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sexta-feira, agosto 26, 2011

Ler é, ainda, o melhor remédio: duas sugestões da Argentina.

Ler ainda é o melhor remédio... Aqui na Deriva, propomos-lhe que vá umas horas até um Magic Resort ou então que escape para Nenhum Lugar. Vale a pena evadir-se, lendo.



Ele adorava andar por diferentes lugares. A vida sedentária era algo que tinha abandonado há muito tempo, e ter de dar explicações parecia-lhe deplorável. As suas viagens duravam um mês, e no princípio contar com esse tempo de solidão resultava-me agradável e produtivo. Estavam a encarregar-me boas traduções e trabalhava com prazer. Tomava o pequeno-almoço no escritório, saia a passear durante a tarde, e voltava a traduzir até de madrugada. Além disso, parecia-me excitante esperar o reencontro e deixar que me sequestrasse de férias quando chegava.
 Um ano depois, tinha a impressão que os meus dias eram mais solitários do que tinha desejado. Comentei um par de vezes a Marcia o meu descontentamento, e conseguiu convencer-me a começar uma terapia. Escolhi um psicanalista que me disse para ir duas vezes por semana. Nunca me senti cómoda no divã. Costumava perder-me num rosário de anedotas infrutíferas, ou então cansava-me do silêncio e adormecia. Uma vez acordei sobressaltada, vociferando que me afundava num lugar que não desejava. Vá-se lá saber o que interpretou, mas foi a sua melhor intervenção. Descruzou as pernas e disse-me: “Compre um caderno e escreva o que quiser. Trabalharemos com esse material. [Magic Resort, Florencia Abbate]


- Chamo-me Mauricio e tenho vinte e sete anos, e amanhã vou rir-me disto tudo, que me chamo Mauricio e tenho vinte e sete anos.

Antes de acabar a frase Mauricio percebeu que tentar tranquilizar-se falando não tinha sido uma boa ideia. No silêncio da noite escutou a sua voz, e foi-lhe tão estranha, tão alheia, que a custo pode controlar o impulso de abrir a porta e afastar-se a correr do carro. Num segundo conseguiu pensar, “não devo correr, não devo correr”, e com a mão na fechadura viu-se fugindo com grandes passadas, sem correr, caminhando a alta velocidade, o corpo duro e torpe tentando acelerar o passo sem desatar a correr. Ainda com a mão na fechadura, foi invadido por um ataque de riso. Riu-se durante vários minutos e, quando pode por fim controlar-se, descobriu-se cansado e sem medo. Talvez agora pudesse voltar a dormir, pensou, enquanto fechava a janela porque começava a sentir o frio." [Nenhum Lugar, Ricardo Romero]

quinta-feira, julho 28, 2011

Cabem num bolso: Magic Resort (Florencia Abbate) e Nenhum Lugar (Ricardo Romero)

 Nenhum Lugar, de Ricardo Romero e Magic Resort, de Florencia Abbate já chegaram.
Para sua comodidade peça-os aqui.
Excerto de  Nenhum Lugar, de Ricardo Romero
«Acordou ao ouvir o silêncio. Entreabriu os olhos, depois abriu-os completamente, mas a claridade continuava sem aparecer. Primeiro avistou as casas, e só ao vê-las soube que tinham parado. As casas estavam aí, feitas de uma quietude negra, do outro lado da rua, demasiado próximas. A ausência do barulho do motor provocava-lhe uma certa angústia, mais ainda que a que lhe podia provocar a ausência do taxista. Por instinto procurou a mochila. Estava aí, continuava pousava perto dos seus pés. Abriu-a e comprovou que não lhe faltava nada. Voltou a olhar para as casas e sentiu-se intimidado. Não se atrevia a sair do táxi. Ainda era de noite e isso não lhe agradava, não lhe podia agradar. Por alguma razão, a noite era ainda mais escura agora, embora a Mauricio não lhe parecesse que houvesse menos estrelas. Mas podia sequer ter a certeza de que era a mesma noite? Procurou a la e não a encontrou. Quis saber que horas eram, mas não conseguiu ver nada no seu relógio de pulso. Em toda a rua só um candeeiro estava aceso, a mais de dois quarteirões de distância.»
 Excerto de  Magic Resort, de Florencia Abbate
«Uma enfermeira jovem contou-me que tinha estado em coma. Olhou-me, boquiaberta, quando lhe disse que me sentia incrivelmente bem, sem nenhuma ressaca, forte, como nunca…
Os médicos não me deram nenhuma esperança. E os meus pais por pouco não desmaiaram porque entraram e me viram a procurar a mochila. O meu pai conseguiu que me dessem alta ao meio-dia. A minha mãe lacrimejou de alegria ao constatar que conseguia descer as escadas do hospital sem ajuda. Eu estava morto de fome e propus um restaurante. Levaram-me a almoçar a esse lugar e fizeram-me as vontades o tempo todo. Até chegarmos a casa mantivemos conversas graciosas e calorosas. Depois, a alegria provocada pela bela surpresa da minha ressurreição foi relegada para segundo plano. O que mais lhes importava era averiguar o motivo da minha tentativa de suicídio.»

