segunda-feira, fevereiro 23, 2026

"Eu Vi o Tempo Assassinar-me", Dylan Thomas

 

Assírio & Alvim, 2024. Tradução de Frederico Pedreira
O que existe de interessante em Dylan Thomas é o que fica em nós após a leitura da poesia densa com que somos brindados em palavras improváveis ou alegorias e metáforas circulares. Se bem que o tema da morte esteja muito presente ela não é, contudo, o seu mote essencial, sendo antes a vida o seu elemento definidor. O esvaziamento gradual da vida, ou o seu fim repentino e absurdo, nos seus múltiplos aspectos é o objectivo radical da escrita de Thomas em poemas impressivos e até violentos. Dou um exemplo único em «Mortes e Entradas» (pág.167):

Quase em vésperas incendiárias
    De muitas mortes próximas,
Quando um no mínimo dos teus mais amados
    E desde sempre conhecidos tem de deixar
Os leões e o fogo do seu sopro alado,
    Esse que dos teus imortais amigos
Os órgãos ergueria do contado pó
    Para caçar e cantar em teu louvor,
Intimado das profundezas ficará em silêncio,
    Sem jamais se afogar ou cessar
    Interminável na sua ferida
Das muitas e conjugais dores de Londres alienada. 
(...)
Pressentimos um movimento de nítido espanto e até de horror neste poema que descreve o que adivinhamos ser um bombardeamento através de imagens como «vésperas incendiárias», «mortes próximas», «sopro alado» ou do silêncio que obriga a uma «interminável ferida». Verificamos a data do poema inscrito nesta antologia - 1946 - e desenha-se quase a certeza que é transmitida, mais à frente, num poema mais tangível em «Cerimónia após um bombardeamento» (pag.181) ou em «Entre os mortos no raide ao amanhecer estava um homem de cem anos» (pag.193) poemas terríveis que nos levam a sentir o pior das guerras. 

Dylan Thomas não é somente a finitude, ele é igualmente o nascimento e o crescimento, é luz e escuridão, animais e vermes, corpo e espírito, matéria e sangue. Morreu muito cedo, talvez cedo demais, com 39 anos e julgamos que teve experiências movidas a sensações humanas limite em que o álcool foi decisivo num fim anunciado.

Desenho para «Se as lanternas brilhassem» (pág.99)

Se as lanternas brilhassem, a face sagrada,
Capturada num octógono de luz desusada,
Acabaria por definhar, e todo o rapaz do amor
Olharia duas vezes antes de cair em desgraça.
Os traços em sua privada penumbra
São de carne formados, mas venha o dia falso
E dos lábios dela cairão debotados pigmentos,
Dos seus trapos de múmia espreitará antigo seio.
(...)
alc

terça-feira, fevereiro 17, 2026

"Thérèse Raquin", Émile Zola

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de João Gaspar Simões. 
Segundo Guy de Maupassant, que assina um prefácio traduzido por Miguel Serras Pereira, Émile Zola sente que o modelo da sua literatura «[não é outro] senão a vida, uma vez que não concebemos nada para lá dos nossos sentidos; por conseguinte, deformar a vida é produzir uma obra má, uma vez que é produzir uma obra de erro.» «Thérèse Raquin», publicado em 1867, cumpre copiosamente esta ideia. Anti-romântico, mas criando um ambiente naturalista, psicologicamente denso, trágico, leva as personagens ao limite das suas acções que, na altura, foram consideradas pelos críticos como «literatura pútrida», segundo palavras do próprio Zola no prefácio da 2ª edição da obra, logo em 1868. Percebe-se porquê: à volta de um crime passional comum, desenrola-se uma narrativa em que o pior do humano é exposto em toda a sua crueza. Há descrições inesquecíveis em «Thérèse Raquin» como, após ter cometido o assassinato de Camille, Laurent se dirige a um restaurante e come vários pastéis seguidos para acalmar a fome que lhe advém subitamente, tornando assim a transgressão como coisa comum, válida, passageira. A forte impressão que sentimos nas páginas que decorrem na morgue é inigualável e só existem devido à capacidade de observação minuciosa e claramente naturalista de Zola. Ou como Thérèse que, para esquecer o crime de que foi cúmplice, se enreda furiosamente na leitura de romances, tal como sente o fim doloroso do desejo sexual por Laurent após o crime ser consumado e se vê submergida por uma espiral de ódio e violência na relação com este e que levará à morte, pressentida desde o início, de ambos. 

