Dois Dias edições, 2023. Tradução de Bruno C. Duarte. Posfácio de Marcos Foz.
O primeiro romance de Thomas Bernhard, editado em 1963. Hesito em afirmar que «Geada» talvez seja o mais complexo que li dele, o mais profundo, pela densidade dos pensamentos expostos em que as relações sociais são afloradas com pleno desprendimento e genuinidade do autor. A geada é o frio, o gelo, com que é determinada a interacção entre o pintor Strauch e as diversas pessoas que com ele se cruzam todos os dias numa estalagem que o repugna. Esta estalagem encontra-se numa terra estranha, imaginada, Weng, montanhosa e fria, hostil, como hostis são os que a habitam. Weng é a sociedade e tal como o sanatório de «A Montanha Mágica» de Mann, também aqui é atravessada por incompreensões e tensões que são trazidas para palavras e acontecimentos. Strauch sofre com a frigidez das relações entre a sua família e particularmente com o seu irmão, construindo uma rede cúmplice entre ele e o médico estagiário, tornado narrador (sem nome) do romance de Bernhard. Serão vinte e sete dias registados nos «relatórios» do médico estagiário que constituem o âmago de «Geada», mais umas quantas cartas ao irmão do pintor Strauch e alguns pensamentos aparentemente aleatórios. Na segunda carta, o narrador escreve uma afirmação daquele: «(...) É mesmo isso: tudo me dá que pensar, e o mesmo acontece neste caso em particular. Cores, cheiros, graus de frio - esta geada que avança, que avança em tudo e em todos e por toda a parte, com a sua inaudita possibilidade de ampliação dos conceitos, é da maior, e continua sempre a ser da maior importância.» (pág.304) É nessa geada que tudo cobre que se poderá antever o que de mais determinante é tido pelos pensamentos niilistas de Strauch, seguramente misantropo, anti-racional, e profundamente amoral no sentido em que ultrapassa as noções básicas do bem e do mal, mesmo que aponte essa imoralidade a toda a sociedade que o envolve nas figuras desconcertantes da estalajadeira, do esfolador, do engenheiro ou do médico-chefe, seu irmão odiado. É neste conjunto que emerge a figura do homem nietzschiano, sofredor e ausente de qualquer postulado social e que não o leve ao consenso social, para ele o seu fim. Pelo contrário, Strauch vê na sua acção o princípio da possibilidade suicida, ao deslocar-se na geada fria, na neve que o assola, no frio do seu quarto não aquecido propositadamente pela estalajadeira, pelas ravinas, pelos estreitos da montanha, e pelo perigo da queda iminente. A geada também pode ser a «queda de um império», diz ele.
Interessante é verificar a construção ideal do homem político para o pintor que, para o ser totalmente, terá que incluir a base do sonho: «Ora eu diria então que um homem que é em igual medida político e sonhador é aquele que podemos classificar como o que está mais perto da perfeição (...)» (pág.306) Tal como o seu pensamento em relação ao Estado: «É tudo uma pirosice bárbara. Sim. (...) O próprio Estado é imbecil, e o povo é patético. O nosso Estado é ridículo. E, ainda por cima, tudo isto finge ser altamente musical. Depravação pequeno-burguesa... para mim é demasiado repulsivo: a camada de gordura da classe alta e a estupidificação geral, desenfreada da população... estamos numa fase de abandono absoluto. O nosso Estado (...) é um hotel da ambivalência, o bordel da Europa, com uma excelente reputação além-mar.» (pág.270)
Strauch tinha sido um professor substituto, antes de se tornar pintor, e as suas elucubrações sobre a escola e a profissão não deixam de impressionar pela veemência com que são expostas, chegando a defender que a escola deveria ser substituída por matadouros para que os alunos tivessem acesso às maledicências próprias do mundo. Mas não só: «Os edifícios escolares são grandes edifícios de medo. Mesmo para mim, enquanto adulto, os edifícios escolares eram grandes edifícios de medo. O medo dos edifícios escolares, assim como o medo da escola em geral, é o medo mais terrível que existe. A maioria das pessoas morre disso. Se não em criança, então mais tarde. Até com sessenta anos se pode morrer de medo da escola.» (pág.177) «Em toda a minha vida nunca odiei nada como odeio os professores. Os professores que sempre me pareceram ser o cúmulo de toda a estupidez disciplinada até ficar 'em sentido' e até às cuecas. Uma ridicularia que é um perigo público e que ainda por cima tem grandes pretensões.» (pág.201)
A sua diatribe abarca igualmente os artistas e as gentes, em geral: «(...) Os artistas são os grandes indutores do vómito do nosso tempo, forma desde sempre os grandes, os maiores indutores do vómito... Os artistas, não serão eles um devastador exército do ridículo, da escumalha? (...) Os artistas são os gémeos idênticos da hipocrisia, os gémeos idênticos da baixeza, os gémeos idênticos da exploração protectorada, da maior exploração protectorada de todos os tempos. Os artistas, tal como os conheci, são todos insípidos e pedantes, nada mais que insípidos e pedantes, nada mais...» (pág.135), «Quando aparecem à minha frente, todas as pessoas que conheço parecem iguais. E mesmo o que está dentro delas parece sempre o mesmo, seja de quem for. Dentro de todos eles está uma e a mesma coisa. Enoja-me. Quando deixo que se afastem, quando digo 'retirem-se', fica no ar um cheiro que obscurece tudo.» (pág.82)
alc
