eichman era um tipo vulgar. É essa vulgaridade que cria os piores monstros. A apatia do povo português assusta-me tanto como ele.

terça-feira, outubro 08, 2013

Alteração da data de lançamento de Dos Espaços Confinados


Devido a problemas técnicos que não foram resolvidos em tempo útil pela tipografia com que trabalha a Deriva, o lançamento do livro de Catarina Costa, Dos Espaços Confinados, que estava previsto para este fim de semana, em Coimbra, foi adiado para dia 26 de outubro, em local a anunciar. Lamentamos muito este facto e pedimos desculpa a todos e em especial à autora. 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Recensão de Literatura para a Infância e a Juventude e Educação Literária no El Correo Gallego



Recensão a "Literatura para a infância e juventude e educação literária", um volume coletivo organizado por Madalena Teixeira da Silva e Isabel Mociño González, com a chancela da Deriva Editores. Também foi publicada no "El Correo Gallego".

quinta-feira, outubro 03, 2013

Entrevista a Catarina Costa, autora de Dos Espaços Confinados

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Catarina Costa

No dia 11 de outubro, pelas 21:30, na Casa da Escrita, em Coimbra, Catarina Costa apresentar-nos-á o seu Dos Espaços Confinados, o último livro de poemas que publicou, em conjunto com a Deriva Editores. Temos a certeza que este seu novo livro irá ser um acontecimento poético que obrigará à atenção que merece. Eis a entrevista que a autora nos deu:
Catarina, não é a primeira vez que edita. Fale-nos da sua criação poética anterior.
De facto, publiquei um livro em 2008, “Marcas de urze”, pela Editora Cosmorama. É um livro de poemas curtos escritos em verso e com uma linguagem mais apoiada em imagens herméticas. Em virtude de a minha escrita ter-se modificado muito desde então, este meu primeiro livro provoca-me hoje alguma estranheza.
Como surgiu Dos Espaços Confinados
     Comecei a escrever os textos que compõem Dos espaços confinados ainda sem ter uma ideia para o livro que daí iria resultar. Depois verifiquei  que os motivos de muitos dos textos se desenvolviam tendo como pano de fundo espaços físicos que acabavam por ser interiorizados e onde ressaía uma certa ideia de fechamento, ou de confinamento, como se houvesse algo mais ou menos indefinido a prender as personagens.
Enganamo-nos quando dizemos que Dos Espaços Confinados é um livro de poesia (excelente por sinal) onde se cruzam vários caminhos em espaços quase sempre urbanos? Porquê essa procura na cidade?
Essa procura faz-se na cidade, que associo, com a ilusão que lhe possa estar subjacente, à pluralidade das escolhas. De qualquer modo, a referência explícita à cidade é mais patente na primeira parte do livro, que foi a que escrevi há mais tempo.

As pessoas que aparecem em Dos Espaços Confinados são vultos fugidios. Limitam-se às suas actividades repetitivas, enquadradas na sociedade, dando ideia que fogem de qualquer coisa. Do tédio? De que fogem, afinal?
Não sei. Algumas das personagens foram baseadas em pessoas com quem me fui cruzando e que me apareceram efectivamente como vultos. Nunca as conheci o suficiente para decifrar os seus movimentos.
Qual a situação actual, no país, para os jovens poetas? Em Coimbra há a Casa da Escrita, mas é suficiente?
Todos os espaços culturais, como a Casa da Escrita, são valiosos na divulgação de novos trabalhos. Penso que a situação actual que o país atravessa afecta a poesia apenas enquanto objecto de mercado. A poesia parte não poucas vezes de algum tipo de conflito e por isso não julgo que as crises sejam um obstáculo à sua escrita, que continuará a ser realizada marginalmente ou não.
Catarina, já pensa no seu próximo livro? 
    De certo modo, sim. Eu escrevo de uma maneira mais ou menos continuada consoante os diferentes períodos de vida sem pensar em termos de construção de um livro. Ciclicamente, olho para aquilo que escrevi e começo a dar-lhe uma estrutura.