Conheci Zola, nos anos anteriores à liberdade, numa colecção de bolso, creio que da Europa-América, com «Nana», «Germinal» e «A Taberna», este último da Guimarães, creio, e retirado da biblioteca do meu pai. Voltámos, vários de nós muito jovens militantes de esquerda, a ele no período revolucionário e hoje questiono-me por que o faríamos; provavelmente, pela descrição dos ambientes lúgubres de gente cuja vida social era marcada pelo desejo ou de felicidade, ou de riqueza que não atingiam por vicissitudes várias, gente explorada sem saber que o era, ou sabendo-o, com objectivos de conquistarem um quinhão que lhes era negado. Se não fosse por isso, era-o pela justificação de uma ideologia que abraçávamos, pouco importa. Líamos Zola, como o fazíamos com Gorki, Steinbeck ou Balzac, ou ainda Tolstói ou Dostoievski, embora creia hoje que a literatura não terá o condão de redenção como nos anos 70 a encararíamos. E ainda bem que assim é. 

alc

domingo, fevereiro 15, 2026

"Terra Queimada", Jonathan Crary

Antígona, 2023. Tradução de Nuno Quintas

Conhecido em Portugal com o seu «24/7», também editado pela Antígona, Jonathan Crary avisa-nos nesse livro para o projecto sub-reptício do capitalismo em ver-nos disponíveis para o trabalho durante 24 horas, 7 dias por semana. Numa altura em que o governo de Milei impôs 12 horas de trabalho cujo salário pode ser pago em géneros, habitação ou comida e os laboratórios científicos de empresas multinacionais ligadas à saúde e à defesa desenvolvem medicamentos capazes de levar a humanidade a não dormir, ou a dormir cada vez menos, para aumentar a produção de bens, é mesmo para levar a sério. Se olharmos igualmente para o nova Lei Laboral em Portugal somos levados a crer que existe um programa que mimetiza todo um projecto de claro retrocesso civilizacional.

«Terra Queimada» leva-nos por um caminho complementar a «24/7». Não é somente o que se está ao fazer ao planeta tornando-o literalmente inabitável, mas realçar o fim do que resta de coesão social através de um programa letal do capitalismo seja na forma de neoliberalismo, seja pelo capitalismo chamado cinicamente de «verde». Hoje, encontram-se activos 500 mil poços e jazidas minerais extrativas em todo o mundo que empregam 50 milhões de pessoas quase escravizadas e com um rasto de assassínios de ambientalistas e de povos indígenas por forças de segurança privadas. E isto só para o fabrico de componentes para microprocessadores, painéis solares, turbinas eólicas e veículos eléctricos, não contando com a extração carbonífera e de petróleo que tiveram um novo alento com a administração Trump, de Putin e de Xi Jiping. O desastre total ao virar da esquina: «Os paladinos do capitalismo verde e das ''renováveis'' dão garantias enganosas de que, mediante fiscalização, se poderiam extrair recursos sem destruir habitats, ecossistemas e comunidades, mas sabem que isso nunca vai acontecer. A História demonstrou categoricamente que o capitalismo é irreconciliável com qualquer espécie de conservação e preservação.» (pág.41) Trata-se pois de exercer a objectificação da Natureza «que nos separa da nossa inerência com a criatividade e a variabilidade ilimitadas do mundo físico» que foi exemplarmente demonstrado por Marx, Debord ou Agamben para só citar alguns que Crary chama profusamente no seu livro. E esta separação já desenhada e criticada nos anos 60 do século XX teve um novo desenvolvimento socialmente tóxico com a nova «era digital» em que assenta a construção de enormes centro de dados e torres de servidores para gerir o aumento imenso de produção de dados que exigem forças energéticas assombrosas e levam ao gasto de milhões de litros de água por dia para arrefecer os níveis de calor que causam danos aos circuitos integrados. Não pensem, portanto, que a utilização da internet é «neutral». Antes pelo contrário. 