quarta-feira, julho 27, 2011

Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]



Começa assim Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]
Já disponível nas livrarias e aqui.

"Deitado no assento traseiro do táxi, sentido o suave tremor do carro nas costas, Mauricio olha o teto e escuta. Dormiu, dorme, está quase a dormir. Na rádio ouve-se, débil, com dificuldade, uma canção melancólica e ligeira.
“Roxanne, you don’t have to put on the red light
those days are over
you don’t have to sell your body to the night
Roxanne ...”
Onde estava? Ou devia perguntar-se, onde ia? A música dava-lhe voltas à cabeça, aprisionando-o num suave refúgio de sonolência e dilação. Doíam-lhe as costas e as pernas, mas não chegava a pensar nisso. No teto dançavam sombras, figuras evanescentes e sem sentido, de uma realidade ameaçadora e vazia. Pela janela, pelo contrário, via-se um troço de céu estrelado, simultaneamente escuro e resplandecente. Respirou fundo. Fechou os olhos, sentia-se confuso, e desejou não pensar nessas coisas. Em que coisas? Em que é que estava a pensar? Voltou a abrir os olhos, pestanejou duas ou três vezes. Demorou algum tempo a compreender que estava acordado e que nesse carro havia demasiadas coisas que ele não sabia identificar. Uma delas era a canção, mas certamente não era a mais importante. Como sabia que estava num táxi? E porque é que não devia sabê-lo? Além disso, porque lhe parecia tão urgente acordar de todo?

Na penumbra do táxi e da noite, Mauricio viu por fim a nuca do taxista, examinou o desenho negro e largo do seu dorso, perguntou-se porque dizia dorso e não costas, seguiu o recorte preciso e revolto da sua cabeça, e ao endireitar-se no banco avistou o balançar impercetível das suas mãos sobre o volante. Estava num táxi e sabia-o, isso já parecia ser alguma coisa. Olhou à sua volta através das janelas e viu a noite, e na noite, o deserto esbranquiçado na distância. Procurou a lua, e não a encontrando sentiu-se inibido. O carro avançava em linha reta e o taxista não parecia ter-se dado conta que o passageiro tinha acordado. Mauricio olhou a estrada à sua frente, o asfalto iluminado pelas luzes do carro, talvez também um pouco mais além, sobre o cinzento claro e apagado que se estendia, interminável, debaixo do fulgor pálido do céu noturno. As riscas brancas seguiam-se uma após outra debaixo do feixe de luz e desapareciam debaixo do táxi. Mauricio teria preferido não as ter visto, mas já parecia ser demasiado tarde. Disse para si que era possível não lhes prestar atenção, olhando então para a estrada sem a ver, apenas por hábito, escutando a rádio que cada vez se ouvia pior. O desconforto que lhe provocavam essas riscas não se desprendia delas, estava ali, sem origem, e não valia a pena tentar persegui-la. Para as deixar de lado pousou o olhar nos postes torcidos de arame dos dois lados da estrada, mas também eles tinham a sua própria sucessão de melancolias sem nome, que se desfaziam uma e outra vez em sombras fugazes e caladas.

