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sábado, novembro 07, 2020

«Anjos do Desespero», livro-catálogo de António Luís Catarino




A exposição Anjos do Desespero, concebida no Porto e em Coimbra entre 2016 e 2018, contém um conjunto de desenhos que pretende mostrar-nos estes anjos enquanto mensageiros, como diria Llansol, que fizeram a modernidade e a contemporaneidade. A sua existência reflectirá nas pessoas interpretações que só lhes cabe a elas verem. Porque é possível «ver» um desenho colectivamente. Não será possível «ver» um livro da mesma forma. As escritas que enformam os desenhos são a tentativa não de uma explicação obviamente absurda, mas de uma recusa da individualização de uma única forma e o desejo de as entrecruzar. Daí, o processo das leituras que acompanham os desenhos/colagens, realizadas por amigos, que tiveram lugar na apresentação pública da exposição no Liquidâmbar (Coimbra), em 14 de Maio de 2018. Os Anjos do Desespero, tal como Paul Klee os pintou, como Heiner Müller fez deles poemas, e Wim Wenders os filmou em As Asas do Desejo, são aqueles que, apesar de tudo, rejeitam a imortalidade porque exigem a Vida total, exaltam uma liberdade pura e tentam enlouquecer-nos, como uma saída possível, para que acabemos com o sofrimento contínuo de uma vida quotidiana sem senso. Müller avisa-nos: Eu sou o anjo do desespero, com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. Substituindo o silêncio e o ruído destes desenhos figurativos a carvão, aguarelados e contornados a tinta-da-china, sobrelevam-se as colagens e as palavras. Porque só as colagens interagem com o impossível, com o absurdo, com o non-sense. Daí a sua importância unificadora e congruente. Produzem todas, no seu cruzamento simbólico, o vácuo. Esse grande vácuo por onde voam estes anjos desesperados, vívidos.

António Luís Catarino

Coimbra 5de Novembro de 2020

 Texto de apresentação
5.      Cartaz da exposição
7.      Leitura 1 – Heiner Müller, leitura de Rui Damasceno, «O Anjo de Desespero», Relógio d’Água.
8.      Desenho 1
9.      Leitura 2 – Isidore Ducasse / Conde de Lautréamont, leitura de António Alves Marins, «Os Cantos de Maldoror», Antígona.
10. Desenho 2
11. Leitura 3 – Guy Debord, leitura de António Alves Martins, «A Sociedade do Espectáculo», mobilis in mobile.
12. Desenho 3
13. Leitura 4 – Charles Baudelaire, leitura de Maria João Seabra Santos, «O Rapaz Raro», Relógio d’Água.
14. Desenho 4
15. Leitura 5 – Asger Jorn, leitura de Manuel Rocha, «A Roda da Fortuna», Frenesi.
16. Desenho 5
17. Leitura 6 – Alfred Jarry, leitura de Rui Damasceno, «UBU», Campo das Letras.
18. Desenho 6
19. Leitura 7 – Raoul Vaneigem, leitura de João Pedro Gonçalves, «Aviso aos alunos do Básico e do Secundário», Antígona.
20. Desenho 7
21. Leitura 8 – Ulrike Meinhof, leitura de João Moreira, «Everybody Talks About the Weather . . . We Don't: The Writings of Ulrike Meinhof», Seven Stories Press.
22. Desenho 8
23. Leitura 9 – Hanna Arendt, leitura de Sílvia Franklin, «As Origens do Totalitarismo», D. Quixote.
24. Desenho 9
25. Leitura 10 – Wallace Stevens, leitura de Sílvia Franklin, «Antologia», Relógio D’Água.
26. Desenho 10

   O preço da edição de autor é de 12 euros.

NIB: PT50003502390000097490077


não te esquecendo de avisar para alcatarino3@gmail.com ou pelo Messenger quando fizeres a transferência e enviares-me por mail o teu endereço.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Run, run, Roy Batty


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Todos os teus companheiros foram abatidos
Roy Batty
e as tuas lágrimas fundiram-se com a chuva que então caía
copiosamente, na cidade elétrica de néon sujo.
O teu ricto era cínico, mesmo que uma pomba
(mau presságio)
te viesse afagar os cabelos platinados
de um Replicant binário, que era o que tu
verdadeiramente eras.
Na tentativa vã de trespassar crivos
e sentires vida na tua mão,
donde só brotava um gel escurecido
procuravas matar o teu código final.
A ti a quem chamaram robô de combate
e tal como o Homem matou o seu Deus
foste engolido pela rede de falsos neurónios
substituindo os deuses por chips que
nos ligam ao panóptico que tudo vigia
menos a ti Roy Batty
assassino a quem uma pomba afagou o cabelo.
Na hora do fim, entregaste a tua virtual plenitude
e ainda amaste uma mulher, comandada à distância
mortalmente útil, baleada pelas costas numa chuva 
de vidros reluzentes.
Foste tu Roy Batty que mataste o teu criador cibernético
não sem antes
o cegares como a Édipo Rei, com os teus próprios
dedos ainda não quebrados.
A eletrónica erradicou qualquer replicante
e já não há espaço para a revolta, como tu sabes, aliás.
Só para sentires a dor que tentaste cravar, sem
dares por isso, na tua própria mão
imitando a mesma mão de Cristo
cuja dor tentou cimentar o mundo.
A tua analgesia libertou-te do assassínio
que cometias regularmente com justiça e prazer
e querias tu, encontrar o doce regular
do tempo, quando já só havia vazio,
sexo e dinheiro extraordinário.
Sentiste então que os homens mataram-No
que o substituíram pela usura e pelo humanismo
de uma enxurrada de mortos, estropiados e loucos.
Na deriva da tua demanda
provavelmente viste o nome de um amor
descer irremediavelmente na lista de contactos
de uma comunicação de bolso de dois chips
que tento envolver na minha mão
para sentir a réplica de ainda estar vivo.

António Luís Catarino
Porto, Café Célia, 8 de abril de 2015