O trabalho aturado de Jonathan Crary, neste «Terra Queimada», leva-nos directamente para o que designamos por um isolamento do indivíduo enquanto ser social faze à ditadura dos ecrãs sejam eles dos telemóveis, dos computadores ou do trabalho online, aumentado desde a pandemia de 2019/20. E a viagem até aos pressupostos da biopolítica é uma evidência clara e a que nos leva a formulações mais inquietantes:

«Conforme o complexo internético se expande e agrega, masi facetas da nossa vida convergem nos protocolos das redes digitais. A calamidade é a irredimível incompatibilidade das operações online com a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre curso do desejo ou a partilha da dor e da dúvida. Muito disso desaparece ou recompõe-se em pobres simulações, sem singularidade nem inefabilidade, infundidas de ausência e superficialidade. Não há alegria ou tristeza, beleza ou exuberância na internet. Encontraremos poemas, mas poesia não. Como avaliar as consequências plenas de uma restrição tão drástica da abundante e inesgotável potencialidade humana na desolação e na monotonia dos sistemas digitais? Por toda a parte se evidenciam a loucura e a violência desta dissonância, mas, ao mesmo tempo, turva-a a crença delirante na inevitabilidade de vivermos a vida online, onde inexoravelmente se dissipam as nossas esperanças e energias criativas.» (pág.103)

Uma das críticas mais interessantes e talvez as mais contundentes de Crary é a que elabora relativamente à esquerda radical entre os anos 60 e 80. Exceptuando o caso de Guy Debord que nas suas teses já apontava a destruição do planeta e da Vida perpetrado pelo capitalismo espectacular, é a ausência de uma crítica radical face ao lento, mas sustentado, ocaso da Terra com as perspectivas cada vez mais sombrias das alterações climáticas, do extractivismo e do neocolonialismo baseado na rapina dos recursos naturais em todo o mundo. Enquanto os ecologistas e ambientalistas bradavam contra o que se passava, os intelectuais de esquerda, menosprezavam esses clamores óbvios, realçando os temas que segundo eles estariam na primeira página das lutas empreendidas: o desemprego, o tráfico de armas, as guerras interétnicas, a guerra nuclear ou o terrorismo. O terror do fim do planeta não se encontrava nas suas maiores preocupações. E assim tudo se manteve até aos anos 90. Se ainda vamos conseguir lutar contra o negacionismo entranhado socialmente é a grande questão com que temos de lidar nos próximos tempos, não tão distantes como isso. 

alc

Ilustr[ações]. Apresentação no Liquidâmbar. 14/02/2026

 





Ilustr[ações]

Ilustrações, desenhos, cartoons editados pelo «Jornal Mapa», as revistas «Flauta de Luz» e «A Ideia». Entre 2021 e 2026 fizeram parte de uma sequência onde pontificaram desenhos alusivos à crítica ao capitalismo, ao extrativismo, ao militarismo e à guerra, pelo decrescimento económico e pelo comunitarismo solidário. Por uma verdadeira Vida e uma outra Sociedade, pela Poesia tornada real nos dias que correm. Nestes desenhos não existe neutralidade, escolhe-se um campo-limite, uma zona utópica de liberdade e de construção do comum.

ANTÓNIO LUÍS CATARINO

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Ilustr[ações]

 


14 de Fevereiro de 2026. Exposição | Liquidâmbar

Ilustr[ações]

Ilustrações, desenhos, cartoons editados pelo «Jornal Mapa», as revistas «Flauta de Luz» e «A Ideia». Entre 2021 e 2026 fizeram parte de uma sequência onde pontificaram desenhos alusivos à crítica ao capitalismo, ao extrativismo, ao militarismo e à guerra, pelo decrescimento económico e pelo comunitarismo solidário. Por uma verdadeira Vida e uma outra Sociedade, pela Poesia tornada real nos dias que correm. Nestes desenhos não existe neutralidade, escolhe-se um campo-limite, uma zona utópica de liberdade e de construção do comum.