Sem saber muito bem o que fazer, aproximou-se da janela e perscrutou a paisagem para lá da estrada. A noite era clara e ele podia ver uma grande extensão de arbustos baixos e pastagens ralas sacudidas pelo vento. Era uma paisagem plana, onde só se destacavam umas elevações escuras que pouco se diferenciavam do céu na linha do horizonte. Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Mauricio, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.

“rrr...roxanne...rrrrrr...”

A estática da rádio, pouco a pouco, ia deixando atrás a música, que parecia perder-se na obscuridade da estrada que iam percorrendo. Com o olhar perdido na imensidão plana da paisagem Mauricio perguntou-se pela primeira, ou talvez pela segunda vez, para onde estavam a ir. Olhando através da janela, sentindo agora o cansaço das pernas de tanto estar sentado, acabou por perceber a sua confusão. Deviam levar bastante tempo a viajar. Isso era bom ou mau? Não sabia, e a única coisa que parecia preocupá-lo nesse momento era que a música não desaparecesse, que não o deixasse sozinho com o taxista e com a estática. Porque era isso tão importante para ele? E que havia de mau em que fosse tão importante?

Acomodou-se no banco para confrontar o taxista, mas ao fazê-lo tropeçou com uma mochila que estava a seus pés. Era uma mochila preta com o fecho estragado, e antes de a abrir Mauricio já sabia o que continha. Dois pares de meias, dois pares de boxers, duas t-shirts, uma camisa, um pulôver cinzento com decote redondo, uma escova de dentes recém-comprada, papel higiénico, um isqueiro vermelho, uma edição maltratada de Macbeth e uma lanterna. Abriu-a, revistou-a. Não se tinha enganado, e a sua exatidão incomodou-o. Para que queria uma lanterna? Guardou o isqueiro num bolso das calças porque esse é o lugar que pertence aos isqueiros. Tirou o livro, segurou-o entre as mãos, amarelado, certamente roubado, unido apenas por pedaços de fita-cola preta. Na obscuridade do táxi não era possível ler, mas de todas as formas ele sabia das mulheres feias e disformes que falavam de um bosque em movimento que era portador da morte. A morte, isso não era algo em que ele pensasse muitas vezes. Pela janela voltou a contemplar a noite, o deserto, e aceitou vagamente que o que se movia era ele, entre extensões de vento e areia. Devolveu o livro à mochila, dizendo-se que tudo era possível e não pensou mais nisso."



sexta-feira, maio 06, 2011

Cabem num bolso: Magic Resort (Florencia Abbate) e Nenhum Lugar (Ricardo Romero)

 Nenhum Lugar, de Ricardo Romero e Magic Resort, de Florencia Abbate já chegaram.
Para sua comodidade peça-os aqui.
Excerto de  Nenhum Lugar, de Ricardo Romero
«Acordou ao ouvir o silêncio. Entreabriu os olhos, depois abriu-os completamente, mas a claridade continuava sem aparecer. Primeiro avistou as casas, e só ao vê-las soube que tinham parado. As casas estavam aí, feitas de uma quietude negra, do outro lado da rua, demasiado próximas. A ausência do barulho do motor provocava-lhe uma certa angústia, mais ainda que a que lhe podia provocar a ausência do taxista. Por instinto procurou a mochila. Estava aí, continuava pousava perto dos seus pés. Abriu-a e comprovou que não lhe faltava nada. Voltou a olhar para as casas e sentiu-se intimidado. Não se atrevia a sair do táxi. Ainda era de noite e isso não lhe agradava, não lhe podia agradar. Por alguma razão, a noite era ainda mais escura agora, embora a Mauricio não lhe parecesse que houvesse menos estrelas. Mas podia sequer ter a certeza de que era a mesma noite? Procurou a la e não a encontrou. Quis saber que horas eram, mas não conseguiu ver nada no seu relógio de pulso. Em toda a rua só um candeeiro estava aceso, a mais de dois quarteirões de distância.»
 Excerto de  Magic Resort, de Florencia Abbate
«Uma enfermeira jovem contou-me que tinha estado em coma. Olhou-me, boquiaberta, quando lhe disse que me sentia incrivelmente bem, sem nenhuma ressaca, forte, como nunca…
Os médicos não me deram nenhuma esperança. E os meus pais por pouco não desmaiaram porque entraram e me viram a procurar a mochila. O meu pai conseguiu que me dessem alta ao meio-dia. A minha mãe lacrimejou de alegria ao constatar que conseguia descer as escadas do hospital sem ajuda. Eu estava morto de fome e propus um restaurante. Levaram-me a almoçar a esse lugar e fizeram-me as vontades o tempo todo. Até chegarmos a casa mantivemos conversas graciosas e calorosas. Depois, a alegria provocada pela bela surpresa da minha ressurreição foi relegada para segundo plano. O que mais lhes importava era averiguar o motivo da minha tentativa de suicídio.»

