Mostrar mensagens com a etiqueta Pulsar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pulsar. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, julho 06, 2016

Morelli, Freud e Sherlock Holmes - Indícios e método científico, de Carlo Ginzburg


Morelli, Freud e Sherlock Holmes  - Indícios e método científico, de Carlo Ginzburg
Tradução e apresentação de Maria de Lurdes Sampaio

SINOPSE
Agora, é evidente que nenhuma dessas disciplinas – nem sequer a medicina – que descrevemos como conjecturais, cumpriria os critérios de inferência científica essenciais à abordagem galileica. São disciplinas que têm por objecto, antes de tudo, o qualitativo, o caso individual, ou situação ou documento enquanto singularidade, o que significa que há sempre um elemento de acaso nos seus resultados: basta pensar na importância da conjectura (um vocábulo cuja origem latina radica na adivinhação), na medicina, na filologia, para não falarmos da adivinhação.




ANO DE EDIÇÃO: 2016

NÚMERO PÁGINAS: 98

COLECÇÃO: Pulsar/ILC

FORMATO: 13,5 x 20 cm

PESO: 978-989-8701-19-0


PVP C/ IVA: 10,50 Euros

quarta-feira, julho 08, 2015

Em breve nas livrarias: Epístola aos jovens atores para que seja dada a palavra à palavra, de Olivier Py

Epístola aos jovens atores para que seja dada a palavra à palavra

SINOPSE
Este livro deve ser aberto de par em par, para que dele se possam tirar as palavras inteiras.
É uma conferência de Olivier Py para falar de Teatro a alunos de Teatro.
Mais do que uma conferência, quer ser uma lição memorável.
Mais do que uma lição memorável, quer ser um poema.
Mais do que um poema, quer ser Teatro.
É um texto que quer sair do papel, que se sente aprisionado pelas páginas.
Por isso, só quando este livro for aberto de par em par, ele se tornará uma caixa útil.

ÍNDICE
Teatrologia e Tautologia
1. Exórdio
2. O desmancha-prazeres
3. O responsável cultural
4. O polícia do desejo
5. O ministro da comunicação
6. O diretor do conservatório de arte dramática
7. Aquele que verdadeiramente busca
8. O porco moderno
9. A criança que presta juramento
10. O milagre

PEDIDOS A: infoderivaeditores@gmail.com COM INDICAÇÃO DE NOME E MORADA.

Título Epístola aos jovens atores para que seja dada a palavra à palavra
Autor Olivier Py
TRADUÇÃO E APRESENTAÇÃO Maria Luísa Malato
ISBN  978-989-8701-08-4
REFERÊNCIA 150909
FORMATO 10 x 18 cm
Nº PAG. 52
1ª EDIÇÃO julho 2015

PVP 8,50 euros

Em breve nas livrarias:A Arte há de sobreviver às suas ruínas, de Anselm Kiefer

A arte há de sobreviver às suas ruínas
SINOPSE (...) a autodestruição foi sempre a finalidade mais íntima, a mais sublime da arte, cuja vaidade se torna desde logo percetível. Pois, qualquer que seja a força do ataque, e mesmo que tivesse chegado ao limite, a arte há de sobreviver às suas ruínas.
Lição inaugural proferida
na quinta-feira 2 de dezembro de 2010
pelo Prof. Anselm Kiefer

“O Colégio de França convidou um artista plástico na esperança, presumo, de que vos fale de arte, vos informe acerca do que é a arte, demonstre a sua origem. Dir-vos-ei que não há definição da arte. Toda a tentativa de definição se desfaz no limiar do seu enunciado, tal como a arte, que não deixa de oscilar entre a sua perda e o seu renascimento. Nunca está onde contamos com ela, onde se espera apreendê-la e, referindo-me ao Evangelho segundo São João (capítulo 7), direi: “Onde estiver, não o podemos alcançar”.”