ANTÓNIO LUÍS CATARINO


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

«Longe da Multidão», Thomas Hardy

Thomas Hardy
Presença, 2015. Tradução de Catarina F. Almeida
Thomas Hardy é um tardo romântico o que, por si só, explica a forma veemente da sua escrita. Não deixa de ser interessante verificar, contudo, que ele foge à simples circunscrição romântica, antes viajando por um realismo que se pressente nas descrições naturalistas, ambientais e psicológicas das personagens. A sociedade inglesa vitoriana é aqui analisada com grande pormenor, principalmente a sociedade rural de que ele era um observador implacável. Nascido em 1840, em Dorset, e trabalhando na arquitectura e restauro de igrejas góticas, (coerentemente romântico, portanto) escreveu «Longe da Multidão» em 1874, a sua terceira novela, criando na personagem de Bathsheba, uma mulher que, enriquecida por testamento de uma quinta, é movida por uma busca de felicidade que lhe é negada por várias circunstâncias, entre as mais importantes, a própria sociedade fechada ao elevador social, à desconfiança e ao poder masculino. Profusamente criticado pelos meios literários dos finais do século XIX que não o viam como um dos seus, visto que as suas personagens eram muitas das vezes movidas pela sombra e pelo calculismo, tiveram, contudo, de se render a essa força narrativa que imprimia aos seus escritos. Os seus romances «Judas, o Obscuro», «Tess d'Ubervilles» e «O Maior de Casterbridge», foram alvo de críticas violentas, embora conquistasse um grande número de leitores. 

«Longe da Multidão», dizia antes, passa-se no meio rural inglês dos finais do século XIX. A reforma agrária liberal do século anterior, tinha devastado a coesão social de pequenos e médios lavradores, dando aos grandes proprietários todas as ferramentas legais para acumularem cada vez mais poder, através da formação das enclosures, cujos lucros vinham sobretudo da criação de ovelhas, dando matéria-prima abundante para a forte indústria têxtil das cidades e com a consequente mão-de-obra excedente das sucessivas expulsões dos camponeses das terras. É neste ambiente que as personagens de «Longe da Multidão» se movem e a paleta que Thomas Hardy nos dá desse ambiente é de cores fortes e impressivas. O casamento é o meio de atingir o fim, ou seja, a riqueza que, até certo ponto, se confunde com a felicidade de cunho claramente romântico, embora o desejo flua livremente para fora desse contrato. Talvez a crítica da sociedade vitoriana, reticente a apoiar os romances de Hardy, resida no facto de apresentar as mulheres como dependentes únicas da sua própria vontade, situação que uma corte literária e política conservadora não poderia pactuar. E lembremo-nos que era a época das primeiras lutas feministas organizadas, embora Thomas Hardy estivesse longe dessas preocupações políticas e sociais. A bem da verdade a mulher aparece, por vezes, como instável, imprudente e dependente, embora pareça ultrapassar, pela prática de vida, tais pressupostos muito marcados por uma misoginia mal escondida do autor. O que nos conquista é o facto, literariamente impressionante, de o autor conseguir, num mesmo período, descrever-nos uma situação e um ambiente, apresentar-nos uma hipótese, desenvolver uma tese e uma conclusão das suas efabulações e, se ainda for oportuno, uma antítese de tudo o que nos deu a pensar.