domingo, março 06, 2011

O melhor sítio: "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero




«O silêncio e a calma do deserto só eram interrompidos pelo chispar do seu isqueiro. Acendia-o e colocava-o em frente dos olhos esperando que o vento o apagasse. Quando o vento o apagava, voltava a acendê-lo e a chama elevava-se por um instante, vibrando na sua alaranjada transparência, até que a brisa o fazia desaparecer outra vez. «Talvez devesse comprar um cachimbo» – pensou Maurício, «dizem que é uma boa maneira de deixar de fumar». Isto era o que Maurício pensava. Entretanto, todo o deserto parecia estar à espera que o seu isqueiro ficasse sem gás. Nenhum Lugar, de Ricardo Romero

Comprar aqui.



quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Apresentação de "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero, nas Correntes d'Escritas


Ricardo Romero participa amanhã na 3.ª mesa de Correntes d'Escritas  -“A minha arte é uma espécie de pacto”, moderada por Rui Zink. Depois, às 17:00, apresentação se Nenhum Lugar na Casa da Juventude. 


Ricardo Romero nasceu, em 1976, no Paraná, Entre Ríos, na Argentina. É licenciado em Letras Modernas pela Universidade Nacional de Córdova e, desde 2002, vive em Buenos Aires. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, Ninguna Parte (Nenhum Lugar, nesta edição que a Deriva Editores agora publica) e, a partir desse mesmo ano, dirigiu a revista Oliverio. No ano de 2006 publicou o seu primeiro livro de contos, Tantas noches como sean necesarias. Em 2007, vários dos seus contos foram editados em diversas antologias dedicadas aos novos autores argentinos. Em 2008, publicou o romance El síndrome de Rasputín, primeira parte do que chama a sua «Ticlogía». A segunda parte desta saga, Los bailarines del fin del mundo, foi publicada em 2009. É igualmente editor da Gárgola Ediciones, onde dirige a colecção “Laura Palmer no ha muerto” e de Negro Absoluto, colecção de policiais dirigida por Juan Sasturain. Desde 2006, é um dos integrantes de El Quinteto de la Muerte, grupo com o qual editou este ano os livros5 (La Propia Cantonera, Uruguai) e La fiesta de la narrativa (Editorial Una Ventana, Buenos Aires). Coordena a Taller de Algo juntamente com Federico Levín. Em Março de 2011, a Editorial Norma publicará o seu romance Perros de la Lluvia.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Correntes D'Escritas, Ricardo Romero, 24 de Fevereiro



dia 24        Quinta-feira

15h00    3ª Mesa: “A minha arte é uma espécie de pacto” | Auditório Municipal da Póvoa de Varzim
David Toscana
Juva Batella
Luís Represas
Manuel Jorge Marmelo
Mário Lúcio Sousa
Ricardo Romero
Rui Zink – moderador

17h00              Lançamento de Livros | Casa da Juventude 
Nenhum Lugar, Ricardo Romero, Deriva
                      



quinta-feira, janeiro 27, 2011

Ricardo Romero nas Correntes d'Escritas 2011

A presença de Ricardo Romero nas Correntes D'Escritas de 2011 está confirmada. Uma oportunidade para conhecer o autor de "Nenhum Lugar" publicado pela Deriva e traduzido por Patrícia Louro.

