Relógio D'Água, 2024. Tradução de Leopoldina Almeida
Thomas Bernhard foi aluno de Horowitz, juntamente com Glenn Gould e Wertheimer, no Mozarteum de Salzburgo e no Conservatório de Música e Artes Dramáticas de Viena. Bernhard e Wertheimer sendo pianistas de grande talento, sucumbiram, no entanto, à arte de excelência, dificilmente igualável de Glenn Gould. E foi a partir desta impossibilidade que deixaram de pensar em voltar a tocar piano. É Gould que se encontra na capa deste livro e basta percorrer alguns filmes sobre ele «off the record» e «on the record», para sentir o que estamos a afirmar: dobra-se sobre o piano de uma forma quase animal, vocaliza as notas, ergue o corpo sobre a cauda do piano, ajusta-se, funde-se com o instrumento que o torna num só corpo.
A partir de Glenn Gould, Thomas Bernhard cria uma narrativa torrencial, disruptiva, desafiando-nos a percorrer pensamentos sobre o suicídio, a decadência, a loucura e a doença, a tensa relação com os outros. E a relação com os outros, principalmente com a sociedade vienense e austríaca, é complexa. Já tínhamos lido «Betão» e «Derrubar Árvores» do mesmo autor e sentimos como essa tensão se abria à nossa frente, através das suas palavras quer irónicas, quer violentas, sobre a intelectualidade e a sociedade austríacas. Toda ela, aliás. Não é o único autor da Áustria que assim se comporta: temos outros exemplos de divórcios litigiosos com essa mesma sociedade a que chamam de hipócrita e decadente. Assim foi com Elfriede Jelinek, Georg Haas, Ingeborg Bachmann e outros. Talvez seja esta a prova que a Áustria ainda não se refez de alguns traumas que pretende esconder a todo o custo, o que não a impede de apresentar uma das melhores literaturas. E este livro é disso prova.
«Dia e noite escuto o lamento dos grandes pensadores que fechámos nas nossas bibliotecas, essas ridículas sumidades de espírito, como cabeças mirradas dentro de uma vitrina, assim dizia ele [Wertheimer], pensei. Toda essa gente profanou a natureza, dizia ele, cometeu crime maior contra o espírito, e por isso são punidos por nós e encerrados para sempre nas nossas bibliotecas. Porque morrem sufocados nas nossas bibliotecas, essa é que é a verdade. As nossas bibliotecas são como presídios em que encerrámos as nossa sumidades de espírito, o Kant numa cela de isolamento, como é natural, tal como Nietzsche, tal como Schopanhauer, como Pascal, como Voltaire, como Montaigne, as figuras mais insignes em celas isoladas, todos os outros em celas colectivas, mas todos ali metidos para todo o sempre, meu caro, para toda a eternidade até ao fim dos tempos, eis a grande verdade. (...)» (pág.57)
«Mas tudo o que dizemos é um absurdo, dizia ele, pensei, seja o que for que dissermos é tudo um absurdo, e toda a nossa vida é uma absurdidade total. Percebi isso muito cedo, mal comecei a ser capaz de pensar logo o percebi, só falamos em absurdos, tudo o que dizemos é absurdo, mas também tudo o que é dito pelos outros é um absurdo, tal como tudo é dito de uma maneira geral, neste mundo só se têm dito absurdos, até hoje, assim dizia ele, e, na realidade como é natural só se têm escrito absurdos, todas as obras escritas que possuímos mais não são do que absurdos porque só podem ser absurdos, e a história tem-no provado, dizia ele, pensei.» (pág.58)
alc
