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segunda-feira, novembro 24, 2025

25

 

Do 25 de Novembro é esta uma das imagens que resta. O fim de todas as utopias possíveis, o lastro de "normalidade" de uma democracia cinzenta, afastada das vontades populares de uma outra vida que valesse a pena ser vivida em conjunto. O 25 de Abril continua a ser aquele dia inteiro e limpo.

domingo, novembro 24, 2024

25 Novembro. Il Grande Conduttore

 

Il Grande Conduttore
É quase comovedor assistir ao afã popular para que as comemorações dos 49 anos do 25 de Novembro tenham o prestígio e a adesão que a data obriga! Ele é roulotes de farturas e coiratos, minis em baldes de gelo, preparação de grandiosos bailes e bandas de coretos, fadistas, toureiros, pegadores de cernelha, fachos encartados, ex-terroristas e bombistas, ex-tropas saudosistas, almirantes de branco brio fardados... Eanes ajudou a acabar com o Prec, o «Grande Cagaço», e a reconduzir, tal como um Conduttore político as antigas elites de uma classe possidente, inculta, nova rica, burgessa, mais que empenhada na continuação do fascismo e da guerra. Hoje, resta-lhes o 25 de Novembro, porque o 25 de Abril sempre foi considerado uma excrescência, uma «balda» de soldados desobedientes das hierarquias, uma «tropa macaca» que, juntamente com um povo mal adestrado, tiveram a coragem de exigir talvez uma outra vida, desta vez digna, que valesse a pena ser vivida. O que o Conduttore conseguiu, ao lado de um militar intelectual da estirpe de um Jaime Neves, foi a conquista de uma «normalização» política, castigando-nos à sobre-exploração, e ao olvido de quase todos os direitos de um povo que teve a noção de dever erigir o «Grande Cagaço» nas ruas, nas fábricas, nos campos, nos locais de trabalho e nas escolas e que nunca mais vão esquecer, que perdurará sempre no tempo comum deles e no nosso. 

Na «comemoração» dos 49 anos anos vai ouvir os discursos cheios de ódio e rancor à liberdade e à dignidade de um povo. Fica-lhe bem. esqueçam o 25 de Abril e, já agora, o 25 de Dezembro que isto de ter messias que apaguem o generalíssimo busto pode ser um arrepio para um ego de vaidade escondida, uma falsa humildade com que esta gente gosta de se vestir. 

alc

segunda-feira, novembro 18, 2024

Celeste Caeiro

 

17 de Novembro de 2024
Celeste Caeiro, a mulher que distribuiu cravos pelos soldados a 25 de Abril de 1974, faleceu a 16 de Novembro deste ano. O 25 de Abril, o povo que aderiu a esta ideia, a esta luta, vai construindo os seus anti-heróis, aqueles que sem quaisquer objectivos pessoais, deram simbólica, material e espiritualmente o que souberam oferecer de melhor. Os símbolos da Revolução aí ficam. Os cravos, que Mário-Henrique Leiria não gostou que entupissem os canos das G3, sobrepuseram-se numa outra poética, tal como a coragem de Salgueiro Maia frente a uma pistola encravada de um coronel fascista ou a corajosa recusa de José Alves Costa, soldado que, no alto do tanque, desobedeceu a uma ordem assassina.

Celeste Caeiro entra neste panteão popular e é isso que faz o 25 de Abril forte, que o torna inesquecível e eminentemente popular. Bem pode a direita ressabiada, vingativa e dissimulada - porque nunca aceitou a liberdade popular, nunca o declarando abertamente - tentar colocar o 25 de Novembro num pedestal de uma possível taça de barro cru, mas essa data nunca será grande o suficiente para abafar estes anti-heróis e heroínas que a historiografia popular vai construindo. Essa interessa tanto ou mais que as enormes manifestações populares que enchem as avenidas todos os anos. E são cada vez mais, para azar deles.

alc

sábado, abril 24, 2021

O 25 de Abril no Liceu José Falcão. Uma memória: a Lista C



São memórias quase com 47 anos, mas elas estão cá já não tão vivas, mas ainda persistem. O 25 de Abril, dia da liberdade, esse é inesquecível. O que se seguiu foi o início de mudanças fundamentais para uma nova sociedade, realizadas por jovens que nessa altura tinham entre 15 a 17 anos. Fizemos de tudo o que a ''agit prop'' exigia, mais a seriedade que obrigava igualmente à elaboração de uma lista para a Associação de Estudantes do Liceu José Falcão. O seu programa aqui está em 16 páginas dactilografadas no velho stencil e impresso à manivela. Data de Novembro de 1974.