Ricardo Romero nasceu no Paraná, em 1976. Licenciado em Letras pela Universidade de Córdoba, vive, actualmente, em Buenos Aires. Ninguna Parte é o seu primeiro romance. Dirige a revista literária Oliverio.


Em 2006, publicou um livro de contos, Tantas Noches como sean necesarias. Em 2008 publicou El síndrome de Rasputín e em  2010, Los bailarines del fin del mundo, obras de vivem nas margens do fantástico, do absurdo e do policial.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Escape à crise, lendo

Ler ainda é o melhor remédio... Aqui na Deriva, propomos-lhe que vá umas horas até um Magic Resort ou então que escape para Nenhum Lugar. Vale a pena evadir-se, lendo.



Ele adorava andar por diferentes lugares. A vida sedentária era algo que tinha abandonado há muito tempo, e ter de dar explicações parecia-lhe deplorável. As suas viagens duravam um mês, e no princípio contar com esse tempo de solidão resultava-me agradável e produtivo. Estavam a encarregar-me boas traduções e trabalhava com prazer. Tomava o pequeno-almoço no escritório, saia a passear durante a tarde, e voltava a traduzir até de madrugada. Além disso, parecia-me excitante esperar o reencontro e deixar que me sequestrasse de férias quando chegava.
 Um ano depois, tinha a impressão que os meus dias eram mais solitários do que tinha desejado. Comentei um par de vezes a Marcia o meu descontentamento, e conseguiu convencer-me a começar uma terapia. Escolhi um psicanalista que me disse para ir duas vezes por semana. Nunca me senti cómoda no divã. Costumava perder-me num rosário de anedotas infrutíferas, ou então cansava-me do silêncio e adormecia. Uma vez acordei sobressaltada, vociferando que me afundava num lugar que não desejava. Vá-se lá saber o que interpretou, mas foi a sua melhor intervenção. Descruzou as pernas e disse-me: “Compre um caderno e escreva o que quiser. Trabalharemos com esse material. [Magic Resort, Florencia Abbate]

- Chamo-me Mauricio e tenho vinte e sete anos, e amanhã vou rir-me disto tudo, que me chamo Mauricio e tenho vinte e sete anos.

Antes de acabar a frase Mauricio percebeu que tentar tranquilizar-se falando não tinha sido uma boa ideia. No silêncio da noite escutou a sua voz, e foi-lhe tão estranha, tão alheia, que a custo pode controlar o impulso de abrir a porta e afastar-se a correr do carro. Num segundo conseguiu pensar, “não devo correr, não devo correr”, e com a mão na fechadura viu-se fugindo com grandes passadas, sem correr, caminhando a alta velocidade, o corpo duro e torpe tentando acelerar o passo sem desatar a correr. Ainda com a mão na fechadura, foi invadido por um ataque de riso. Riu-se durante vários minutos e, quando pode por fim controlar-se, descobriu-se cansado e sem medo. Talvez agora pudesse voltar a dormir, pensou, enquanto fechava a janela porque começava a sentir o frio." [Nenhum Lugar, Ricardo Romero]

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Livros que cabem num bolso...

 Nenhum Lugar, de Ricardo Romero e Magic Resort, de Florencia Abbate já chegaram.
Para sua comunidade peça-os aqui.

