Actes Sud, Janeiro de 2026.
Eis o último livro de Éric Vuillard que conhecemos, em Portugal, através da publicação de «A Guerra dos Pobres» e de «A Ordem do Dia». «Les Orphelins» que, penso, a ser traduzido em português, terá o título óbvio de «Os Órfãos» consta um subtítulo que esclarece tratar-se de «Uma história de Billy the Kid» e assim seria se o romance fosse só aplicado à sua biografia. Mas não; a história desenvolve-se exemplarmente a partir de Billy the Kid, através das suas inúmeras biografias, sendo que uma delas é do seu assassino, a do xerife Pat Garrett, um ex-assaltante que escolheu o lado da lei. Isto, quando o Oeste deixou de ser uma espécie de terra de ninguém e entrou na boa ordem do capitalismo (este sim, selvagem) em que os monopólios dos grandes negócios eram feitos à custa do derramamento de sangue e à custa dos territórios e das vidas dos índios que eram espoliados e massacrados por tipos que mais tarde se tornaram senadores, membros do congresso, governadores e xerifes dos condados. As vidas que dão cor ao romance assim nos dão conta. A escravatura e a guerra da Secessão que se lhe seguiu foi igualmente a pedra de toque do nascimento dessa tal ordem, uma reorganização do capitalismo industrial que acabou com as terras da Fronteira. Portanto, miúdos geralmente oriundos da miséria profunda das cidades americanas, órfãos ou abandonados pelos pais, cresciam exigindo liberdade e um destino igual aos senhores que atingiram o cume social através de enorme violência e que se institucionalizaram politica e socialmente. No fundo, foi o culminar do nascimento da América, dos EUA que hoje conhecemos como um dos países mais violentos do mundo. Nada acontece por acaso e Éric Vuillard tem o condão de utilizar, numa linguagem elegante, uma metatextualidade com que nos identificamos totalmente. Podemos ler, com tradução livre, o que Vuillard sente sobre os EUA a partir da observação das biografias de Billy the Kid, provavelmente o menos culpado de todos aqueles que o perseguiram até à sua morte:
«O ''desperado'' é a figura depravada do self‑made man; é a sua imagem, mas inacabada. Não chega a nada. Parte de demasiado baixo. Veio ao mundo demasiado tarde. É o homem resolutamente moderno, e é por isso que se entrega por inteiro, desvairado. E, visto que a sociedade nunca é outra coisa senão a contrafação dos seus princípios, a concorrência degenera de imediato em matanças, a liberdade adultera‑se em crimes, e a História da América será um argumento de Frank Capra interpretado por ladrões.» (pág.42)
A foto da capa é de Jesse Evans um dos do grupo de Kid que tal como dezenas de companheiros morreu cedo, a tiro e sem um centavo. Provavelmente, o único sobrevivente que morreu de velho, com outro nome e supõe-se bem longe do Colorado, Novo México ou Arizona por onde o célebre grupo de «desperados» se moveu, assaltando o que podia, desde gado, cavalos, ranchos, até diligências, foi Georges Coe. Mas sabe-se pouco sobre ele e nem a data da sua morte, ou aonde, se pode verificar com toda a certeza. A prosperidade só é dada de bandeja a quem mata muitas vidas, quem coloniza a ferros. Segundo Vuillard, a América foi colonizada, num seu primeiro momento, por pessoas com este padrão, incentivada ao assassínio e genocídio em massa, à escravatura que rapidamente levava a constantes derramamentos de sangue, até que, depois de assentar a poeira levantada pelos cavaleiros enlouquecidos e do massacre geral, se iniciou um arremedo de democratização necessária ao livre cambismo, porque os monopólios já estavam erguidos e sólidos. Mas até aqui foi o que se viu.
alc
