Barco Bêbado, 2022. Tradução e notas de Joana Jacinto
Em 2022, quando este livro da Barco Bêbado foi publicado interessei-me por ele. Já conhecia relativamente bem o seu autor, que também utiliza o pseudónimo de Hakim Bey, visto que em 2012 editei o seu «Utopias Piratas» pela Deriva. Com tradução de Joana Jacinto e um «ensaio visual» de Vasco Barata este livro da Barco Bêbado passou relativamente despercebido e foi pena que assim fosse. Nessa ocasião, há quatro anos apenas, escrevi isto:
«Este livrinho parece, contudo, um desabafo em forma de manifesto que Peter Lamborn Wilson não esconde no seu início; logo depois, coloca toda a esquerda (e mesmo os próprios libertários) e as suas práticas políticas e sociais em causa. O desânimo e o desinteresse sobre todas as todas as coisas levou muita gente boa a afastar-se do activismo que se consubstanciou, por exemplo, no movimento Occupy. Num mundo cuja catástrofe já se iniciou e que se vai agravar cada dia que passa propõe-nos três caminhos alternativos, enfatizando a criação de TAZ (acrónimo de Temporary Autonomous Zones) que são, com algumas pequenas diferenças, as ZAD europeias que têm tido algum êxito no combate à prepotência do Estado, mais concretamente o do francês.
Também o neo-primitivismo de Paul Goodman, entre outros, é colocado em destaque, desencadeando interesse no debate em torno da questão do survivalismo que Wilson realça. O neo-niilismo reside precisamente nas possibilidades reais de sobreviver ao caos que se instala e que o capitalismo espoletou. Um livro importante que pode ser uma alavanca de debates em espaços alternativos. Seria bom que o discutíssemos colectivamente.»
Hoje, trago-o por outro aspecto que acho importante referir como nota de rodapé, quase a única hipótese de a blogosfera e as redes sociais assim a aceitarem e divulgarem. A recomposição da esquerda é necessária quando se esconde um mau diagnóstico de sobrevivência pressentido pelas pessoas que exigem um mundo completamente novo. Aqui reside a esperança e ao mesmo tempo a desilusão, principalmente por aqueles que nem sequer querem ouvir a palavra «recomposição». Esses, continuam emparedados entre as fórmulas já gastas que, no último quarto do século vinte, deram provas da sua completa inutilidade. O século XXI não lhes deu melhores hipóteses de renascerem das cinzas, enquanto que milhões de seres exigiam nas ruas dos diversos países capitalistas e autoritários uma nova vida. Peter Lamborn Wilson descreve essas derrotas, nomeadamente das lutas massivas da Occupy, dos confrontos de Seattle e das formações, mais localizadas, das ZAD que teimam em sobreviver pata além do mercado.
Não é necessário estar de acordo com Peter Lamborn Wilson e com as teorias apocalípticas, que advogam ou diagnosticam um novo niilismo. Digamos, antes, que estas enformam e invadem a esquerda quando esta atinge um grau de divórcio insanável entre as direcções dos movimentos e partidos com a sua identificação social de base. Não necessitamos de um Armagedão para a reconstrução de uma nova sociedade. Necessitamos de uma destruição selectiva de todas as teias do capitalismo e da sobrevida a que estamos sujeitos porque senão for assim o sistema levar-nos-á a um patamar indescritível de escravatura e alienação. Assim dito parece-nos demasiado básico, mas olhe-se com atenção para a Filosofia, para a Arte, para a Literatura, e para a Ciência da nossa época e ver-se-á quão básicas estas disciplinas se tornaram ou, pior, que são devedoras de uma agenda clara de subserviência de mercado. A política, essa tornou-se inenarrável com a corrupção e a matança a tomar lugar do que antes ainda existia de função social do estado. Também não é necessário ser-se revolucionário para aceitar historicamente a revolução como uma saída lógica para quando tudo falha, sendo que este «tudo» inclui as direcções das esquerdas que se multiplicam em soluções áridas, de um populismo completamente absurdo ou de uma economia planificada baseada num crescimento contínuo e de destruição ambiental e uma política eleitoral que produz simulacros de democracia, quando o que se exige é uma sociedade total e socialmente participada.
alc