Antígona, 2018. Tradução do russo de Galina Mitrohovitch. Prefácio de Júlio Henriques.
Ao ler Dovlatov recordei-me, talvez de uma forma um pouco abusiva, de uma sessão de «Lágrimas e Suspiros», de Bergman, completamente truncada pela censura que fez com que o público do teatro Gil Vicente apupasse ruidosamente, não o filme em si que adivinhávamos ser uma obra de arte, mas a condição paupérrima e ridícula, sem nenhum sentido, com que foi apresentada tal exibição. Em 1973, as pessoas exasperavam-se perante o «exame» a que foi votado o filme pelo governo da «evolução na continuidade» de um país adiado. Pelo menos por mais um ano. Assim terá sido, provavelmente, a experiência de Dovlatov e de outros escritores que viam sistematicamente negada a publicação dos seus escritos na União Soviética de Brejnev e Andropov. Com uma ressalva: na grande maioria dos casos as recensões da União de Escritores eram mais do que satisfatórias sendo que, no último parágrafo vinha plasmada, com falsa tristeza, a impossibilidade de publicação. Dovlatov já procurava ler somente esse derradeiro parágrafo que se repetia por anos a fio até que, suponho que desesperadamente ousado, teve de se deslocar à sede da polícia política, na Lubianka, para que lhe devolvessem o manuscrito de um livro. Assim aconteceu, até ser preso por seis meses sem que lhe fosse dito a razão do seu encarceramento. O autor de «O Ofício» não era de direita. Não se vislumbra nos seus escritos quaisquer referências que habitualmente campeiam na grande família de dissidentes russos da era soviética, como o factor religioso, anticomunista e até pró-fascista.
A correspondência trocada entre o escritor e a censura é de provocar sorrisos condescendentes ou gargalhadas abertas, mas essencialmente o que fica é a estupidez de quem usa o poder para cancelar a criatividade e a imaginação. A censura é essencialmente tacanha. E quem é censurado sabe que de qualquer modo o vão ouvir, ler, comentar por muito que lhe doa o facto de não ser considerado «oficial», um peão da cultura de Estado, seja ele o que for e de como é dirigida a proibição que, de outro modo, o permitia conhecer uma grande massa de leitores. Dovlatov, parte para o exílio nos EUA e aí vê-se perante outro tipo de censura: a do capitalismo e do lucro. Avisa os seus conterrâneos que o facto de serem censurados na URSS, não lhes dá a aura de génios incompreendidos; talvez, até, esse facto esconda as suas incongruências e fragilidades. Troça de Soljenítsin e da sua narrativa sobre o sistema prisional russo, ele que na sequência da expulsão de uma universidade de Leningrado se vê compelido, no exército, a ser guarda prisional durante três copiosos anos da sua juventude e que o leva a afirmar que «os presos especiais são iguaizinhos aos guardas» não vendo grandes diferenças de pensamento entre uns e outros. Grande bebedor de vodca e seguidor de jazz, morre precocemente aos 48 anos, na América que o recebe desconfiada, tal como os russos e judeus no exílio novaiorquino.
alc