Excerto de  Nenhum Lugar, de Ricardo Romero
«Acordou ao ouvir o silêncio. Entreabriu os olhos, depois abriu-os completamente, mas a claridade continuava sem aparecer. Primeiro avistou as casas, e só ao vê-las soube que tinham parado. As casas estavam aí, feitas de uma quietude negra, do outro lado da rua, demasiado próximas. A ausência do barulho do motor provocava-lhe uma certa angústia, mais ainda que a que lhe podia provocar a ausência do taxista. Por instinto procurou a mochila. Estava aí, continuava pousava perto dos seus pés. Abriu-a e comprovou que não lhe faltava nada. Voltou a olhar para as casas e sentiu-se intimidado. Não se atrevia a sair do táxi. Ainda era de noite e isso não lhe agradava, não lhe podia agradar. Por alguma razão, a noite era ainda mais escura agora, embora a Mauricio não lhe parecesse que houvesse menos estrelas. Mas podia sequer ter a certeza de que era a mesma noite? Procurou a la e não a encontrou. Quis saber que horas eram, mas não conseguiu ver nada no seu relógio de pulso. Em toda a rua só um candeeiro estava aceso, a mais de dois quarteirões de distância.»
 Excerto de  Magic Resort, de Florencia Abbate


«Uma enfermeira jovem contou-me que tinha estado em coma. Olhou-me, boquiaberta, quando lhe disse que me sentia incrivelmente bem, sem nenhuma ressaca, forte, como nunca…
Os médicos não me deram nenhuma esperança. E os meus pais por pouco não desmaiaram porque entraram e me viram a procurar a mochila. O meu pai conseguiu que me dessem alta ao meio-dia. A minha mãe lacrimejou de alegria ao constatar que conseguia descer as escadas do hospital sem ajuda. Eu estava morto de fome e propus um restaurante. Levaram-me a almoçar a esse lugar e fizeram-me as vontades o tempo todo. Até chegarmos a casa mantivemos conversas graciosas e calorosas. Depois, a alegria provocada pela bela surpresa da minha ressurreição foi relegada para segundo plano. O que mais lhes importava era averiguar o motivo da minha tentativa de suicídio.»

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]



Começa assim Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]
Já disponível nas livrarias e aqui.

"Deitado no assento traseiro do táxi, sentido o suave tremor do carro nas costas, Mauricio olha o teto e escuta. Dormiu, dorme, está quase a dormir. Na rádio ouve-se, débil, com dificuldade, uma canção melancólica e ligeira.

“Roxanne, you don’t have to put on the red light
those days are over
you don’t have to sell your body to the night
Roxanne ...”

Onde estava? Ou devia perguntar-se, onde ia? A música dava-lhe voltas à cabeça, aprisionando-o num suave refúgio de sonolência e dilação. Doíam-lhe as costas e as pernas, mas não chegava a pensar nisso. No teto dançavam sombras, figuras evanescentes e sem sentido, de uma realidade ameaçadora e vazia. Pela janela, pelo contrário, via-se um troço de céu estrelado, simultaneamente escuro e resplandecente. Respirou fundo. Fechou os olhos, sentia-se confuso, e desejou não pensar nessas coisas. Em que coisas? Em que é que estava a pensar? Voltou a abrir os olhos, pestanejou duas ou três vezes. Demorou algum tempo a compreender que estava acordado e que nesse carro havia demasiadas coisas que ele não sabia identificar. Uma delas era a canção, mas certamente não era a mais importante. Como sabia que estava num táxi? E porque é que não devia sabê-lo? Além disso, porque lhe parecia tão urgente acordar de todo?

Na penumbra do táxi e da noite, Mauricio viu por fim a nuca do taxista, examinou o desenho negro e largo do seu dorso, perguntou-se porque dizia dorso e não costas, seguiu o recorte preciso e revolto da sua cabeça, e ao endireitar-se no banco avistou o balançar impercetível das suas mãos sobre o volante. Estava num táxi e sabia-o, isso já parecia ser alguma coisa. Olhou à sua volta através das janelas e viu a noite, e na noite, o deserto esbranquiçado na distância. Procurou a lua, e não a encontrando sentiu-se inibido. O carro avançava em linha reta e o taxista não parecia ter-se dado conta que o passageiro tinha acordado. Mauricio olhou a estrada à sua frente, o asfalto iluminado pelas luzes do carro, talvez também um pouco mais além, sobre o cinzento claro e apagado que se estendia, interminável, debaixo do fulgor pálido do céu noturno. As riscas brancas seguiam-se uma após outra debaixo do feixe de luz e desapareciam debaixo do táxi. Mauricio teria preferido não as ter visto, mas já parecia ser demasiado tarde. Disse para si que era possível não lhes prestar atenção, olhando então para a estrada sem a ver, apenas por hábito, escutando a rádio que cada vez se ouvia pior. O desconforto que lhe provocavam essas riscas não se desprendia delas, estava ali, sem origem, e não valia a pena tentar persegui-la. Para as deixar de lado pousou o olhar nos postes torcidos de arame dos dois lados da estrada, mas também eles tinham a sua própria sucessão de melancolias sem nome, que se desfaziam uma e outra vez em sombras fugazes e caladas.