Anselm Kiefer (nascido em 8 de março de 1945, em Donaueschingen) é um pintor e escultor alemão.
Durante os anos 70, estudou com Joseph Beuys. Os seus trabalhos utilizam materiais como palha, cinza, argila, chumbo e selador para madeira. Os poemas de Paul Celan tiveram muito importância no desenvolvimento de temas para os trabalhos de Kiefer sobre a história alemã e o horror do Holocausto, assim como os conceitos teológicos da cabala.
Temas relacionados ao nazismo são particularmente vistos no seu trabalho; por exemplo, a obra "Margarethe" (óleo e palha sobre tela) foi inspirada pelo famoso poema "Todesfuge" ("Fuga da morte"), de Paul Celan.
Os seus trabalhos são caracterizados por um estilo maçante, quase depressivo e destrutivo, e muitas vezes feitos em grandes formatos. Na maioria deles, o uso da fotografia como suporte prevalece, e terra e outros materiais da natureza são geralmente incorporados. Também é característico o uso de escritos, personagens lendários ou lugares históricos em quase todas as suas pinturas. Tudo é codificado através daquilo que busca Kiefer para representar o passado; algo que geralmente está relacionado com um estilo chamado "Novo Simbolismo".
PEDIDOS A: infoderivaeditores@gmail.com COM INDICAÇÃO DE NOME E MORADA.
Título A arte há de sobreviver às suas ruínas
Autor Anselm Kiefer
TRADUÇÃO José Domingues de Almeida
ISBN  978-989-8701-10-7
REFERÊNCIA 150910
FORMATO 10 x 18 cm
Nº PAG. 40
1ª EDIÇÃO julho 2015

PVP 8,00 euros

terça-feira, novembro 11, 2014

Manifestos Vorticistas, de Wyndham Lewis. O nº8 da coleção Pulsar do ILC da FLUP e Deriva

Com tradução e apresentação de Manuela Veloso, Manifestos Vorticistas de Wyndham Lewis é o livrinho da coleção Pulsar que sairá ainda em novembro, promovido pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e pela Deriva Editores. Reservas do livro para infoderivaeditores@gmail.com . 8,50 euros

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A Moralidade da Profissão das Letras, de Stevenson, na Pulsar. Deriva/ILC

 
Saiu ontem mesmo e já está na distribuição, mais um livrinho da coleção Pulsar, com a chancela da Deriva e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP. O título é uma maravilha: A Moralidade da Profissão das Letras e Outras Defesas da Literatura, de Robert Louis Stevenson. A tradução e nota de leitura é do Professor Jorge Bastos da Silva.
Anotem, por favor, o que se lê à página 20: «A copiosa baixeza dândi do repórter americano ou do croniqueiro parisiense, ambos de leitura tão leve, hão-de exercer incálculável influência perniciosa; dão início à consideração de tudo, nas mentes jovens e impreparadas, num espírito indigno; sobre todos os assuntos, fornecem alguma pungência para as pessoas sem brilho citarem. O próprio volume dessa matéria feia esmaga o pouco que dizem os homens bons; os desdenhosos, os egoístas e os cobardes estão espalhados em grandes folhas em todas as mesas, enquanto o antídoto, em pequenos volumes, se encontra, por ler, na prateleira.»
 


sexta-feira, novembro 11, 2011

Esquisita crise, Gustavo Rubim


  • Crítica Ípsilon por:

    Gustavo Rubim




  • Crise de Versos
  • Autoria: Stéphane Mallarmé


Crise” também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa esquisito, mas “exquise” é a palavra francesa que qualifica a “crise” como preciosa



Livros pequenos, poucos exemplares, circulação discreta, às vezes até despercebida: não é essa, hoje, a situação de quase toda a poesia?

