Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica Literária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica Literária. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, maio 21, 2026

"Revisitar os Clássicos", Kenneth Rexroth

 

Antígona, 2020. Tradução de Maria João da Rocha Afonso
Há quem faça listas de livros com o prazer de sistematizar o seu gosto pessoal, sempre subjectivo, ou de tentar encontrar um padrão, uma lógica para o que terá lido ou venha a sentir necessidade de ler. Ou, ainda, de tentar uma veia de proselitismo, mais presunçoso do que pedagógico. Seja o que for, sentimos necessidade de nos identificar, ou não, com o rol de escritos e autores que povoam uma listagem dos chamados «clássicos». Kenneth Rexroth foi um poeta americano da onda «beat» que privou com Kerouac, Ginsberg ou Ferlinghetti e que publicou este livro em 1965. Pelo que entendi, estaria à procura de editora para publicar a sequela deste «Revisitar os Clássicos», mas eram tantos nomes que dificilmente, nos anos 60, conseguiria vê-la à luz do dia. Pressente-se o seu budismo e espiritualismo nas escolhas que faz, o que não deixa de ser interessante verificar, embora não enjeite o materialismo como o faz com os iluministas do século XVIII, com quem, aliás, antipatiza com algum pudor.

Tenho a certeza que uma listagem de clássicos, elaborada nos anos 60 do século XX, seria forçosamente diferente das que hoje poderíamos fazer, visto que reflectiria obrigatoriamente a época e os acontecimentos que tiveram lugar. O que nos diz mais dessa época do que as análises que a enformam. O seu budismo leva-o a escrever textos curtos e de algum modo belos sobre, por exemplo, «A Epopeia de Gilgamesh», «Beowulf», «O Livro de Job», «Kalevala» ou «Mahabharata» ou mostrar a sua evidente adesão, e até entusiasmo literário, para com a poesia chinesa e japonesa, os haikus e, singularmente, para com o poeta Du Fu, cuja leitura «o fez ser melhor pessoa». 

Com a literatura clássica greco-latina, Kenneth Rexroth é mais cuidadoso nas escolhas: não se limita a mostrar o que é tido como destacável, mas igualmente o que não o sendo mereceria uma relevância especial. Safo, a «Ilíada» e os «Pensamentos» de Marco Aurélio ou a «História de Roma» de Tito Lívio sobressaem comparativamente a um César da «Guerra das Gálias» ou perante um Heródoto, Tucídides, ou mesmo um Petrónio de «Satyricon» e Apuleio, com quem, por alguns motivos expostos nas recensões, sente algum afastamento.

Os nomes e as obras fluem com interesse crescente e ficamos surpreendidos com a entrega entusiasmante que o poeta mostra possuir perante a obra de um Cervantes, de um Rabelais, de um Shakespeare, de um Laurence Sterne ou de um Stendhal. Como poeta ele não poderia deixar de citar Baudelaire, Whitman e principalmente Rimbaud, quase impossível de não serem antologiados nos dias de hoje. Nos anos 60, ainda mais, suponho. Para com a literatura reserva alguma contenção para com Dostoiévski, mas glorificando Tolstói no seu «Guerra e Paz».

Não cometo nenhuma inconfidência despropositada, ou «spoiler», visto que são 61 entradas dos «clássicos» arrolados por Kenneth Rexroth e aqui só refiro algumas, mas deixo duas ou três impressões que registo com um interesse que me despertou a leitura de «Revisitar os Clássicos». Uma, a referência à frase de Tolstói, numa rara entrevista, quando afirmou que «as pessoas felizes não têm história», outra, à profecia de Whitman sobre o apocalipse americano com que Rexroth se revia; dizia aquele poeta do século XIX que o mutualismo, libertarianismo e as comunidades saintsimonianas e prodhounianas, com que a América tinha sido criada haveria de levar o país a uma era de ouro milenarista. Uma autêntica libertação democrática protagonizada pelos intelectuais americanos no poder antes da guerra civil. Penso que a morte foi um bem para Tocqueville, para Whitman e para Rexroth para os impedirem de ver no que a América se tornou hoje! Finalmente, termino as impressões quando este escolheu Marx e o «Manifesto» como um clássico e fez muito bem. Em 1965, após 100 anos de estudo e divulgação à escala planetária não haveria como fugir-lhe, mas dizer que o manifesto estava errado nas suas premissas, por que teria terminado (nos anos 60) a época do «laissez faire, laissez passer», ou seja, o liberalismo, porque o estado era responsável pelas estruturas económicas e sociais e o factor «alienação» já não se fazia sentir, enfim, foi um pouco arriscado. Lembro-me de Fukuyama e do seu «fim da história», mas muito menos grave. Porque há qualquer coisa de simpático, de generoso e ao mesmo tempo de ingénuo neste «Revisitar os Clássicos» que outras antologias estão a milhas de o conseguir.