Sem saber muito bem o que fazer, aproximou-se da janela e perscrutou a paisagem para lá da estrada. A noite era clara e ele podia ver uma grande extensão de arbustos baixos e pastagens ralas sacudidas pelo vento. Era uma paisagem plana, onde só se destacavam umas elevações escuras que pouco se diferenciavam do céu na linha do horizonte. Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Mauricio, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.

“rrr...roxanne...rrrrrr...”

A estática da rádio, pouco a pouco, ia deixando atrás a música, que parecia perder-se na obscuridade da estrada que iam percorrendo. Com o olhar perdido na imensidão plana da paisagem Mauricio perguntou-se pela primeira, ou talvez pela segunda vez, para onde estavam a ir. Olhando através da janela, sentindo agora o cansaço das pernas de tanto estar sentado, acabou por perceber a sua confusão. Deviam levar bastante tempo a viajar. Isso era bom ou mau? Não sabia, e a única coisa que parecia preocupá-lo nesse momento era que a música não desaparecesse, que não o deixasse sozinho com o taxista e com a estática. Porque era isso tão importante para ele? E que havia de mau em que fosse tão importante?

Acomodou-se no banco para confrontar o taxista, mas ao fazê-lo tropeçou com uma mochila que estava a seus pés. Era uma mochila preta com o fecho estragado, e antes de a abrir Mauricio já sabia o que continha. Dois pares de meias, dois pares de boxers, duas t-shirts, uma camisa, um pulôver cinzento com decote redondo, uma escova de dentes recém-comprada, papel higiénico, um isqueiro vermelho, uma edição maltratada de Macbeth e uma lanterna. Abriu-a, revistou-a. Não se tinha enganado, e a sua exatidão incomodou-o. Para que queria uma lanterna? Guardou o isqueiro num bolso das calças porque esse é o lugar que pertence aos isqueiros. Tirou o livro, segurou-o entre as mãos, amarelado, certamente roubado, unido apenas por pedaços de fita-cola preta. Na obscuridade do táxi não era possível ler, mas de todas as formas ele sabia das mulheres feias e disformes que falavam de um bosque em movimento que era portador da morte. A morte, isso não era algo em que ele pensasse muitas vezes. Pela janela voltou a contemplar a noite, o deserto, e aceitou vagamente que o que se movia era ele, entre extensões de vento e areia. Devolveu o livro à mochila, dizendo-se que tudo era possível e não pensou mais nisso."

[continua....]


quarta-feira, setembro 15, 2010

Literatura Argentina: "Magic Resort" de Florencia Abbate e "Nenhum Lugar" de Ricardo Romero



"Magic Resort" de Florencia Abbate e "Nenhum Lugar" de Ricardo Romero estão quase, quase a chegar.




Florencia Abbate nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de Dezembro  de  1976. Licenciada em Letras pela Universidad de Buenos Aires - UBA, é jornalista cultural e autora dos romances "El Grito" e "Magic Resort".
Ricardo Romero nasceu no Paraná, em 1976. Licenciado em Letras pela Universidade de Córdoba, vive, actualmente, em Buenos Aires. Ninguna Parte é o seu primeiro romance. Dirige a revista literária Oliverio. Em 2006, publicou um livro de contos, Tantas Noches como sean necesarias.  Patrícia Gomes, que esteve até há pouco em Buenos Aires e vive actualmente em Barcelona fará a tradução para o português.

quinta-feira, julho 29, 2010