Aqueles para quem a poesia não seja, simplesmente, uma coisa do passado ou uma irrelevante inexistência, terão a tentação de falar em “crise”, mas ninguém dará a isso grande importância. Perante outras crises, ubíquas, assustadoras, uma “crise de versos” pesa pouco, quase nada. Nem era disso, aliás, que falava Stéphane Mallarmé quando em 1897 publicou, no volume “Divagações”, esta “Crise de Versos” escrita em prosa fragmentada. Um dos textos mais lentos que alguma vez se escreveu: dez anos para compor (em boa parte, com passagens doutros escritos) as catorze pequenas páginas aqui duplicadas pela decisão de acompanhar a tradução com o texto original.
Não diminui, aumenta com isso a importância do trabalho de Rosa Maria Martelo e de Pedro Eiras, os tradutores. O Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, do Porto, em que ambos trabalham e que dirige a colecção Pulsar (de que este nº 5 é o ponto alto), mostra como também no âmbito literário vale a lição de Mies van der Rohe: “Menos é mais.” Que é aqui uma lição de leitura, pois levar este livrinho para casa e decidir-se a lê-lo é apostar em tudo menos no consumo rápido: a prosa de Mallarmé, nisso indistinta da poesia, é para ler mesmo devagar, saboreando a deliciosa dificuldade dos “seus sobressaltos e inversões”, verificando como uma crise de versos é afinal “crise também da prosa - que se expõe e se assume”, conforme ensinam os co-autores deste genuíno acontecimento nas nossas letras.
Mas crise, em Mallarmé, é praticamente uma palavra feliz. Ela designa, como sempre desde o Grego antigo, o instante decisivo, a separação, o próprio acto de escolher. Num dos parágrafos finais do texto, Mallarmé descreve um desejo moderno da poesia que é, precisamente, um desejo crítico: “Um inegável desejo do meu tempo é separar, para destinos diferentes, o duplo estado da palavra, ora bruto ou imediato, ora essencial.” Esse desejo, que instala ou abre uma crise, uma divisão na linguagem, não é por isso menos afirmativo nem menos capaz de fundar a convicção da poesia. Isto é, em plena crise, a confiança no poder do verso: “O verso, que de vários vocábulos refaz uma palavra total, nova, estrangeira à língua e como que encantatória, completa esse isolamento da palavra (...)”.
Não será fácil hoje aceitar esta celebração do isolamento da palavra pelo verso, a não ser, como já várias vezes sucedeu, trocando o entendimento por ressentimento e acusando Mallarmé (e outros) de isolar a poesia, de a mergulhar no ininteligível, de a afastar da fruição universal, etc. Mas não se faz essa troca sem sacrificar a poesia àquilo a que Mallarmé chama “a universal reportagem”, o que vem a dar no mesmo que liquidá-la. Boa parte da grandeza inegável de Mallarmé, à distância de um século, é ter percebido que para a poesia moderna tudo se joga crucialmente na relação com a linguagem, porque “moderno” é o mundo onde todo o poder se traduz em forma e força de discurso.
Daí que a sua “Crise de Versos” seja a crise, ínfima, mas “preciosa, fundamental”, como se lê no início, da relação da poesia com o seu traço mais tradicional e constitutivo: o verso mesmo, claro. É uma nova liberdade do verso que Mallarmé anota e intensifica, traçando o seu acontecimento local (em França, após a morte de Victor Hugo) e limitado, como se o verso se rompesse sem rotura: “sei que se explora mais um jogo, sedutor, com os fragmentos do antigo verso (...) do que qualquer súbito achado, completamente inédito.” O verso livre, nesse sentido, é ainda um resultado do verso disciplinado, que nunca desaparece deste cenário crítico. Colhe-se aí a singularidade do pensamento de Mallarmé: “crise” também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa um pouco esquisito, mas “exquise” é exactamente a palavra francesa que qualifica a “crise” como preciosa. E talvez a poesia não seja outra coisa senão o domínio em que só o esquisito é fundamental. (daqui)

OUTROS LIVROS DA COLEÇÃO: 

sexta-feira, outubro 21, 2011

Crise de Versos, Stéphane Mallarmé [Gustavo Rubim, Ipsilon]


Crise de Versos, Stéphane Mallarmé,  Deriva


Ensaio


Esquisita crise
"Crise" também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa esquisito, mas "exquise" é a palavra francesa que qualifica a "crise" como preciosa. Gustavo Rubim



Livros pequenos, poucos exemplares, circulação discreta, às vezes até despercebida: não é essa, hoje, a situação de quase toda a poesia?