alc

quinta-feira, julho 03, 2025

Camille Claudel. Uma nota sobre biografias


Camille Claudel (1864-1943)
Uma fotografia da jovem Camille Claudel faz-me introduzir uma tema que me é caro: o das biografias. Camille Claudel era uma mulher bonita e, além disso, uma escultora que teve como mestre e professor Auguste Rodin que exerceu sobre ela um poder pessoal e profissional bem comprovado pelos factos. Hoje, chamar-se-ia extrativismo intelectual e artístico a forma como Rodin tratou a sua jovem aluna. Não mostrarei aqui a fotografia, existente na nuvem digital, do estado em que se encontrava após 30 anos (!!) presa num hospício francês e depois de várias missivas a rogar pela sua liberdade. Paul Claudel, seu irmão e poeta católico, não sai bem nesta história. Aliás, sai mesmo muito mal e o filme «A Paixão de Camille Claudel», com Isabelle Adjani e Gérard Depardieu não é suave para com aquelas personagens masculinas. 

É, contudo, uma fuga à regra a que eu próprio me impus. Vi este filme, é certo, mais por curiosidade ocasional que crescia à medida que as imagens e as situações se sucediam, do que saber, através dele, a vida de Camille Claudel de que conhecia, em catálogo, já algumas obras e parte da sua vida coartada inutilmente pelos familiares e por Rodin que invejava o seu fulgor escultórico. 

Não leio biografias por sistema e menos ainda as chamas «cartas de amor» de artistas ou poetas que me foram importantes e, pelo que experimentei, nas poucas que li, souberam-me sempre a pouco, ou achei demasiado tendenciosas ou mesmo inverosímeis. Daí, ter lido com algum tédio misturado as cartas de Fernando Pessoa à Ofélia e nem sequer tive interesse, mínimo que fosse, em ler as cartas de amor entre Paul Celan e Ingeborg Bachmann, entre António José Forte e Amélia Bento, ou as de Proust, de Annemarie Schwarzenbach, de Virgina Woolf, de Oscar Wilde ou as de Nietzsche. 

Agora, surgem-me duas biografias de autores portugueses que requerem algum fôlego para as aceitar e que, por isso, nunca lerei, porque conheci as suas obras, os seus escritos, desde os anos 70. São elas as de Herberto Helder e Luiz Pacheco. Extratos que li, por aqui e ali nos media, dizem-me que será melhor nem iniciar a sua leitura. Não me interessam. Pouco acrescentam e, quando o fazem, é irrelevante para uma ideia, mesmo que irreal, do que deles li. Já antes, tomei conhecimento da existência de duas biografias de Fernando Pessoa me passaram completamente ao lado e assim vai continuar. Mas abro exceções evidentes: ler uma biografia de Camões por Aquilino Ribeiro é outra coisa, tal como as de autores que identificam a época e as geografias em que viveram e que não foi a minha. Aí, concedo o conhecimento dos escritos e tenho revisitado autores comparando a sua vida com o que escreveram sobre o mundo, o mundo dos próprios que, por motivos claros, nos quiseram transmitir, transformando aquilo que seriam meras autobiografias em peças literárias imprescindíveis.

alc

quarta-feira, janeiro 22, 2025

«A Coisa mais Próxima da Vida», James Wood

 

Zigurate, 2024. Tradução de Joana Jacinto
Querem mesmo ler «A Coisa mais Próxima da Vida»? Diz o editor, desgraçadamente conhecido por todos nós e um verdadeiro cabotino, que James Wood é «...na actualidade o mais influente crítico literário de língua inglesa e porventura de todo o mundo.» Mundo esse que não conta ainda com a colonização de Marte, bem-entendido! Para isso, seria necessário a edição de «Na cabeça de Elon Musk» pago em bitcoins, coisa que Carlos Vaz Marques ainda não almejou, mas cuja colecção «Na Cabeça de...» conta com figuras proeminentes como André Ventura, Montenegro, Putin, Xi e Pedro Nuno Santos. Também analisou e editou um livro sobre a biblioteca de Estaline, em conjunto com obras, todas elas, que encheram o nosso imo, para além de livros de cozinha de ditadores. Voltando ao livro que falamos: ele não pára por aqui. Informa-nos igualmente na contracapa  que os trabalhos de James Wood, na New Yorker lhe valeram a alcunha de «elegante assassino» e de «estripador cortês.» Não faz o caso por menos. O problema é que abrimos o livro (sim, perdi uns euros nesta coisa!) e sai-nos um caldo de inutilidades várias, confissões pueris da sua vida e da de outros (nasceu com educação católica rígida e tornou-se ateu, que rebeldia extraordinária, ó estripador!), citações a esmo e uma chamada à colação da literatura do mundo, pós-colonial, que nem sim, nem não. E análise de prémios atribuídos, pois claro. Um longo bocejo para quem, desconfio, pretenderá criar um novo cânone literário num livro que não o deveria ter sido. Provavelmente, uma súmula de artigos da New Yorker, talvez com lugar no Expresso revista. Talvez editando «Na Cabeça de Balsemão» consiga que a saga continue. Fiquem com esta verdade insofismável de James Wood, o «elegante assassino»: «Graças ao estilo indirecto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor.» Lili Caneças tem um pensamento igual, mas para quem está morto.

alc