Essa experiência já ninguém nos tira e foi lastro para lutas contínuas ao longo da vida, mesmo com o amargo de boca de vermos muitas das conquistas barradas pela ''normalização'' reaccionária do 25 de Novembro. Alguns de nós tínhamos já a experiência do que era lutar na CPAEL (Comissão Pró-Associações de Estudantes Liceais) integrada na semi-legal CDEC (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra) com o marcelismo de unhas de fora. As ''eleições'' de 1973 também ajudaram a construir uma consciencialização, a putos como nós, que isto não ia lá por via pacífica. Os liceus fervilhavam e enquadravam uma luta permanente que ainda está mal estudada. E era a UEC, constituída em Janeiro de 1972, que nos dava as ferramentas essenciais para uma luta estudantil que aumentava de radicalização desde 1969.

O programa da Lista C, no Liceu José Falão, muito genericamente, tinha como lema «Unidade Estudantil com o Povo Trabalhador» lema esse decalcado da UNEP em acelerada construção nessa ocasião. Podia-se então ter acesso a itens do programa que afirmavam:

Ponto 4 - Pensamos, no entanto, que a democratização do ensino não se faz através da substituição de algumas cadeiras deixando o resto intacto, mas sim na definição de uma clara política de ensino com a participação activa dos estudantes e professores na reestruturação das matérias adoptando formas de avaliação de conhecimentos constantes, modificando o actual regime de faltas, abolindo todas e quaisquer faltas de carácter repressivo (faltas de material, disciplinares, etc.); pensamos que o acabar das faltas virá em consequência da alteração dos métodos de avaliação.

Ponto 6 - Saneamento - O saneamento é essencial na RGDE. Defendemos na actual situação o saneamento político pois, por razões pedagógicas não seria funcional devido à falta de professores. Defendemos cursos de reciclagem para os professores se manterem a par dos novos métodos pedagógicos. POR UM SANEAMENTO COMPLETO E EFICAZ!

Consideramos prioritário: A Nível Geral: 

a) Criar o máximo de aulas nocturnas para a juventude trabalhadora.

b) Aproveitar ao máximo as possibilidades de salas de aulas, de modo a evitar uma enorme superlotação das turmas.

c) Instauração em todas as escolas de co-educação (ensino misto).

d) Criação de condições para pôr a escola em contacto com a vida e melhoramento do material didáctico existente. Formação de bibliotecas modernizadas e progressistas.

e) Melhoramento das instalações escolares, obras nos sectores mais necessitados, melhoramento dos equipamentos técnicos e desportivos. Melhoria das condições de higiene na escola.

A Nível do nosso Liceu:

a) Fazer funcionar a sala de convívio e obter material para o seu apetrechamento.

b) Reduzir o preço do material escolar.

c) Melhorar as condições da cantina, bar e biblioteca, através de participação activa dos estudantes na gestão democrática desses sectores.

d) Aumentar e melhorar o material desportivo, quer em quantidade, quer em qualidade.

No Capítulo I, logo no início do programa da Lista C do Liceu José Falcão, em Novembro de 1974, destacavam-se as «Transformações Democráticas». Dizia-se então:

(...) Os partidos políticos, os sindicatos, as organizações democráticas actuam livremente. A imprensa publica-se sem censura. Exercem-se livremente os direitos de reunião e manifestação. A importante reivindicação da juventude portuguesa, o voto aos 18 anos já está incluída na nova lei eleitoral. Os trabalhadores alcançaram mais em oito meses, no plano das reivindicações sociais e económicas, do que o haviam conseguido em muitos anos de fascismo. A PAZ foi estabelecida em África. (...)

Os nomes da Lista C do Liceu José Falcão eram estes:

Direcção: Adriano Bordalo e Sá, Ananda Fernandes, Fernando Gil Mesquita, João Gouveia Monteiro, João Pinto Ângelo, Nazaré Fernandes (Né Ladeiras).

Mesa da RGA: Carlos Coelho, Maria Manuel Gaspar Afonso, Ramiro Santos.

Conselho Fiscal: António Luís Catarino, Carlos Pinheiro, Rui Carrington da Costa.

Suplentes: Ana Castro Silva, Carla Paula Baptista, Gilberto Pinto Ângelo, Paulo Gouveia Monteiro.

E assim se recupera alguma memória ainda muito fragmentada das lutas estudantis nos liceus. Se voltaria a fazer tudo de novo. Sem qualquer hesitação - sim!

António Luís Catarino

24 de Abril de 2021