Aqueles para quem a poesia não seja, simplesmente, uma coisa do passado ou uma irrelevante inexistência, terão a tentação de falar em "crise", mas ninguém dará a isso grande importância. Perante outras crises, ubíquas, assustadoras, uma "crise de versos" pesa pouco, quase nada. Nem era disso, aliás, que falava Stéphane Mallarmé quando em 1897 publicou, no volume "Divagações", esta "Crise de Versos" escrita em prosa fragmentada. Um dos textos mais lentos que alguma vez se escreveu: dez anos para compor (em boa parte, com passagens doutros escritos) as catorze pequenas páginas aqui duplicadas pela decisão de acompanhar a tradução com o texto original.

Não diminui, aumenta com isso a importância do trabalho de Rosa Maria Martelo e de Pedro Eiras, os tradutores. O Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, do Porto, em que ambos trabalham e que dirige a colecção Pulsar (de que este nº 5 é o ponto alto), mostra como também no âmbito literário vale a lição de Mies van der Rohe: "Menos é mais." Que é aqui uma lição de leitura, pois levar este livrinho para casa e decidir-se a lê-lo é apostar em tudo menos no consumo rápido: a prosa de Mallarmé, nisso indistinta da poesia, é para ler mesmo devagar, saboreando a deliciosa dificuldade dos "seus sobressaltos e inversões", verificando como uma crise de versos é afinal "crise também da prosa - que se expõe e se assume", conforme ensinam os co-autores deste genuíno acontecimento nas nossas letras.

Mas crise, em Mallarmé, é praticamente uma palavra feliz. Ela designa, como sempre desde o Grego antigo, o instante decisivo, a separação, o próprio acto de escolher. Num dos parágrafos finais do texto, Mallarmé descreve um desejo moderno da poesia que é, precisamente, um desejo crítico: "Um inegável desejo do meu tempo é separar, para destinos diferentes, o duplo estado da palavra, ora bruto ou imediato, ora essencial." Esse desejo, que instala ou abre uma crise, uma divisão na linguagem, não é por isso menos afirmativo nem menos capaz de fundar a convicção da poesia. Isto é, em plena crise, a confiança no poder do verso: "O verso, que de vários vocábulos refaz uma palavra total, nova, estrangeira à língua e como que encantatória, completa esse isolamento da palavra (...)".

Não será fácil hoje aceitar esta celebração do isolamento da palavra pelo verso, a não ser, como já várias vezes sucedeu, trocando o entendimento por ressentimento e acusando Mallarmé (e outros) de isolar a poesia, de a mergulhar no ininteligível, de a afastar da fruição universal, etc. Mas não se faz essa troca sem sacrificar a poesia àquilo a que Mallarmé chama "a universal reportagem", o que vem a dar no mesmo que liquidá-la. Boa parte da grandeza inegável de Mallarmé, à distância de um século, é ter percebido que para a poesia moderna tudo se joga crucialmente na relação com a linguagem, porque "moderno" é o mundo onde todo o poder se traduz em forma e força de discurso.

Daí que a sua "Crise de Versos" seja a crise, ínfima, mas "preciosa, fundamental", como se lê no início, da relação da poesia com o seu traço mais tradicional e constitutivo: o verso mesmo, claro. É uma nova liberdade do verso que Mallarmé anota e intensifica, traçando o seu acontecimento local (em França, após a morte de Victor Hugo) e limitado, como se o verso se rompesse sem rotura: "sei que se explora mais um jogo, sedutor, com os fragmentos do antigo verso (...) do que qualquer súbito achado, completamente inédito." O verso livre, nesse sentido, é ainda um resultado do verso disciplinado, que nunca desaparece deste cenário crítico. Colhe-se aí a singularidade do pensamento de Mallarmé: "crise" também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa um pouco esquisito, mas "exquise" é exactamente a palavra francesa que qualifica a "crise" como preciosa. E talvez a poesia não seja outra coisa senão o domínio em que só o esquisito é fundamental.

domingo, agosto 14, 2011

Para que serve a poesia hoje?, Jean-Claude Pinson (tradução José Domingues de Almeida)



A segunda parte de Para que serve a poesia hoje? é constituída por uma série de perguntas/respostas que se seguiram à conferência proferida por Pinson, a 12 de Janeiro de 1999 em Nantes.