Grande parte dos livros de Hardy foram passados para o cinema, sendo que talvez o mais importante seja o «Tess» («Tess d'Ubervilles») de Roman Polanski, com Natassja Kinski no papel principal. Conhecendo-o, tive a curiosidade de ver o filme de 2015, «Longe da Multidão», e asseguro-vos que é uma prova evidente que um livro tornado guião de um filme nem sempre tem o melhor resultado. Nada tem a ver com as descrições pormenorizadas da natureza, dos ambientes e das pessoas, nas suas diferentes classes sociais, que nos envolvem como um filme é incapaz de o fazer. Essa intimidade, ouso dizê-lo, só se consegue plenamente através da leitura solitária de um livro. A literatura romântica, seja ela «tardo» ou com laivos realistas, ainda nos prende a um certo tipo de entrega individual que só uma leitura atenta pode oferecer.

alc

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

"Partida", Julian Barnes

 

Quetzal, 2026. Tradução de Salvato Teles de Menezes
É necessário muita coragem para escrever um anunciado último livro. Não é só ser destemido, é ter um enorme respeito pelos leitores, é saber antecipadamente que este não terá a importância de um primeiro, ou mesmo de um segundo e um terceiro livros, talvez estes últimos dos mais decisivos para uma chamada «carreira» literária. Trata-se igualmente de não cair em clichés abundantes nos romances actuais e que Julian Barnes nos avisa, evitando repetições escusadas que podem ter sido usadas em narrativas anteriores ou tornar-se uma espécie de registo cansado, sem a subtileza e inteligência que deu mostras; daí, a coragem de um último livro. Já se escreveu bastante sobre «Partida» que, segundo Julian Barnes, pode ser uma nova chegada. Assim é. Prenuncia-se os temas que estão presentes no livro: a memória e o seu significado a partir da tal madalena embebida no chá de tília de Marcel, de «Em busca do tempo perdido», que nos obriga a desenrolar todo um novelo de memórias da nossa infância e adolescência. Não por acaso. A memória está connosco de um modo autoritário, sem pedir licença, sem que saibamos o seu sentido ou por que umas se transcendem a outras. É o que Barnes chama de MAI, «memória autobiográfica involuntária» que, feliz ou infelizmente, povoa a nossa consciência com múltiplas facetas e imagens. Muitas, já nem sabemos se são verdadeiras, pouco importa, aliás. Com a memória, vive-se no nascimento, na degenerescência e na morte que Barnes nos apresenta com uma elegância e um cuidado britânicas. E os amigos e familiares que faleceram, cujas memórias ainda mantemos vivas em nós, sem que pensássemos se seria assim que queriam que fossem lembrados. Será que Julian Barnes, ao escrever este livro e desenvolvesse todos os pensamentos que o acompanham, não estaria certo que o leitor pudesse circunscrevê-los à sua própria vida? Mesmo com o receio que as ondas de choque e suicídios que teve no século XVIII, por exemplo, o «Werther» de Goethe, se pudessem mimetizar com «A Partida»? Mesmo que isso fosse pouco provável numa sociedade hedonista e pouco dada a essas influências românticas, Barnes não deixa de colocar a possibilidade e isso deixa-nos inquietos; esse desconforto não é bem o da finitude, coisa que estaremos já familiarizados com a idade, mas sim com aquilo que deixamos aos que ficam e quase com algum alívio o vemos «partir» numa fase terminal de cancro e com a descrição dolorosa como o faz. O mundo que resta não será o melhor de todos para dizer o mínimo dos mínimos; é, antes, um amontoado de ódios, de desprezo pelo que ainda há de democracia e de liberdade, de uma aposta na guerra e no genocídio, de um inverno nuclear ou da destruição do que ainda resta de altruísmo pelo egoísmo. Um presente já apocalíptico, «à beira de um penhasco». De qualquer modo, Julian Barnes despede-se com a elegância já referida: 
«É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto. Apenas me são disponibilizados pequenos consolos. A sorte do tempo de vida (em grande parte, pacífico, com muitas e maiores liberdades do que gerações anteriores), a a sorte da minha vida (livre da pobreza, não mutilada pela religião, em grande parte feliz, sempre interessante - pelo menos para mim - e na segunda metade profissionalmente bem-sucedida).» (pág.183). Como ele nos diz: «sentirei a vossa falta».
Lido, com a entrega que exige, não nos deixa outra opção senão lembrá-lo vivamente. 

alc