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quarta-feira, outubro 16, 2024

«A Resistência», Julián Fuks

 

Companhia das Letras, Penguin Random House, 2023
Pode não constituir ainda um padrão literário, mas esta narrativa de uma nova realidade sul-americana nasce de uma pesquisa difícil e dolorosa de uma memória reconquistada pela escrita. Trata-se de uma memória que tentou ser anestesiada pelas ditaduras da América do Sul e que teimosamente emerge, lutando contra o medo, contra a morte. Esta literatura nasce de gente nascida nos anos 80 e são escritores e escritoras que teimam em fazer reviver os que morreram sob torturas, desaparecimentos, sequestros, raptos de crianças, numa espiral de violência indescritível da extrema-direita no poder. Falamos da Argentina de 1976, do Chile de 1973, do Brasil, do Uruguai, da Nicarágua de Somoza, etc, etc,. A Operação Condor nas Américas não foi uma ficção. Lembramo-nos, para além de Fuks, da chilena Alia Trabuco Zerán, em «A Subtracção» e mesmo Layla Martínez em «Caruncho» e embora este último se passe em Espanha os mortos sem morada são os mesmos. Este rastro existe, o dos desaparecidos, dos mortos ainda sem sepultura. Como nos lembra o autor, as Avós e Mães da Praça de Maio, em 30 anos, «recuperaram» 114 netos adoptados à força. Faltam cerca de 400. Este facto pesará sempre na consciência de cada um de nós, ao menos em nós, dado que a dos verdugos é um enorme vazio assassino. A literatura é viver isto, também.

Mas se, por um lado, fazem reviver os mortos ou os desaparecidos, também se questionam a si próprios e aos sobreviventes. E é aqui que nasce este padrão literário, talvez estranho para os europeus habituados à democracia parlamentar e aos bons costumes do «confronto» mais ou menos polido. Julián Fuks é mais brasileiro que argentino, se bem que os seus pais vivessem em Buenos Aires quando do golpe de Videla em 76. Ambos médicos e militantes de esquerda, tiveram de fugir para o Brasil (embora igualmente em ditadura) para sobreviver, levando consigo uma criança que vieram a adoptar e irmão mais velho de Sebastián, nome da personagem que o escritor emprestou para si próprio neste livro. Esta ferida aberta, que Fuks não se inibe de revelar, toma vários formatos: a sua relação com esse irmão, com a sua irmã biológica, com os pais, com as Mães e Avós da Praça de Maio, com a própria esquerda e com a violência, com a ditadura; e a memória que ele se força por trazer ao de cima, sem que isso não impeça um conflito que adivinhamos com os próprios pais que não concordam com o modo como o filho expõe essas mesmas feridas ainda abertas e transcritas para a ficção. A revelação fria pode ser pior que a desmemória. 

O brasileiro Julián Fuks ganhou o Prémio José Saramago em 2017, mas este não é um livro extraordinário. Por vezes, durante a sua leitura, temos a ideia que é volúvel, etéreo, solto. Pouco firme, não muito consistente com os pensamentos ou com as ideias que quer transmitir. Mas talvez tenha sido essa a opção do autor. A memória não será assim, também ela?

«Toda a vida foi infenso a esses objetos. incômoda confluência entre a ameaça efetiva e o símbolo funesto, toda a vida me quis um pacifista. Agora penso nessas armas e não entendo a euforia que sinto, a vaidade que me acomete, como se a biografia do meu pai em mim se investisse: sou o filho orgulhoso de um guerrilheiro de esquerda e isso em parte me justifica, isso redime minha própria inércia, isso me insere precariamente numa linhagem de inconformistas.»

Que esse inconformismo perpasse gerações. Com armas ou com argumentos os tempos necessitam disso.

alc

sexta-feira, julho 23, 2010

Avanço de Temporada: Florencia Abbate e Ricardo Romero na Deriva



Em Setembro, na Deriva, Florencia Abbate, com Magic Resort e Ricardo Romero, com Ninguna Parte

Florencia Abbate nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de Dezembro  de  1976. Licenciada em Letras pela
Universidad de Buenos Aires - UBA, é jornalista cultural e autora dos romances  El Grito e Magic Resort.


Florencia Abbate es una de las escritoras más jóvenes y prolíficas del panorama literario actual. Supo desde fines de los años noventa, proyectar con sus libros un claro ajuste entre la búsqueda experimental y el empleo de formas clásicas. Sin ser netamente rupturista, Abbate es una autora posmoderna. Así lo definen algunos de los conceptos esenciales del posmodernismo como: la indeterminación, la incertidumbre y sobre todo la fragmentación que constituyen algunos aspectos medulares de su narrativa. La autora de El grito recurre a estos y otros elementos, para desarrollar sus personajes y modos de escritura con notable fluidez. El resultado es admirable, dado que su prosa articula el pensamiento de nuestra época. Ecléctico, vertiginoso, tecnocrático; y lo transcribe en una suerte de “realismo delirante”, como ella lo prefiere definir. De este modo, sus libros revelan las múltiples capas que estructuran los vínculos humanos actuales, en una era de constantes transformaciones. La literatura de Florencia Abbate es un audaz espejo que pone al descubierto con objetividad las deficiencias de la moral contemporánea. (continua)


Entrevista a Florencia Abbate   aqui.




Ricardo Romero nasceu no Paraná, em 1976. Licenciado em Letras pela Universidade de Córdoba, vive, actualmente, em Buenos Aires. Ninguna Parte é o seu primeiro romance. Dirige a revista literária Oliverio.
Em 2006, publicou um livro de contos, Tantas Noches como sean necesarias. Em 2008 publicou El síndrome de Rasputín e este ano Los bailarines del fin del mundo,  obras de vivem nas margens do    fantástico, do absurdo e do policial.

"El silencio y la calma del desierto sólo eran interrumpidos por el chasquido de su encendedor. Lo encendía y lo ponía frente a sus ojos esperando que el viento lo apagara. Cuando el viento lo apagaba volvía a encenderlo y la llama se alzaba por un instante, vibrando en su anaranjada transparencia, hasta que la brisa la apagaba otra vez. "Tal Vez debería comprarme una pipa" se dijo Mauricio, "dicen que es una buena forma de dejar de fumar". Esto era lo que Mauricio se decía. En tanto, todo el desierto parecía estar esperando que su encendedor se quedara sin gas".
Entrevistas a Ricardo Romero aqui e aqui.

Tradução de Patrícia Gomes.