sexta-feira, julho 07, 2006

A Segunda Vida de Djon de Nha Bia, de Nuno Rebocho, vai ser editado pela Deriva


Pintura colectiva em acrílico e esmalte sobre tela, obra de Marcos Vinícius de Azevedo, José Carlos Salvador e Paulo José Azevedo de Oliveira, usuários do Centro de Convivência Carlos Prates, Belo Horizonte. - História Africana

Um livro de ficção de registo africano de uma ironia e humor incomparáveis. O Nuno vai editar na Deriva. Sem querer levantar totalmente o véu, aqui vos apresentamos o início de uma obra que vai mexer connosco.

«1. Como Djon acordou morto e foi despercebido pela tabanka

Quando a carapinha emergiu do caixão, Djon percebeu que estava morto. Fora da sala era a rua e de lá vinha a batida da tabanka, oca e ondeada, e uma voz narradora. O cheiro das velas que mordiam o escuro escondia a presença do grogue agarrado pelos demónios estonteados, cada um mais amarfanhado pelo sono profundo a empurrar as horas pela noite adentro. Estranhou Djon que a morte trouxesse tanto calor e alargou a gravata apertada no pescoço, a gravata que em vida dispensara. E sentou-se. Então espreitou em volta para descobrir nas sombras bailantes as presenças que o velavam. Eram três.
Bitxu, albino, o dos sete machins, contados em cada corpo que rachara em Achada Boi e no Mangal e em Ponta Purga, por onde saias de mulheres o rabindaram a vender amor tão grande como o seu nariz e tão dilatado como os olhos que lhe descabiam na cara. Por isso dispensava amigos abusantes da branquidão dele, que preto tão alvo era mão do diabo, assim diziam. E tchutchinha escapulia dos seus ardores, que preferia o negro-negro ou o mulato ao pele de ferida que ele era, tão sem graça. Em consequência, Bitxu matara e matara, terror da montanha parida naquela Ilha Desbarbada, montanha para onde escarpava a cada golpe do machim dos terrores e de onde regressava quando a memória cicatrizava, a visitar velórios que lhe cumpriam a sede e o abrigo. (...)»

Início do Cap.I de A Segunda Vida de Djon de Nha Bia, de Nuno Rebocho.

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