Jean-Claude Pinson
 [...]A pergunta que lhe queria colocar é a seguinte: será que a concepção que expôs não passa, ao fim e ao cabo, de uma concepção histórica, transitória, passageira, muito actual desde a queda das ilusões do surrealismo? Hoje em dia, estaríamos neste ponto, i.e. numa espécie de dúvida de si, mantida pelos jornais, pela televisão porque, no fundo, se teme o poder subversivo da poesia – pois se a filosofia ajuda a pensar com rigor, a poesia ajuda a pensar de forma diferente. Assim, não estaremos nós numa fase transitória desde há 20 anos, e poderemos nós imaginar, conceber transformações que renovem coisas mais antigas sob formas novas?
É-me muito difícil fazer prognósticos quanto ao que será a poesia de amanhã. Posso, claro, desejar uma situação em que lhe fosse dado melhor acolhimento e em que contasse mais na sociedade. Mas não estou certo de perceber bem hoje os sinais desse futuro risonho.O que observo, no entanto, é que a questão da poesia – e, julgo, será uma das questões mais vivas hoje nos debates em torno da literatura – permanece muito presente e de novo muito aberta. A poesia não é um objecto indiferente; ela continua a suscitar fortes interrogações e tomadas de posição apaixonadas, mesmo se tal diz apenas respeito a um número restrito de pessoas. Como se a poesia continuasse, apesar de tudo (mesmo quando tem pouca visibilidade social), a ser uma dimensão essencial, fundamental da nossa presença na linguagem e no mundo.Quanto aos poderes que a poesia teria, quando não de suscitar, pelo menos de anunciar transformações mais fundamentais, estou de certa forma perplexo. Não podendo «mudar a vida», a poesia estaria em condições de preservar a possibilidade de outro futuro do homem na terra, de indicar às nossas existências outra medida, outro ritmo para além do imposto, hoje em dia, pelo domínio da técnica e do mercantilismo. É uma posição que se pode encontrar num poeta como Yves Bonnefoy. Este último mantém nos seus escritos com carácter teórico a ideia de que a poesia seria portadora de uma esperança. Hoje, há uma espécie de monocultura que se foi impondo em toda a superfície do planeta, de forma cada vez mais pesada, mas na sombra, afirma sumariamente Bonnefoy, a poesia vai ficando de guarda. Talvez anuncie – há que sermos muito prudentes neste tipo de prognóstico – uma outra era da humanidade. É a velha ideia, presente já nos primeiros românticos alemães, de um «deus vindouro». Encontramo-la também em Hölderlin. Os deuses fugiram: já não há nem cosmos harmonioso, nem deus transcendente para dar sentido e fundamento à nossa existência. Tudo isso se desmoronou com o século das Luzes, mas, em segredo, a poesia trabalha na preservação da possibilidade de outro entendimento da linguagem (do logos) – um entendimento capaz de ajudar, um dia, a sair do túnel da época. Ela conserva a esperança de um novo sagrado – de um mundo em que nem tudo estaria submetido ao reinado da mercadoria.Quanto ao resto, estou bem consciente de que tudo quanto disse esta noite depende inevitavelmente de um ponto de vista e de uma história. Como escapar à própria época? Como «saltar por cima da própria sombra»? Falo a partir do que conheço: a poesia contemporânea. Quando analiso a sua paisagem, esforço-me por ser objectivo. Mas o meu ponto de vista, como qualquer outro, está situado. Tenho, como cada qual, uma história. Por exemplo, descobri com verdadeiro deleite, nos anos sessenta, no contexto do que chama de «terrorismo estruturalista», um autor como Denis Roche. Na altura, achei nele uma grande frescura, um grande vigor, em ruptura com o «ronrom» poético de então. Quando, vinte anos mais tarde, retomei os seus textos, o meu sentimento já não foi o mesmo.Tudo isto para dizer que, afinal de contas, o importante não está nos propósitos teóricos, nos manifestos ou nas proclamações de intenção. Os propósitos teóricos podem apenas contribuir para um trabalho de limpeza, de desengorduramento, das várias formas pesadas da poesia. O que importa verdadeiramente, em último recurso, são as próprias obras, a sua pertinência, o seu vigor, mas também o seu poder de permanecerem substanciais para além da emoção da novidade que suscita o seu aparecimento. [mais aqui]